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terça-feira, 8 de novembro de 2022

JOVENS! CULPADOS OU INOCENTES?


 Às vezes eu chego a pensar que morri e estou em outro mundo. Parece até que o mundo que me viu nascer não existe mais. Tudo que antes era proibido ou pecado hoje em dia é coisa normal. Mentir, roubar, falar palavrão, faltar com o respeito com os mais velhos ou com os pais era falta grave dentro de uma família. Uma criança ao se sentar tinha que ter postura, colocar os pés sobre as traves de uma cadeira fazia merecer uns tapas. Se chegasse uma visita, o silêncio das crianças era total. Tomar a bênção dos pais, dos mais velhos e do padre era um dever. Nas escolas a falta de respeito com a professora era falta grave e isso cominava em expulsão, ficando o aluno impedido de se matricular em outra escola. Do jeito que vão indo as coisas, daqui a pouco matar não será crime.

 Hoje em dia, parece que tudo isso era um atraso de vida.  O que já vi e tenho visto chega a me assustar de ver tanta indisciplina. Não se trata de condenar as novas gerações, afinal elas não têm culpa. Afinal, sabemos que vivemos sobre uma lei de causa e efeito. Portanto, não existe efeito sem causa e nem causa sem efeito. E quais são essas causas?

 Recentemente um grande político brasileiro disse que sua mãe lhe dizia que a mentira é necessária, porque ela voa enquanto a verdade engatinha. Um conservador como eu, quase morre de susto diante de uma coisa dessas.

 Não é difícil observar que a televisão trouxe uma grande mudança para a nossa sociedade a partir da década de 60 quando se espalhou pelo Brasil afora,  trazendo consigo a grande parte dos pecados capitais. O convívio das pessoas humildes com o poder persuasivo da televisão; os maus exemplos dados pelas novelas.   De outra forma a integração da mulher no trabalho fora do domestico  sem um preparo devido para isso, deixando os filhos nas mãos de pessoas despreparadas. E agora para completar a internet, ao alcance de todos. Em  suma podemos dizer que as novas gerações vem sendo vitimas do despreparo  do seu meio.

 No passado, por exemplo, roubar era uma das piores expressões. Um ladrão não era condenado apenas pela justiça, mas sim pela sociedade. Lembro-me de um sacristão chamado Onofre, era o xodó do Monsenhor Castro. Ele tinha por profissão pintor de paredes. Certa feita, numa construção de primeira linha em Candeias, vieram pintores de Campo Belo. Nesse meio tempo foram roubadas algumas latas de tinta naquela construção, que investigado descobriu-se que o roubo teria sido feito pelo Onofre sacristão. Foi um escândalo total na cidade.  E o Monsenhor Castro que era um homem rico, pagou os prejuízos para o Onofre e lhe deu o conselho para se mudar de Candeias, porque ali ele não iria conseguir mais nada. Onofre nunca mais foi visto em Candeias. Sumiu de vez.

 No quintal de nossa casa havia uma grande parreira a qual o meu pai cuidava muito bem, o que proporcionava uma boa colheita de uvas, quando na safra tínhamos fartura da fruta que dava para agradar a vizinhança. Certo dia, a Aparecida do Zé do Leonides, esposa do Carminho Machado esteve conosco e viu as uvas, minha mãe colheu alguns cachos e lhe deu de presente. Alguns minutos depois, a Marly, sua irmã estava a perguntar a minha mãe se ela realmente teria dado aqueles cachos de uva para a sua irmã. Seu pai mandara conferir.

 No ano de 1955, minha professora era Dona Ninita Alvarenga, que teria se transferido para a cidade de Divinópolis dada a transferência de seu Marido, Sr. Edson, chefe da Agência do IBGE em Candeias, antes do Sr. Miguel Albanês. Posteriormente Dona Ninita esteve a Candeias e levou de presente para os seus ex alunos, um lápis moderno que tinha anexado na ponta superior uma borracha. --- Quando apareci com esse lápis, meu pai quis saber a origem e foi até a escola conferir se aquilo teria sido mesmo um presente da professora.

de de São Sebastião do Paraíso, num bar de um conterrâneo, o Lelei, irmão do Carmelio Carvalho. Era a primeira vez que eu saia de casa. Na despedida de meus familiares, minha mãe chorando e meus irmãos tristes, meu pai se aproximou de mim e disse: “Escuta aqui meu filho, seja honesto, não ponha a mão no que não for seu. Eu prefiro que você volte morto para casa, do que com o nome de ladrão. Respeite o seu patrão e a família dele. Que Deus o abençoe.

 Dizem que a oportunidade faz o ladrão. Eu tive muitas oportunidades na minha vida para roubar, mas não roubei. --- Machado de Assis, contrariava esse rifão, e dizia que a ocasião faz o furto, porque o ladrão já nasce pronto, ---- por mim eu não sei se o ladrão nasce pronto ou se é a ocasião faz o ladrão. Sei dizer que o eco das palavras do meu pai, naquele momento nunca fugiram dos meus ouvidos.

 Armando Melo de Castro.

 

 

 

 

 

 

sábado, 5 de novembro de 2022

MORTOS QUE VOLTARAM.


                                                       Erasmo Carlos

Semana passada a mídia informava a morte do cantor Erasmo Carlos. Naquele momento eu fiquei muito chateado porque eu sempre fui fã desse cantor, vivi e convivi com a era da Jovem Guarda, da qual Erasmo era um dos principais junto de Roberto Carlos. Mas ainda chocado com a notícia, vim a saber que se tratava de uma notícia falsa da Folha de São Paulo, que pedia desculpas aos seus leitores e desmentia a notícia. ---  Fiquei feliz ao saber que o cantor estava bem, ainda internado, mas que já era prevista a sua alta.

 Esse equívoco sobre Erasmo Carlos trouxe a boiar no lago da minha imaginação, um fato que aconteceu comigo no ano de 1994 quando eu morava e trabalhava como gerente do Banco do Estado de Minas Gerais na cidade de Luz. Eu apesar de católico, resolvi fundar naquela cidade um Centro Espírita. ---- Por ser a cidade sede de um bispado, o povo da cidade tinha esse desejo, mas não tinha a coragem por receio da resistência  dos padres.  

 Eu entendo o espiritismo como religião, ciência e filosofia. --- A minha profissão me imponha contato com todos os seguimentos da sociedade, portanto eu tinha como clientes, adeptos e pastores de todas as religiões, o que me levou a respeitar todas as religiões. Isso porque toda visita que fazia a uma igreja diferente, lá estava Jesus Cristo, e eu como cristão entendi por ser um católico na minha essência, sem impedimento para me considerar um ecumênico.

 Eu passava por um momento muito difícil de minha vida, e teria encontrado no espiritismo uma fonte de conforto para a minha sobrevivência. Assim estudei profundamente o Kardecismo e resolvi fundar um centro espírita na cidade de Luz, o qual está lá até hoje e funcionando dentro de suas normas rígidas, prestando um excelente serviço as pessoas carentes dentro do sentido humano. Trata-se da Confraria Espírita Allan Kardec, hoje com sede própria e seu espaço ampliado.

 O Espiritismo exerce uma religião sem culto externo, sem sacerdócio organizado, sem cerimônias de qualquer natureza, sem intermediários entre a criatura e o Criador, podendo ser considerada como uma religião cósmica

 Neste mesmo tempo eu era também, envolvido com o rádio amador e sua história. Eu tinha a minha aparelhagem, o meu prefixo e conversava com os chamados amigos macanudos, a quem envio aqui agora um 73 bem apertado. Pois já teria decorado as gírias do radioamadorismo.

 Na cidade de Luz havia um radio técnico bastante entendido em radio transmissor. E  ele que me acudia nos problemas que apareciam na minha estação. E com isso firmou entre nós uma grande amizade. Mas o tempo, como já disse, tratou-se de fragilizar o radioamadorismo, além dos problemas que isso causava aos vizinhos, pois as conversas entravam nos rádios e televisões da vizinhança, e quase entrava também nos fogões, pois o sinal era bem forte, pois conseguia-se comunicar até no exterior.

 Posteriormente fui transferido da cidade de Luz, e num determinado dia fiquei sabendo que o meu grande amigo Zé do Heitor teria falecido, já há mais de um mês. Fiquei deverás triste com essa notícia, e na minha primeira ida a Luz, na chegada da noite, corri até a casa do meu amigo, para dar os pêsames a sua esposa e lamentar a sua morte. A casa dele fica próximo do cemitério. Cheguei bati na porta e ouvi lá de dentro já vou... Espera um pouco... Aquela voz parecia ser a dele, do meu amigo. Demorou um pouco e nada, bati de novo e a voz torna a responder já vou espera um pouco...  Apesar de ser médio lá no centro, comecei a imaginar que o Zé estava se comunicando comigo. E estava tão envolvido com a doutrina que já comecei a conversar com ele lá de fora como se ele fosse um espírito.

 Demorou algum tempo, ele veio e abriu a porta e eu assustado, parecia que o meu cabelo havia crescido até aos pés. E lhe disse? Uai Zé você não morreu? Ele deu aquele seu sorriso sorrateiro e como sempre engraçado disse:

 “Murri, mais São Pedro me mandou ir para o inferno, o capeta não me aceitou lá e me mandou de vorta aqui pra terra” Ceis vai tê qui me aguentá mais muncado”.

Cê discurpa a demora é que eu tava dando uma cagadinha.

Ai então fiquei tranquilo. Afinal, espírito não caga.

 Armando Melo de Castro

terça-feira, 1 de novembro de 2022

CANDEIAS, E MINHAS LEMBRANÇAS.

O mais antigo hotel de que temos notícia em Candeias é o Hotel do Bitu. --- Esse hotel foi então vendido para a Sra. Geny Resende, esposa do Sr. Manoel Alves, delegado de Polícia. --- O hotel foi remodelado, tinha uma placa luminosa com os dizeres: NOVO HOTEL, de Geny Resende. --- Ele durou muitos anos. Com a morte da Sra. Geny, o hotel continuou administrado pelo marido, Manoel Alves, que posteriormente veio a se casar com a Sra. Vilça Freire. ---

Com a morte do Sr. Manoel, o hotel foi adquirido por uma de suas hospedes antigas que fazia do hotel a sua morada, a Sra. Nely Furtado que dali se transferiu para a sua nova hospedaria próximo da Igreja do Senhor Bom Jesus. --- O local onde era instalado o antigo NOVO HOTEL, foi demolido e ali hoje se encontra a CASA MODERNA MÓVEIS, e na antiga Residência do Sr. Manoel Alves, hoje se encontra a LOJA ZEMA.

Esse local onde se encontrava o antigo Novo Hotel me traz guardado o maior susto que levei em toda a minha juventude quando eu contava 24 anos de idade, no ano de 1970. Eu já residia na cidade de São Paulo, desde 1965. E trabalhava em três empregos. Das 7 da manhã até as 10,30 hs. Com um velho português, que liquidava uma imobiliária. O meu trabalho era de datilógrafo. – Das 12 até as 6 hs eu era continuo do Banco Mineiro da Produção, (posteriormente Bemge onde me aposentei) e das 19 até as 22, de faxineiro, numa Agência do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, onde o meu amigo Titoco era contínuo e arrumou para mim esse emprego de faxineiro. ---- Toda essa luta tinha um objetivo, de realizar um sonho. Comprar um carro e consegui. Comprei um carro com 9 anos de uso da marca Simca Chambord, ano 1961.

Viria agora o primeiro problema. Eu não tinha carteira de motorista. Mas não tinha, juízo também. Pois rodava dentro da capital paulista para todo lado naquele carro e sem carteira. Certa vez, naquele espaço frente ao Campo do Pacaembu, tarde da noite, o carro deu um problema, e eu e mais três colegas ali, pelejando para fazer o carro pegar e não pegava, chega a polícia Civil. A sorte é que o Elias filho da Dona Floripes, ele era tenente da Policia de São Paulo, estava junto e conversou com os homens, liberando-lhes a vasculhar o carro para ver se havia alguma coisa de errado, sendo que eles não pediram documentos e ainda nos ajudou a fazer o carro pegar. Foi um aperto aliviado. Coisa de jovens.

Eu imagino que nem Ayrton Senna, nem Emerson Fitipaldi, nem Nelson Piquet puderam ser tão felizes, dirigindo um carro da formula 1, como eu com a minha velha Simca Chambord 61. Quando eu vinha a Candeias, a Fernão Dias, de uma pista só, cheia de buracos e curvas, para mim era como um tapete vermelho. Eu nunca viajava sozinho, sempre vinha comigo um amigo que participava do custo da gasolina. Afinal, o carro bebia bastante e a viagem era longa. --- Eu não tinha carteira até então – Mas na saída eu pedia ao meu Santo Antônio uma ajuda espiritual e nunca me foi negada. Hoje eu vejo que os colegas que viajavam comigo eram mais aventureiros do que eu.

Meu pai me deu uma bronca por não ter carteira e dando direito aos guardas de prenderem o carro e surgir uma série de problemas. Dai eu passei a deixar o carro em Candeias e viajar de ônibus. Mas quando eu chegava a Candeias, eu rodava Cristais, Campo Belo, Camacho Itapecerica e Formiga. O João Cambota teria me dado umas aulas. Dizia que ao ver um guarda, desse uma paradinha e pedisse uma informação e acendesse um cigarro. E parece que isso dava certo, porque nem ele e nem eu, jamais fomos abordados. Mas posteriormente tirei a carteira no bairro do Cambuci em São Paulo no dia 10 de maio de 1971.

Certo dia, eu descia a Avenida 17 de dezembro, em Candeias todo metido, todo gostosão, parecendo ser o Ayrton Senna de Candeias, quando vou passando frente ao NOVO HOTEL, o Sr. Manoel Alves, que tinha os óculos fundo de garrafa, havia comprado um fusquinha, zerinho, vermelho, e estava ainda até com aqueles sinais de novo nas poltronas, Ele não tinha carteira, não sabia dirigir direito além de ter problema de vista. O carro dele que estava de frente para o Alto do Cruzeiro, ele entra no carro dá uma guinada de 90º e atravessa de cheio à minha frente. A frente do meu carro toda amassada e o dele, zerinho, com a porta do motorista toda amassada e a coluna entortada. --- Naquele momento eu pensei que havia lhe matado. Mas felizmente ele saiu lá de dentro cambaleando, assustando, mas inteiro.

Final da história. Ele estava completamente errado. Mas era o delegado, foi feita uma perícia e nomeado o então sub delegado Geraldo da Vargem e os peritos dois motoristas profissionais: Raimundo do Antero e Henrique Pinheiro. --- A sentença do Juiz não me favoreceu. Pois alegara que não teria havido vítimas, então que cada um consertasse o seu. ---- Eu continuei a rodar no meu, mesmo com a frente amassada, até que achei um comprador para quem o vendi a suaves prestações, pela metade do preço. --- Quanto ao Manoel eu nunca mais o vi dirigindo um carro. ---- Mas o que foi bom, é que não ficamos inimigos, fomos sempre bons amigos.

Comecei tudo de novo. E comprei o meu segundo carro, um chevrolet 51 igual ao do Monsenhor Castro. Era 10 anos mais velho do que a minha velha Simca, que eu amava tanto.

É tão bom ser jovem. É tão bom lembrar até dos transtornos da vida em Candeias, minha terra querida.

Armando Melo de Castro

 


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O MEU AMIGO ZÉ PORTELA.

                                                                     José Santos Portela

Recebi, agora há pouco, por intermédio do meu amigo Wander Sena, uma notícia que me deixou sentido. Trata-se do falecimento, nesta data, de um amigo; de um grande amigo:

JOSÉ SANTOS PORTELA.

Fomos amigos no nosso tempo em Candeias e depois, num outro tempo em Divinópolis.

Zé Portela, como era mais conhecido, era natural de Bambui, MG e chegou a Candeias levado pelo médico Dr. Pery Malheiro Simões, o médico que cuidava do surto da lepra no nosso município.

Posteriormente, esse serviço foi transferido para Divinópolis o que o levou para aquela cidade. Lá eu acompanhei o seu trabalho, digno do maior respeito.

 Zé Portela lidava com os leprosos de forma natural, uma doença tão cheia de cuidados e preconceitos, coisa que Zé Portela deixava passar longe de si. Um ser humano maravilhoso. Posteriormente, tendo sido encerrado esse tipo de trabalho, ele foi transferido para a Receita Federal.

Zé Portela morou muitos anos em Candeias onde era muito estimado pelos Candeenses. Foi vereador e Presidente da Câmara Municipal, num tempo em que Vereador não tinha salário. Homem inteligente e que prestou relevantes serviços ao nosso município.

Casou-se com Dona Celinha, filha do Sr. João Eleutério, irmã da Dona Zélia Eleutério e de Enir Parreira.

Por mais de uma vez eu fiz contato com ele, pois queria colocar aqui no nosso Blog a sua biografia e o Candeense por adoção que Candeias havia ganhado. Mas talvez, pela sua humildade não tivemos esta oportunidade.

Esta nota que eu faço, é para que seja lembrado pelos nossos conterrâneos que o conheceu como um grande amigo que participou da nossa história. Aos familiares fica aqui o meu abraço e o meu sentimento.

 E a você meu caro Portela, eu tenho a certeza de que você vai estar bem junto de Deus porque o seu trabalho aqui na terra terá sido por uma boa escolha do Pai Celestial. Aqui vai o meu abraço.  Não de despedida, porque pessoas como você a gente não se despede, porque elas continuam vivas dentro de nós quando os respeitamos e admiramos.

 Armando Melo de Castro.

 

 

 

 

AO AMIGO DIVINO MACHADO.

                                                                   Sidneia Alvarenga
 

 A morte de um filho só pode ser avaliada pelos pais que perderam um filho. É uma dor sem nome; é um sofrimento tão grande que jamais alguém o desejaria para o seu maior inimigo. Eu não acredito que possa existir um sofrimento maior. É natural o sentimento pela morte dos pais. Afinal, os filhos são, desde criança, preparados para enterrar os seus pais. Mas os pais nunca estarão preparados para enterrar um filho.

O falecimento de sua filha, nossa tão querida amiga Sidneya, meu caro Divino, deixou-me sem palavras no momento em que essa notícia chegou a mim. Conheço bem esse momento de vida que você passa porque já passei por ele meu amigo. Momento em que nos leva a pensar que nada na vida paga a pena. Parece que o céu escurece e que o sol não voltará. Sentimo-nos subtraídos, infelizes, e a cabeça parece que não pensa mais nada de bom, porque naquele momento tudo se transforma.

Eu perdi uma filha aos 30 anos de idade nessas mesmas circunstâncias meu caro Divino. E sei o quanto é difícil. Mas Deus não nos abandona, mais cedo ou mais tarde Ele lhe enviará o consolo, mas a saudade fica, esta será eterna para o seu coração. Enterrar um filho é o mesmo que enterrar um pedaço de si. Parece até que nunca mais teremos a mesma alegria, é como se fosse um fim. Mas o conforto de Deus vem nos encontrar. Mais cedo ou mais tarde.

De uma forma ou de outra, você é feliz pela filha que você teve. Mas os desígnios de Deus são insondáveis. Você vai demorar algum tempo a entender isso. O conforto dos amigos; as suas orações; as palavras de ânimo, nada disso entrará aos seus ouvidos neste momento. Só o tempo poderá ajudar você meu amigo. Portanto, tenha essa esperança, dando tempo ao tempo.

Receba o meu abraço e que Deus o abençoe.

 Armando Melo de Castro.

sábado, 10 de setembro de 2022

UM PASSEIO AO PASSADO.


                                                    Segundo ano primário Escola Estadual Padre Américo.

Para quem gosta de criança esta foto será realmente maravilhosa. E quem for uma delas, com certeza, irá se sentir muito feliz por esse momento tão significativo de sua vida. Eu daqui, vou ficar imaginando como será o pensamento de cada um, ao se deparar com esse minutinho de suas vidas guardado no coração de cada um.

Um grupo de crianças ainda no verdor dos anos, podemos entender que é o retrato da felicidade. Isso porque podemos ver e sentir que a criança não conhece bem a tristeza; não tem ganancia e nem maldade. A criança ainda não sofre a dor da saudade. A criança aprende a amar sendo amada.

Esta linda foto me foi fornecida pela minha prima Marília Sidney de Castro. Trata-se de um registro da sua turma do segundo ano primário, cuja professora era Maria das Graças de Castro, a Mariinha de Dona mariquita.

Marilia está na ponta direita da foto,  --- Interessante é que ela, mais tarde viria a ser a diretora dessa Escola.

Eu não conheço todas essas crianças, mas posso entender que o olhar da infância é um olhar sem pecado. Você que participa desse grupo, ao ver essa foto, vai voltar no prefácio da história da sua vida. E naturalmente vai sentir saudade, coisa que naquele tempo você ainda não sentia. Você vai adorar esse minutinho tão significativo guardado por tanto tempo para a alegria do brilho dos seus olhos.

Gostaria que cada participante que se identificar como presente neste documento tão interessante, deixe aqui um pequeno comentário para atender aqueles, que gostariam de reencontrar com os antigos colegas; se inteirar de onde estão; trocando informações, buscando notícias, inclusive da professora, no sentido de um reencontro, hoje tão fácil através da internet. Essa pequena iniciativa, vai, com certeza, se identificar com o objetivo de nosso Grupo Sô das Candeias como muito orgulho. --- Afinal, entre tantos colegas, evidentemente houve uma dispersão por ordem natural da vida.

Lembrando aqui a canção do Cantor Francisco Alves, onde se via o coral de Crianças cantando a canção da criança:

“Criança Feliz, Feliz a cantar, alegre a embalar um sonho infantil.! Oh meu Bom Jesus, que a todos conduz olhai as crianças do nosso Brasil”.


Um abraço a todos.

 

Armando Melo de Castro.

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

AS MULHERES.

                                                                             Celina Guimarães Viana

 Recentemente numa viagem que fiz a Belo Horizonte, tomei aqui próximo de minha residência um taxi para me conduzir até a rodoviária. E o condutor do taxi era uma mulher muito simpática e atenciosa. ---- Chegando a rodoviária, ao tomar o ônibus, defrontei-me novamente com uma mulher motorista daquele ônibus. -------

 Uma mulher miúda e sorridente. Diante da baixa estatura  daquela motorista, inspirei-me a lhe dizer: “Minha vida está em suas mãos, cuide bem dela” E ela gentilmente com um sorriso espontâneo me disse: “O senhor pode ficar tranquilo porque as minhas mãos estarão nas mãos de Deus”. Observei durante a viagem tratar-se de uma excelente motorista, tranquila e com gosto pela profissão.

 Eu tenho observado que a mulher, felizmente, pouco a pouco vem tomando o seu lugar na sociedade, fazendo sumir dos ouvidos o antigo termo de que a mulher é o sexo frágil. Se observarmos podemos ver que existem muito mais viúvas do que viúvos. E a mulher de frágil não tem absolutamente nada. Entendo que o homem pode até ser fisicamente mais forte, mas nos demais termos a mulher é bem mais resistente.

 No passado eu me recordo o quanto a vida das mulheres era difícil. Elas se levantavam cedo e já começavam com a luta pela vida. Fazer o café... O café era torrado e moído em casa; lavar roupa, cuidar dos filhos, arrumar a casa etc. Isso era uma rotina diária. Fazer as refeições diárias não era tão fácil como nos dias atuais.

 Não existiam geladeiras, e nem fogões a gás e as donas de casa tinham que fazer almoço e janta. Até hoje existem homens criados neste esquema, que não se acostumaram a jantar com comida requentada. – E a esposa tem que arcar com a labuta de fazer almoço e janta. As casas, nem todas, tinham água corrente, muitas tinham que ir para os córregos lavar as roupas de suas família, e muitas dessas donas de casa ainda lavavam roupa para fora. ---

 Meu Deus! Como era difícil a vida de uma dona de casa. Elas não tinham sábado, domingo e nem feriado. Muitas trabalhavam doentes. O dinheiro nesse tempo era raro principalmente nas pequenas cidades como a nossa Candeias, num tempo em que as famílias não tinham controle de natalidade. E como diziam, era um no bucho e outro no saco. --- Saia um entrava outro. --- Quantas mães morriam durante o parto sem ter a gloria de criar o seu filho... Principalmente nas roças. ---- Quando se via uma mulher grávida, era como se visse alguém sob o jugo da morte. Um exemplo, foi a Sra. Mãe do nosso querido Monsenhor Castro, que não conheceu a sua mãe, que teria falecido 20 dias após o seu nascimento com complicações com o parto. O Monsenhor foi criado pelos seus avós maternos.

 E quantas não tinham que ainda tolerar os maridos que muitas das vezes bebiam e pioravam a vida dessas mulheres ainda mais. --- Por mais abastada que fosse a família, a vida da mulher era difícil. Seria difícil relatar tudo aqui neste pequeno texto, porque ainda tinham que enfrentar o machismo de certos maridos, que além disso não tinham a responsabilidade com a manutenção da casa, deixando faltar alimentos, levando essas senhoras a buscar recursos na lavação de roupas e na costura.

 Hoje, as coisas ficaram muito mais fácil. O feijão é fácil de ser escolhido porque praticamente não existem pedras como antigamente.  Um par de cuias era a ferramenta das mulheres para lavar o arroz e apurar as pedras. Lembro-me de minha querida mãe, cantando e lavando arroz para o almoço e quando às vezes ouvi ela dizer: “Nossa esse arroz é a pura pedra. Hoje, o arroz nem precisa ser lavado e pedra no arroz é coisa do passado. ---

 A mulher de hoje, principalmente as filhas de famílias de pouca renda, não faz ideia como foi a vida de suas avós. Ainda falta muito para a mulher ser verdadeiramente reconhecida. Mas estamos chegando lá. Hoje a mulher está integrada com mais força na sociedade, apesar de ainda estar faltando muito para assumir o seu verdadeiro lugar. Mas não podemos negar que elas estão vencendo a batalha da igualdade. Afinal, a nossa população de 216 milhões de brasileiros, 52% é de mulheres e 48% são dos homens. Isso quer dizer que existem mais mulheres  e em bom número, do que homens. E hoje já estamos vendo as mulheres em todos os seguimentos da sociedade, inclusive se despontando na politica.

 Uma mulher que não pode nunca ser esquecida, principalmente pelas mulheres, é o da professora  CELINA GUIMARÃES VIANA que faz parte da história brasileira como a primeira eleitora mulher registrada a votar no nosso país. --- Celina não foi a primeira eleitora por acaso. ---- Ela lutou muito por isso como ativista. Ela foi uma mulher que voou, navegou e caminhou no seu tempo. Foi protagonista em seu trabalho de professora no Estado, no Rio Grande do Norte. Naquele tempo os estados tinham autonomia na legislação eleitoral e a Constituição do Brasil, não proibia as mulheres de fazer o uso do voto. E o Rio Grande do Norte foi o primeiro estado a se organizar sobre o primeiro voto da mulher cujo registro data de 25 de novembro de 1927.

 Celina Guimarães Viana, era potiguar, nasceu em Natal Rio Grande do Norte, em 15 de novembro 1890. Casou-se em 1911 com Eliseu Oliveira Viana, com quem viveu por toda a vida.

 Faleceu em Belo Horizonte, em 11 de julho de 1972. Um exemplo para a mulher brasileira que vem lutando pelo seu espaço.

 Armando Melo de Castro.

 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

UMA CAUSA POR DOIS LITROS DE LEITE.


 Reclamar é um direito sem dúvida, e pode ser também até uma necessidade. Mas entendo que uma reclamação tem que ser fundamentada. Reclamar de tudo e de todos mostra ser, a meu ver, uma pessoa pedante e pouco esclarecida.

Uma reclamação merece, portanto, uma causa justa e dirigida ao verdadeiro responsável pela causa. Mas a grande parte das pessoas vivem reclamando de tudo e para quem não tem nada a ver com a causa.

Uma reclamação deve antes ser estudada, pensada e fundamentada. Mas infelizmente tem gente que sai reclamando a torto e a direita. – Reclamam do espinho da roseira, mas não se lembram que o espinho traz a rosa. Não sabem que na vida todo custo traz algum benefício.

Reclama dos preços, para o dono do armazém. Não se lembra por exemplo que aquele ali está é um intermediário, ele vende o que comprou pois não foi ele que plantou ou colheu o feijão que você diz que está muito caro. Aquele que plantou também teve por força  da realidade ter tido os seus custos majorados.

Reclama do preço dos remédios como se o dono da farmácia fosse o dono do laboratório que produz o remédio. Enfim: está reclamando na hora errada e para a pessoa errada. Com certeza aquele que vai enfrentar o consumidor, vive procurando ganhar mais na compra do que na venda. Isso porque o seu fornecedor sendo um para cada produto, o consumidor são vários para cada um.

Eu como os candeenses da minha era, fomos criados comendo esse tipo de produto plantados em nossos quintais e na nossa zona rural.  --- O leite, por exemplo, era trazido pelo leiteiro à nossa porta. Durante anos eu vi o grito do leiteiro à porta de nossa casa em Candeias: “Ó O LEITE!”

 Aqui próximo de minha residência, no parque Halfeld, em Juiz de Fora, tem uma feirinha aos domingos organizada por pequenos sitiantes daqui da região. Ali encontramos ovos caipira, verduras sem agrotóxicos, frango caipira já arrumado, queijo, mel de abelha, enfim, aquilo que se produz num sítio. Não são fazendeiros, são produtores limitados em pequenos pedaços de terra. --- Muitos nem dormem às vésperas desta feira preparando os seus produtos, por morarem em cidades próximas.

Eu não consigo me acostumar com o leite de caixinha, nem ovos e frangos de granja. Sabendo que nesta feira aqui bem próximo tem uma barraca de duas irmãs sitiantes, onde vendem o seu leite produzido por apenas uma vaca. Leite com o qual fazem doces de leite e alguns litros para a feira. Todas as manhãs de quinta feira eu estou lá para apanhar o meu leite. Caso eu não apareça, elas já o deixa reservado para mim quando me atraso em chegar lá. Se não vou aparecer aviso isso para elas.

São pessoas, humildes e pobres que vivem do seu trabalho no pequeno sítio do qual tiram a sua sobrevivência. E eu sempre brinco com elas perguntando se eu encontrar um lambarí no fundo da garrafa, o que é? E elas sorridente me respondem é um brinde para o senhor que é um bom freguês nosso.

Ontem quando lá estive chegou junto comigo chegou uma senhora, do tipo reclamador de tudo e de todos. – Pegou os seus dois litros de leite, normalmente vendidos em garrafas aproveitadas de refrigerantes e ao dar o preço, $ 12,00 – O preço teria sido alterado de $ 10,00 para $ 12,00 = A velha berrou em termos agressivos. Isso é um absurdo, passar o leite para 6 contos o litro. E não duvido que esse leite de vocês tem água... Essa feira aqui está uma verdadeira ladroagem. Falou, falou e ainda bordou. E olhando para mim disse: E o senhor vai pagar calado?

Eu olhei para ela e lhe disse: Minha senhora, eu não pretendia entrar nessa conversa. Mas já que a senhora me dirigiu essa pergunta cabe-me responde-la:--- Eu não penso como a senhora. Um litro de leite de caixinha, de qualidade inferior ao leite dessas senhoras, está custando mais caro  e não tem a mesma qualidade. Se a senhora ver como estão as pastagens, atualmente, o gado para sobreviver estão sendo tratados à base de ração. E ração é cara. E além disse o trabalho que essas senhoras têm para fazer chegar às nossas mãos esses dois litros de leite por apenas $ 12,00 Reais... --- Quando eu falei assim, ela virou as costas e me disse alto e em bom som: o senhor deve ser muito rico né?

E eu respondi: e o que essas senhoras tem com a sua pobreza?

Olhei para a senhora que me serviu o leite e ela estava chorando, eu tive que acalenta-la.

A palavra, às vezes, fere mais do que uma faca!

Armando Melo de Castro.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

UM EXAME DE URINA.


 --De seis em seis meses eu tenho o hábito de fazer uma bateria de exames de laboratório sem ir ao médico, para que eu mesmo faça o acompanhamento para saber se tem algum bicho me comendo, e felizmente tenho dado a sorte de que tudo vem estado normal. --- Aliás essa coisa de fazer exames de laboratório quando cai no hábito de um hipocondríaco parece que vira um vício. Não é bem o meu caso, penso eu, mas se um exame der resultado diferente do anterior, eu quero logo fazer o exame de novo ou em outro laboratório.

--Eu tive um colega de Banco em São Paulo, o Orlando, que fazia constantemente esses exames, e quando dava um resultado normal ele quase sentia um orgasmo, mas quando dava uma diferença qualquer  em comparação ao exame anterior ele corria para o médico. --- Certa vez ele fez 4 exames de PSA dentro de um mês. E em cada laboratório ele obtinha um resultado diferente. Isso o incomodava muito, até que um dia ele tomou posição.

-- Acontece que ele tomava uma cervejinha e pensava que isso não ia alterar os exames; andava de bicicleta sem saber que isso também prejudicava o resultado. Tomava o comprimidinho de cibalena e não imaginava que esse medicamento, então corriqueiro, poderia alterar o resultado dos exames. Ele apenas diminuía, mas achava que um simples copo de cerveja não iria nunca colaborar para um efeito negativo pois já teria o mijado no dia anterior.

-- A única coisa que Orlando, cumpria rigorosamente era as trepadinhas, isso porque também já não era muito chegado. Coitado,  a mulher dele era daquele tipo bruaca. E ele mesmo dizia que com mulher ele vivia roendo o ruído.

 --Eu conheci a esposa do Orlando numa visita que lhe fiz na sua residência em Guarulhos  na grande São Paulo. Conclui que se fosse feito um concurso  para a mulher mais feia de Guarulhos, ela poderia não ganhar em primeiro lugar, mas em segundo eu apostaria. Ela não possuía absolutamente nada que pudesse atrair um olhar masculino.

--Mas voltando ao laboratório. A última vez que estive num laboratório para os exames de rotina, aconteceu um fato engraçado. Era um laboratório recém fundado, o pai do dono era meu amigo e eu resolvi experimenta-lo para comparar com os exames anteriores feitos no então laboratório de meu costume.

Na espera de atendimento havia uma senhora do padrão da esposa do Orlando. Se fosse feito na cidade de Divinópolis um concurso para escolher a mulher mais feia, ela ganharia não em segundo lugar, mas em primeiro. Eu apostaria.  Dava para pensar que ela estava ali aguardando um exame para dotes físicos.

Apresentou-se ao atendente com um vidro improprio para colheita de urina. Dava para supor um meio litro de urina. --- O jovem que a atendia, perguntou-lhe o horário em que aquele material teria sido colhido. E ela então respondeu que fora na noite anterior  lá na roça. Fizeram as contas e a urina já teria sido colhida há 12 horas. No que o atendente disse que aquele material já estaria sendo impróprio para o exame. --- Diante do clamor daquela senhora porque teria que voltar ao médico para levar o exame, o atendente disse-lhe que ela poderia colher ali no laboratório o material necessário, e para isso lhe forneceu um pequeno recipiente próprio para tal e indicou-lhe a cabine feminina. ---- Acontece que a cabine onde teria sido apropriada para isso, dividida em duas, uma para senhoras e outra para homens, ficava muito próximo daquela sala de espera.

Aquela senhora então, entra para aquele cubículo extremamente acanhado e não saia de lá. A sala de espera lotada de clientes aguardando para serem atendidos, inclusive alguém esperava a liberação do cubículo, quando na maior altura ouvirmos o som estridente de um peido. Daqueles tipo metralhadora quando solta uma saraivada de balas.

De repente a porta daquela pequena cabine se abre, e aquela senhora sai, com a cara de quem estava voltando do inferno, colocou o vidrinho vazio sobre o balcão, e saiu resmungando e a gente ouviu quando ela saiu pela escada dizendo: “ Prifiiro morrê imlubrigada do vorta aqui nessa merda”.

As pessoas gostam do mal feito! Quem não riu teve vontade!

Armando Melo de Castro.

 

 

 

 


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

OS VIZINHOS.


 
Por força da minha profissão de bancário eu vivi durante 35 anos, uma vida nômade de cidade em cidade. Às vezes quando começava a me acostumar numa cidade, era chegada a hora de ser transferido. Nessas andanças eu conheci muitas pessoas, fiz muitos amigos, tive alegrias e tristezas cujas lembranças hoje passeiam pelo meu cérebro.

 Hoje, eu tirei o dia para me lembrar de dois vizinhos que eu tive no momento em que residi na cidade de Governador Valadares. O edifício onde eu morava tinha dez pavimentos e em cada um desses dois apartamentos; e o andar térreo onde era estabelecida a Agência do Banco em que eu trabalhava, Banco do Estado de Minas Gerais S.A.

Eu residia no decimo andar no apartamento 1001 de propriedade do Banco, disponível para a locação do gerente da Agência. E no 1002 residiam dois rapazes, Rodrigo e Armando. No principio eu imaginei que aqueles dois jovens fossem irmãos, mas assim que o meu xará Armando me foi apresentado, eu já fui vendo que se tratava de um morador de Armário pela saracoteada que ele deu nas cadeiras e aquele sorriso tão peculiar dos então, escondidos em armários. E ainda mais: era um caixa bancário do Banco do Brasil. E o seu companheiro, Rodrigo, era médico, naturalmente o cabeça da família.

Dois bancários, no mesmo prédio, no mesmo andar com o mesmo nome. E completamente diferentes... Muito diferentes.

Nesse tempo esses moradores de armário não saiam  deles com tanta facilidade como fazem hoje em dia. Só não saiam, mas todo mundo via que eram moradores de guarda-roupas. Afinal quando alguém que não conhecesse nenhum desses Armandos viesse a nos confundir? E eu já comecei a estudar como seria a minha vida à beira desse barranco da sodomia, e já orientei a minha mulher para atender todos os chamados da campainha  e quando não fosse gente conhecida, atender com as seguintes perguntas: O meu marido está sim vou chama-lo; O meu marido saiu, mas não deve demorar a chegar; o senhor precisa dele? Quer deixar algum recado.

Eu como o gerente da Agência do Banco respondia pelas duas lojas do Banco e pelo apartamento onde eu residia, perante o condomínio. Portanto, nas reuniões da assembleia eu teria que me fazer presente. Foi quando fiquei sabendo que Rodrigo, o médico, era o proprietário do Apartamento,  e o seu companheiro de armário, o meu xará, tinha dele a procuração para responder nas reuniões da assembleia. Afinal, o direito a voto e decisões são cabíveis aos proprietários ou seus representantes. Armando, portanto, era o síndico.

Ai eu tomei conhecimento de que o meu Xará Armando Silveira dos Santos, era uma pessoa muito fina, muito educada, e teria sido eleito antes o síndico do condomínio quando teria organizado problemas com o prédio, e amigo de todos os moradores. Um comportamento do qual eu nunca teria visto entre os diversos síndicos com os quais eu já havia tomado conhecimento.

---Dona Isaltina, moradora do quarto andar, estava atravessando uma situação muito difícil. Seu marido havia falecido após um acidente de carro,  e ficou em estado de recuperação da saúde durante três meses, mas não resistiu aos ferimentos e acabou falecendo. O casal não tinha filhos, e com a morte do marido a situação da viúva ficou deverás difícil, devendo hospital, devendo farmácia e devendo o condomínio há quatro meses. ---

Essa senhora era, para os moradores do prédio, uma altruísta na essência da palavra. Ela não tinha filhos, e as crianças do prédio eram todos queridas por ela e ela pelas crianças e seus pais. Quando alguém se adoecia era ela quem se fazia presente no sentido de dar a sua ajuda sem nenhum interesse.

O síndico deu inicio a reunião dizendo que teriam naquele dia uma decisão muito importante. Ele já teria convoca a Assembleia pedindo encarecidamente a presença de todos e ou representantes e felizmente estavam ali todos os proprietários legais representantes da assembleia.

Após tratar dos assuntos de rotina, o síndico com a voz meio sufocada fez um comentário suscinto sobre a situação de Dona Isaltina, a qual com um semblante sofrível foi dizendo que estava devendo as mensalidades do condomínio há quatro meses, e que queria justificar perante a assembleia que aquele atraso era involuntário devido os trabalhos que ela vinha passando, pois teria gasto muito com a morte do marido e a pensão que ele teria deixado não estava cobrindo as despesas. Disse, então, que o seu apartamento já teria sido posto a venda numa imobiliária e que tão logo a venda fosse efetuada ela resgataria todas as suas dívidas, e que já teria arrumado uma locação para esvaziar o seu apartamento para ser mostrado aos supostos compradores.

Eu ali ainda recém chegado, não sabia e nem conhecia a situação daquela senhora, mas pude entende-la pela reação da assembleia que se inquietou, quando o presidente da reunião, Armando apresentou a seguinte proposta:

1) A Assembleia a isentasse de pagamento do condomínio até quando ela pudesse voltar a pagar.

2)Ele iria olhar com o seu companheiro Rodrigo que era médico, o que poderia fazer junto ao hospital como negociar esta dívida.

3)E junto ao Banco do Brasil, onde ele trabalhava arrumaria para ela um empréstimo especial para ser pago em 24 meses, pelo qual ele pediria ao seu companheiro para avaliza-la com a certeza de que ele iria atender os seus pedidos.

Resultado:

A isenção da dívida com o condomínio foi de imediato aceita pela assembleia. E um rateio entre todos os moradores para o pagamento da dívida no hospital.

No prédio tinha gente de posses, como o Sr. Adalberto Mendes que morava no terceiro andar e era grande fazendeiro e criador de gado. Este então já disse que não era para se endividar com o Banco do Brasil, ele iria fazer para ela uma doação equivalente, pois no parto de um de [U1] seus filhos, Dona Isaltina ficou duas noites à cabeceira de sua esposa que teve problemas com o parto.

Moral da história, todos no prédio deviam favores para Dona Isaltina, que saiu chorando da reunião, mas chorando de emoção e de alegria, pois estava recebendo a recompensa do bem que ela teria se espalhado naquele prédio.

E eu como estava me sentindo? Feliz por ser o único desconhecido ali, e que teria se juntado a eles num gesto humano maravilhoso. Mas no fundo, sentia-me um pouco envergonhado  e cheguei a sentir até mesmo uma dose de remorso. Repreendia-me pelo mal juízo e do preconceito que teria alimentado dentro de mim sobre o xará Armando, que veio a ser dali para frente um grande amigo e quem teria me dado uma boa lição de vida. Algum tempo depois fiquei sabendo que teria falecido aos 52 anos de idade.

 Armando Melo de Castro