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segunda-feira, 26 de abril de 2010

RETRATOS DA MINHA INFÂNCIA

Vista atual da Avenida Coronel João Afonso 306 e imediações. Foto: CMC Set.2009
Dos retratos da minha infância guardados no álbum de minha memória, um daqueles que mais exercitam o encantamento da minha meninice, é o da casa onde nasci e vivi até pouco mais dos dez anos de idade. Essa casa situava-se na Rua Coronel João Afonso, 306, em Candeias, antiga rua da ponte, onde reside, atualmente, o Sr. Milton Alves.

Era uma casa simples sem o conforto das casas de hoje. Não havia banheiro dentro de casa... O banho era tomado em bacia, caneco, e, às vezes, em torneira de água fria...

A cozinha toda esfumaçada; as paredes e telhados cheios de fuligem por causa do fogão de lenha. Ali um caldeirão de feijão fervilhava dia e noite...

Havia uma salinha de funções alternativas, onde ficava um pequeno guarda-louça. Nele eram guardados os presentes de casamento dos meus pais. --- Minha mãe estava sempre a se lembrar de quem lhe teria dado um, ou outro, presente.

A licoreira, por exemplo, lhe fazia sempre lembrar o seu padrinho de casamento, o senhor Américo Pereira, pai da Aparecida, esposa do Juca Melo, sua colega e amiga de infância. Essa licoreira veio a ser estreada trinta anos depois do casamento dos meus pais, quando
despertou em mim o desejo de fazer um brinde, num dia das mães e, então, usar aquela relíquia. O apreço daquelas louças só permitia serem usadas quando alguma pessoa de fora, muito raramente, participava das nossas refeições.

Compunha-se, ainda, o mobiliário da sala, de uma mesa com quatro cadeiras, e, como adorno, um quadro de Jesus Cristo orando no horto.

Eram três os quartos da casa. O maior deles era o de meus pais e a sua mobília consistia em uma cama, um guarda-roupa - que não era de solteiro e nem casal-, um berço e um pequeno criado-mudo, onde meu pai ao deitar-se colocava ali seus petrechos de fumante: a sua palheira, o canivete, o isqueiro e o pedaço de fumo. Às vezes um maço de cigarros da marca Marusca; e a pequena carteira de couro, onde estavam protegidos os minguados cruzeiros que eram como gotas do suor do seu rosto.

Os outros dois quartos eram tão pequenos que cabiam apenas as camas. Um deles era o meu e o outro, de minhas três irmãs, Delmira, Maria Amélia e Diana Célia. Meu irmão Zezé, nascera nessa casa, mas era ainda muito pequeno e dormia no berço, no quarto de meus pais. O caçula dos irmãos, o Carlos, ainda não teria vindo nos fazer companhia neste mundo de Deus.

A minha cama, teria sido usada por minha mãe, quando criança. Já, naquele tempo, essa cama contava com mais de quarenta anos, mesmo porque, fora adquirida de segunda mão pelo meu avô materno. Era o único móvel de verniz amarelado existente na casa. Os demais eram todos pintados com verniz preto.

Nossa casa era de parede-e-meia com a de meu tio João.
Tratava-se de um imóvel doado por meu avô paterno aos seus filhos João e José. Na parte do meu tio havia um cômodo de comércio, onde os dois eram sócios em uma pequena loja de artefatos de couro: sapataria e selaria etc.

Naquele tempo, em Candeias, na sua maioria, os calçados, eram feitos artesanalmente e por encomenda. Arreios e selas eram mais comuns. Poucos os automóveis... E o pessoal do campo usava mais os cavalos e burros.

Meu pai era especializado em calçados e meu tio em selas e arreios. Mas na verdade faziam de tudo. Eram os homens dos “vinte e um ofícios e das vinte e duas necessidades”.

Para mim a principal atração da casa estava no quintal. Era um quintal muito extenso e em comum com o do meu tio João. Ajuntava-se um pomar com diversas árvores frutíferas, como: tangerina, laranjas de várias qualidades; limão, marmelo, uva, pêssego e outras mais...

Minha mãe não me deixava sair à rua a não ser para ir à escola ou fazer alguma obrigação. No mais, poderia brincar somente no quintal com minhas irmãs e meus primos, Vicente e Vicentina no quê brigar era proibido.

Numa coberta que havia na parte do quintal de tio João, tia Elisa estava sempre com uma grande panela borbulhando sabão preto. Lembro-me ainda da borralha fumegante na fornalha durante a noite... O sabão preto de tia Elisa era o melhor da cidade.

No fundo do quintal delimitávamos com o Sr. Geraldo Dama, que era um pedreiro do tipo “meia-colher” e coveiro do cemitério. Do lado de cima, morava o Antonio do Orcilino, um dos açougueiros da cidade. Do lado de baixo, existia uma velha casa que se habitava somente em épocas de festas, era uma propriedade de fazendeiros. De frente estava o Sr. Quincas Guimarães, funcionário da Prefeitura por mais de vinte anos, responsável pelas finanças.

Numa das esquinas da parte de baixo, onde se encontra hoje o Bar do Vicentinho, estava à venda do Zé Lara, proprietário do primeiro rádio existente na rua. Nessa época, rádio ainda era um aparelho muito caro. O preço do mais simples, o rabo quente, como diziam, poderia ser equiparado, hoje, ao preço de uma televisão de 22 polegadas.

Na outra esquina era a loja do Vicente Vilela, existente até hoje. Na esquina onde se encontra atualmente a residência do Carminho do João Machado, era uma venda bagunçada de propriedade do senhor Juquinha do João de Sousa...

Subindo a rua estava a venda do Chico Freire. Vendeiro e delegado de polícia... No mais, havia outros vizinhos, como Erasto de Barros, Joana do Galdino, Dona Joana Gorda, Dona Maria Fortunato, Henrique Sotero, e outros que moravam em fazendas e só apareciam para as festas.

Hoje, a passos largos na estrada da velhice, sinto muita saudade desse tempo... Desse tempo registrado num vídeo tape produzido pelas entranhas do meu cérebro e guardados nos porões do meu coração... Saudade do tempo da minha infância proletária cheia de vida e sem intervenção da morte... Saudade isenta de sofrimento e sem proposta de tristeza e amargura... Saudade do meu papai do céu e do papai Noel... Saudade da energia do meu pai e da juventude da minha mãe... Saudade sufocante cuja desopressão só seria possível se na estrada da vida houvesse volta... Saudade dolorida e sem lenitivos... Saudade imortal dentro de mim e que só será sucumbida com o meu fim.

Tempo da minha infância! Eu era feliz e não sabia!...

Armando Melo de Castro

Candeias mg casos e acasos

terça-feira, 20 de abril de 2010

UM FRANGO PRA GALO


   Por volta do ano de 1959 existia, em Candeias, na Avenida 17 de Dezembro, o Bar e Restaurante, do Sebastião Cassiano, posteriormente o Bifão do Lulu e atualmente Restaurante da Cidinha. ---- Ao lado desse bar, ---- havia uma Barbearia de propriedade dos barbeiros, Srs. Arquimedes Viglioni (Midinho) e Pedro do Candola (Pedrinho). Anexo à barbearia, de propriedade dos mesmos donos, havia uma tabacaria a qual lhe foi dado o nome de Tabacaria BB (Tabacaria Brigitt Bardot) numa referência à famosa atriz francesa, então, no auge da fama.

Nesta tabacaria me foi dado o primeiro emprego.

Além da barbearia, e a tabacaria, num apêndice da área, foi montado um pequeno estúdio fotográfico do Sr. Cândido Roberto Teixeira, o Candinho do Vico, onde havia, também, um cubículo designado ao laboratório fotográfico.

Eu ganhava em termos do dinheiro antigo, duzentos cruzeiros por mês. A praxe de vender cigarros despertou em mim o entusiasmo para adquirir o hábito de fumar. Comecei a fazer parte da confraria do fumo, nessa época, quando contava treze anos de idade, e somente fui abandonar o vício no ano dois mil após quarenta anos.

Eu era um menino bobo criado na barra da saia, sem maldade, completamente cego diante da vida, não sabia um palavrão, nem uma piada; mas os meus instintos naturais já começavam aflorar o meu cérebro inocente. Sabe-se que os jovens aos treze anos já entram para a adolescência. E aí está uma fase confusa da vida... Sentem-se inseguros; carentes de afeto e são inconstantes. O mundo vai mudando e com ele vai o adolescente deixando as gerações mais conservadoras em total desacordo. Começam a fermentar o líquido da contradição; das coisas condenadas e pecaminosas... Daí entra nos caminhos pouco transitados da vida, hora em que colocam suas almas sob disputa dos anjos e demônios.

Nesse caso, trabalhar num salão de barbeiro, seria muito interessante para um adolescente que inicia o descobrimento das reações do corpo até então desconhecidas...

Sendo o homem um produto do meio, aquele ambiente favoreceu para eu começar a esconder nas células do meu cérebro os mais íntimos pensamentos; mesmo porque, é de todo sabido que antigamente, num salão de barbeiro, rolavam piadas sobre sexo, revistas pornográficas importadas da Noruega, (no Brasil essas edições eram proibidas) além dos comentários sobre a vida alheia... Mulher do fulano, do beltrano, do sicrano. Enfim, ali se tomava conhecimento de tudo e de todos. Não porque o dono da casa queria, mas, como segurar a língua do freguês?... E depois o ambiente era favorável em virtude de que os salões de barbeiros e cabeleireiras eram frequentados por pessoas do mesmo sexo. Não existiam esses salões unissex; favorecendo, então, a liberdade de expressão. Tratava-se de uma questão cultural, atualmente, bastante escrupulosa, felizmente.

Eu, um garoto de treze anos, ali presente, tomando aulas o dia todo, após uns três meses já poderia receber um diploma em conhecimentos sobre a vida dos outros: Já sabia o que era uma prostituta e quem era prostituta; sabia dos podres dos padres; o que era corno e o que ser cornudo. Sabia quem pulava muros à noite para comer a fruta do vizinho sem pomar. Sabia o que era uma camisinha de “vênus” e para o quê servia. Sabia quem era o Zé Bolinha e o que vendia no seu tipo de comercio, um cabaré. Sabia o porquê de o galo arrastar a asa para as galinhas. Enfim eu sabia porque o meu sangue fervia dentro de mim quando via a Fi-inha do Xande, uma jovem prostituta, que bebia, se embriagava e se assentava de qualquer jeito pelas portas, mostrando aos passantes o seu instrumento de trabalho totalmente desprotegido.

Esse emprego na tabacaria teria mudado a minha vida. Fumava escondido e bebia escondido. Imaginava já, dar uma chegadinha pelas bandas do Zé Bolinha, situado na rua do capim, lá naqueles fundões da cidade, donde viria posteriormente o seu sucessor, Pedro Pitanga. (Praticamente acabado).

No reduto do Zé Bolinha, além de umas casinhas de aluguel para as meretrizes, havia, também, uns cômodos de aluguel que ficavam nos fundos. Somados ao bar, perfaziam o meio da zona boêmia. Lá era um céu cujo deus era o diabo. Não havia naqueles tempos essas liberdades de hoje. Sexo de graça era coisa de gostosão. Caso uma namorada lhe abrisse mão da sua virgindade, para o namorado, o romance estava terminado.

Afinal, eu estava naquela fase de achar que as coisas inventadas pelo diabo eram mais atraentes...

O pequeno estúdio fotográfico do Candinho ficava junto à barbearia, separado por uma divisória precária e um portal prendendo uma cortina de chita. Assim, para se chegar ao estúdio era necessário passar entre a barbearia e a tabacaria.

Das damas da noite que prestavam os seus serviços ao vulgar empresário Zé Bolinha, havia uma morena, tipo “mulata do Sargentele”, contando mais ou menos uns quarenta anos de idade e teria vindo dos Baiões, uma comunidade ligada a Candeias, porém, pertencente ao município de Formiga. Ela passava todos os dias à porta da barbearia, e logo os fregueses ali presentes faziam os seus comentários sobre os bons serviços prestados por aquela mariposa. Como diziam: “Essa nega tá abafando”.

Certo dia, num horário de almoço, quando eu me via sozinho no recinto, chega àquela cabrita e assenta-se numa das cadeiras aguardando a chegada do fotógrafo Candinho, que aparecia naquele local só diante de alguma encomenda.

A sensação de ver-me sozinho junto àquela mulher pecadora me fez sentir os arrepios mais emocionantes do meu corpo sem pecados. Senti naquele momento que o diabo não era tão feio como o pintam.
Eufórico mas desajeitado, não sabia como puxar conversa. Fiquei na expectativa enquanto os meus olhos buscavam o que o pensamento já via.

De repente, aquela mulher, causa de desejo que proporciona o efeito do prazer remunerado, pergunta-me se havia estado por ali um cidadão chamado Zazá, para o qual iria tirar uma foto para lhe dar de presente.
De súbito, quase que num desespero, quando deveria estar vermelho como um tomate, todo encalistrado, soltei a voz e lhe perguntei:

--Você não daria um retrato para mim também?
No que ela sorrindo, mostrando uma janela entre os dentes, me disse:
--Para você eu dou é eu mesma se você me der dois maços de cigarros por mim escolhidos...
Naquele momento o meu sangue ferveu. Senti-me apatetado, eufórico, pasmado, desorientado, assustado, abobado, como se tivesse ganhado o grande premio de uma loteria.
Era a inexperiência batendo contra a experiência. Dera-lhe a liberdade de escolher e a rameira não pensou duas vezes ao escolher o cigarro mais caro da época: “Columbia".
Naquele momento eu pedi a Deus, para que ninguém chegasse ali, pois era o momento de marcar o horário e o local onde estaria a minha espera o meu leito de verdura... Mas se o diabo, realmente, tem poder foi ele quem ajudou.

Naquela noite às oito horas o mundo estaria de cabeça para baixo para mim. Meu sangue fermentava. Minha cabeça não pensava em outra coisa. Havia tomado de dois maços de cigarros, caros, num tipo de apropriação indébita... As horas não passavam. Finalmente o relógio deu seis horas. Era hora de ir para a casa.

Tomei um belo banho de bacia sob o interrogatório de minha mãe. Lambuzei-me do perfume Madeira do Oriente numa associação com a Brilhantina Glostora...



E como ainda não sabia o que era axila, passei perfume até no sovaco da perna... Vesti-me da minha camisa de missa e da minha calça de festa.

Quando o relógio marcava sete e meia da noite eu estava atrás de uma mangueira existente, até hoje, abaixo do Cemitério São Francisco, a poucos metros dali seria o encontro fatal. 

Minha cabeça zunia tal qual uma cabaça de abelhas. Eu imaginava uma alcova branca, especialmente preparada para a minha virgem inocência.
Foi chegada a hora. Cheguei à porta do casebre. Bati na porta. Meu coração rebatia.
Uma voz de homem foi ouvida lá de dentro. Tremi num desespero total. Abriu-se a janela era o Baltazar, um pedreiro conhecido pelo nome de Zazá, 

--O que quer aqui moleque?
--Nada não Sô Zazá...
Aparece, também, na janela, ela, a minha “donzela” toda sorridente e diz:
--Esse menino pra mim deve ser doido...
E o Zazá como velho galo do terreiro bradou:
--Some daqui pinto empestado!

Sumi e nunca mais apareci por lá. Eu não era um galo, mas era um frango pra galo. Era um menino bobo que ainda não conhecia o mundo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


    
  



segunda-feira, 12 de abril de 2010

SOBRE QUEDAS E JABUTICABAS


A jabuticaba é uma fruta nativa do Brasil, originária da Mata Atlântica e muito desenvolvida em Minas Gerais. Para nós mineiros trata-se de uma árvore corriqueira; toda pessoa a conhece, o que já não acontece em outros Estados do Brasil. Não é muito espontânea no nordeste porque não é dada em climas muito secos.

Também não é comercial. Logo que colhida tem que ser consumida. Aliás, é de se saber que a jabuticaba é boa de ser chupada no pé. Além do mais, requer certo cuidado ao ser consumida, porque se trata de uma fruta cheia de caroços. E esses caroços depois que adentram o aparelho digestivo são congestionantes, ou seja, entulha os intestinos do ávido comilão que vem a pagar caro pelo descuido. Lembro-me, sempre, quando estou chupando jabuticaba, do meu pai dizendo: “cuidado menino isso intope”! E quantas vezes eu não me vi entupido quando era menino?...

Existem diversos espécies da frutinha brasileira, entre elas a miúda e a graúda; mais comum na nossa região... Não é aconselhável comer nenhuma delas com o caroço, mas a de qualidade graúda, se o cristão facilitar, o “congestionamento” é fatal.

Eu tenho uma amiga, Irmã de Caridade, vinda das Filipinas. - Veio prestar seus serviços religiosos em Lagoa da Prata. Ela não conhecia jabuticaba e ficou encantada com o pé florido e depois com as frutas... Ficou cheia de desejo de experimentá-las. E não se poupou. Diante da fartura só não comia a casca da fruta e essas eram daquelas de qualidade graúda e estavam bem graúdas. Ela comportando-se como uma sôfrega comilona, comia tanto com os olhos quanto com a boca.

Irmã Clara!... Que dó que eu tive dela!...Viu-se numa situação muito constrangedora. Recém chegada no Brasil, não sabia falar e nem entender a língua portuguesa. Entrou na jabuticaba com caroço e tudo. Depois foi aquele Deus-nos-acuda. Foi parar no hospital. E que vergonha coitada... É fácil de imaginar uma irmã de caridade entupida de caroço de jabuticaba, num país estranho, não entendendo quase nada e tomando um clister... Meu Deus! Isso deve ter sido um castigo...

No meu tempo de criança em Candeias haviam muitas casas fechadas e as frutas perdiam nos pomares. Os fazendeiros moravam na zona rural, mas tinham suas casas na cidade para as épocas de festas. Era uma situação muito diferente de hoje. Com os amigos do alheio que existem, se alguém deixasse uma casa fechada como se deixava antigamente, nos dias atuais, não encontrariam nem mesmo a casa no lugar. Mas, naquele tempo parecia que havia mais respeito e os ladrões não andavam tão à solta como hoje.

A meninada da cidade comumente pulava os muros a fim de associarem aos passarinhos, principalmente os sanhaços, em busca de frutas maduras. E eu, para não ser diferente, também fiz isso, quando quase morri ao cair de um pé de jabuticaba. Posteriormente com o esfrega que levei de Dona Julita, por causa das suas laranjas, eu nunca mais me arrisquei a entrar num pomar alheio. Aliás, como ladrão de frutas, nos quintais, eu não fui nada bem sucedido. Foram duas vezes... Foram dois fracassos...

A Rua Pedro Vieira de Azevedo, antigamente, chamada, Rua dos Capãos, era uma rua de poucas casas. Onde atualmente está edificada a casa do Wandinho Bonaccorsi, havia uma grande casa velha, de pau-a-pique, caindo e abandonada. Diziam tratar-se de propriedade dos Furtados ou do Dr. Renato Vieira. Tinha lá um pomar imenso que ia até ao córrego. Eram muitos pés de mangas, jabuticabeiras e laranjeiras abandonadas. E o que cercava tudo isso era apenas uma cerca caindo, feita de arame farpado. Assim não havia impedimento a quem lá fosse fazer a sua colheita sem autorização do dono.
Sabe-se que uma fruta do pomar do vizinho é mais doce... Mais madura, enfim, muito mais gostosa.

Eu tinha mais ou menos uns doze anos de idade quando estive nesse pomar em busca de jabuticaba. Eu e mais o Zé Eustáquio Alvarenga, meu cunhado falecido, marido de minha irmã Maria Amélia.

Nós éramos vizinhos e amigos. Fomos juntos e escondidos de nossos pais, chupar, no pé, as deliciosas frutas do alheio. Felizes da vida, bem nas grimpas da árvore, o galho quebra, eu e Zé Eustáquio caímos ao solo o que nos levou a ficar gritando por socorro. Ele com o braço quebrado e eu sentindo que as pernas haviam entrado no meu corpo. Com muito sacrifico conseguimos sair andando ele segurando o braço e eu quase que agachado envolvido por uma dor terrível.

Defronte dali, morava uma “dama” morena, um tipo esquisito de porte precário, cobrindo as suas farripas com um lenço cor de sujo; um baita cigarro de palha enfiado na boca já contando a quarta dentição e preta pelos malefícios do fumo. Devia ter uns setenta anos de idade e seus traços davam sinais claros de que a vida, em nenhum tempo lhe fizera jus ao apelido que recebera na juventude --- Izefa Beleza --- Trazia no seu visual o pecado de uma mariposa cuja luz foi um distinto senhor chamado Nascimento Cassiano, com quem vivia maritalmente. As pessoas temiam a ferina língua daquela vigilante do alheio como legítima representante de uma patuléia sem escrúpulos com o respeito privativo de uma pessoa de bem.

Ao lado do grande pomar da tapera, havia uma casa onde passa hoje um segmento da Rua João Sidney de Souza. Ali residia à família do Sr. Légio, um senhor vindo da vizinha cidade de Cristais, comerciante de galinhas quando, naquele tempo que não havia, ainda, o frango de granja. Sua esposa, Dona Nira, pessoa boníssima da qual guardo gratas recordações, foi quem nos socorreu levando água de sal e propondo providências se necessárias.

Ao sairmos defrontamos com aquela figura rara exposta na janela de sua residência. A casa dela ficava onde mora hoje a família do Senhor Roldão. Bem de frente ao cenário dramático começamos a ouvir, daquela bruaca, um falatório enquanto soltava baforada de cigarros. A velha mais parecia um preto velho num círculo de fogo recebendo um espírito mau.

“Eu sabia que um desses esfomeados ainda ia cair lá de cima. Parece que não tem comida em casa... Esses filhos sem pai e sem mãe... Esses degenerados. Parece que essa praga nunca viu fruta na vida... Esses diabos nem entopem... Eu chupo meia dúzia dessa desgraça e já estou entupida. Esses moleques chupa, chupa e não lhes acontece nada.”

Na hora tive raiva. Tive vontade de matá-la se me fosse possível. -- Deveria ter nos acudido ao invés de ficar ali falando todas aquelas coisas disparatadas.

Posteriormente, Izefa Beleza veio residir frente à casa de minha mãe e eu pude conhecê-la melhor. Não tinha amigos. Vivia só. Não recebia visitas... Era uma pessoa muito infeliz... E a infelicidade a fazia maldosa, revoltada por não ser honrada, revoltada por não ter filhos e por isso não gostava de filhos dos outros... Não conhecia o seio de uma família... Não conhecia o amor, pois nunca teria sido amada... Ela era simplesmente um produto do meio em que vivia e o seu meio não era bom... A solidão da velhice lhe causava medo. Para ela a solidão era a consciência da morte... E por estar encantoada pela idade, pelos males que lhe afligiam, pelo medo que lhe atormentava, falava de tudo e de todos e quando não tinha de quem falar falava de si mesmo. Izefa Beleza era o símbolo da tristeza. O mundo para ela era como se fosse uma lata de lixo do qual ela pertencia. Não tinha um sorriso para oferecer... Não recebia de ninguém uma palavra de alento... Não convivera com o bem, pois, nunca fizera por merecer... Porque não sabia como fazer... Terminou os seus dias junto de seus cachorros morrinhentos e que moravam dentro de casa.

Certa vez Izefa me pediu o favor de trocar uma lâmpada da sala de sua casa... E nesta oportunidade, num declínio de moral ela me disse: “É preferível cair de um prédio a cair na vida”. Ela não sabia que um dia teria demonstrado a mim toda a sua maldade... Lembrei-me do meu tombo da jabuticabeira... Pensei lhe perguntar, o que achava de cair de uma árvore, ao invés de cair na vida... Quis lhe perguntar se já teria visto alguém cair de uma jabuticabeira... Enfim quisera fermentar a sua consciência, mas desisti, achei melhor esquecer eu já não era mais um ladrão de jabuticaba e preferi perdoá-la do fundo do meu coração.

Onde quer que esteja Izefa, que Deus lhe abençoe...

Armando Melo de Castro
Candeias/Abril de 2010