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sábado, 28 de dezembro de 2013

HENRIQUE O BUFÃO..

Foto para ilustraçãoF do texto.

Quando me encontro em Candeias, observo sempre o quanto às coisas mudaram em comparação ao meu tempo de menino. Ao passar pela Rua Coronel João Afonso, minha memória retrata algum fato que me leva a um passado distante. Num tempo em que Juntava o atraso em que o mundo ainda se encontrava com a falta de expectativa vivida por Candeias. A bem da verdade vive até hoje, mas naquela época, sem dúvida, era bem pior. Não havia os meios de comunicação atuais. O transporte era precário. A saúde do povo deixava muito a desejar. A educação em Candeias era só o primário... Vivíamos a era da autodidaxia. Somente os mais aquinhoados conseguiam se formar. Enfim, o mundo era mais atrasado e o povo brasileiro era bem mais pobre.

Verifica-se que o mundo progrediu muito foi nos últimos cinqüenta anos. O meio de transporte dificultava muito a vida das pessoas. Uma viagem, por exemplo, de Candeias à Formiga demorava mais de duas horas se o trem cumprisse o horário normal. Mas isso era muito difícil. Raramente andava na hora certa. Além do mais o desconforto naqueles trens, então chamados de “Maria Fumaça”, causados pela fumaça e o carvão procedentes da caldeira dessas locomotivas deixavam os passageiros parecidos com porteiros de hulheira. Era terrível... Os viajantes usavam, naquele tempo, os tais guarda-pós, um tipo de jaleco para se proteger da fumaça e da fuligem, e, nas jardineiras para se proteger da poeira.

O transporte rodoviário contava apenas com uma pequena jardineira do Antonio do Eurides, irmão do Euridinho, casado com a Luci do Zé Chorão. Era um pequeno coletivo cuja lotação não superava a conta das quinze pessoas; e fazia a linha Campo Belo Formiga, passando pela usina do Bonaccorsi, Baiões, etc. Telefone não havia. Só se via esses aparelhos nos filmes americanos. Televisão? Se alguém contasse que teria visto uma televisão era questionado com toda minudência. Meu avô esteve em São Paulo, no ano de 1954, quando foi fazer uma cirurgia, e voltou de lá contando que havia visto uma televisão no Hospital e com isso teve assunto por muito tempo. Dizia ele que os internados do interior olhavam atrás da televisão... Atrás da parede, a fim de decifrar o mistério da coisa.

E nesse cenário de vida, havia os estafetas e mandaletes. Eu mesmo fui mandalete. Entreguei carta em fazendas, quando menino, para ganhar uns trocados. Era a única forma de um roceiro receber uma correspondência da cidade. Não havia caminhões leiteiros e nem o transito que existe hoje. O homem do campo ficava mês sem vir à cidade. E o meio de transporte eram cavalos, burros etc. Muitos ficavam até um ano sem vir na paróquia e vinham apenas em época de semana santa. ---Assim sendo quero relembrar aqui o estafeta particular: HENRIQUE SOTERO.

 Este homem conhecia todas as cidades ao redor de Candeias pelos seus serviços de entrega de encomendas e cartas. Ia sempre a Oliveira levar cartas e encomendas para o Bispo a mando do Monsenhor Castro, então, Padre Joaquim. Itapecerica, Camacho, Cristais, São Francisco e muitas outras localidades onde não havia transporte direto, ia lá o Henrique, montado em sua bicicleta Phillips ou a pé empurrando o seu carrinho de mão. Quando a encomenda era com urgência, ele viajava a noite inteira. Não tinha medo. Vivia bazofiando-se da sua coragem e da competência para entregar uma encomenda. Era o Sedex da época. Os serviços do correio não eram confiáveis.

 O Henrique Sotero morava apenas com a sua mulher Maria e o cachorro Lírio. Era um animal mestiço. Uma espécie de cão de fila com perdigueiro; amarelado e trazia pendurado no pescoço um pequeno cincerro Esse cachorro era o filho, o neto, o sobrinho, enfim: o Lírio era tratado como se fosse prole daquela família. Comia no prato – dentro da cozinha – como se fosse gente. Era tratado de “fifio” pela mulher do Henrique, “Maria do Rique” como era chamada. ”Quando o Lírio morreu, houve cerimonial fúnebre. Chegaram a pensar em enterrá-lo no cemitério, como isso foi impossível, fizeram para ele um túmulo no fundo do quintal e sobre o qual cravaram uma cruz. A cruz... símbolo da remissão do pecador cristão que ocupa o primeiro lugar na escala evolutiva da zoologia, ou seja, o homem... Ali colocada sobre a cova de um irracional de propriedade de um casal tipo herege sabeliano. Com persignação e tudo mais que um animal racional por vezes não tem. (Durma-se com um barulho desses)

Morador a quatro casas abaixo da minha, ficava normalmente de cócoras na porta de sua casa. Como ele não tinha filhos, gostava muito da meninada. Na minha rua e no quarteirão, havia muitos meninos: Zé Branco, Tião Babão, Zé, Chico, Tião, Vicente e Bento, todos do Arlindo Arlindo Barrilinho, Ademir do Erasto, Vicente do Tio João e muitos outros que no momento me falha a memória. Se somar todos dá uma verdadeira platéia para um espetáculo de circo. Isso é o que acontecia constantemente na porta da casa do Henrique Sotero que era um verdadeiro bufão. E a sua grande fama era de peidorreiro. Estava sempre a dizer: --- Certa vez dei quarenta peidos --- À tarde, na porta de sua casa, via-se sempre uma aglomeração de crianças da vizinhança. E ele apesar de não ter a cara muito boa era muito engraçado. Gostava de fazer perguntas para a meninada. Contar mentiras como, por exemplo: falar que tinha sido grande jogador de futebol e que teria voado de avião o qual teria caído e apenas ele se salvado... Que já teria sido artista de circo. Fazia algumas mágicas cujos truques eram percebíveis pela garotada. Mas o forte dele era peidar ruidosamente ali na porta da rua, passasse quem passasse por ali.

 As mulheres sempre iam pelo outro lado da rua para não passar pelo vexame de vê-lo soltar as suas ostentações ruidosas, ou seja, os seus flatos sonoros de forma descarada fazendo com que a pessoa ficasse numa situação de constrangimento. Mas, com a meninada era diferente. Ele se punha de pé à sua porta e os meninos logo gritavam: “Sô Henrique e os peidos?” – E ele dizia mostrando os seus dois dentes de ouro: --- Ôceis gosta de peido hem cambada de cambuquira!---. Começava o espetáculo e ele já dizia apontando o dedo indicador: -- Esse menino grandão ai, esse é procê: PUNNNNNNNNNNNNN – Agora vai um para esse menino piquitito ai: apontava o dedo indicador e: PIUNNNIIIINNNN. Conforme era o tamanho do menino era o tamanho do peido. Parecia que tinha uma corneta acoplada ao ânus.. Soltava um para cada menino. E se a Maria, mulher dele, chegasse por perto e falasse alguma coisa ele dizia: esse é procê Maria: PUNHINFUINNNNNNNNNNNNN. E a Maria saia depressa dali. Ai é que a coisa ficava mesmo engraçada e a meninada quase morria de tanto rir. Ele não ria e fazia isso com a cara fechada “No finalzinho falava: Agora turma de cambuquira lá vai o miado do gato: PUNHHHHHHHHHHAAAAAAAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUU!!!

 Certa vez, a Neli Furtado, então freguesa do Vicente Vilela, próximo dali, ia passando quando o Henrique soltou um fumegante em forma de toque de corneta.. E ela com os seus sapatos de salto alto, numa rua então sem calçamento, ao adiantar o passo para fugir do vexame, ia caindo de solavanco e foi salva pelo Geraldo do Orcilino que estava próximo e a salvou de uma vergonha maior. E nessa hora o Henrique não ficou sem fazer o seu comentário sucinto:“Viu só? A muié virou um peido”.E ela nunca mais se transitou pela porta do Estafeta Bufão.

 Era muito bom ser uma cambuquira da vida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

MEU IDOLO NILTON SANTOS.


Nilton Santos

Tecnicamente, eu entendo muito pouco sobre futebol. Para que eu pudesse confirmar a existência de um impedimento, por exemplo, seria necessário que os jogadores parassem por um momento em suas posições. Eu sou daqueles que vê o bandeirinha, mas, que não vê o árbitro. Vejo o jogador, entretanto, não vejo a falta. Vejo a cor da camisa, todavia, não vejo o número. Sei se o jogador é negro ou branco. Contudo, não consigo dar um grito na hora de um gol, mesmo que seja da seleção brasileira.

Ao começar a assistir um jogo de futebol que não seja do Botafogo, pela televisão, saio, vou à cozinha procurar algo para comer e, às vezes, até esqueço do jogo. Não gosto de ir aos estádios. Constato que o ser humano vira um bicho, um animal irracional quando entra em um estádio de futebol. Penso nisso desde quando vi um professor, muito educado, perder toda a educação dentro de um estádio; já vi um padre perder a compostura; já presenciei um machão sair correndo com muito medo após uma áspera discussão e até um gay virar macho, botando para quebrar. Vi todas essas pessoas se transformarem dentro de um campo de futebol, gritando e falando coisas que jamais falariam fora dali.

Porém, com toda essa ignorância futebolística, eu posso dizer que gosto muito do esporte. A experiência me mostrou que as pessoas se tornam torcedores de um time quando criança. A gente aprende a gostar de futebol é no verdor dos anos. É raro ver uma pessoa falar que não gosta sequer um pouco, um pouquinho de futebol. E se isso acontece, pode-se atestar que essa pessoa não teve qualquer convivência com esse esporte em sua infância, tratando-se, assim, de alguém com um comportamento fora dos padrões normais, eu diria do padrão nacional.

O futebol é paixão, é emoção, é vitória e, obviamente, é derrota. É alegria e tristeza; é amor e ódio. O futebol é uma cervejinha gelada, é uma dose de cachaça, é um grito de alegria e é uma lágrima de tristeza. Futebol é fanatismo, é doença; é um coração embalado sem medo de parar e é uma vontade de matar ou de beijar. Futebol é uma brincadeira para todas as idades.

Antes de 1958, o único contato que eu tinha com o futebol era através do meu querido Rio Branco Futebol Clube de Candeias. Era o time cujo estádio ficava próximo a minha casa, na Rua Coronel João Afonso. Meu pai foi jogador desse clube e eu nasci convivendo com ele. O Rio Branco foi o primeiro momento do futebol com o qual convivi. Ele entrou pelos meus olhos, foi para o coração e lá se encontra até hoje. Apesar do time ainda existir com um estádio bem arrumado e bem colocado, contudo, é praticamente inoperante. Mas, isso já me faz feliz porque alimenta, constantemente, as minhas lembranças.

A partir de 1958, com a vitória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Suécia, o futebol brasileiro teve um impulso muito grande, principalmente, ao exterminar o triste complexo de vira-latas definido, assim, por Nélson Rodrigues na traumática derrota, em 1950, na primeira Copa do Mundo disputada em solo brasileiro. Após a vitória na Suécia, houve, na minha rua, uma febre da meninada para comprar os álbuns de figurinhas que surgiam naquele momento. Os times que forneceram jogadores para a seleção, com certeza, ganharam muitos torcedores mirins.

Na década de 50 e início de 60, o Botafogo atravessava a chamada fase de ouro. Era o time que mais fornecia jogadores para a Seleção brasileira. Garrincha, Nilton Santos, Didi, Manga, Quarentinha, Paulo Valentim, Carlos Roberto, Roberto Miranda, Gerson, Jairzinho, Zagalo, Amarildo, Sebastião Leônidas, Paulo César Caju, Rogério, sem esquecer que Garrincha, Nilton Santos e Didi eram considerados incontestáveis gênios do futebol.

Nesta minha ignorância futebolística, e considerando também, a constante alteração tática das equipes, eu misturo as posições dos jogadores e confesso que mal consigo me lembrar das posições dos jogadores pentacampeões. Todavia, existem duas posições de dois jogadores que eu jamais esquecerei. A posição de ponta direita, apesar de extinta, deveria ter sido mudada para “Garrincha” e a de lateral esquerda para “Nilton Santos”. A crônica mundial afirma que os dois foram os melhores do mundo nas suas posições. Quaisquer pesquisas provam e comprovam, a quem se interessar e quiser tirar a dúvida: Garrincha, “A alegria do Povo” e Nilton Santos, “ A enciclopédia do futebol” foram os melhores do mundo, nas suas posições, em todos os tempos. Foram eles os dois jogadores que mais vestiram a camisa do Botafogo. Nilton Santos, 721 vezes e Garrincha, 612.
E é por isso que coloquei o Botafogo dentro do meu coração. Eu não sou fanático. Se o Botafogo for para a segunda, terceira, quarta, quinta, até sexta divisão, caso existisse, eu iria junto, assim como fui junto para a várzea futebolística de Candeias com o Rio Branco.

Semana passada, um dos meus ídolos foi para o céu, junto de Deus. Uma das maiores figuras de todos os tempos do futebol mundial. Aquele que revolucionou a sua posição em campo. Nilton Santos morreu aos 88 anos. O Brasil ficou, mais uma vez, mais pobre de gênios. Os botafoguenses históricos estão chorando a sua morte. Concluo que, realmente, eu não gosto muito de futebol. Acho que eu gosto mesmo é do Botafogo e de sua riquíssima história. Talvez, eu seja o mais humilde de todos os torcedores do Botafogo, entretanto, quero render, também, a minha simples homenagem a ele.

Creio que não vou lamentar a morte do Nilton Santos cujo nome exaltei a vida inteira. Quero apenas felicitá-lo pelas alegrias que deu ao povo brasileiro com a arte de seu futebol, pela dignidade com que serviu ao esporte e, com certeza, estará lá no céu no mesmo aposento que o seu colega, amigo e compadre, Mané Garrincha. E, nesta oportunidade, tão relevante para mim, dou-me o direito de roubar uma frase da crônica de Carlos Drumond de Andrade feita para Garrincha, por ocasião de sua morte, em 1983: 

Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é, sobretudo, irônico e farsante e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo que nos alimente o sonho.

“Não há outro Nilton Santos disponível, precisa-se de um novo que nos alimente o sonho.”

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos



terça-feira, 26 de novembro de 2013

COMO GANHAR DINHEIRO NO JOGO DO BICHO.


Foto para ilustração do texto.

Ao passar defronte a uma casa lotérica, eu pude observar uma eufórica aglomeração enfileirada com o intuito de apostar na megasena, sonhando em conquistar o valoroso prêmio acumulado. E, ali mesmo, já era fácil ouvir os projetos de vida futura das pessoas que tencionavam ganhar o prémio que rodava em torno de oitenta milhões de reais. Assim ouvi, quando um cidadão dentro de uma fisiológica sensação de bem estar, disse: 
“Se eu ganhar, eu ajudarei os pobres e necessitados. Ao morrer, vou deixar todo o meu povo bem rico.”

Já que tudo neste mundo faz parte da criação divina, eu acho que Deus, ao inspirar o homem a jogar, quis dar a ele a ilusão, a esperança, o desejo, quem sabe, de ter algo aparentemente feliz a fim de que este pudesse sonhar de olhos abertos e, assim, realizar os desejos que a ambição lhe confere.

Quando o premio de loteria fica acumulado, gente que nunca jogou joga na esperança de realizar um sonho impossível. Mas, na verdade, quem realiza o sonho é apenas uma pessoa ou um pouco mais. E aqueles que jogaram, sonharam em um curto espaço de tempo. As pessoas não compram bilhete de loteria, elas compram uma ilusão, a esperança de se ver nadando no ouro, fazendo o bem ou fazendo o mal. Há muitos que ganharam e não souberam lidar com o dinheiro e acabaram se dando bem mal. Sempre temos notícias de pessoas que ganharam, ficaram muito ricas e voltaram, rapidamente, a ser pobres. 
Certa vez, o Mozart Sidney me disse que o dinheiro não tolera desaforos nem pouco caso. E quem o tem com fartura pode ser que faça isso.

Viver não é fácil. Todo mundo sabe disso. O pobre pensa que a vida do rico é boa, enquanto muito rico daria tudo para viver uma determinada paz que pertence a um pobre. A verdade é que ninguém está plenamente satisfeito. O poeta, Vicente de Carvalho, disse muito bem que a felicidade esta onde a pomos, mas nós nunca a pomos onde estamos.
O jogo, naturalmente, é a rota mais fácil de chegar à riqueza, remediar ou ganhar algum dinheiro sem muito sacrifício. Na verdade, aquele que joga está atrás de facilidade para por a mão no vil metal precioso. Todavia, existem diversas outras trilhas que, também, levam o tiro a sair pela culatra. E para que isso não aconteça, é preciso ter sorte e muita fé.

O sonho de todo jogador é ter o poder de adivinhar os números da sorte ou uma forma de saber o resultado de um jogo antes de proceder à aposta. O jogo do bicho é o jogo de maior acessibilidade às pessoas. Nele, jogam os idosos, os jovens, as mulheres e os homens, enfim, todo mundo faz a sua fezinha por causa do relacionamento do homem com os bichos e por ser de fácil entendimento.

João Passatempo foi um candeense cambista do jogo de bicho e vendedor de bilhetes de loteria. Era um idoso alto, magro, barbeado, cabeça coberta por um chapéu da aba estreita, friorento, mesmo no calor estava com um cachecol enroscado no pescoço. Vivia dizendo que não comia marmelada de lata porque era feita de puro chuchu. Dizia, também, que se deixasse uma lâmpada acessa em meio a uma laranjeira, com certeza, ela daria frutas fora do tempo. Dizia ainda que a Bíblia Sagrada estava toda errada. Certa vez, eu o ouvi dando ênfase a esse comentário:

---Onde já se viu gente! Jesus Cristo ter ficado quarenta dias e quarenta noites sem ‘cumer’? Só foi sinti fome dispois desse jijum? E eu vou acreditá nisso? Ele era santo, mais era home, uai!... Ele pudia tê murrido de fome. E o diabo oferecendo terra prá ele? Ele num era o fio do dono? (Mateus 4:l.3)”

João Passatempo disse, em determinada época, que teria inventado um jeito fácil de ganhar no bicho, mas, que ensinaria apenas a quem jogasse com ele. Numa roda de fregueses jogadores, ele explanou a sua ideia de forma restrita, pois o banqueiro, Altamiro Guimarães, não poderia, jamais, tomar conhecimento da grande descoberta.

--- Óh, gente! Eu vô insiná proceis, mais boca de siri, hein! Se arguém discubri a minha invenção, eu vô sabê que saiu doceis. E aí, a vaca vai pu brejo e ninguém ganha nada. Esse jeito qui eu inventei de ganhá no bicho eu divia ficá quêle só prá mim, mais, como oceis é tudo meu amigo, eu tô insinano. Mais oceis tem que jugá cumigo. O jeito é esse: Tem vinte e cinco bicho, num tem? Intão parte com o bichero, o Miro. (Miro era o banqueiro) Joga 12 e dexa 13 prá ele. E eu quero vê se ele vai ganhá muito igual ganha... Cê perde num dia, mais ganha no ôto, ou intão, joga só nos bicho de pena e dexa os de coro, ou intão, joga só nos de asa. Ninguém vai perdê, eu passei muito tempo estudando e martelano isso na minha cabeça e quero passá pá todo mundo. Eu, além de passatempo, passo pus otos sabiduria tamém.
“O insensato não tem discrição; só quer espalhar o que pensa.” (Pr 18:1)

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos MG.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

DINHEIRO, O MELHOR REMÉDIO.

Foto para ilustração do texto.


Na semana passada, eu fui à farmácia com o intuito de comprar uma pomada à base decetoconazol que inclui, entre outras, a Betricort e a Novacorte. O medicamento é, costumeiramente, indicado para as afecções de pele nas ações anti-inflamatórias. É muito usado para os pequenos cortes domésticos.

Há anos, eu uso esse remédio sem qualquer problema. Todavia, ao compra-lo, me exigiram, na farmácia, uma receita médica para a sua venda. Alegam que se trata de um antibiótico e que, de acordo com as regras vigentes, doravante, somente poderá ser vendido com tal documento. Diversos medicamentos que eram vendidos sem receita passaram a ser comercializados, atualmente, com a sua apresentação.

Eu fico pensando que as pessoas que criam as regras, as normas, as leis neste país se encontram extremamente sem ter o que fazer e, assim, passam a inventar diversas aberrações que apenas dificultam a vida da maioria sofrida e indefesa da população. Mas, é claro que na realidade, eles têm sim o que fazer: defender a classe economicamente mais forte do país evidenciando, assim, o descompasso da justiça social brasileira. 

Chego à conclusão óbvia, por sinal, que todo ato que muda a vida em geral da população, pela via legal, sempre tem o implícito desejo de favorecer a uma minoria representada por corporações, instituições e classes cada vez mais preocupadas com o próprio umbigo, ou melhor, com o próprio bolso. Parece até que uma receita médica é de graça e que nos postos de saúde estão distribuindo-as à vontade para quem delas necessita. É muito fácil exigir uma receita médica. Parece que o médico vai para a casa do doente vigiar se ele tomará o remédio. Pelo que vejo, no futuro irão exigir receita médica para vender melhoral.

A todo momento, estão aparecendo com um velho remédio que dizem fazer mal à saúde, após esse medicamento já estar no mercado há muitos anos. Isso quer dizer que aqueles que o inventaram, distribuíram e venderam no mercado foram, claramente, irresponsáveis e, agora, aqueles que o controlam, o proíbem são os competentes? Engana-me que eu gosto, dirão muitos. 

Esses cartéis que se formam no Brasil causa nojo a uma pessoa lúcida. Depois que o medicamento já foi vendido durante anos e anos, vem uma ordem proibir a venda sem uma receita. Um medicamento, além de custar os olhos da cara, deve-se prescindir de um documento burocrático para ser vendido. Em relação a alguns remédios tal exigência é até compreensível, agora, quanto a uns remédios que apenas curam pequenos ferimentos na pele, depois de já estarem sendo usados há anos, é muito, mas muito estranho. Enquanto proíbe-se o remédio sem receita, nada é feito para ser facilitada a aquisição desta.

Será que esses cidadãos parlamentares ou responsávaeis por instituições que regulam essas leis ou regras sabem o quanto custa uma receita médica? Será que eles sabem das dificuldades, neste sofrível país, para se conseguir uma consulta pelo SUS? Forma-se um médico por uma Faculdade Federal sem que esse venha a ter qualquer compromisso monetário com a sociedade que custeou os seus estudos. Cobram um preço exorbitante por uma consulta, arrancando os olhos da cara do povo. 

Medicina no Brasil, atualmente, é sinônimo de riqueza. Tenho visto, constantemente, por aí, muitos jovens comentando que vão estudar medicina porque serão ricos. E é verdade. Uma lamentável verdade. Serão mesmo ricos porque vão pertencer a um cartel sem dó e sem piedade. O SUS não funciona. Os planos de saúde não funcionam como deveriam. A única situação que funciona é o “particular” e, nesse caso, somente para os endinheirados, os poucos privilegiados desta sociedade cada vez mais desigual. E agora para comprar um medicamento de $ 20,00 querem uma receita de R$ 200,00. Esse é o nosso país. O país das contradições, das injustiças. Esse é o país administrado por ladrões que só fazem leis que protegem os ricos, os aquinhoados.

Nos plantões dos hospitais ou nos postos de saúde, o povo mal consegue uma receita para os remédios controlados. Atendimento precário. Uma sobrinha minha, em Formiga, acudida por um acidente de moto, foi levada ao hospital cujo médico plantonista costurou-lhe a ferida de sua perna com areia dentro. Por pouco a moça não perdeu a perna, contudo, ficou com sequelas. E isso acontece todo dia na classe mais humilde.

Recentemente, eu li um artigo de um médico pelo qual dizia que, hoje em dia, é muito fácil achar quem tenha problemas para evacuar ou sinta que não vai ao banheiro tantas vezes quanto deveria ou gostaria de ir.

Eu achei inusitado quando li o alerta do médico dizendo que o nosso intestino tem um ritmo que avisa o momento da evacuação e, se este aviso não for seguido, talvez, somente voltaria a acontecer no dia seguinte. "Assim, perdemos aquele dia de evacuação. No dia seguinte, as fezes estarão mais ressecadas e teremos maior dificuldade para a evacuação", afirma ele:  Nestes casos, as mulheres são as que mais sofrem, pois têm muita dificuldade em ir ao banheiro fora de casa e o referido médico recomenda aos leitores do referido artigo que evitem comidas pobres em fibras, como as vendidas em fast-foods e de produtos industrializados, pois aumentam ainda mais o problema. As fibras são essenciais para o bom funcionamento intestinal e, finalmente, teceu uma dieta que somente os ricos e bem ricos poderiam seguir.

Parece que os médicos se esquecem que nós estamos no Brasil, um país de gente pobre e de médicos ricos. É chique cobrar caro por uma receita, isso valoriza o médico no seu entender. Enquanto o SUS lhes paga menos de $15,00 por uma consulta, um particular tem que pagar por $300,00. Enquanto morrem os pobres nos corredores. E a culpa acaba somente sobre o governo. Afinal, Onde está o juramento de Hipócrates? A bem da verdade o juramento de médico chega ser de hipócrita, enquanto os pobres estão vendendo o nariz para comprar pó, vendendo o pé para comprar sapato e aí, vem um médico elitista recomendar hora para “cagar” e sugerir uma dieta com coisas que essas pessoas nem nunca ouviram falar. Custam-lhes comer macarrão.

Recentemente, eu ouvi o Valdomiro Santiago, o líder da Igreja Mundial do Poder de "Adeus", aquele que pede para os seus seguidores um dízimo de R$300,00, dizer, em uma entrevista, que muitos médicos não dão conta de curar os seus enfermos e estão o recomendando porque na sua igreja acontece milagre de toda ordem. Pelo que vejo, Valdomiro tem a procuração de Deus e de Jesus Cristo para curar. Todavia, ele cobra caro.

Eu acho que os médicos e os religiosos deveriam ser mais piedosos, mais humanos e mais complacentes. Afinal de contas, deveriam pensar menos no dinheiro e um pouco mais na missão que Deus lhes confiou.

É lamentável, deveras lamentável.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

UM HERÓI CANDEENSE.














Sr. Leonidas Macedo Filho, diante do monumento em sua homenagem e de seus colegas ex-combatentes na Segunda Guerra Mundial.

 Neste dia de finados de 2013, que se aproxima, eu quero, numa deferência especial, lembrar um ­­­­ conterrâneo e amigo dos mais ilustres filhos do nosso município. Trata-se do ex-combatente, integrante da FEB - Força Expedicionária Brasileira - que atuou nos campos da Itália durante a Segunda Guerra Mundial: o Sr. Leônidas Macedo Filho que faleceu no último mês de janeiro, após 92 anos de uma vida digna, vitoriosa e que muito honra os anais da história de nossa cidade.

Dos 25.334 pracinhas brasileiros enviados pela FEB à Itália, treze eram de Candeias. Desses, 443 não voltaram sendo dois candeenses. Dos onze que voltaram a nossa terra, muitos deles trouxeram consigo as marcas de uma guerra que os olhos não vêem. Doença mental, traumas, depressão e dificuldade de ambientação. Não é difícil para ninguém imaginar que jovens humildes, nascidos no seio de famílias religiosas, se viram, de repente, no centro de uma grande guerra mundial com as suas terríveis conseqüências. Assim, essas pessoas que tiveram a maior recepção da história, durante o retorno para a casa, somam hoje em torno de 2000 mil pessoas, 2000 heróis. Em Candeias, por exemplo, resta apenas um. Trata-se do Sr. João Sidney de Sousa Filho, residente na cidade de Campos Altos, coincidentemente, primo do Sr. Leônidas.

Neste momento, em que lamento a partida de um herói candeense, Leônidas Macedo Filho, cumpre-me lamentar, também, a miopia da política social dos governantes de nossa cidade. Uma política sem calendário social, sem um pingo de preocupação com a história do município e, muito menos, com os seus vultos. E o pior que isso vem acontecendo é de pouco tempo para cá porque, no passado, demonstrava-se mais respeito, mais cuidado e mais atenção com a construção cívica da história do nosso município. Afinal, um povo sem memória é um povo sem futuro. O futuro, com certeza, será construído sobre o presente que tem por base o passado.

Os pracinhas que outrora desfilavam nas paradas do dia da cidade, eram chamados aos palanques, davam palestras para os estudantes, ainda em boa idade. Todavia, começaram a ser esquecidos pelos governantes candeenses mais recentes. O serviço social municipal de Candeias encontra-se cego para uma questão histórica tão relevante. Ressaltar o nome dos ex-combatentes da guerra seria um dever, entretanto, nenhuma homenagem, nenhuma informação, nenhum contato, nenhum respeito deram por merecer aos nossos pracinhas nos últimos anos. O que demonstra, sem dúvida, a grande falta de sensibilidade e o pior, de civismo de nossas autoridades municipais.

Abaixo, está parte do currículo do Sr. Leônidas Macedo Filho. Um homem que orgulha a cidade de Campos Altos, terra que lhe acolheu como filho e que lhe dispensou todas as honras merecidas. Afinal, Leônidas não era somente um nome candeense, mas sim um nome brasileiro com representação internacional.

Resumo de uma pequena parte da história de Leônidas Macedo Filho que me fora fornecida pelo seu filho, Sr. Marcelo Macedo.

Em 20/03/1921 nasceu em Candeias/MG; Filho de Leonidas Macedo e Dona Julita Lamounier Macedo. 
 Neto do Coronel João Afonso Lamounier, figura expressiva da história de Candeias.  Teve três irmãos, dos quais dois falecidos. Felizmente, entre nós o Sr. Antonio Macedo, seu irmão caçula.

Em 1933, com apenas 12 anos de idade, mudou-se para a cidade de Patrocínio e trabalhou como comerciário na Casa Moraes;

Em 1941, apresentou-se, voluntariamente, às Forças Armadas sendo admitido no 11° RI em São João Del Rey-MG;

Em 1942, assumiu o cargo de Sargento Contador da Tesouraria;

Em 16/06/1944, embarcou, voluntariamente, para guerra em solo italiano, no 1° Escalão de Tropas da FEB;

Em 07/1944, desembarcou no porto de Nápoles, Itália;

Em 08/1944, fez parte da comitiva que entregou ao Vaticano duzentas mil sacas de café doadas pelo governo brasileiro e participou de audiência na qual os pracinhas foram recebidos e abençoados pela Sua Santidade, o Papa Pio XII;

Em 12/1944, no auge da guerra, foi promovido, por merecimento, a 2° Sargento do Exército Brasileiro;

Em julho/1945, retornou ao Brasil a bordo do “USS General Meigs”;

Em julho/1945, foi licenciado do Serviço Militar sob os cumprimentos do Cel. Floriano de Lima Brynner;

Em 1946, foi eleito Secretário do Diretório da UDN em Candeias/MG;

Em abril/1946, foi condecorado pelo Governo Brasileiro com a Medalha de Campanha por haver participado de operações de guerra na Itália sem nenhuma nota desabonadora;

Em maio/1947, foi condecorado pelo Governo Brasileiro com a Medalha de Guerra de 1ª classe por haver colaborado no esforço de guerra do Brasil na gloriosa campanha da Itália;

Em 1949, mudou-se para a cidade de Campos Altos/MG, onde constituiu a empresa Auto Peças Camposaltense Ltda e se estabeleceu, pioneiramente, no comércio de Auto Peças e Serviços;

Em 1950, casou com Maria de Lourdes Resende Macedo;

Em 1951, foi eleito vice-presidente da UDN em Campos Altos/MG;

Em 1963, foi homenageado pela Prefeitura de Candeias/MG que erigiu monumento aos expedicionários da FEB candeenses na gloriosa campanha da Itália;

Em 1964, foi eleito presidente da UDN em Campos Altos;

Em 1966, foi eleito vereador e, em duas legislaturas, presidiu a Câmara Municipal em Campos Altos/MG;

Em 1969, foi o presidente fundador e o primeiro eleito do Rotary Club de Campos Altos;

Em 1970, foi eleito e exerceu o mandato reduzido de apenas dois anos de prefeito municipal de Campos Altos/MG;

Em 1980, foi fundador e eleito, por dois períodos, presidente do PDS em Campos Altos/MG;

Em 1980, já aposentado por tempo de serviço, adquiriu gleba de terra e iniciou nova atividade no cultivo de café;

Em 1988, afastou-se, definitivamente, da política e dedicou-se ao cultivo de café recebendo, nos últimos 30 anos, dezenas de homenagens e honrarias.
(cidadão benemérito e honorário de Campos Altos/MG, recebendo Medalha de Prata pelo cinqüentenário da cidade/ cidadão honorário de Montese, na Itália/ pelo Rotary Clube: sócio honorário, presidente de honra, Comenda “Paul Harris” e nome do segundo marco rotário/ pela Maçonaria: Comenda “Ordem da Águia”/
pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais: proposição do Desembargador José Afrânio Vilela homenagem da 2ª câmara civil pelo 90º aniversário)

Em 08/09/2011, foi objeto de palestra e homenagem da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra - Delegacias Araguari e Uberlândia;

Em 26/07/2012, foi reverenciado com toques de presença (clarim) e exórdio (banda de música) nas comemorações do 50º aniversário do 36º BI Mtz. Uberlândia-MG;

Em 06/01/2013, pouco antes de completar 92 anos de idade, faleceu sendo foi velado e homenageado nos salões nobres do Rotary Club e da Câmara Municipal de Campos Altos onde foi sepultado;

Em 04/07/2013, deu nome à cadeira do presidente e a comenda instituída pelo Rotary Club de Campos Altos para reconhecer anualmente autor de relevantes serviços prestados à cidade.

 Finalizando, eu tenho o dever de reiterar o quanto é lamentável o despreparo cívico dos políticos de Candeias ao deixarem de reconhecer pessoas da importância e da envergadura moral como o Sr. Leônidas Macedo Filho.

 Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos.

NB) A História completa do Sr. Leonidas Macedo Filho, encontra-se na internet sob os cuidados do Seu filho Sr. Marcelo Macedo.









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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O MENTIROSO.

Foto para ilustração do texto.

Bené do Cirino nasceu em algum lugar no Bairro da Gruta na cidade de Candeias. Foi considerado, em seu tempo, por seus amigos, o homem mais mentiroso do Brasil. Ninguém acreditava em uma só palavra do que ele dizia. As pessoas gostavam de conversar com o ele para ver a criatividade de sua mente que gerava mentiras recheadas de detalhes as quais levavam o ouvinte novato a se parecer com uma lebre de frente a um lobo faminto ou, melhor dizendo, fazendo-lhe vítima de uma crença perversa. 

De estatura mediana, forte, meio calvo, boca grande, dentuço e, quando ria, parecia que havia uma serra articulada na boca. Portanto, ao mastigar e articular sua boca, parecia uma tremonha que transformaria uma rapadura dura em pó. Era do tipo enrolado. Como diz o jargão popular: "Mais enrolado do que pau de fumo". Não parava em serviço algum. Foi servente de pedreiro, capinador, apanhador de café, ajudante de caminhão e mais uma série de serviços. O que aparecia na frente, ele fazia. Apesar de ser considerado um homem trabalhador, era sem persistência. Não sabia esquentar o lugar no qual estava. E, assim, acabou levado, por um de seus filhos, para a cidade de Ferraz de Vasconcelos no Estado de São Paulo. Por lá morreu e foi enterrado. Foi casado com uma parenta de Dona Candinha que era uma curandeira espiritualista em Candeias sendo que muitos a tinham por feiticeira.

Zé Barbeiro foi um barbeiro de meia tesoura, morador da Rua Coronel João Afonso. Seu salão ficava situado onde se encontra, atualmente, a residência da Marisa, filha do Milton Alves. Um solteirão desses que a gente não sabe o porquê de não ter se casado. Se, se foi por isso ou por aquilo, ou ainda, por não gostar “daquilo”. Um cidadão um tanto esquisito, desses que ao ser contrariado dá chiliques e usa e abusa de trejeitos. Possuía uma voz mole, bem preguiçosa. Cabelinho bem aparado, barbinha bem escanhoada, sapato bem engraxadinho, dentes bem escovadinhos, unhas bem cuidadinhas e um passo bastante balangado. A média de dias em que cortava o cabelo e fazia a barba não passava de dois. E ele ficava o dia todo empanado em um jaleco branco, todo alvejado, parecendo um enfermeiro de uma clínica de luxo. Gostava muito de prosear com a rapaziadinha. Para mim, particularmente, o Zé barbeiro era o Zezé daquela música carnavalesca:“Olha a cabeleira do Zezé”. Para ser mais claro, ele era um autêntico pederasta encuviado ou, melhor dizendo, encubado.

No natal de 1959, Zé Barbeiro ganhou um leitão do seu padrinho fazendeiro. Naturalmente, o porquinho lhe foi presenteado para ser comido assado durante as festas. Era um gesto comum, naquele tempo, o povo da roça dar um leitão ou um frango de presente para um amigo ou afilhado da cidade. Todavia, o barbeiro inventou de dar o porquinho à meia para ser engordado. Como regra, ele entregaria o animal a alguém para criá-lo e o criador, naturalmente, lhe devolveria metade do bicho por ocasião do abatimento. E para tal sociedade, Zé Barbeiro convidou o Bené do Cirino, a quem não se conhecia muito bem sem ter, consequentemente, conhecimento também de ser um especialista em mentiras, enrolado e grande militante na arte da enganação. Esse tipo de sociedade costumava dar em briga na hora da partilha, ou seja, um queria um determinado corte do porco que o outro, por sua vez, também o tinha como preferência. E o criador do porco sempre levava a vantagem na óptica do dono do animal.

Bené, que não enjeitava nada, aceitou de cara o que lhe seria um grande negócio. Naquela época, era normal as pessoas criarem porcos na cidade, em chiqueiros de seus quintais. Isso gerava muito problema porque o mau cheiro incomodava os vizinhos e muitos viviam em litígio por causa da criação de porcos neste estilo até que uma lei foi feita para acabar com essa prática. Contudo, até então, um chiqueiro em um quintal era coisa comum e sempre se encontrava de preferência um suíno caruncho ou piau sendo criado de forma bem doméstica. Era uma peleja criar um porquinho em casa, todavia, quando o matava era uma festa que começava com o choro do bicho de madrugada na hora da morte. A vizinhança que ajuntava à lavagem já ficava na expectativa da dimensão do pedaço que lhe caberia. E se o pedaço não fosse satisfatório, havia quem mudaria o rumo da lavagem para outro criador. (Lavagem, neste caso, trata-se de sobras de comida juntamente com a água da lavação dos utensílios de cozinha)

Imediatamente, foi preparado o chiqueiro no fundo do quintal e, logo, saiu-se procurando fornecedor de lavagem bem como farelo de arroz na máquina do Emídio Alves que seriam pagos com carne de porco. Foi, ainda, até à Mantegueira do Bonaccorsi para pedir alguns litros de soro que lhe seriam fornecidos diariamente. Os funcionários da Mantegueira, Chico e Expedito, foram também prometidos a ganhar um bom pedaço do suíno. Os casqueiros para o chiqueiro foram conseguidos, gratuitamente, na Serraria do Dé Cassiano que, também, recebeu a promessa de ganhar um pedaço do bicho. E assim, Bené em tudo prometia ou se comprometia com um pedaço do porco ou com uma lingüiça. No fim, prometia até chouriço, um tira-gosto de sarapatel e assim por diante. Enfim, o porco do Bené, ao que se via, quando morto não daria para saldar os compromissos. Parecia que ele teria adquirido uma manga de porcos.

O Leitãozinho foi trazido e colocado no chiqueiro. Porém, ele era tão pequeno que não foi fácil imaginar o que seria tratá-lo até vê-lo gordo ao ponto do abate. Com certeza, aquilo deu ao Bené um desânimo danado. Ele pensou que o leitão já seria de meia ceva e, de repente, aparecem com aquele filhote.

Algum tempo depois, foi chamado o Zé Capador que, ao examinar o animal, deu a triste notícia de que o bicho era roncolho e, assim, lhe foi dito que porco roncolho é de difícil engorda. Não tem serventia para cachaço, enfim, o melhor seria matá-lo ao invés de engordá-lo. Palavra de um especialista em porcos. 

O que fazer, então? Naturalmente, esta foi a pergunta que Bené fez a si mesmo diante da afirmação do capador. Entretanto, e os compromissos assumidos anteriormente? A situação ficou um tanto complicada. Demonstrou-se muito entusiasmo e de repente...

Numa noite, para piorar, o porco sumiu do chiqueiro do Bené. E agora? Mais essa! A verdade é que todo mundo foi ludibriado. Todavia, o Zé Barbeiro não aceitou o argumento de que o porquinho dele foi subtraído sem mais e sem menos.

Ele que era um cidadão comportado, mas, quando ficava nervoso quase saía do armário. E, naquele tempo, para sair do armário tinha que ser muito macho. Ao receber a notícia de que o animal havia sumido, imbuiu-se em todos os seus jeitos e trejeitos e começou:

---Oia Bené, ocê é um iscumunguento, sabia? Sumir com o meu leitãozinho querido, uai. Ganhado do meu padrinho de batismo. Tadinho! Tão bunitinho... Ia virar um lindo capado, se ocê tivesse tido cuidado, sô. Eu tô achano que ocê robô o meu leitãozinho, seu danado. Eu nunca vi falá que leitão saisse de chiqueiro sem ser visto e sem barulho.

---Oia, aqui, Izé. Eu num robei leitão ninhum, viu. Se ocê perdeu a parte do leitão, eu perdi a pensão que eu dei pra ele. Pensa o qui ocê quisé e tiau e bença. E dispois tem mais: o seu leitão tinha só um grão. Leitão de um grão só num produz porque é porco viado.

---Some daqui, Bené! Senão eu te matooooooooooooo.

Bené saiu dali. Era o que ele mais queria. Sair dali e dar o assunto por encerrado.

Dois dias depois, Bené com a cara cheia de pinga, no Bar do Acássio, onde, nos dias de hoje, funciona o Bar do Vicentinho, na Rua Professor Portugal, estava convidando todo mundo para ir na sua casa comer um pedaço de leitão que ele havia ganhado por ocasião de seu aniversário.

Armando Melo de Castro
Candeias casos e acasos MG