Por força da minha profissão
de bancário eu vivi durante 35 anos, uma vida nômade de cidade em cidade. Às
vezes quando começava a me acostumar numa cidade, era chegada a hora de ser
transferido. Nessas andanças eu conheci muitas pessoas, fiz muitos amigos, tive
alegrias e tristezas cujas lembranças hoje passeiam pelo meu cérebro. Hoje, eu tirei o dia para me
lembrar de dois vizinhos que eu tive no momento em que residi na cidade de
Governador Valadares. O edifício onde eu morava tinha dez pavimentos e em cada
um desses dois apartamentos; e o andar térreo onde era estabelecida a Agência
do Banco em que eu trabalhava, Banco do Estado de Minas Gerais S.A.
Eu residia no decimo andar no
apartamento 1001 de propriedade do Banco, disponível para a locação do gerente
da Agência. E no 1002 residiam dois rapazes, Rodrigo e Armando. No principio eu
imaginei que aqueles dois jovens fossem irmãos, mas assim que o meu xará Armando
me foi apresentado, eu já fui vendo que se tratava de um morador de Armário
pela saracoteada que ele deu nas cadeiras e aquele sorriso tão peculiar dos
então, escondidos em armários. E ainda mais: era um caixa bancário do Banco do
Brasil. E o seu companheiro, Rodrigo, era médico, naturalmente o cabeça da
família.
Dois bancários, no mesmo prédio, no mesmo
andar com o mesmo nome. E completamente diferentes... Muito diferentes.
Nesse tempo esses moradores de
armário não saiam deles com tanta
facilidade como fazem hoje em dia. Só não saiam, mas todo mundo via que eram
moradores de guarda-roupas. Afinal quando alguém que não conhecesse nenhum
desses Armandos viesse a nos confundir? E eu já comecei a estudar como seria a minha
vida à beira desse barranco da sodomia, e já orientei a minha mulher para
atender todos os chamados da campainha e
quando não fosse gente conhecida, atender com as seguintes perguntas: O meu
marido está sim vou chama-lo; O meu marido saiu, mas não deve demorar a chegar;
o senhor precisa dele? Quer deixar algum recado.
Eu como o gerente da Agência
do Banco respondia pelas duas lojas do Banco e pelo apartamento onde eu residia,
perante o condomínio. Portanto, nas reuniões da assembleia eu teria que me
fazer presente. Foi quando fiquei sabendo que Rodrigo, o médico, era o
proprietário do Apartamento, e o seu companheiro
de armário, o meu xará, tinha dele a procuração para responder nas reuniões da assembleia.
Afinal, o direito a voto e decisões são cabíveis aos proprietários ou seus
representantes. Armando, portanto, era o síndico.
Ai eu tomei conhecimento de que
o meu Xará Armando Silveira dos Santos, era uma pessoa muito fina, muito
educada, e teria sido eleito antes o síndico do condomínio quando teria
organizado problemas com o prédio, e amigo de todos os moradores. Um
comportamento do qual eu nunca teria visto entre os diversos síndicos com os
quais eu já havia tomado conhecimento.
---Dona Isaltina, moradora do
quarto andar, estava atravessando uma situação muito difícil. Seu marido havia
falecido após um acidente de carro, e
ficou em estado de recuperação da saúde durante três meses, mas não resistiu
aos ferimentos e acabou falecendo. O casal não tinha filhos, e com a morte do
marido a situação da viúva ficou deverás difícil, devendo hospital, devendo
farmácia e devendo o condomínio há quatro meses. ---
Essa senhora era, para os
moradores do prédio, uma altruísta na essência da palavra. Ela não tinha
filhos, e as crianças do prédio eram todos queridas por ela e ela pelas
crianças e seus pais. Quando alguém se adoecia era ela quem se fazia presente
no sentido de dar a sua ajuda sem nenhum interesse.
O síndico deu inicio a reunião
dizendo que teriam naquele dia uma decisão muito importante. Ele já teria
convoca a Assembleia pedindo encarecidamente a presença de todos e ou
representantes e felizmente estavam ali todos os proprietários legais
representantes da assembleia.
Após tratar dos assuntos de
rotina, o síndico com a voz meio sufocada fez um comentário suscinto sobre a
situação de Dona Isaltina, a qual com um semblante sofrível foi dizendo que
estava devendo as mensalidades do condomínio há quatro meses, e que queria
justificar perante a assembleia que aquele atraso era involuntário devido os
trabalhos que ela vinha passando, pois teria gasto muito com a morte do marido
e a pensão que ele teria deixado não estava cobrindo as despesas. Disse, então,
que o seu apartamento já teria sido posto a venda numa imobiliária e que tão
logo a venda fosse efetuada ela resgataria todas as suas dívidas, e que já
teria arrumado uma locação para esvaziar o seu apartamento para ser mostrado
aos supostos compradores.
Eu ali ainda recém chegado,
não sabia e nem conhecia a situação daquela senhora, mas pude entende-la pela
reação da assembleia que se inquietou, quando o presidente da reunião, Armando
apresentou a seguinte proposta:
1) A Assembleia a isentasse de pagamento do
condomínio até quando ela pudesse voltar a pagar.
2)Ele
iria olhar com o seu companheiro Rodrigo que era médico, o que poderia fazer
junto ao hospital como negociar esta dívida.
3)E
junto ao Banco do Brasil, onde ele trabalhava arrumaria para ela um empréstimo especial
para ser pago em 24 meses, pelo qual ele pediria ao seu companheiro para
avaliza-la com a certeza de que ele iria atender os seus pedidos.
Resultado:
A isenção da dívida com o
condomínio foi de imediato aceita pela assembleia. E um rateio entre todos os
moradores para o pagamento da dívida no hospital.
No prédio tinha gente de
posses, como o Sr. Adalberto Mendes que morava no terceiro andar e era grande
fazendeiro e criador de gado. Este então já disse que não era para se endividar
com o Banco do Brasil, ele iria fazer para ela uma doação equivalente, pois no parto
de um de seus
filhos, Dona Isaltina ficou duas noites à cabeceira de sua esposa que teve problemas
com o parto.
Moral da história, todos no prédio
deviam favores para Dona Isaltina, que saiu chorando da reunião, mas chorando
de emoção e de alegria, pois estava recebendo a recompensa do bem que ela teria
se espalhado naquele prédio.
E eu como estava me sentindo?
Feliz por ser o único desconhecido ali, e que teria se juntado a eles num gesto
humano maravilhoso. Mas no fundo, sentia-me um pouco envergonhado e cheguei a sentir até mesmo uma dose de remorso.
Repreendia-me pelo mal juízo e do preconceito que teria alimentado dentro de
mim sobre o xará Armando, que veio a ser dali para frente um grande amigo e
quem teria me dado uma boa lição de vida. Algum tempo depois fiquei sabendo que
teria falecido aos 52 anos de idade.
Armando Melo de Castro