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sábado, 7 de setembro de 2013

Eu, Um Menino Empata-Foda

Foto para ilustração do texto.

Na década de 50, eu ainda morava na casa em que nasci no número 304 da Rua Coronel João Afonso Lamounier. Era uma casa grande, tipo chalé, com duas águas e que foi de propriedade do meu avô paterno que a dividiu em duas novas partes as quais foram doadas uma para o meu pai e outra para o meu tio João. A divisória era uma parede no centro da casa que a tornava em paredes-meias para as duas residências. A casa era forrada por uma esteira de bambu, todavia, o telhado não obedecia à divisão, subentendendo-se as duas familias ao mesmo teto. Dessa maneira, a acústica era uma só. Era comum, por exemplo, o meu pai conversar com o meu tio de sala para sala e minha mãe, com a minha tia, de cozinha para cozinha, principalmente, à noite ou quando chovia.

Nas alterações que meu pai fez, em sua parte da casa, ele deixou o quarto de casal para a frente. Um quarto destinado as minhas irmãs, ao lado de uma pequena sala, e o meu quarto, que era o menor, ficava proximo à cozinha.

Do lado do meu tio, foram feitas, também, algumas modificações. Como ele era seleiro, deixou um cômodo de comércio, na parte de frente da casa, sendo instalada a sua selaria. Separou uma sala no meio da casa e, como possuía apenas dois filhos, ele os colocou juntos em um só quarto e o seu quarto de casal, ao invés do quarto do meu pai, ficou na parte dos fundos da residência, fazendo meia parede com o meu.

É de se concluir que duas familias, residindo em uma casa geminada, com essas delimitações, passam a ter uma vida em comum. Tudo que se fala de um lado escuta do outro. Até mesmo um cochicho consegue-se ouvir. Entretanto, como éramos famílias de uma mesma origem, nos dávamos muito bem.

Era, naquela época, um mundo muito diferente de hoje. As pessoas deitavam bem cedo e levantavam, da mesma forma, muito cedo. Não havia o que fazer à noite como ver novela, ouvir rádio, etc. Televisão não existia e os rádios, naquele tempo, eram escassos. O que mais se usava era jogar baralho nas casas dos vizinhos. Porém, para isso já havia um pequeno grupo acostumado e, mesmo assim, terminava-se cedo. Existia, ainda, o cinema. Acontece que eram poucos aqueles que frequentavam, diariamente, o cinema e a última sessão do cinema encerrava-se às nove horas da noite. Portanto, após os cinemeiros descerem à rua, poder-se-ia até ficar pelado.

Assim, em minha casa, da mesma maneira, era hábito dormir com as galinhas como se dizia àqueles que dormiam cedo. Contudo, antes de irmos para a cama, era um costume de meu pai reunir os filhos e contar, todo dia, uma pequena história. Parecia até uma novelinha. Algumas histórias ele inventava. Umas eram alegres e outras tristes. Uma hora a gente ria, outra hora a gente chorava. Meu pai usava muito da Biblioteca Pública para se preparar para essas historinhas. Portanto, as histórias da carochinha nos eram contadas e, muitas vezes, eram reprizadas e, assim, todas as noites, após o banho de bacia, ficávamos aguardando a historinha do dia. Depois era hora de rezar e, finalmente, cama.

Em um determinado momento daquela época, meu tio João resolveu deixar a profissão de seleiro e decidiu se mudar para a Comunidade dos Arrudas onde residia a minha Tia Maria, irmã do meu pai e casada com o senhor Lázaro de Castro, meu tio torto, que teria lhe proposto a abertura de uma venda em sociedade com os produtos fornecidos pela Casa Celestino Bonaccorsi em sistema de consignação. Com isso, ele alugou a sua casa, deixando essa tarefa aos cuidados do meu pai que logo conseguiu alugá-la a um jovem casal, recém casado, que teria chegado a Candeias vindo da cidade vizinha de Campo Belo. O rapaz já havia estabelecido uma pequena cerâmica de potes na comunidade de Boa Vista ao descobrir uma argila muito boa para tal. Como naquele tempo não existia asfalto e a viagem a Campo Belo não era tão fácil como hoje, o pequeno empresário, após o casamento, resolveu morar em Candeias com a recente esposa. E, neste contexto, alugou a casa de meu tio João.

Em um dia de sábado, pela manhã, um caminhão parou na porta da referida casa com a mudança do casal. Ele com seus vinte e cinco anos, mais ou menos, era magro, cabelo tipo principe Danilo que era muito usado na época. Tinha pouca barba, a boca pequena e o pescoço comprido. Era bem falante e demonstrava possuir uma certa cultura escolar. Chamava-se Jorge e era tratado pela esposa por benzinho. A mulher era bonita tinha um corpo violão, bem jovem, dentes bonitos e o rosto levemente maquiado. Chamava-se Ivanilda e era chamada pelo marido, também, de benzinho.

O casal era todo mel. Minha mãe, buscando ser gentil como manda a cartilha da boa vizinhança, fez o cadastro completo dos pombinhos. Chegou até a perguntar se eles já estavam intencionados a terem filhos. A moça respondeu que sim e aguardava, ansiosamente, por isso.

O caminhão que trouxe a pequena mudança trouxe, também, diversas pessoas da família que, em um organizado mutirão, logo montaram a casa e voltaram para Campo Belo. O casal voltou também vindo a dar as caras, novamente, em Candeias, no domingo à tarde.

Quando chegou a noite daquele dia, após a historinha do meu pai, de tomarmos café com pipoca e procedermos a nossa reza na sala, era chegada a hora de irmos para a cama. Logo que me acomodo em minha cama, naquela espera gostosa pelo sono profundo, inicia-se uma prosa, ao tom de um cochicho, do outro lado da parede, quando ouvi, na voz dos dois, o seguinte diálogo:

---É benzinho! Até que enfim vamos estrear a nossa casa e a nossa cama, hein!


---Pois é, eu já não via a hora, benzinho...

Passado pouco tempo, eu escutei um gemido da mulher que mais parecia um gemido de dor. E aquilo, ao me despertar a atenção, fez com que eu ficasse de ouvido atento. De repente, a mulher começou a gritar:

---Aiiiiiiiii, benzinhôôôôô! Cê vai me mata benzinhôôôôô!

Eu levei um susto danado. E o barulho continuou... Do homem eu não consegui escutar nada do que ele falava, mas da mulher o urro era de muita dor:

E, assim, ela chorando, gritava:

---Ai, benzinhôôôôô! Você vai me matar, gutuzura!...!

Se tal fato se desse hoje, com certeza, eu saberia o que era gutuzura e que se tratava de uma cobra engolindo uma rã ou, ainda, para citar outra metáfora, seria um inhame vegetando na sua cova. Entretanto, naquele tempo, eu não entendia nada de nada. E diante daquele susto, corri para o quarto dos meus pais que já estavam, igualmente, escutando aquele coito felino e, então,  eu comentei:

"Pai! O home tá matano a muié dele, pai. Acode lá! Ela falô que ele tá matano ela de gussura e falou também umas coisa que eu não entendi direito..."

E meu pai sem saber o que fazer, sem explicação para me dar e sabendo que aquilo aconteceria outras vezes, chegou até a porta do meu quardo e falou bem alto:

---Dá um jeito de dormir, Armando! E vê se não fique escutando conversa dos outros. Vê se cubra essa cabeça e durma.

Na mesma hora, a farra silenciou. Foi como jogar uma lata dàgua no fogo ou uma pedra no telhado. Mais uns três dias, após a primeira noite, o rapaz entregou a casa com a desculpa de que havia arrumado uma casa menor e mais barata na Rua Professor Portugal.

Ah! Como é bela a inocência das crianças!

 Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos.

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