Total de visualizações de página

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

TOMANDO UM CLISTER



Foto apenas para ilustração
Entre os males que atormenta a vida do homem, talvez, o pior deles é a doença. São tantos os tipos de moléstias que não se contam doenças. Contam os seus grupos. O CID, Classificação Internacional de Doença, tem uma relação tão grande que muitas são totalmente desconhecidas pela maioria das pessoas. Umas são mais graves, outras menos e outras corriqueiras. Entretanto, por mais corriqueira que seja, incomoda muito. Quem nunca sentiu uma dor de dentes, não faz idéia do que seja uma dorzinha mais chata. Para certos segmentos, a dor de barriga não é uma doença. Eu entendo que a dor de barriga, ou seja, a diarréia é quase sempre um grande alívio para as pessoas que têm problemas de constipação intestinal..

A constipação intestinal ou prisão de ventre é um mal que atormenta muitas pessoas. É sempre uma grande queixa feita aos médicos e nas farmácias. A medicina recomenda que uma pessoa precisa de evacuar duas vezes por dia. No entanto, existem pessoas que passam até uma semana sem ir ao banheiro. O interessante é que existem aqueles que, mesmo evacuando, normalmente, têm problemas de constipação intestinal, sendo necessário um grande esforço na hora de evacuar. Portanto, podemos entender que cada caso é um caso, tendo em vista as diversas causas desse terrível incômodo. Esse problema atinge mais as mulheres grávidas e aos idosos. Os principais motivos de uma constipação intestinal são a baixa ingestão de fibras, de pouca fruta, de verduras e de grãos, etc.

Quem sofre desse mal deverá tomar mais cuidado com a alimentação, evitando produtos que congestionam os seus intestinos. A própria pessoa vai descobrindo o que não lhe faz bem. Naturalmente, com a própria experiência diante da observação necessária.

Nos dias atuais, as coisas têm sido mais fáceis. Existem medicamentos eficazes que atendem essas necessidades. Tipos de clisteres mais modernos. Se bem que o uso constante de medicamento pode causar transtornos porque o organismo vai se acostumando com o remédio e esse passa a não fazer um efeito satisfatório.
Um modelo de clister antigo e outro mais moderno

Eu me lembro que, antigamente, havia, em muitas casas, dependurado na parede, um aparelho que tinha a função de resolver o problema de prisão de ventre. Consistia em injetar um clister nas pessoas, no sentido de descongestionar os intestinos. Era uma coisa bem rudimentar e muitos eram até mesmo de fabricação caseira. Tratava-se de um recipiente de capacidade para uns dois litros, mais ou menos. Tinha o fundo em forma de um funil no qual era adaptada uma mangueira, da mesma espessura dessas de chuveiro, com um bico injetor da mesma grossura e medindo uns dez centímetros, aproximadamente.

Fazia-se uma infusão onde eram misturadas plantas laxativas como a raiz de jalapa, azeite de mamona (óleo de rícino) e sal amargo. Fervia isso tudo, coava e colocava nesse aparelho que muitos tratavam de “chuca”. Este era dependurado, em algum lugar alto, para dar queda no líquido cujo bico era penetrado no ânus do doente sendo tal ato, popularmente, chamado de lavagem.

No dia em que tomei conhecimento da serventia daquela geringonça, eu até me arrepiei de medo de um dia precisar de uma coisa daquelas.

Na esquina da Rua Coronel João Afonso com a Rua Belmiro Costa, onde hoje reside o Sr. Carminho Machado, existia a casa de propriedade do Sr. Quincas Guimarães. Tratava-se de um imóvel de aluguel. Durante muitos anos, aquela casa teve diversos inquilinos e todos eles deixaram gravadas, em minha memória, muitas lembranças. Eu morava quase defronte e como vizinho próximo participava da vida dos moradores.

Certa vez, veio morar ali um casal de idosos, Sô Afonso e Dona Ritinha. Ele baixo, grosso, meio careca, cara redonda e fechada. Ela magra, cabelos curtos, rosto cheio de rugas e sorriso contrafeito. Sô Afonso tinha sérios problemas com constipação intestinal. Já havia tomado de tudo e nada de melhorar. O velho já tinha uns dez dias que não desocupava os intestinos. Depois não era fácil. Uma pessoa idosa usar um penico é complicado. Existia uma latrina nos fundos do quintal, todavia, não havia como ele ir à noite, mesmo porque, tinha uma escada na saída da porta da cozinha que, praticamente, lhe impossibilitava de sair ao quintal. Essas dificuldades, sem dúvida, foram colaborando para que fosse ficando, a cada dia, mais difícil dar alívio ao triste mal-estar. Sabe-se que de médico e louco todo mundo tem um pouco, diz o ditado popular. Assim, não faltou quem quisesse ajudar a dar alívio ao velho.

À tarde, depois da reza, descia um grupo de mulheres. Dona Ester, Dona Joana do Galdino, Dona Maria do Zico, Dona Chiquinha e outras. Ao passar à frente da casa de Dona Ritinha, ela de pé, à porta, foi questionada por Dona Chiquinha:

---Uai, Dona Ritinha, eu num tem visto a sinhora na igreja?

---Ah! minha fia, o Afonso num tá me dano forga!

---O que qui ele arrumô?

---Tem uns deis dia que tá intupido!

---Intupido! Coitado!

---Eu até to isperano o Quinzinho vim pra nóis levá ele no dotore! Tem uma duda quarqué. Ele num dispacha de jeito ninhum!

---Ah, Dona Ritinha, a sinhora vai tê qui dá uma lavage nele!

---Lavage! Aquele trem que tem que infiá no...?

­­­---É aquilo mes. Eu tenho lá in casa. Se quisé eu impresto.

---Mais o Afonso é muito isquisito, é capais dele num querê!

---Mais aí é pirigoso ele até morrê, Dona Ritinha! Eu vô traze o “chuca”. Aí a sinhora isprementa e resorvê o probrema.

No outro dia, vi quando Dona Chiquinha chegou à casa de Sô Afonso levando o tal “xuca” e explicando, em detalhes, como usá-lo. Eu, com a minha imaginação fértil de criança, fiquei imaginando o sofrimento do velho na hora que lhe enfiassem aquele bico. Mais tarde, eu escutei o barulho do velho gritando:

---Tira essa merda de dentro de mim, Ritinha, eu já num aguento mais não!

Eu não fiquei sabendo a que tipo de merda ele se referia. Contudo, não me foi difícil imaginar o que realmente aconteceu dada à inexperiência de Dona Ritinha com o “chuca”: Foi merda pra todo lado, inclusive, nela.

Há quem diga: Bons tempos! Bons tempos! (Eu hein!?)

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e acasos.


Outras crônicas:

http://candeiasmg.blogspot.com/2012/02/o-historiador-da-rale.html

http://candeiasmg.blogspot.com/2011/05/rainha-do-cochicho.html

http://candeiasmg.blogspot.com/2011/07/o-vaso-sanitario.html

http://candeiasmg.blogspot.com/2011/02/lima-de-bico.html

http://candeiasmg.blogspot.com/2010/04/um-frango-pra-galo.html

http://candeiasmg.blogspot.com/2008/06/sebastio-quirino-um-talento-sem-alento.html


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

LÁGRIMAS DE SANGUE



Escarafunchando os guardados do meu cérebro encontro-me no ano de 1957 quando minha família esteve morando por uma curta temporada na Rua José Furtado, onde bem próximo da nossa morada havia um casebre, tipo meia-água. Ali morava mãe e filha cujo relacionamento era de constante alegria, apesar da pobreza em que viviam.

Dona Etelvina, a mãe, era uma pessoa alta, magra, branca, voz forte, cabelos sempre coberto por um lenço branco. Tinha um buço saliente e dentes escuros. Olhos meio arregalados, boca grande e sorridente. Apesar de ter uma filha adulta era do tipo balzaquiana, pois teria sido muito jovem quando concebeu a filha.

Dalva, a filha, tinha o corpo da mãe, contudo era mulata, pois, seu pai era negro. Dezesseis anos, cabelos crespos e curtos, dentes claros, nariz achatado. Alegre e sorridente. Quem passasse defronte à sua casa poderia ouvi-la cantar as músicas de Cascatinha e Inhana e em especial a guarânia “Meu primeiro amor”. Dalva tinha um pretendente que teria ido para Goiás trabalhar na zona rural, e lhe prometera pedi-la em casamento na sua próxima volta à Candeias.

Mãe e filha onde estivessem estavam sempre juntas. Era a unha e a carne. Sustentavam-se da cata, pelos matos, de capim membeca, próprio para encher coxins. Produto que vendiam ao senhor Candóla Vilela, fabricante, caseiro, de colchões recheados a capim, usados na época, e para os seleiros na fabricação de arreios. Era uma vida dura. Eu as via sempre com aqueles enormes feixes de capim sobre a cabeça. Subiam à rua conversando, rindo, uma com a outra. Eu não sei onde arranjavam tanta alegria dentro de uma vida tão difícil.

Era noite e não havia luz na rua. Nós os vizinhos, assustados, ouvimos os gritos desesperados de Dona Etelvina. Muitos acudiram aos seus gritos. Morria, naquele momento, a sua única filha, a Dalva, ainda na flor da idade vitima de um mal que assolava o mundo inteiro, a gripe asiática cuja epidemia teve inicio na China e em poucos meses se espalhou para o mundo. Candeias, como uma célula do mundo não ficou isenta desse mal que lhe tirou alguns filhos, deixando a cidade agitada tal qual se encontrava todo o planeta. Talvez, quem sabe, a responsável maior pela morte de Dalva teria sido a sua pobreza, a pobreza do Estado que não atendia as necessidades básicas de sua população carente.

Lembro-me como se fosse hoje, daquele quadro de dor. Num pequeno quarto do casebre, Dona Etelvina abraçava, aos gritos, o corpo sem vida de sua filha, ainda, tão jovem.

Eu que trazia comigo aquela imagem feliz daquelas duas criaturas via, agora, um quadro lúgubre de dor, da mais funesta infelicidade. E confesso que chorei também. Chorei num tempo em que as lágrimas ainda não vertiam dos meus olhos. E fiquei pensando, como será daqui para frente à vida de Dona Etelvina. 

Eu ainda não havia conhecido aquele tipo de dor sem nome. Aquela coisa que corrói, mata e estraçalha um coração. Uma dor que nos tira o sentido da vida e que só o tempo pode ajudar, mas nem sempre como foi o caso de Dona Etelvina. Ela nunca mais sorriu. Nunca mais teve brilho nos olhos. Nunca mais se importou com nada até ao fim dos seus dias. Ela não tinha estrutura para perder a única razão de vida. A única alegria que sustentava o seu sorriso... Elas se completavam. 

Para Dalva, tudo de bom era a sua mãe. E para Dona Etelvina, Dalva era a sua deusa. Eram muito pobres da vida material, mas extremamente ricas de amor no coração. 

Hoje, depois de ter, também, perdido uma filha, eu posso sentir ainda mais, o sofrimento com que passou Dona Etelvina.

Antes do enterro, Dona Etelvina fez um apelo. Gostaria de ver tirado uma foto de sua filha, pois esta não teria nenhuma lembrança desse tipo. E assim, foi chamado o então “retratista” Vicente de Melo, que acrescentava essa profissão aos afazeres de sua loja com uma máquina lambe-lambe.

O namorado de Dalva chegou três dias depois do sepultamento. A volta tão prometida de alegrias tornou-se no encontro com a dor e a profunda tristeza.

O pai de Dalva nunca esteve presente na vida da filha. Era ele o Sargento Arantes, natural da cidade de Três Corações e que prestou serviços em Candeias, na ocasião quando teria feito Dona Etelvina, ainda jovem, sua concubina temporária, deixando-a posteriormente com a filha e sem recursos. Dona Etelvina, que desde então passou a viver unicamente em prol da filha.

Diziam, tempos depois, que o Sargento Arantes, era irmão da mãe de Edson Arantes do Nascimento, portanto, tio do Pelé.

Nunca mais vi Dona Etelvina sorrir. Sempre a via passar sozinha trazendo na cabeça aquele enorme feixe de capim, com os olhos fundos e tristes e a boca sempre fechada, como retratos da sua tristeza. Às vezes, era vista no cemitério São Francisco à beira da cova já afundada da filha, rezando e colocando uma flor regada às lagrimas de uma “Matter Dolorosa”.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O CACHORRÃO CAGÃO!

O MAIS ANTIGO AÇOUGUE DE  CANDEIAS
Nos  tempos das vacas magras, em Candeias, existiam diversos açougues. Nenhum deles tinha um nome comercial. Eram conhecidos pelo nome do dono. Açougue do Zé Chorão que ficava ao lado de sua loja, na Rua Expedicionário Jorge. Açougue do Estevão, perto dali, em outra esquina, ao lado de sua mercearia, no mesmo lugar onde fica, hoje, a mercearia do Divino. Açougue do Emilio Gianasi, também ao lado de sua loja, na qual se encontra, atualmente, o seu filho Carlinhos, na Avenida 17 de dezembro. Açougue do Zé Canarinho, na Praça da Bandeira, onde, nos dias de hoje, está a papelaria de seu filho, do mesmo nome. Açougue do Vicente Resende, no lugar da barbearia com a esquina da Rua André Pulhês. Açougue do Nilo do Juquita, na Rua Belmiro Costa, onde, atualmente, funciona a Sorveteria Girassol. Açougue do Geraldo do Orcilino, na Rua Professor Portugal, em frente ao Restaurante do Vicentinho e, finalmente, Açougue do Antônio do Orcilino, na mesma rua, próximo à loja do Vicente Vilela. Este o único que sobreviveu até hoje, por muito mais de meio século, agora, nas mãos do seu filho, Jesus do açougue. Finalmente, ganhou um nome: Açougue São Judas Tadeu.

Eu acho engraçado é que passo por lá e revivo um quadro interessante. O Antônio, quando não havia freguês para atender, forrava o piso, deitava  ficava ali todo tranquilão e o Jesus pode ser encontrado do mesmo jeito numa original herança paterna.


Eram estabelecimentos elementares. A montagem resumia em um suporte no qual se dependurava os ganchos, uma banca, um balcão de alvenaria ou madeira, uma balança, um toco e uma machada. Não havia embalagens. Usava-se um pedaço de folha de bananeira para envolver o pedaço de carne ou o agulhava com um nó de barbante. Poucos tinham as suas paredes azulejadas e como, naquele tempo, não havia eletricidade para funcionar uma geladeira ou um balcão frigorífico, todos os açougues tinham uma salmoura onde a carne bovina fresca que sobrasse era salgada para conservá-la. Portanto, a chamada carne seca era farta em Candeias e era comercializada mais barata. A carne de porco raramente sobrava. Os porcos antigos tinham pouca carne e muito toucinho, diferentes dos porcos atuais. O grande consumo da população era o toucinho por causa da banha para cozinhar. Às vezes, formavam-se filas às portas dos açougues para comprar carne ou toucinho no dia de matar o suíno. Os açougueiros combinavam, portanto, em matá-los em dias alternados. Era vaca para um e porco para o outro. Parece-me que, naquele tempo, o povo comia mais carne, o preço não era tão alto como nos dias de hoje. Carne, atualmente, virou produto de luxo. Algumas partes dos animais, como as vísceras, eram de graça para as pessoas desvalidas que, também, sempre ganhavam um pedacinho de carne do dono de açougue.



Ainda não existia, naquele tempo, o óleo de cozinha. A chegada desse produto, em Candeias, veio fracassar a comercialização de suínos cuja tendência era crescer. Alguns açougues só trabalhavam com o abate de porcos. Além disso, a produção desses animais proporcionava grande parte da renda dos fazendeiros e sitiantes do município que viram secar essa fonte. O óleo de cozinha chegou com tudo no país. Parecia uma verdadeira guerra contra a banha de porco. O rádio, as revistas e os jornais estampavam o produto como se ele livrasse as pessoas de todas as doenças. Como se fosse acabar com todos os males do coração. Criou-se um mito sobre a banha de porco para vender o óleo. O colesterol que era um mal quase desconhecido veio à tona como o mal do século. O porco foi se tornando o culpado de todos os males. Com isso, as pessoas foram diminuindo e outros foram deixando de usar a banha e passaram a restringir a carne de porco



Esse mito, nos dias atuais, está mais aliviado porque as pessoas observaram tratar-se de uma idéia, parcialmente, falsa. O próprio tempo pode mostrar. Hoje, os nutricionistas defendem o consumo da carne de porco disponível no mercado. Alegam que esta não faz mal à saúde e que são recheadas de vitaminas e minerais. Atestam que a quantidade de colesterol não está diretamente relacionada à quantidade de gordura e que o nível de colesterol contido na carne de porco é igual às outras carnes seja bovina ou de frango. Além disso, sabe-se que os porcos de hoje não têm tanta gordura como os de antigamente.



A carne suína é a carne mais consumida no mundo, enquanto a carne bovina vem sofrendo sérias restrições. Quanto ao aumento de colesterol, entendo que isso, realmente, não tem nada a ver com a carne suína. Eu, por exemplo, sou um ávido consumidor de carne de porco e o meu colesterol é normal, abaixo do mínimo exigido. Vai muito de cada organismo.

Mas, mudando o assunto do norte para o sul, lembro-me de, certa vez, quando cheguei no açougue do Nilo do Juquita que ficava próximo de minha casa, no momento em que ele se encontrava muito nervoso. Um ladrão teria pulado o muro e lhe roubado parte da carne que se encontrava na salmoura, existente no quintal do açougue. Enquanto desossava um porco ia falando e, quanto mais falava, mais nervoso ficava:


---Se eu pego um cabôco desse, eu corto o saco dele no talo!

Alguns fregueses que já se encontravam presentes esperavam ele descarnar o porco. Tinha muito disso, o freguês ia cedo para pegar o pedaço preferido. Entretanto, Nilo estava tão nervoso que a gente mal entendia o que ele falava:
--- Eu tabaiano e um disgraçado me robano! Dá vontade de matá!


Maria das Dores era uma idosa que andava sempre acompanhada de seu filho José que era portador de problemas mentais. Magrelo, alto, chapéu de palha e um terno de brim encardido cujo paletó era curto e apertado e completava a vestimenta as calças pega-frango. Devia ter uns quarenta anos, mais ou menos. Ela, baixa e gordinha. Rosto cheio e os cabelos brancos enrodilhados no tipo coque. Tinha o andar e as muxibas balançantes pelo descompasso das pernas sinuosas como marcas da idade avançada. Voz fanhosa. Uma boca sem dentes. Teria experimentado a dentadura de uma irmã falecida, todavia, não deu certo. Preferiu a boca murcha. Dizia sempre:

---Pobre faz com o dente pa cumê com a gingiva!


Aonde ela chegava, logo armava o barraco. Foi chegando, postou-se no meio do pequeno açougue e começou:

---Quanto é o quilo de suã?
---Suã é cinco conto o quilo.
---O quê? Cinco conto um quilo de suã!? E o toicinho? É quanto?
---Toicinho é dois.
---O quê? Dois conto um quilo de toicinho! E o cambito?
---Cambito num tem mais não.
---Mais eu “quiria” cambito, sô! E o lombo? Quanto tá o quilo?
---Lombo já tá tudo “incumendado”. O “restorante” compra tudo!
---Mas eu “quiria” era lombo. E a costelinha, quanto tá o quilo?
---Costela é sete.
---Sete conto um quilo de costela? “Ocê” ficou doido! E a papada?
---Papada é “treis” conto.
---Isso é um roubo. Seus preço ninguém dá conta. Isso é um roubo!


Nessas alturas do campeonato, Nilo já estava a ponto de enfiar a faca na velha e quase cego de raiva grita:



---Barato aqui é só a bosta do porco! Vem um disgraçado me roba e vem uma vaca e me chama de ladrão?! Some daqui!

---Ah! É assim, né!? Pois “intão” eu quero que ocê vá tomá no butão cachorro. É assim que trata um freguês?! Cachorro sem dono!
E foi saindo blasfemando pela rua. O filho dela, até então, calado, aproximou-se do Nilo, espichou o pescoço, olhou firme para ele, arregalou os olhos como se fosse devorá-lo e com voz determinada disse:
---Obedece à mãe viu, cachorro! Cachorrão cagão!
Enquanto ele saía, o Nilo não parava de rir e com ele toda a freguesia.


Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos


Cronicas Relacionadas


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O HISTORIADOR DA RALÉ


      Recebi de uma leitora da cidade de Santo Antônio de Pádua, no Estado do Rio de Janeiro, um e-mail contendo uma crítica de um texto editado, neste blog, sob o título “Desnudando a Vida”.


Longe de mim qualquer intenção de refutar as opiniões que possam advir dos leitores que me honram neste blog. É de todo patente que qualquer exposição de idéias encontrará prós e contras. Portanto, eu recebo de bom grado qualquer crítica seja ela contrária ou favorável ao meu pensamento. Isso, com certeza, é a recompensa para quem pensa algo e tem a coragem de colocá-lo sob debate.
Respeito qualquer juízo de valor que venha a ser feito sobre os meus escritos que jamais me levaram a pensar em ser membro de uma acadeima.

Trata-se, a minha interpelante, da senhora Ana Zélia Rodrigues que me enviou um e-mail expondo o seu pensamento sobre a minha pessoa, haja vista não concordar com as minhas idéias emitidas no texto, acima citado, quando eu expresso o meu pensamento sobre o celibato e a forma pela qual o Padre Fábio de Melo se manifestou diante do casamento. Em sua mensagem, dona Ana Zélia falou pouco de si. Limitou-se a dizer seu nome, que possui 49 anos, que é professora e, em bons e claros termos, disse, ainda, se tratar de uma pessoa de situação financeira privilegiada.

Disse que ficou indignada quando leu o texto deste blog injustamente dirigido ao Padre Fábio e que um herege, como eu, deveria lavar a boca para falar dos padres e do catolicismo. Disse-me, também, que teria lido quase todas as minhas histórias e que elas revelam ser eu uma pessoa de meio obscuro e que lhe pareço, ainda, ter uma longa convivência com a ralé. Ressalva a minha afinidade com esse meio e que esse é o motivo de eu ter me tornado em um historiador dessa camada social. Firmou ser Católica, Apostólica, Romana e que não consegue se omitir quando alguém ousa desdenhar a sua religião. Borbulhou outras pragas dizendo que uma pessoa que não respeita padres não respeita a Deus e se trata de uma pessoa indigna. Que tem pena de uma pessoa sem religião E, finalizou, determinando que eu tivesse a dignidade de respondê-la através deste blog, exigência esta que não entendi muito bem. Entretanto, mesmo sem entender, vou atendê-la, neste momento:

Prezada Dona Ana Zélia Rodrigues:

Eu não poderia deixar de atender o seu pedido uma vez que ele é tão importante para a senhora, quanto para mim. Confesso que estou lhe abrindo uma exceção considerando que esse comportamento, sob a minha óptica, não se trata de uma atitude elegante, principalmente, relativa a pessoas com as quais não conheço e não convivo pessoalmente. Como eu não conheço todos os meus leitores, faço aqui o meu pedido de desculpas antes de atendê-la e se o faço é porque a minha dignidade está a seu jugo.

Por um momento, no início, cheguei a pensar que a senhora estivesse brincando comigo. Afinal, em Minas Gerais , temos um ditado dito como certo que atesta que “Quem desdenha quer comprar”. Entretanto, foi apenas por um momento. Logo, eu percebi que estava falando tão sério quanto eu. Pena que falou muito pouco de si, apenas o seu nome, a sua profissão, a sua idade e, obviamente, o credo com o qual comunga. Ressalvou que é uma mulher rica, etc. Pois bem! Na verdade, eu gostaria de conhecê-la melhor para que, assim, pudéssemos discutir o assunto de uma forma mais abrangente. Isso porque sem conhecê-la o debate fica sem proporções. A maneira com que se referiu a minha pessoa foi como uma sentença oriunda do tribunal da sua consciência. Todavia, a senhora pode estar enganada. Aliás, eu acho que está enganada. Mas, eu também tenho uma consciência que comporta um juízo e que, neste momento, me absolve, senão vejamos:

A senhora diz que sou um herege. Pois bem, quem me conhece sabe que eu não sou um herege. Isso porque a heresia não é uma filosofia infiltrada nas baixas camadas sociais. As pessoas às quais a senhora me inclui são, na sua maioria, levadas pela conversa daqueles cuja fé e religião é pura e, exclusivamente, o dinheiro. Essa ralé é explorada por diversos pastores e incontáveis padres que vivem no rádio, na televisão, enfim, espalhados por toda a mídia sensacionalista como em seus altares pedindo dinheiro para uma evangelização, onde é vendido, a alto custo, o nome de Jesus Cristo. A heresia, na essência do termo, foi sepultada junto à inquisição e aqueles que insistem em mantê-la estão vestidos de padres e pastores que usam as religiões para achacar os pobres que são, de maneira abjeta, denominados pelos ricos de ralé. A ralé, muitas das vezes, envolve algo mais do que a pobreza. No meu caso, eu não sou um herege. Apenas não concordo com certas coisas que, a meu ver, não são bíblicas e que correspondem à verdadeira extorsão dentro das igrejas. Creio que isso não chega a ser heresia.

A senhora diz que sou um historiador da ralé. Sim. Se se imagina que a ralé é sinônimo de ser pobre, eu vivo e convivo com ela. Ralé é um conceito social tendencioso e que está ausente no coração das pessoas, verdadeiramente, religiosas. Aquele que realmente ama o Filho do Carpinteiro não faz discriminação dentro de uma sociedade hipócrita. Jesus foi assediado pelos pobres que a senhora denomina de ralé. Contudo, Ele tratou toda essa gente com extrema dignidade. Ele, que nasceu pobre, veio, igualmente, para os ricos que o perseguiam desde o seu nascimento.

Também sou contra o Celibato. Acho que é um direito de qualquer ser humano acordar e discordar de algo. Devemos ter as nossas opiniões, as nossas idéias. Eu sou contra o celibato porque o celibato esconde crimes sexuais, esconde pecadores e afronta a Igreja de Cristo. Eu sou contra o celibato porque ele bate de frente com os princípios da própria Igreja que vive condenando os métodos contraceptivos e usa de uma forma muito mais agressiva ao princípio humano. A responsabilidade de uma família é tão difícil que privar um homem de constituí-la é conceder-lhe um grande prêmio ou isentá-lo de um ônus importante. Ter filhos é viver carregado de obrigações, cercado de responsabilidades e sofrendo de cuidados. Não os ter é viver dentro de si, livre de preocupações, todo sossegado, a cabeça descansada e descomprometido com o sofrimento próprio do ser humano. A política interna no catolicismo sobre o celibato é demagoga. Ela visa outros interesses além da evangelização. Pessoas sem nenhuma vocação sacerdotal ocupam espaço na Igreja Católica para se esconder da sua homossexualidade incubada. A cada dia que passa os problemas de pedofilia aumentam e essa história de padre não se casar para ficar à disposição da evangelização é pura balela.

A senhora diz que eu sou uma pessoa sem religião. Não. Não me considero sem religião. Sou cristão e qualquer igreja cristã me serve desde que não seja administrada por mercenários. Eu apenas não sigo as diretrizes de padres e pastores que não merecem a minha confiança. Todavia, acredito na existência e na exigência de bons religiosos que cumprem com louvor os ensinamentos de Jesus Cristo.

Eu sou batizado, crismado e consagrado na Igreja Católica. Sou adepto incontestável de Jesus Cristo e grande admirador da Obra da Criação. Venero um Deus que é Onipotente, Onisciente, Onipresente, Justo e Bom. Talvez, por uma ironia, deste contato, sou adepto fervoroso, há 67 anos, de Santo Antônio de Pádua desde quando integrei essa irmandade com apenas um ano de idade.

Observei pela sua mensagem que se faz tratar-se de uma pessoa rica, materialista, seguidora de uma religião não por convicção, mas, por vaidade. Contudo, sem retratar a filosofia maior do mestre dessa Igreja, Jesus Cristo. Pode ser que a senhora traga apenso ao seu pescoço um crucifixo, entretanto, poderia estar trazendo, ao invés da cruz, um pequeno revolver ou uma forca em sua corrente de ouro. Infelizmente, suponho que a cruz não lhe seja o símbolo maior da cristandade e quanto ao seu coração, me parece estar vazio.

Dirijo-lhe algumas perguntas para finalizar minha resposta. Contudo, não precisa respondê-las a mim. Poderá fazê-lo a sua consciência e esta, com certeza, fará o devido comentário se tenho ou não religião.

A senhora já deu banho, em uma pessoa idosa, abandonada pela família, esquecida em um quartinho de fundo de quintal, envolvida nas suas fezes causando extremo nojo em seus próprios filhos?

Eu já fiz isso Dona Ana Zélia e lhe confesso que não foi fácil. É preciso ter muito amor ao próximo. É necessário ter uma religião, não de padres e nem de pastores, mas, uma religião na qual o Cristo esteja no coração.

A senhora pegou um leproso acidentado e o colocou dentro de seu carro e para vê-lo atendido em um hospital foi preciso brigar, ameaçar e quase apanhar? E ainda ter que pagar do próprio bolso pelo tratamento precário que deram ao infeliz acidentado.

Eu já fiz e o faria de novo porque acredito que na Obra da Criação de Deus todos nós somos um prestador de serviço e se coube a mim esta tarefa, eu não fiz nada mais do que a minha obrigação.

A senhora já deu banho em algum defunto?

Eu já. Como membro da Sociedade de São Vicente de Paula, eu fiz isso por diversas vezes.

A senhora já salvou alguma vida?

Eu já. Existem três pessoas que se lembram de mim em todos os natais por lhes ter salvado a vida, quando acidentados, se esvaindo em sangue, enquanto todo mundo passava e não parava. Eu socorri e, posteriormente, tive que lavar o meu carro com água de sal para tirar o forte cheiro de sangue. Eram pessoas desconhecidas e distantes do meu meio. Lembro-me que ainda tive que prestar contas à justiça por esse feito.

A senhora já perdeu algum parente acidentalmente?

Eu já. Perdi a minha primeira esposa, aos 37 anos de idade, em um violento acidente de carro, quando eu dirigia corretamente. Perdi, também, uma filha, de maneira trágica, ainda muito jovem, quando se suicidou vítima de uma depressão profunda e cruel. Foi, assim, diante de todo esse sofrimento que aprendi que Deus não estava nas igrejas e sim dentro de mim.

A senhora, por acaso, sabe que em todas as primeiras terças feiras do mês, os irmãos de Santo Antônio, o seu padroeiro, distribuem pães em seu nome?

Eu faço isso e jamais me esquecerei. Faço desde que comecei a trabalhar quando ainda tinha poucos anos de idade.

Eu teria mais o que falar, dona Ana Zélia. Todavia, acredito que quando se dá com uma mão, deve se esconder a outra. Assim disse o Mestre.

Obrigado, Dona Ana Zélia Rodrigues. Valeu muito. Continue lendo as minhas historinhas. A ralé tem coisas interessantes. Umas tristes; outras bobas; algumas alegres. Porém, são histórias humanas e verdadeiras. Ah! Não se esqueça jamais que Jesus disse:

“Nem todo aquele que me diz “Senhor! Senhor!”, entrará no Reino do Céu”.
Mateus 7.21


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos