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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

CANDEIAS, MINHA CANDEIAS!

Bandeira de Candeias - Minas Gerais

Na segunda-feira passada, dia 24 de setembro, eu visitei a sessão plenária da Câmara Municipal de Candeias e fiz um apelo aos senhores vereadores no sentido de cobrarem da Prefeitura local uma providência sobre uma questão, aparentemente simples, todavia, de suma importância.

Ao me ser dada a palavra em um espaço da tribuna livre, eu tive a oportunidade de reclamar para os senhores vereadores como também para o senhor Vice Prefeito, então presente, sobre um desleixo imperdoável por parte da Prefeitura de Candeias a respeito das placas de ruas da nossa cidade. Atualmente, existem ruas sem placas, ruas com os nomes trocados sem alterar as placas.

É irritante procurar uma rua e não encontrá-la. Os visitantes de nossa cidade ao chegarem aqui estão tendo muita dificuldade em se situarem como os viajantes, os entregadores de mercadorias, até mesmo os carteiros dos correios etc. Toda essa gente reclama e parece que falta interesse ou, quem sabe, competência por parte dessa área da administração municipal.

Quando se tira o nome de uma pessoa para colocar o nome de outra, configura-se um ato relevante e que muitas Câmaras Municipais ousam fazer sem imaginar a extensão da ofensa moral, quase sempre sobre toda uma família descendente daquele que havia recebido o nome de uma rua.

Outro aspecto a ser levado em conta, refere-se aos transtornos que geram aos moradores, principalmente, aos comerciantes. O morador deverá atualizar seus cadastros de endereços em todos os segmentos que emitem correspondências: as instituições financeiras, companhias de telefone, de água, de energia elétrica e outros. No caso de empresas, será necessária ainda a alteração de endereço no Ministério da Fazenda e na Junta Comercial do Estado e isso, é claro, gera despesas. Na Prefeitura, deve-se alterar os dados para a emissão do carnê do IPTU, no Cartório de Registro de Imóveis, deverá ser procedida as averbações de mudança de endereço nas matrículas dos respectivos imóveis obtendo, ao final, uma nova certidão com a atualização dos dados da nova rua. Efetivamente, é como se as pessoas mudassem de endereço.

O foco maior da minha observação registrou-se sobre a Praça da Fraternidade cuja nomenclatura foi trocada pelo nome do Sr. Nestor Lamounier, ex-prefeito de Candeias, já falecido. A troca de nome, neste caso específico, não retrata a gravidade da questão porque fraternidade trata-se apenas de um conceito filosófico. E justiça seja feita pelo que representou, para Candeias, a pessoa do senhor Nestor Lamounier, não só como prefeito, mas, também, como  cidadão candeense dos mais dedicados ao bem do nosso município. Faz tempo que a praça recebeu o seu nome e até hoje não providenciaram as novas placas. A meu ver isso é o mesmo que dar um presente para a família do ilustre, embrulhado num jornal.

Assim, dado o meu recado, resolvi ficar por ali, assistindo aquela sessão quando o Sr. Enio Bonaccorsi lavanta-se e ocupa a tribuna livre fazendo sérias denúncias sobre a má administração do Fundo Previdenciário dos Funcionários da Prefeitura. Na sua narrativa, ele dissera que, com o comprometimento do fundo, poderão ficar prejudicados os funcionários e os futuros prefeitos.

Interpelado por um vereador que lhe disse que a Câmara Municipal não iria trabalhar com a faca no pescoço, o Presidente da Casa encerrou a sessão em um clima um tanto conturbado e bastante tenso, quando o Sr. Enio Bonaccorsi lhes disse que entraria com uma representação no Ministério Público.

Como é lamentável presenciar esses desencontros na administração pública de um município. O pior é presenciá-los na sua cidade natal. Candeias é uma cidade pacata, com parcos recursos financeiros. Já sofreu demasiadamente com a corrupção praticada por diversos prefeitos anteriores que foram, até mesmo, punidos pela justiça tanto na esfera cível quanto na criminal. Agora, vem à tona uma notícia dessas. É lamentável, profundamente, lamentável!

Como um bairrista de primeira linha, sendo portador do título de eleitor número 0790.7029.0299 confesso que saí de lá triste, muito triste.

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos


terça-feira, 24 de setembro de 2013

PROIBIDO PARA MENORES.

Foto para ilustração do texto.

Existe, neste mundo, gosto para tudo. Comumente, ouvimos, por aí, as pessoas dizerem que "gosto não se discute". Outros dizem "que há alguns que gostam dos olhos enquanto outros preferem as remelas".  Lembro-me de minha tia Eliza, esposa do meu tio João, que dizia sempre: "É preferível um gosto do que um caminhão de abóboras". E por aí vai...

 Estamos vendo, atualmente, nos relacionamentos íntimos, muitos homens preferindo homens e muitas mulheres preferindo mulheres para seus pares. Na realidade, trata-se de um gosto. Todavia, com algumas exceções, é bastante comum encontrarmos pessoas que possuem tal predileção sexual acreditarem piamente que o mundo todo deveria concordar com eles. 

Às vezes, eu chego a pensar que o homem, na acepção da palavra, está em extinção e, em um futuro próximo, será denominado por "zangão" e que existirão poucos espécimes, apenas para a preservação do bicho humano por imposição da natureza. O homem macho vai, a cada dia, se tornando uma fruta rara e como diziam, antigamente, as beatas: "Homi tá cherano aio" em um tempo em que o alho era um tempero raro e caro.

 Algumas vezes, ouvimos dizer que o mundo está mudado, que a pouca vergonha anda solta, entretanto, se dermos uma parada para pensarmos, veremos que todos essas coisas já se encontravam guardadas dentro do ser humano que vai, no seu dia a dia, deixando de lado as regras que disciplinam a sociedade. 

A bem da verdade, o homossexualismo sempre existiu, contudo, em tempos mais remotos o indivíduo homossexual não tinha a coragem de dizer: "Eu sou um pederasta", substantivo que, nos dias de hoje, foi substituído pelo vocábulo inglês "gay". Hoje, está todo mundo saindo do armário, saindo da toca, saindo de debaixo da cama, enfim, estão sentindo um enorme prazer quando dizem: "Eu sou um gay". A meu ver, pior do que a homofobia são os insultos recebidos pelos héteros que não comungam com os ideais dos homossexuais impertinentes, com seus gostos ou seus vícios.

Há um certo tempo, ouvi em uma conversa de botequim, na cidade de Bambuí, um cidadão cuja mente já estava atordoada pelo álcool e que dizia alto e, em bom som, que preferia um "feofó"de homem ou de mulher do que um balaio de "tabaqueira". Esse cidadão era casado e muito bem casado. Portanto, coitada de sua mulher! Não se sabe, obviamente, se ela concordava com a sua preferência sexual, todavia, em virtude disso, o nome dela entrou em órbita na boca do povo. Afinal, uma mulher de aspecto sério, de família conceituada na sociedade, de práticas religiosas, caridosa, boa, amiga, apresentar-se como esposa de um "feofozeiro" rendeu um bom assunto para os patrulheiros do alheio.

(Para quem não compreendeu o termo "tabaqueira" trata-se daquilo que difere o homem da mulher.)

 Neste contexto, podemos entender e concluir que a bizarrice está vinculada ao ser humano em seus pensamentos, palavras e ações e, diante dessa temática, olho no retrovisor da minha vida e vejo, lá atrás, o Arlindo Barrilinho.

Arlindo Silva era baixo e modulado em muita banha. Portanto, era todo redondinho, ou seja, gordinho e, devido a isso, o chamavam de "Barrilinho". Foi um grande amigo de minha família e, em especial, de meu pai. Eram colegas de serviço, ou seja, os dois eram oficiais de justiça na Comarca de Candeias, pelas décadas de 50 e 60. Conseqüentemente, Barrilinho era da cozinha de nossa casa.

 No seu estilo caboclo macho, possuía uma filharada danada, tanto em casa como fora do lar. Era todo manso e bem ajeitado. Tinha um olhar safado daqueles que catavam tudo em uma mulher. Gostava sempre de dizer "que se Deus tivesse feito coisa melhor do que uma mulher, com certeza, teria guardado só pra Ele." O seu assunto predileto era mulher. Certa vez, eu o ouvi dizer que como havia nascido de uma tabaqueira, gostaria muito de morrer enfiado em uma. Falava assim e, logo depois, dava aquela risada bem gostosa e safada.

 Porém, Barrilinho tinha um gosto excêntrico, um tanto esdrúxulo, meio bizarro. Gostava de mulher peluda. Veja só. Adorava uma mulher de sobrancelha grossa, do tipo tala larga. Davam-lhe arrepios de prazer ver pernas femininas mal depiladas e as axilas somente aparadas. Sentia-se excitado quando via uma mulher com um buço oxigenado, parecendo cerdas de taturana amarela. Para as pessoas de gosto comum não é fácil compreender como uma pessoa pode gostar dessas coisas. Mas, Barrilinho gostava e gostava muito. Imagina-se, então, como ficaria o Barrilinho ao presenciar uma mulher expondo, a seu gosto, as partes pudendas.

Certo dia, quando ele estava assentado no meio-fio da porta de nossa casa, ao prosear com o meu pai, passou uma moça sacudida, bastante robusta. Tinha as pernas grossas do jeito que Barrilinho gostava e possuía ainda os pelos suaves que aumentavam na região da coxa. Usava uma saia bem curta. Naquela hora, Barrilinho se encontrava em numa posição estratégica. 

Como era baixo e assentava quase que rente ao chão, ao ver vindo, em seu rumo, aquilo tudo que ele chamava de "avião", os seus olhos indiscretos não perderam tempo e foram fincados nas pernas da moça. Contudo, isso não foi o bastante. Logo que ela passou por nossa casa, Barrilinho, em um gesto "quase" involuntário, se abaixou para ver o que alimentava os seus olhos curiosos. Quando a moça olhou para trás, indignou-se e disse:
 - Ocê perdeu arguma coisa de baxo de mim, véio safado?
 E Barrilinho numa resposta descarada fala:
 - Não bem, perdi não. Eu achei. Só que vai ficá guardadinha na minha cabeça...

 E Barrilinho deu aquela risada atrevida, safada, alta, muito parecida com um rinchado de cavalo quando vê uma égua no cio.

 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acaso









sábado, 14 de setembro de 2013

O RÁDIO DE DONA LIRA.

Foto para ilustração do texto 

O sonho de dona Lira era ter um rádio. Queria ter um rádio para escutar as músicas de Cascatinha e Inhana, Duo Guarujá, Tonico e Tinoco bem como de outros cantores de quem era fã incondicional. Quando ela ouvia a música Luar do Sertão, baixava sobre ela uma grande tristeza por se lembrar dos seus tempos de menina na comunidade rural onde foi criada, quando a vida era, então, muito feliz ao contrário de agora que está cheia de problemas de todas as ordens e sem esperança de ver alguma melhora. Com quatro filhas solteiras, um marido irresponsável pela bebida e sem uma profissão definida. Entretanto, mesmo assim, diante de tanto descrédito, dona Lira ainda alimentava um fio de esperança de um dia possuir um rádio, afinal, a esperança, como dizem, é a última que morre.

Em toda a rua, existia, no máximo, três rádios. Quem tinha um aparelho desses o ligava até ao último furo, ou seja, no ponto mais alto. E fazia-se isso por dois motivos: Primeiro, para que os vizinhos aproveitassem o som das músicas e das notícias. Naquele tempo, existia o chamado "Reporter Esso" da Rádio Nacional do Rio de Janeiro que ao tocar a sua chamada musical todo mundo ficava de orelha em pé. Era sempre uma notícia ruim. Era como, nos dias de hoje, em Candeias, quando é anunciada a morte de alguém pelo alto falante da Igreja Matriz. Se houvesse um rádio ligado, logo se aproximavam algumas pessoas. O outro motivo era por se tratar de um certo status possuir um rádio. Um rádio era um aparelho caro e não era acessível a um proletário comum. Aquele que o tinha gostava de demostrar o seu objeto. Seria como os smartphones e tablets da atualidade. Os toca-discos eram raríssimos. Os discos eram de grafite e facilmente quebráveis. Possuíam 78 rotações e apenas uma música de cada lado. Entre o rol de cantores famosos daquele tempo estavam: Anísio Silva, Silvinho, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Angela Maria, Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco e muitos outros que ainda são ouvidos até hoje, apesar de muitos já terem ido para o andar de cima há tempos.

Meu pai ainda demorou uns três anos, desde esta época, até conseguir comprar um rádio, tipo "rabo-quente" que era um aparelho antigo o qual conservo até hoje como uma bela relíquia, além de alguns discos e uma vitrola movido à corda.

Dona Lira era uma mulata miúda de cabelo liso. Tinha quatro filhas as quais ela, desde bem cedo, já colocava na lida doméstica. Aparentemente, ela era uma forte mistura de negro, índio e branco. Carregava, na cabeça, um feixe de lenha maior que ela e buscava-os nos matos para vender aos seus fregueses em um tempo em que ainda não havia os fogões a gás. Ela e suas filhas eram muito trabalhadeiras. Lavavam roupa para fora, faziam faxina pesada e, ainda, buscavam lenha e capim-membeca para a fabriqueta de colchão do Candola Vilela.

O marido não tinha um serviço certo. Era, como diziam, um ambulante, pois, a cada dia, trabalhava para um patrão diferente. Ele sempre fazia ponto na venda do sr. Zé Lara que existia no local em que se encontra, atualmente, o bar do Vicentinho Vilela na Rua Professor Portugal. Dali saía, às vezes, até carregado pela embriaguez.

Dona Lira tinha uma vida muito difícil, coitada! Nos dias de chuva, o seu trabalho não rendia e ela passava a falta de muitas coisas e, por várias vezes, precisava de contar com a bondade e ajuda dos vizinhos que lhe emprestavam sempre ou uma colher de sal, ou um pouco de gordura ou ainda um pouco de arroz que, a bem da verdade, nunca voltavam. Todavia, por se tratar de pessoa agradável e muito prestativa, ninguém ligava para isso. Naquela época, muitas pessoas comiam o que ganhavam no dia e seu marido, que era alcoólatra, se estivesse sob o efeito do álcool, costumava dizer assim: "Eu sou como uma lombriga: se eu sair da merda, eu tô morto". E quando alguém lhe perguntava o que ele fazia, dizia sem titubear: "Eu cago para jantar".

Todavia, mesmo diante desse cenário precário, dona Lira dizia: "Se Deus quiser e Nossa Mãe do Céu ajudar, eu vou ter um rádio algum dia". E ela, que não era muito rezadeira, acabou fazendo uma promessa para São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, que se acaso conseguisse um rádio, iria de joelho da porta da igreja até ao altar mor da antiga Igreja Matriz de Candeias.

Do outro lado da rua, residia um cidadão chamado Domingos que era casado com dona Jovina. Domingos era enfermeiro especializado em leprologia. Era funcionário público federal e veio do Rio de Janeiro em companhia de alguns médicos especialistas para uma frente de trabalho que foi feita, em época remota, em Candeias, visando combater um surto desta terrível doença.

Domingos era um homem bom. Lidava com os doentes sem qualquer preconceito, pois não tinha medo da doença. Era um homem prestativo e estava sempre pronto a ajudar uma pessoa. Durante o tempo em que residiu em Candeias, ganhou diversos afilhados, haja vista que todo mundo gostava dele e ele gostava muito das crianças. Como era nosso vizinho, meus pais o chamou para apadrinhar a minha irmã, Maria Amélia. O povo gostava de ouvi-lo falar naquele sotaque carioca cujo "x" estava sempre na ponta da língua.

Um dia, veio a triste notícia de que Domingos voltaria para o Rio de Janeiro e, dessa maneira, resolveu fazer um inventário de parte dos seus utensílios domésticos deixando, como lembrança, um objeto para cada vizinho mais chegado. E para dona Lira, ele deixara um pequeno rádio do tipo rabo-quente, da marca RCA Victor, arredondado e preto.

Dona Lira, ao receber o presente, ficou transpassada e começou a chorar. Ela que teria chorado pela partida de Domingos já não estaria, agora, lamentando tanto a ida do vizinho amigo, marcada para o dia seguinte. Então, seu rádio falava e cantava o dia todo. Rezava, dava hora certa  e ela dizia: tão certa quanto o relógio que batia na sala de dona Marica, uma outra vizinha próxima. De longe, a gente ouvia no último furo do volume, a fala do Totó, um músico locutor da Rádio Clube de Campo Belo que já existia naquele tempo que não havia, ainda, rádios FM (Frequencia Modulada). Assim, boa parte da vizinhança ficou morrendo de inveja de dona Lira. Afinal, ganhar um rádio de mão beijada!?

Desta maneira, era chegada a hora de pagar a promessa. Dona Joana do Galdino parecia ser a cobradora do santo e não perdia tempo em cobrar de dona Lira a promessa feita. Logo, todo mundo que soube da promessa queria vê-la pagar o mais depressa possível. Contudo, dona Lira não parecia estar com muita disposição para pagar a promessa e se esquivava dizendo que precisava fazer um vestido novo para a ocasião, pois não tinha uma roupa bonita para cumprir a promessa. E o rádio, todos os dias, amanhecia e anoitecia no último furo, cantava, chorava, rezava, dava notícia boa, notícia ruim, e assim foi até que, após uns quinze dias, ele pifou e ficou totalmente mudo para a tristeza de dona Lira e para o silêncio dos vizinhos. Parece que teve vizinho que até achou bom o rádio de dona Lira pifar porque, infelizmente, os invejosos não querem que os outros tenham aquilo que eles mesmos não possuem. 

Levado ao Sebastião Salviano, o radio-técnico da cidade, lhe foi dada a triste notícia que o rádio havia recebido uma sobrecarga elétrica e, com isso, teria queimado algumas válvulas, peças caras e que todo dono de rádio temia acontecer.

Enquanto dona Lira e alguns vizinhos diziam que o verdadeiro motivo do problema havia sido o não cumprimento da promessa por ele, o seu marido, bêbado feito um gambá, dizia para todo mundo escutar:

--- Eu falei que esse santo não prestava. Eu nunca vi falar nele. Dá e toma. É um Tadeu que deu e num deu. Santo prá mim é São José o resto é resto. E dispois tem mais: já qui ia pidi pra quê num pidiu prá Jesus Cristo, num é ele o chefe dos santos??!!! Ora só! Cumigo é no pé do pau!

Armando Melo de Castro
Candeias casos e acasos mg

sábado, 7 de setembro de 2013

Eu, Um Menino Empata-Foda

Foto para ilustração do texto.

Na década de 50, eu ainda morava na casa em que nasci no número 304 da Rua Coronel João Afonso Lamounier. Era uma casa grande, tipo chalé, com duas águas e que foi de propriedade do meu avô paterno que a dividiu em duas novas partes as quais foram doadas uma para o meu pai e outra para o meu tio João. A divisória era uma parede no centro da casa que a tornava em paredes-meias para as duas residências. A casa era forrada por uma esteira de bambu, todavia, o telhado não obedecia à divisão, subentendendo-se as duas familias ao mesmo teto. Dessa maneira, a acústica era uma só. Era comum, por exemplo, o meu pai conversar com o meu tio de sala para sala e minha mãe, com a minha tia, de cozinha para cozinha, principalmente, à noite ou quando chovia.

Nas alterações que meu pai fez, em sua parte da casa, ele deixou o quarto de casal para a frente. Um quarto destinado as minhas irmãs, ao lado de uma pequena sala, e o meu quarto, que era o menor, ficava proximo à cozinha.

Do lado do meu tio, foram feitas, também, algumas modificações. Como ele era seleiro, deixou um cômodo de comércio, na parte de frente da casa, sendo instalada a sua selaria. Separou uma sala no meio da casa e, como possuía apenas dois filhos, ele os colocou juntos em um só quarto e o seu quarto de casal, ao invés do quarto do meu pai, ficou na parte dos fundos da residência, fazendo meia parede com o meu.

É de se concluir que duas familias, residindo em uma casa geminada, com essas delimitações, passam a ter uma vida em comum. Tudo que se fala de um lado escuta do outro. Até mesmo um cochicho consegue-se ouvir. Entretanto, como éramos famílias de uma mesma origem, nos dávamos muito bem.

Era, naquela época, um mundo muito diferente de hoje. As pessoas deitavam bem cedo e levantavam, da mesma forma, muito cedo. Não havia o que fazer à noite como ver novela, ouvir rádio, etc. Televisão não existia e os rádios, naquele tempo, eram escassos. O que mais se usava era jogar baralho nas casas dos vizinhos. Porém, para isso já havia um pequeno grupo acostumado e, mesmo assim, terminava-se cedo. Existia, ainda, o cinema. Acontece que eram poucos aqueles que frequentavam, diariamente, o cinema e a última sessão do cinema encerrava-se às nove horas da noite. Portanto, após os cinemeiros descerem à rua, poder-se-ia até ficar pelado.

Assim, em minha casa, da mesma maneira, era hábito dormir com as galinhas como se dizia àqueles que dormiam cedo. Contudo, antes de irmos para a cama, era um costume de meu pai reunir os filhos e contar, todo dia, uma pequena história. Parecia até uma novelinha. Algumas histórias ele inventava. Umas eram alegres e outras tristes. Uma hora a gente ria, outra hora a gente chorava. Meu pai usava muito da Biblioteca Pública para se preparar para essas historinhas. Portanto, as histórias da carochinha nos eram contadas e, muitas vezes, eram reprizadas e, assim, todas as noites, após o banho de bacia, ficávamos aguardando a historinha do dia. Depois era hora de rezar e, finalmente, cama.

Em um determinado momento daquela época, meu tio João resolveu deixar a profissão de seleiro e decidiu se mudar para a Comunidade dos Arrudas onde residia a minha Tia Maria, irmã do meu pai e casada com o senhor Lázaro de Castro, meu tio torto, que teria lhe proposto a abertura de uma venda em sociedade com os produtos fornecidos pela Casa Celestino Bonaccorsi em sistema de consignação. Com isso, ele alugou a sua casa, deixando essa tarefa aos cuidados do meu pai que logo conseguiu alugá-la a um jovem casal, recém casado, que teria chegado a Candeias vindo da cidade vizinha de Campo Belo. O rapaz já havia estabelecido uma pequena cerâmica de potes na comunidade de Boa Vista ao descobrir uma argila muito boa para tal. Como naquele tempo não existia asfalto e a viagem a Campo Belo não era tão fácil como hoje, o pequeno empresário, após o casamento, resolveu morar em Candeias com a recente esposa. E, neste contexto, alugou a casa de meu tio João.

Em um dia de sábado, pela manhã, um caminhão parou na porta da referida casa com a mudança do casal. Ele com seus vinte e cinco anos, mais ou menos, era magro, cabelo tipo principe Danilo que era muito usado na época. Tinha pouca barba, a boca pequena e o pescoço comprido. Era bem falante e demonstrava possuir uma certa cultura escolar. Chamava-se Jorge e era tratado pela esposa por benzinho. A mulher era bonita tinha um corpo violão, bem jovem, dentes bonitos e o rosto levemente maquiado. Chamava-se Ivanilda e era chamada pelo marido, também, de benzinho.

O casal era todo mel. Minha mãe, buscando ser gentil como manda a cartilha da boa vizinhança, fez o cadastro completo dos pombinhos. Chegou até a perguntar se eles já estavam intencionados a terem filhos. A moça respondeu que sim e aguardava, ansiosamente, por isso.

O caminhão que trouxe a pequena mudança trouxe, também, diversas pessoas da família que, em um organizado mutirão, logo montaram a casa e voltaram para Campo Belo. O casal voltou também vindo a dar as caras, novamente, em Candeias, no domingo à tarde.

Quando chegou a noite daquele dia, após a historinha do meu pai, de tomarmos café com pipoca e procedermos a nossa reza na sala, era chegada a hora de irmos para a cama. Logo que me acomodo em minha cama, naquela espera gostosa pelo sono profundo, inicia-se uma prosa, ao tom de um cochicho, do outro lado da parede, quando ouvi, na voz dos dois, o seguinte diálogo:

---É benzinho! Até que enfim vamos estrear a nossa casa e a nossa cama, hein!


---Pois é, eu já não via a hora, benzinho...

Passado pouco tempo, eu escutei um gemido da mulher que mais parecia um gemido de dor. E aquilo, ao me despertar a atenção, fez com que eu ficasse de ouvido atento. De repente, a mulher começou a gritar:

---Aiiiiiiiii, benzinhôôôôô! Cê vai me mata benzinhôôôôô!

Eu levei um susto danado. E o barulho continuou... Do homem eu não consegui escutar nada do que ele falava, mas da mulher o urro era de muita dor:

E, assim, ela chorando, gritava:

---Ai, benzinhôôôôô! Você vai me matar, gutuzura!...!

Se tal fato se desse hoje, com certeza, eu saberia o que era gutuzura e que se tratava de uma cobra engolindo uma rã ou, ainda, para citar outra metáfora, seria um inhame vegetando na sua cova. Entretanto, naquele tempo, eu não entendia nada de nada. E diante daquele susto, corri para o quarto dos meus pais que já estavam, igualmente, escutando aquele coito felino e, então,  eu comentei:

"Pai! O home tá matano a muié dele, pai. Acode lá! Ela falô que ele tá matano ela de gussura e falou também umas coisa que eu não entendi direito..."

E meu pai sem saber o que fazer, sem explicação para me dar e sabendo que aquilo aconteceria outras vezes, chegou até a porta do meu quardo e falou bem alto:

---Dá um jeito de dormir, Armando! E vê se não fique escutando conversa dos outros. Vê se cubra essa cabeça e durma.

Na mesma hora, a farra silenciou. Foi como jogar uma lata dàgua no fogo ou uma pedra no telhado. Mais uns três dias, após a primeira noite, o rapaz entregou a casa com a desculpa de que havia arrumado uma casa menor e mais barata na Rua Professor Portugal.

Ah! Como é bela a inocência das crianças!

 Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos.