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terça-feira, 31 de agosto de 2010

A FESTA DO ROSÁRIO EM CANDEIAS


Presidente da entidade que promoveu a festa do Rosário por muitos anos, o laborioso, Sr. Alvino Ferreira, grande benfeitor desse capítulo da História de Candeias. 

Uma das tradições candeenses mais efusivas é a Festa do Rosário, também chamada de Festa do Congado e Reinado. Desde que me entendo por gente essa festa sempre teve uma repercussão social bastante ativa não só em Candeias, mas em todo o Centro Oeste Mineiro. Trata-se de uma festa religiosa numa homenagem que a comunidade negra faz a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, considerados os seus protetores. 

É de uma animação incomparável diante dos outros eventos que acontecem na cidade. Atualmente, a sede desta festa está na Rua Coronel João Afonso, no Jardim Eldorado, onde está situada a Igreja construída num terreno doado pelo senhor Silvio do Juca do Nico. No princípio a festa era organizada tendo como sede espiritual a antiga Igreja do Rosário, situada onde hoje se encontra edificado o Terminal Rodoviário de Candeias. 

Primeiramente o evento teve o impedimento através da cúpula da Igreja. O Monsenhor Castro alegara que o Bispo Diocesano não concordava com que os festeiros ficassem para baixo e para cima com as bandeiras com imagens dos santos, em meio a uma festa quase que profana por certos dirigentes católicos. Depois alegariam que a igreja seria demolida... Com isso a Festa do Rosário aconteceu pela ultima vez naquele templo, no ano de 1949; ficando, contudo, sem sede para a próxima festa no ano de 1950. 

Diante dessa privação e tratando-se de uma confraria pertencente a um proletariado, houve um mutirão dos adeptos, para a construção de uma capelinha, num pequeno lote de terreno, doado pelo senhor Mingote, aos organizadores da festa. Entre eles estavam Alvino Ferreira, Chico Viriço, Zezinho Cabacinha, Pedro Ponte, e muitos outros, inclusive crianças que carregavam água nas costas, do ribeirão, para a construção da pequenina capela, que seria a sede espiritual da festa durante muitos anos. Hoje a Festa do Rosário em Candeias tem outra conotação. 

A Igreja Católica já não tem mais aquele preconceito de outrora. Nos dias atuais existem duas festas em Candeias. A que acontece no mês de setembro, tradicional, e outra, organizada pela comunidade do Alto do Cruzeiro. Setembro é o mês da festa tradicional a que narramos neste texto. E nesta oportunidade a cidade recebe muitos visitantes, comerciantes ambulantes e barraqueiros. 

Os grupos dançantes, os chamados ternos, rodam a cidade de ponta a ponta, cantando, dançando e visitando as casas onde fieis dos santos recomendados, pagam as suas promessas vestindo-se de rei, rainha, príncipe e princesa; ou ainda dando ao terno representativo, um almoço cheio de fartura; onde nunca falta aquela macarronada feita, tradicionalmente, de macarrão espaguete bem grosso.

Quando eu era menino peguei muitas beiradas nesses rangos, foi quando fiquei conhecendo o sarapatel de porco, iguaria que até hoje eu gosto muito. Outros prometem aos santos dar um café substancioso, com uma mesa repleta de tabuleiros de quitanda. Os componentes dos grupos e os acompanhantes nesses dias comem uma vez só por dia, ou seja, começam de manhã e terminam a noite. Os promesseiros não deixam faltar à água que o gato não bebe o que, por vezes, faz com que algum cristão fique com o cérebro fermentado dado aos excessos. Mudam-se os tempos.

Hoje a festa apesar de continuar dentro da mesma filosofia, está mudada em vista dos tempos passados... Eu sempre gostei muito dessa festa e houve vezes que participei dançando também. Sempre no terno de Moçambique, quando junto a outros meninos ia respondendo ao puxador com o famoso “ô lêlê” Certa feita deram-me uma caixa surda e ensinaram-me, em dois minutos, como executá-la. 

O barulho tinha uma ressonância assim: “bum bunga, bum bunga, bum bunga bum bunga...” Os críticos, ou gozadores, diziam que as caixas falavam uma frase constante: “caparam o Zé Barba e deixaram o Tazá”. Zé Barba na hierarquia da festa era um dos comandantes e era tratado de capitão. Tazá era o seu filho Baltazar, que era um tanto antipatizado por gostar de ser “bate-pau” da polícia durante as festas ou em momentos em que essa se via desfalcada. Adorava a vida de policial. Quase sempre Tazá estava beirando um soldado. 

O terno dançante que comanda a festa é o do Moçambique e o seu capitão ia dentro de uma roda humana fazendo versos como, por exemplo: “Na minha casa eu como torresmo, na casa dos outros eu passo assim mesmo”. Alguns desses puxadores eram Chico Lordino, Chico Viriço e outros... Os pagadores de promessas, que se vestiam de reis, rainhas, princesas e príncipes, eram buscados em suas residências pelos determinados ternos dançantes, quando seguiam para o ponto onde se reuniam à porta do Presidente da festa, senhor Alvino Ferreira. Esse ponto de reunião ficava na esquina onde está situada hoje a loja do senhor Silvio Foguete. Dali descia-se pela rua que leva até à estrada dos Cassianos, a fim de tomarem a senda que se fazia chegar até a Igrejinha isolada no Morro do Mingote, hoje Bairro Jacy. O número de pessoas é sempre muito grande nesse evento e como a nossa sociedade é sempre cheia de excessos, muitos se embriagam, fato que por vezes denigrem a beleza da festa. O fato mais marcante que aconteceu nessa festa foi quando era realizada na capela do Rosário, ainda, no Morro do Mingote, uma das maiores tragédias até hoje registradas em nossa cidade. 

Eu era um garoto e lá estava em meio daquele povaréu. Próximo de mim estava um cidadão, legitimo tabaréu, porém, completamente bêbado, se metendo a soltar foguete. E diante da gozação dos rodeantes por causa da ebriedade que lhe tirava a condição de detonar o objeto pirotécnico; o elemento fica irritado, puxa de uma arma, e começa a dar tiros, a torto e a direito, quando um desses disparos acertou, fatalmente, a jovem, Nercília, ainda, no verdor dos anos, irmã das senhoras Lucília, Marcília, Percília, Ercília, e Cacília, filhas do Casal Sidney Galdino e Dona Virgínia, conceituados fazendeiros candeenses. Foi um momento muito difícil na vida da família Sidney Galdino. Naquele momento de terror eu estava a dez metros desse homem. Essa imagem nunca mais me saiu do fundo dos olhos. Lembro-me de ver a moça caindo e logo depois, dois dançadores do terno de vilão, tomarem-na nos braços e descerem o morro, enquanto o sangue se espalhava. Nesse tempo não havia uma estrada transitada por automóveis até a capela; e não tinha por lá sequer um carro para transportá-la. A jovem morreu a caminho do médico. Deixando a nação candeense em estado de choque. A moça estava cumprindo promessa quando foi vítima dessa fatalidade. E a festa continuou, porém, sem brilho, com o batido das caixas abafado, e o canto dos festeiros machucado. Sempre quando vejo essa festa, sem que eu busque, vem à tona de minha memória o rosto aterrorizado daquela criatura indo ao encontro da morte, ainda no florir dos seus anos, frente àquela multidão totalmente impotente sem rumo e sem norte. 

Armando Melo de Castro

Candeias mg casos e acasos

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

UMA MISSA EM LATIM


 Resolvo dar uma volta. Desço a rua da minha casa, a Vereador José Hilário da Silva, e tomo a Avenida Pedro Vieira de Azevedo; sigo rumo a Vila Vicentina. É lá que faço uma parada de vez em quando para ver como estão os velhos amigos e, enfim, conviver um pouco com aquela gente cujo futuro já é conhecido.

Nas imediações da casa do senhor Zé Duarte, defronto-me com um cidadão gordo, assim como eu. De cabeça branca, assim como eu. Contando mais de meio século de vida, assim como eu... E outros adjetivos mais carregados na nossa cangalha de tempo...

Eu não o reconheci e nem ele me reconheceu... Melhor: nós não nos reconhecemos por culpa do tempo que mudou a pele de nosso rosto... Trocou as nossas cadeiras por ancas... Pintou a nossa cabeleira de branco e outras coisas mais que nos fizeram passar um pelo outro sem que percebêssemos que ali se cruzavam duas pessoas que outrora se encontravam regularmente numa sala de aula. Era ele o meu professor e eu o seu aluno...
Ao cruzarmos, pensei cá comigo: eu o conheço, mas não sei quem... E ao vê-lo entrar na sua residência, confirmei: Zé Duarte!

Sim, porque Zé Duarte foi meu professor de latim quando estudei no Ginásio de Candeias, por volta do ano de 1960. Além de professor, Zé era Bancário, do Banco de Crédito Real de Minas Gerais S.A. cuja agência ficava estabelecida onde se encontra, hoje, a Prefeitura.
Nada mais, no meu tempo de ginásio, deixava-me tão contrariado do que assistir àquelas benditas aulas de latim, ministradas pelo Zé Duarte. Aquele sotaque do latim fermentava o meu cérebro. Talvez pelo fato de estar acostumado com o lero-lero do padre nas missas em latim. Essas me faziam totalmente alheio àquela coisa. E depois, não me passava, nem por perto, vir a ser padre. Eu queria crescer para namorar e padre seria apenas para me casar e batizar os meus filhos. E, para mim, latim só serviria para quem viesse a ser padre... E eu não entendia porque estudar aquilo uma vez que já se tratava de uma língua morta.

O Zé Duarte teria sido seminarista e, com isso, estudara o idioma... Aquela língua complicada, já agonizando nos currículos escolares... E a gente deveria ficar ali, ouvindo aquela ladainha... E eu só pensava: Senhor! Dai-me forças!...
Mensalmente, havia uma sabatina cujas notas eram transmitidas aos alunos em voz alta e em bom som... Quem passou pela rua, num desses momentos, com certeza, terá ouvido o Zé Duarte encher o peito e dizer: Armando Melo de Castro: Zeeeeeeeeeeeeeeeeeeero.

Ambiguidade familiar eram as missas no latim. Não havia coisa, também, mais sem sentido. O padre, lá na frente, de costas para os fieis e ninguém entendia nada do que ele falava... Signum, crucis, noster, pater, Angele, Dei, etc.etc.etc. Ai meu Deus! Pra quê isso?! Assim era a minha concentração durante a missa.

Como naquele tempo o povo rezava mais do que nos dias atuais, a igreja ficava sempre lotada e não havia bancos para todo mundo. Então, as naves da igreja ficavam superlotadas. Era costume nos acomodarmos na nave que ficava à direita do altar-mor, bem nas proximidades de um confessionário. Parece-me que, naquele tempo, os fieis tinham lugar fixo na igreja... Comumente, se via a mesma pessoa no mesmo lugar e em todas as missas. Lembro-me, como se fosse hoje, o Sebastião Redondo e o seu filho Antônio Redondo, assentados, bem juntinhos e bem gordinhos, ouvindo atentamente o sermão do padre. Havia uma parenta do padre que, se acaso, alguma pessoa tomasse o seu lugar nos bancos, a intrusa era convidada a desocupá-lo de maneira hostil. A Joana do Galdino, moradora da Rua Coronel João Afonso, tinha afixada, na sua parte do genuflexório, uma pequena almofada para torná-lo mais confortável. E, se porventura, alguém tomasse o seu assento... Brigava ali, na frente de todo mundo, e depois, tomava a comunhão numa boa... Mas, nas rezas, o povo era dispersivo... O padre rezava o seu latim... Os homens rezavam o seu terço... As mulheres cantarolavam... Até que, num determinado momento, tudo se tornava um silêncio total. Era a hora da consagração.
As pessoas se ajoelhavam, ficavam de cabeça baixa, batendo a mão no peito e dizendo algo que ninguém ouvia e nem sabia o que era...

O meu pai, quando me via absorto, cochichava nos meus ouvidos e mandava falar: “Jesus, perdoa-me, por misericórdia”. Eu achava aquilo muito esquisito, afinal, eu não havia feito nenhum pecado... Mas, dizia muitas vezes, em voz alta, sem me preocupar de que estaria chamando a atenção dos presentes.

Eu era ainda bem criança quando, certo dia, bem à minha frente, eu ali sob os olhos vigilantes do meu pai, exato na hora de dar início à cerimônia consagrada... Hora de ajoelhar para receber a santa fluidificação... De ouvir apenas o soar da sineta... Hora de rogar a Deus pelos pecados e, no ápice da concentração, um barulho quebra o silencio: Um flato! Um flatão! Solto naquela hora sem que o seu dono pudesse fazer algo para impedi-lo tornando-se totalmente impotente, naquele momento.

Era um senhor magro, claro, meio idoso, terno de brim amarelado, chapéu na mão e bengala. Escorava-se na bengala para se ajoelhar e, nesse exercício, soltou, involuntariamente, o prisioneiro que havia em sua cela.

Criança munida de todos os sentidos, na forma de “zero-bala”, e sem as malícias adultas que ainda não lhe haviam poluído o cérebro, disse em voz alta: Pai! Alguém deu um peido aqui dentro da igreja e isso é pecado. No que fui admoestado pelo meu pai através de um olhar repreensivo.

Fiquei silencioso diante do olhar severo do meu pai. Mas, ao sair da igreja, junto àquela aglomeração, eu disse alto e em som aberto: “Pai, olha ali o homem que deu o peido dentro da igreja”... Pai, ele dá pum e raspa a bengala no chão para enganar a gente.

Somente hoje eu poderei entender o olhar daquele homem sobre mim: É como dissesse:
“Ai que vontade de matá-lo, desgraçado!”.

Armando Melo de Castro

Candeias Casos e Acasos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

JOSÉ GOMIDE BORGES

                                     Foto: José Gomide Borges (O historiador candeense) e Armando M. Castro

A história é uma das maravilhas da vida. Ela nos permite voltar ao passado para reviver o princípio de uma renovação...

A história provém de uma realidade memorável, além de ser um caminho para um passeio que nos leva ao mundo de onde viemos e que nem sempre pudemos conhecer antes.

A história é arte, é ciência; é a vida humana através do tempo, nas angústias e nas alegrias; é a mudança desse tempo com sucesso e com fracasso.

A história é o que não trouxemos de onde viemos, mas o que deixaremos aqui onde Deus nos colocou para fazer florir a obra da Sua criação.

História é o que plantamos a mando de Deus e que nos faz sentenciados.

Infelizmente, a nação candeense não tem recebido por parte de seus filhos agraciados com o poder constituído, o tratamento merecido...

Temos visto os nossos templos históricos destruídos; os nossos princípios esquecidos e a nossa gente indiferente...

A memória de Candeias não está no sentido das suas gerações renovadoras que a transforma em história... Ela vem sendo perdida por descuido de uma cultura deixada de lado...

A nação candeense teve o seu princípio formado pela mistura das raças, inclusive com a vergonha da escravidão; e com isso caminhou por muitos e muitos anos na estrada da desigualdade social.

Em busca das sesmarias, vieram os coronéis e, atrás dos coronéis, vieram os proletários desamparados de leis e direitos cabendo-lhes apenas o pão de cada dia regado com o suor do rosto.

Sendo da história a missão da transformação e da renovação, evidentemente, muitos filhos do princípio do nosso meio social, trocaram suas posições e se encontram numa sociedade renovada, onde o produto das entranhas dos ancestrais hoje se acha em posição invertida. E esse fenômeno, faz com que a memória da terra fique descuidada.

Infelizmente, esse mister da sociedade candeense encontra-se desativado por parte de nossas autoridades constituídas e organizadas. Os nossos homens públicos não demonstram preocupação com o nosso patrimônio cultural... E isso é lamentável...

E neste labirinto histórico que Candeias vem caminhando há anos e anos desde os tempos da Picada de Goiás, sem que ninguém até então houvesse preocupado com isso, surge um candeense... Um filho de Candeias! Entre tantos, apenas um para resguardar a nossa história e guardá-la bem guardada, num local seguro: num livro histórico:

“O Sertão de Nossa Senhora das Candeias da Picada de Goiás”.

Esse homem é o nosso ilustre conterrâneo: José Gomide Borges.

E quem é José Gomide Borges?

Para quem não sabe, José Gomide Borges nasceu aqui, em Candeias, aos 12 de janeiro de 1920. Filho de João Evangelista Borges Junior (Tuta) e Esmeraldina Gomide Borges.

Aos dezoito anos de idade, quando se deu a emancipação do nosso município, em 1938, passa a trabalhar com o engenheiro responsável pela elaboração da planta cadastral da cidade. Concluídos os trabalhos, tendo demonstrado aptidão e inteligência para a função, é convidado pelo engenheiro, Marinz Freire, para trabalhar como seu auxiliar em outras tarefas pelo interior do Estado. Com isso, muda-se para Belo Horizonte e é admitido para os serviços técnicos da então Secretaria de Viação e Obras Públicas, no cargo de auxiliar de campo.

Com uma carreira brilhante, nesta Secretaria, José Gomide Borges, o nosso popular: Zé do Tuta, posteriormente foi classificado no cargo de agrimensor, quando exerceu o importante cargo de Chefe de Levantamentos Topográficos e Serviços Tecnológicos daquela Secretaria.

Em 1975, começa a pesquisar a história de Candeias e outras comunidades do Oeste Mineiro. Oportunidade em que esteve em Portugal pesquisando a região de Tendais, terra do fundador de Candeias.

Em 1980, é eleito sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais onde já teria exercido os cargos de secretário e diretor-bibliotecário.

Detém as seguintes comendas:

1- Grande Medalha da Inconfidência;

2- Medalha de Ouro Santos Dumont;

3- Medalha de Sesquicentenário de Diamantina;

Foi casado, em primeiras núpcias, com Dona Milina Andrade, falecida em 10 de novembro de 1972.

Em 1977, contrai novas núpcias com Dona Magda Maria de Mello Vallias, natural da cidade de Cássia, Minas Gerais.

Obras publicadas:

1- ESCHWEGE, O ANFITRIÃO. Contribuição às comemorações do bicentenário de nascimento deste notável cientista.

2- Discurso de posse, separata da revista número XX do IHG.

3- DOIS SÉCULOS DOS “ANDRADE” Estudo genealógico da família Andrade, de Itabira em parceria com Ormi Andrade Silva.

4- AS FILHAS DA ILHOA MARIA, em parceria com Myrian Vallias de O. Lima. Estudo Genealógico Das Famílias: Costa Rios; Ferreira da Silva; Mello e Sousa; Meirelles Leal; Leal de Mello; Vallias de Resende e os Leal de Mello Vallias.

Outros trabalhos:

Em 1988, fez parte da Comissão encarregada de estudar uma denominação histórica para a 4ª Divisão do Exercito designada pelo presidente do Instituto Geográfico de Minas Gerais, atendendo solicitação do General Waltencir dos Santos Costa que recebeu com simpatia o nome proposto por José Gomide Borges: “Divisão das Minas do Ouro”.

Recentemente estive visitando esse ilustre filho de Candeias e pude ver de perto a humildade desse fiel nativo candeense, que mesmo diante do triunfo que obteve vida afora e longe de sua terra, não esqueceu o seu quinhão natal, onde tem a sua residência alternativa e sempre, quando pode, está presente entre nós. É um cidadão culto, inteligente e íntegro, o que lhe faz merecedor do respeito de todos os candeenses porque, amando tanto a sua terra, com certeza, estará amando a todos os filhos de Candeias.

José Gomide Borges revolveu com a sua caneta a terra que sustenta as raízes da nossa história. Escarafunchou com as pontas dos seus dedos, o solo de Candeias em busca de tesouros humanos das nossas gerações falecidas... Buscou nas profundezas da nossa história, nomes perdidos e os resguardou...

O Livro de José Gomide Borges é um tesouro que esteve enterrado e espalhado; e só pode ser ajuntado graças ao seu ânimo e amor pela sua terra... E agora, é um celeiro tão rico, tão opulento que nem o tempo, especialista em destruir, conseguirá destruí-lo; e com certeza, o fará imortal por esta obra consequentemente esperada pelo futuro.

Parabéns, José Gomide Borges. Parabéns pelo seu trabalho árduo durante quinze anos apanhando grão, por grão, esse alimento tão substancioso para a saúde da nossa história, a história de Candeias e da Picada de Goiás para o desenvolvimento do Centro Oeste Brasileiro e para o Brasil.

Parabéns pela sua família, especialmente pela sua esposa, Dona Magda que deu a sua incansável contribuição na construção desta obra tão importante.

Você, meu amigo Zé do Tuta, é um candeense dos candeenses. Receba, portanto, o meu agradecimento como candeense que também ama a sua terra... Receba o meu respeito e o mais forte dos meus abraços...

Que Deus lhe abençoe hoje e sempre!...

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

NB) Este texto é uma reedição. Portanto, dois anos após essa postagem falecia o Sr. José Gomide Borges. Uma grande perda para a cultura candeense. Contudo, o seu nome ficou cravado na nossa história, HISTÓRIA DE CANDEIAS.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

OI PAI!

Onde quer que estejas meu querido Zé Delminda.



Domingo que vem - dia 08 de agosto de 20l0 - é o dia dos pais. Portanto, é o nosso dia. Meu para os meus filhos e teu para mim...

Hoje estive resolvendo uma pequena questão para minha mãe. Sempre quando ela precisa de mim, me coloco imediatamente disposto para atendê-la, não somente pelo fato de gostar de servi-la e ver-me, também, diante do cumprimento do dever de filho, mas principalmente por recordar de uma de suas últimas frases antes de atender o chamamento de Deus: “Cuide de tua mãe meu filho”.

Na oportunidade, quando me encontrava no Banco do Brasil, resolvendo o que minha mãe havia me pedido, defrontei-me com um amigo, pessoa de fino trato e de tradicional estirpe candeense: Enio Bonaccorsi... Além de todos os seus predicados pessoais, Enio, por ser filho de Américo Bonaccorsi, não poderia deixar de ser, para mim, um amigo especial.

Fico feliz meu pai, quando me encontro com familiares, amigos, parentes e afeiçoados dos teus amigos; porque surge a oportunidade de falar de ti e deles também. E, interessante é que quase sempre alguém se lembra do teu bandolim.

Foi muito bom, nesta hora, poder tocar no teu nome exatamente com um dos filhos daquele que foi, sem dúvida, um dos teus maiores amigos: Américo Bonaccorsi, cuja amizade era o fruto da música, da alegria e que perdurou por tantos anos. A tua ligação musical com ele era como uma simbologia da satisfação quando seguiam fardados como dois coronéis, felizes da vida; Américo com o seu clarinete e tu com o teu piston, indo tocar na Banda Santa Cecília, de Campo Belo.

A tua participação com o teu violão no Conjunto Tiro e Queda nos carnavais, quando ganhavas um dinheirinho a mais e ficavas todo contente; juntamente com os teus amigos e colegas: Zé Vilela, Zinho Borges, João do Sô Nico, Pedrinho do Candola, Luizinho do Américo, e ele, o Américo, o maestro da turma.

Há catorze anos te parabenizei, aqui entre nós, pela última vez pelo teu aniversário... Parece-me que foi ontem! Fizeste naquele dia, 24 de janeiro de 1996, o teu último aniversário. Apenas setenta e oito anos. Poucos dias depois partiste deixando uma grande saudade. Poderias estar, ainda, entre nós e contando os teus noventa e dois anos. Mas o traço de Deus foi diferente. Para mim, meu querido pai, não foste embora. Estás e continuarás presente em minha vida enquanto ela existir. Tudo de ti estará gravado nas células do meu cérebro, no fundo do meu coração e no fundo dos meus olhos.

Quanta lembrança boa eu guardo da minha infância ao teu lado! Os teus presentes de natal! Brinquedos feitos com carinho pelas tuas próprias mãos e colocados em meus sapatos atrás da porta em nome do Papai Noel. A alegria de minhas irmãs com os bonecos de papelão, pobres de qualidade e ricos de amor...

Como tu te sentias feliz juntamente com minha mãe, quando davas a nós uma coisa qualquer... Caso ganhasses uma laranja na rua, levavas um gomo para cada filhote... O meu relógio “Tell” Ah! Que saudade, meu Deus! Ainda hoje falei do meu relógio “Tell”. Do dia que tu me deste aquele relógio... A
Tua felicidade foi tanto quanto a minha ao receber aquele presente... E quando me levavas ao cinema e eu não entendia nada e depois tu querias me fazer entender!... Os primeiros aperitivos que tomei e me dizias: “Segue-me, para não aprenderes errado”... As pescarias... Quantas vezes fomos pescar juntos!

Quantas histórias tu me contavas e entre elas os contos da carochinha, os quais me deixavam tão emocionados!

Quando já morando distante, lembro-me, perfeitamente, das tuas cartas estampando a tua linda caligrafia me trazendo sempre uma recomendação cuidadosa para comigo. Precavia-me com a saúde e o temor a Deus. E sempre antes de apor o Deus te abençoe, registrava as frases que estão escritas dentro de mim: “Não te deixes levar por maus caminhos meu filho. Sejas bom e que Deus te abençoe”.

Querido pai, eu ficaria aqui por muito tempo lembrando de tudo que fizeste por mim e relembrando o pai maravilhoso que tu foste. Tudo é tão nítido em minha memória que eu posso até mesmo ouvir a tua voz... Posso ouvir o teu bandolim soando a mazurca gaúcha, “Mate amargo – a valsa Branca e o Baile da Saudade”.

A vida foi cruel tirando-me por tanto tempo de perto de ti, mas enfim, não devemos entrar nos desígnios de Deus. Onde quer que estejas, meu pai, com certeza, estarás feliz porque daqui, donde partistes, continuas vivo nos corações de todos nós que te amamos.

Pai por tê-lo imortal dentro de mim, eu não terei que chorar pela tua ausência durante a festa dos pais. Portanto, peço-te:

A benção meu pai!

E estarei ouvindo como sempre ouço a tua voz subir do fundo do meu coração:
“Deus te abençoe meu filho...!”

Armando Melo de Castro/
Agosto/20l0