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quarta-feira, 27 de julho de 2011

AS MÃOS DO DENTISTA


Nesta casa branca, que ficava num barranco, era o gabinete dentário do Sr. Boanerges Pacheco. No lugar da janela era a porta de entrada. Parte da clientela se enfileirava do lado de fora.
      
   Semana  passada, numa emergência dentária, tive que procurar um dentista e fui me ater no consultório da Dra. Luana, na Avenida 17 de dezembro, ao lado da Farmácia Nossa Senhora Aparecida. E como aconteceu em tantas outras vezes na minha vida, acabei dando o meu vexame de paciente traumático. Talvez, com isso, tenha deixado aquela jovem profissional admirada de ver um homem empanado nos seus cento e dez quilos, contando quase setenta anos de idade, detendo, em si, uma fragilidade medonha diante de uma profissional preparada sob extrema responsabilidade.

É de todo patente que o serviço odontológico do tempo do Brasil Colônia, se estendeu por muitos anos e fora restrito à extração de dentes. E esse trabalho era feito por pessoas ignorantes. Esses profissionais não viviam apenas disso. Eram barbeiros, curandeiros, enfermeiros e sangradores. O trabalho era feito sem nenhum cuidado contra as infecções e a falta de higiene era total. Tinham uma autorização governamental, mas, para isso, precisavam provar que já possuíam acima de dois anos de prática e essa prática eles conseguiam fazendo as maiores barbaridades. Num tempo em que ainda não existiam os medicamentos de hoje e nem os recursos disponíveis, às vezes, muitos pacientes morriam infeccionados.

Os médicos da época se negavam a fazer esse tipo de serviço. Eles alegavam que perderiam o tato das mãos leves para a hora de uma cirurgia mais frágil. Como as pessoas que faziam esse trabalho eram vistas como corajosos astuciosos e impassíveis, subentende-se que os médicos tinham era medo de exercer a odontologia.
Não havia instrumentos e nem anestesia. Acontecia, às vezes, de amarrarem o paciente numa cadeira para tratá-lo. Dentaduras eram feitas e vendidas avulsas. O paciente comprava a que melhor lhe adaptasse. Usava-se muito o provérbio: “fazer com os dentes para comer com as gengivas”.

Muitos anos mais tarde, quando já organizada a odontologia, os primeiros dentistas formados faziam um curso anexo às faculdades de medicina. Posteriormente, vieram as faculdades de odontologia independentes. Contudo, isso só veio acontecer por volta de 1935. Daí em diante, foi que a odontologia deu asas para a sua evolução porque, até então, as cidades pequenas, principalmente, não tinham um dentista formado numa faculdade. Eram, simplesmente, práticos e protéticos os que, ainda, exerceriam a profissão de dentista por um bom tempo. Uns iam ensinando aos outros que se estabeleciam em uma localidade sem, entretanto, terem conhecimento do que representavam para a saúde dos pacientes. É claro que existiam alguns mais cuidadosos, mas, tinham aqueles que eram totalmente desprovidos das necessidades básicas da higiene que deveria ter um dentista.

É impressionante o quanto a odontologia se evoluiu num espaço de pouco mais de cinquenta anos. Tempo em que eu pude presenciar.

A coisa era feia. Não só por culpa dos chamados práticos dentistas que atendiam a nossa população, mas, também, pela forma pouco evoluída que a odontologia se apresentava. Um gabinete dentário assemelhava-se à sala onde foi executado o famoso bandido americano, Karyl Chessman, na cadeira elétrica, em 1960. Dava medo. Os dentistas tinham os seus aventais sujos de sangue e pareciam magarefes descuidados. Outra coisa que me fazia arrepiar as canelas era o famoso ferrinho de dentista. Não existiam esses motorzinhos modernos de hoje (terríveis), mas, em compensação, tinha uma broca que girava movida através de um pedal e quando o dentista chegava aquilo no dente da gente era como se fosse um trator dentro da boca.

Mas, pensando bem, temos que ser justos. Não eram os dentistas os únicos responsáveis pelos problemas psicológicos que um tratamento de dente causava ao paciente. Era um tempo muito atrasado. Portanto, tratava-se, a bem da verdade, de uma questão cultural. Danosa era a pobreza. Um tratamento de dente nunca foi coisa barata e a maioria das pessoas não tinha dinheiro. Não haviam esses convênios de hoje. Os produtos que os dentistas usavam eram totalmente importados e caros o que fazia com que um tratamento preventivo se tornasse muito caro também. O ouro era um produto muito usado pelos dentistas.

Muitos arrancavam os seus dentes em casa, quando esses já se encontravam frouxos ou quando se tratava de dentes de crianças da primeira dentição. Eu, por exemplo, fui ao dentista, quando a segunda dentição já começava a dar sinais de perdas. Eu nunca fui a um dentista por causa de um dente de leite. Amarrava-se o dente com uma linha e dava-se-lhe um tranco. Comumente, era esperar o dente doer. Após, banhava-o com água de sal, tomava-se um comprimido de Cibazol (indicado para dores de dentes) e, se o dente fosse furado, infiltrava-se nele um algodão embebido em álcool ou ácido fênico, quando diziam que era para queimar a raiz do dente. Se isso não resolvesse, era então procurado o dentista que pouco mais tinha a fazer a não ser arrancar o dente envolvido em um tumor. As obturações, feitas no passado, eram muito ruins e caiam ficando uma perfuração maior do que a cárie que foi tratada. Daí, o recurso, quase sempre, era arrancar o dente.

Poucos faziam tratamento preventivo. Ia-se ao dentista quando já estava com o rosto inchado. Havia casos de supuração que perfurava o rosto do cristão. A prática era arrancar todos os dentes que no mundo de hoje seriam facilmente tratados e colocava-se uma dentadura. Ah! Ainda tinha mais: após a extração dos dentes, o paciente ficava com a boca murcha aguardando, até meses, para colocar a dentadura. Esse tempo, diziam os dentistas, seria para que a prótese não viesse a ficar frouxa e se soltando da boca.
Se existe um medo que eu não tenho acanhamento de tê-lo é o medo de dentista. Eu morro de medo deles. Já fui alvo de todo tipo de gozação, mas, não abro mão do meu medo. Só de pensar naquele barulho do motorzinho deles, lembrar do boticão, lembrar da broca movida a pedal, as minhas canelas arrepiam. E, quando canela arrepia, é sinal de trauma. E o que eu tenho é trauma com todas as letras: T.R.A.U.M.A. Eu sofro quando tenho que mexer nos dentes.

As primeiras vezes que fui a um dentista estão bem guardadas nos labirintos da minha memória. São cicatrizes psicológicas que jamais vão desaparecer de mim e que para elas dificilmente poderiam existir uma plástica mental.
Lembro-me de quando fui seguro na cadeira de dentista do Cristovão Teixeira, pelo meu pai e o Ximango, um negão de todo tamanho. Isso por estar inquieto com um dente tumoroso e o rosto todo inchado. Em outra vez, lembro-me, também, quando fui tocado com o "ferrinho" com todo descuido no nervo de um dente doente. Só de lembrar disso eu fico arrepiado.

Mesmo com a evolução da odontologia, longe daquele cheiro horrível dos produtos odontológicos, daquela cadeira de Chessman, daquela broca assassina e do boticão, então, ferramenta prioritária dos dentistas, essas lembranças ficaram tão bem entranhadas nos meus neurônios que a palavra dentista ainda me assusta.
Apesar do esforço que faço, durante anos, no sentido de me conscientizar sobre esta questão, posso garantir que, ao entrar num consultório odontológico, sinto que estou indo para um gabinete próprio para um suplício.

Felizmente eu encontrei em Lagoa da Prata, o Dr. Luiz Perilo, um cirurgião dentista competente e de larga experiência com clientes traumáticos. Muito tem me ajudado a superar um pouco dessa agressão emocional, da qual guardo profundas cicatrizes.
Atualmente, Candeias encontra-se bem provida de dentistas. Temos, aqui, ótimos cirurgiões todos diplomados e qualificados em uma faculdade para atender quaisquer tratamentos que uma boca merece. Hoje em dia esses profissionais são atentos e estão sempre reciclando os seus conhecimentos, no sentido de acompanhar a evolução da ciência odontológica.
O Primeiro cirurgião dentista a vir para Candeias foi o Dr. Luiz Carlos dos Santos, irmão do Sr. Waldemar, então, dono da Farmácia São José. Dr. Luiz tinha o seu consultório na loja ao lado da Farmácia São José tendo se transferido, mais tarde, para a Rua Pedro Vieira de Azevedo, onde reside até hoje. É um candeense por adoção. Natural de Barbacena veio juntar-se a nós na construção da história de Candeias.
Eu tinha dezesseis anos quando fiz o meu primeiro tratamento de dente. Até então, eu não tinha consciência do que seria isso. E para mim dentista era apenas para arrancar os dentes e colocar uma dentadura no lugar.

Para esse tratamento, eu procurei o Sr. Boanerges Pacheco. Um dentista prático que tinha grande clientela por ter um preço módico. Mas essa modicidade tinha um preço também. Usava-se produto de péssima qualidade. Como exemplo, os chamados pivôs, pino que interliga a raiz de um dente natural com um dente postiço; muitos dentistas usavam agulhas de vitrola, comuns naquele tempo. Isso, hoje,teria o nome de "gambiarra". 

Lembro-me que fui ao seu gabinete (os práticos davam aos consultórios o nome de gabinete) e fiz um orçamento para tratar três obturações. Isso demorou três semanas. Talvez, pelo meu estado apreensivo, Boanerges evitava mexer por muito tempo na minha boca. Era um zás-trás e pronto, já me mandava voltar em um outro dia. Como eu já fumava nesse tempo, o serviço incluía uma limpeza geral no final do tratamento com um produto para clarear os dentes.

Assim, no último dia, minutos antes desse processo de limpeza, Boanerges me pede licença e entrou num pequeno banheiro que tinha no seu gabinete. Cá de fora, eu pude receber os estrondos que os seus intestinos forneciam aos meus ouvidos. Depois de algum tempo, ele sai, lá de dentro, sem passar as mãos por qualquer torneira e as enfia dentro de minha boca a fim de isolar com algodão a pele dos dentes onde iria usar o tal branqueador. Foi quando eu senti um cheiro horrível de fezes.

Ao fazer a aplicação daquele medicamento, nos meus dentes, comentou tranquilo:
“O Vadinho da Sota me falou que esse remédio tem gosto de bosta”.
E eu, apesar de ser um menino acanhado, não tive como evitar o meu comentário sucinto:

Gosto eu não sei, Sô Boanerges, porque eu nunca comi bosta. Agora, cheiro tem e muito, mas, eu acho que é da mão do senhor.
Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

DONA ESTER

                                                                               CRUZEIRO DO JOSINO
Hoje, como às vezes acontece comigo, amanheci com o desejo veemente de colocar a minha conversa em dia com os Céus. Portanto, resolvi ir até ao Cruzeiro do Josino, ponto preferido por mim para falar com Deus. Fui pedir ajuda - entregar os meus pecados e agradecer tudo aquilo que recebo diante da missão que me foi dada aqui neste mundo, no sentido de contribuir com a obra da Sua criação.

Ali, aos pés daquela cruz campal, símbolo maior da redenção cristã, onde, há sessenta anos eu faço as minhas orações e as minhas meditações, abri um dos mais queridos estojos da minha infância e me encontrei com Dona Ester. Era ela minha vizinha de quem eu guardo nítidas lembranças pelo carinho que me dedicou, quando eu me encontrava na flor da idade. Muitas foram às vezes que nos ajoelhamos aos pés daquela cruz e rezamos juntos. Agora, com certeza, estará noutra das muitas moradas da casa do Pai (São João 14/2).
Que saudade eu senti naquele momento de Dona Ester!...
Retroagindo pela estrada do tempo, volto à minha infância e sinto a presença de Dona Ester dando-me a sua melhor atenção como que alguém muito importante para ela.

Natural da cidade de Itumirim/ MG, na região de Lavras, veio trazida para Candeias através das águas do destino como uma ave aquática extraviada da sua rota. Aqui, se aportou na busca de novos ares e de algo que pudesse atender a sua vida vazia, visto que teria vivido de preencher o vazio dos outros, sem nenhuma resposta. 

Seu comportamento, involuntário, não atendia os preceitos da sociedade hipócrita e inescrupulosa.  Época em que um agouro do destino arrebatava quaisquer sentimentos louváveis. Era um tempo em que a prostituição tinha diversos segmentos e, entre esses, a fome, a miséria e o meio de onde é feito o homem como produto excluso. Dona Ester era uma vítima social julgada como ré por um tribunal sem consciência.

Seu desejo de ter um lar lhe foi concedido por Deus. Contudo, os filhos lhe foram negados. Casou-se, já idosa, com João de Paiva que lhe acolheu após a sua travessia num revolto mar da vida. Desde então, se tornou integrante da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, quando ostentava o seu vestido de tricoline preto e uma fita de seda vermelha ao pescoço como insígnia da confraria. Teria sido um presente do marido que a fez muito feliz. Aquele vestido preto, talvez, tivesse dado a Dona Ester uma emoção muito maior do que o branco vestido de noiva que jamais teria usado.

Agora, perante a Igreja Católica, parece que Dona Ester teria se tornado filha de Deus por ter se casado de acordo com as suas regras.

Era uma vida modesta. Seu marido um pedreiro do padrão: meia-colher e, às vezes, lhe faltava serviço. Dona Ester, com a sua hábil maneira de economizar, fazia com que não lhes faltassem nada. Chegou a juntar dinheiro com o qual comprou um rádio usado sendo, naquela época, um aparelho caro, mas, que lhe proporcionava acompanhar, diariamente, o terço através da Rádio Nove de Julho, de São Paulo. Emissora que veio, posteriormente, a ser fechada pela Ditadura Militar e reaberta anos depois.

Dona Ester gostava de ir ao mato catar garavetos e sempre me levava com ela, como companhia. E lá no mato, era aquela preocupação comigo: "Armando! Cuidado, meu filho! Olha no chão para ver se não tem cobra!"

E eu, com os meus olhos de menino descuidado, nem sei se olhava para o chão. O que eu queria, no entanto, era encontrar as frutas do mato, naquele tempo fartas na região de Candeias, como a guabiroba, goiabinha, pequi, araçá, araticum, marmelada-de-cachorro e muitas outras espécies de frutas silvestres das quais eu tanto gostava e que só existem, hoje, nas minhas lembranças. Cada uma tinha o seu mês. A guabiroba, por exemplo, era de outubro a novembro. A marmelada-de-cachorro era farta no mês de dezembro. No mês de janeiro, os animais nadavam e rolavam no pequi. O araçá e o araticum perfumavam o cerrado no mês de março.

Ainda guardo, na minha memória, um pé de limãozinho doce que existia próximo de onde está, hoje, a COPASA, no Bairro Rio Branco. Como Dona Ester gostava daqueles limõezinhos! O pé era muito alto e a gente tinha que levar um bambu para apanhá-los. Às vezes, eu insistia em subir no pé para colher a fruta da sua preferência, mas, ela não deixava. Temia que eu viesse a cair do galho.

Dona Ester sabia tudo e me ensinava tudo. Eu a ouvia, atentamente, quando falava. E como eu gostava de vê-la chamar-me de meu filho! O meu coração tinha lugar para muitas mães e eu a coloquei dentro dele como uma de minhas mães.

Éramos vizinhos de frente. Na sua casa, ela não comia nada diferente sem guardar uma prova para mim. Ela criava uma carneira dentro de casa e parece que o animal gostava de mim também. A ovelha era tida como filha.Tratada como “bitinha” da qual tirou lã até completar uma colcha para se agasalhar como se fosse aquilo o calor do animal querido.

Quando a seca chegava e a chuva não vinha, íamos juntos molhar o pé da cruz e pedir auxílio aos Céus. Devota fervorosa de São Benedito e São José, dizia sempre que os seus santos nos aliviariam da seca mandando chuva.

As pessoas que adoeciam na vizinhança tinham uma aliada fiel. Preocupava-se com o doente como se fosse um parente seu.

Quanta saudade eu sinto de Dona Ester! Lembro-me de suas risadas mostrando uma boca sem dentes. Exaltando as rugas de um rosto sofrido. Os cabelos brancos levando a saúde e matando a juventude. Um corpo flácido e fatigado pelo tempo dando mostras de uma vida em decadência; coberto, constantemente, por um vestido de tecido grosso, descorado e desgastado. Um corpo sem o viço de outrora, estampado numa velha fotografia amarelada e dependurada junto de um quadro da Santíssima Trindade na sala de sua casa.

Onde quer que você esteja Dona Ester, obrigado pela presença constante na história da minha vida. Receba de coração o meu o meu abraço, o meu beijo, o meu carinho e a minha saudade. Com certeza, a paz do Senhor estará sempre com você porque você merece.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

sábado, 16 de julho de 2011

O CAÇADOR DE TATU

                    Tatu-Canastra, o maior de todos.
      Um dia desses, quando eu viajava de Candeias para a cidade de Formiga, durante à noite, passou pela frente do meu carro um tatu e eu tive que quase parar para não o atropelar. Era um tatu-galinha, daqueles pequenos, cuja carne sempre foi muito admirada pelos caçadores. Diante do fato, veio à tona de minha memória a imagem de uma caçada de tatu da qual eu participei há muitos anos:

Antonio Tatu, como era bem conhecido, viera da comunidade dos Vieiras, Município de Candeias, para residir na cidade. Caçava tatu por encomenda e servia aos seus fregueses, admiradores da carne do bicho.
Antonio contava, mais ou menos, uns quarenta anos. Era um elemento magricelo, alto, pouca barba e um bigode espesso. Olhos azuis. Testa longa e cabelos castanhos bem claros, quase louros, descendo à nuca. Seus trajes, para não considerá-los descorados, eu os diria da cor do chão.

Tinha duas profissões pelas quais era muito procurado. Uma delas era executada durante o dia, quando furava fossas e cisternas. E a outra era a caçada de tatu que ele fazia à noite. Trabalho que lhe valeu o apelido de Tatu. Porquanto, muita gente pensava que o seu apelido era devido ao fato de ser furador de buracos de fossas e cisternas.
E foi numa caçada dessas que Antonio levou consigo alguns convidados entre eles o meu pai, então, curioso para ver como era caçado o pobre silvestre. E nesta comitiva, eu já me fiz incluso de “contrapeso”, pois, como dizia minha mãe, eu era o rabo do meu pai. E foi uma experiência muito ruim para os meus olhos de menino. Assistir aquilo me deixou muito abismado.

Um grupo de quatro pessoas perseguia o animal através dos cães. Quando um cachorro dava o sinal de que teria localizado o bicho, este corria e se escondia no buraco, sendo esta a sua defesa natural. Assim, o cão ficava a latir ali até a chegada dos caçadores que vinham em disparada, mato afora, a fim de pegar a caça numa verdadeira extravagância física. Ora tropeçando em tocos, ora levando cerca de arame no peito devido ao escuro.

Diante desse flagelo sobre si, o animal aplica a sua defesa abrindo a sua carapaça e se prendendo nas paredes do buraco. Daí, o caçador, usando a arma própria, ou seja, um arpão tipo de uma seta de ferro, afixada na ponta de um cabo de vassoura, o introduz no ânus do pobre animal deixando-o imobilizado. Quando não se consegue puxar o bicho pelo rabo, faz-se uma cava ao redor do buraco até tê-lo em mãos.


Sinceramente, ao presenciar esse tipo de caçada, eu me senti sensibilizado e deduzi que os caçadores são frios e trazem consigo uma índole maldosa. No caso da caçada de tatu, dá para sentir que a fazem com certo requinte de maldade. É uma morte torturante! E eu não gostei de ver aquilo.

Felizmente, com as leis que protege a matança desses animais, isso vai se tornando coisa do passado, apesar de que deve,  ainda,  existir, por aí, muitos caçadores de tatu e, obviamente, de outros animais. Afinal, o Brasil é o país da clandestinidade e da impunidade diante do descumprimento das leis.

Mas, mudando o assunto de pau para cavaco sem deixar o caçador de tatu de lado, eu, escarafunchando a minha memória, consigo me lembrar de um caso hilariante acontecido com o Antonio Tatu, tão logo tenha vindo dos Vieiras, quando se estabeleceu na cidade com a sua família. Ele tinha um filho meio louro e que estava sempre em sua companhia. Era o seu ajudante furando o chão e nas caçadas de tatu. A meninada o chamava de Tatuzinho. Onde um punha o pé, o outro punha o nariz. Os dois, portanto, tinham uma curiosidade em comum: tão logo vieram da roça, queriam conhecer o cinema. Para quem até então vivera na zona rural, pouco conhecia as coisas da cidade. Ouvindo contar as histórias da cidade, o cinema era realmente uma coisa extremamente curiosa para eles.

Antes de existir o atual cinema de Candeias (hoje inoperante), inaugurado no mês de maio de 1955, já de propriedade do Monsenhor Castro, havia o cinema do Onofre. Um cinema bem menor, no mesmo lugar onde se encontra hoje as instalações do Cine Círculo Operário São José.

Foi chegado o grande dia. Antonio Tatu e Tatuzinho iriam ao cinema. E o filme seria com o maior ator de cinema de faroeste da época, Roy Rogers, com o seu cavalo branco, o famoso Trigger.

Num determinado momento, Antonio Tatu dá um grito dentro do cinema por ter visto alguém de tocaia: “Nossa Senhora! Acode!”.

O mais engraçado aconteceria no outro dia, quando Antonio Tatu e Tatuzinho tentavam contar aos amigos o que teriam achado do filme:

“---Um cavalo bunito dimais! Mas, o cavalêro não sabia nem falá. Era um bobão. Parece que aquele povo do cinema fala igual índio ou a língua deles é incravada até na goela: Um chegou perto do outro e falou assim: Roça run Ual... Roça cau, cau. Aí,cão ratiu. Daí, deu um murro no outro e saiu dano tiro pra tudo quanto é lado. Cubo rau. bummmmmmmmmmm. Tinha hora que o povo até ria deles de tão bobo que eles era”.

Nunca mais ouvi falar de Antonio Tatu e nem do seu filho, Tatuzinho. E assim, o mamífero noctívago pode apreciar a lua com tranqüilidade sem o risco de levar uma fisgada no traseiro pelo arpão do jeca o que, a meu ver, é a morte mais triste do mundo.  Instrumento de caçar o tatú.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O VASO SANITÁRIO 2

Continuação:
             O conflito familiar há de sempre existir e dele, nem sempre, poderemos nos livrar. Existem famílias que, por uma pequena questão, fazem um barulho danado. Ofendem-se, uns aos outros. Batem o tempo todo na mesma tecla e, quase nunca, chegam a um denominador comum. Interessante é que as pessoas mais amadas por si são as que mais se ofendem e mais se agridem. Comumente, vemos pais criticarem os seus filhos sem o mínimo de respeito para isso. No caso daquela família minha vizinha, na qual houvera uma grande discussão, em torno de um vaso sanitário, dá para ver que era uma questão tão simples e que virou um verdadeiro suplício, sem a menor necessidade. É bem certo que aquela filha, a Maria Isabel, sofria de um distúrbio e, naturalmente, precisava de um tratamento psicológico.

Viu-se a família diante de um estorvo. Afinal de contas, o velho estava fazendo grande imundície no quarto ao usar o urinol com a mão trêmula. E a mãe, para não deixar a filha alarmada, ocultava a dimensão do problema sabendo, de antemão, como seria a sua reação. A sugestão dada por alguém, no sentido de aderirem ao uso daquele mecanismo, era promissora e via-se, nisso, a solução do problema.

Era preciso fazer algo no sentido de convencer Maria Isabel a permitir a colocação do vaso sanitário dentro de casa.
Estudada a questão em família, lembrou-se que Maria Isabel poderia obedecer apenas ao seu tio José Luiz, seu padrinho de batismo, sem filhos herdeiros e que, supostamente, a faria sua herdeira. Padrinho Zé Luiz era como um ídolo para ela e esta para ele, a afilhada do coração. O velho Joaquim resolveu chamar o seu irmão para intervir na questão.

José Luiz, com a sua solércia muito considerada na família, não teve dificuldade de fazer a excêntrica afilhada aceitar a colocação do vaso no seio da intimidade familiar. E isso foi feito imediatamente, dentro de poucos dias, tão logo foi dado o sinal verde pela mandona que o fez contra a sua vontade, mas, não poderia deixar de atender ao padrinho.

Sabe-se que o compartimento foi construído sob o rigor das suas exigências, como por exemplo: porta sem frestas e janela protegida com filó para não correr qualquer risco da entrada de moscas. A porta se, por ventura, fosse esquecida aberta o fuzuê estava feito. Lá de casa, se escutava tudo.

Posteriormente, parecia correr tudo bem. Supunha-se que a questão do vaso fora superada, até que um dia, um fato novo veio a acontecer em torno da mesma questão.

Sabendo do estado de saúde que se encontrava o velho Joaquim, sua irmã mais nova, moradora no Estado de Goiás, resolve vir até Candeias fazer uma visita ao irmão mais velho. Tratava-se de uma mulher casada, separada do marido e que segundo as informações captadas pelos meus eficientes ouvidos, era tipo tico-tico no fubá. Chamava-se Rosa. 

Era uma mulher robusta, bem vestida, cabelos curtos, sorriso largo, cheia de maquiagem, batom cor de sangue, unhas bem cuidadas, brincos argolados e realçados. Enfim, era do padrão perua. Seu perfil não seria de uma pessoa acostumada com a lida doméstica. Além disso, gostava de degustar uma cervejinha quebrando o gelo com uma cachacinha e tira-gosto com carne. Nesses dias, a casa virou uma fartura. Era carne fritando, assando, cozinhando e o cheiro ia longe. Meu pobre narizinho que o diga... E a coroa, ainda enquadrada na idade fértil, dava sinais de querer um homem. Às vezes, ouvia-se dela a esnobação no seu palavreado quando dizia que ainda se ajeitava com rapazes mais jovens do que ela e aconselhava: O homem é um diabo não tem mulher que negue, mas, eu gosto de um diabo que me carregue!”Vocês precisa casar, Gente!” E dava aquela gaitada de deboche.

A bem da verdade, a presença de Rosa, naquela residência, não foi uma festa íntima para a Maria Isabel que ia à frente limpando e ela, atrás, sujando. A sobrinha achava que a tia estava de sobra e já dava a entender de que não via a hora daquela depravada zarpar do seu porto de águas mansas, agora, turbulentas por sua presença.
Finalmente, é chegado o dia da partida. Após dez dias de agitação, a família, agora, poderia respirar um pouco mais sossegada, sem a presença de alguém, totalmente diferente e portadora de princípios incompatíveis.

As viagens para o Estado de Goiás eram feitas de trem e demoravam de dois a três dias. O trem noturno passava em Candeias, por volta das cinco horas da manhã. O passageiro tomava embarque aqui e fazia do trem uma residência por dias e noites. No trem havia restaurante e dormitório. E o falatório sobre essa viagem foi tão exaustivo que eu fechava os olhos e imaginava um sertão.
Quem ia para Goiás dizia que estava indo para o sertão. Aliás, quem viajava para além da cidade de Bambuí, usava-se falar que ia para o sertão.

No supermercado Faria, se diz que o queijo-de-minas que vendem é vindo do sertão. O sertão que eles se referem são as cidades de Medeiros e Pratinha, ambas em Minas Gerais, que produzem queijo de boa qualidade e ficam na região do então agreste mineiro.

Mas, voltando à viagem da Rosa, esta se levantou, bem cedo, no dia da sua partida. Já pelas quatro horas da manhã, pudemos ouvir o barulho do pilão, socando o café torrado. Abraços aos parentes eram recomendados. Agradeciam o feijão roxinho que teria vindo de presente. E pediam que a volta não fosse mais tão demorada. Claro, que essas recomendações eram da boca pra fora, principalmente, por parte da Maria Isabel que já não tinha mais onde guardar tanta indignação.

Parecia uma festa. A Rosa porque partia de regresso, após dias de descanso e de bebedeira. Os parentes porque se viam livres daquela pessoa deturpada e de língua solta. Não só a língua era solta, visto que, quando entrava para o gabinete sanitário, sem nenhum escrúpulo, soltava as suas estrondosas ventosidades fétidas, detonando o ambiente, deixando aquele povo assustado diante de apoucada educação. Tal comportamento levava Maria Isabel às portas do desespero o que lhe fazia valer dos mais impregnados comentários quando Rosa saia para a rua:

--- Visita igual essa, mamãe, o diabo caga os monte e ainda fica com o rabo cheio. Se essa praga num fô imbora, eu vou morrê!

E a família sempre pondo um pano quente no ambiente. Mas, a cada dia, a coisa estava ficando mais difícil. Portanto, a partida de Rosa seria um alívio imediato, pois, sem dúvida, esta estava sendo ali uma “persona non grata”.

A viajante foi levada à porta da rua como que se leva uma donzela ao altar. Aposto estava o táxi de Edson Cordeiro que deveria estar cobrando uma nota preta para atender naquele horário. Teria sido já recomendado com dois dias de antecedência. Parece que dinheiro não era problema para a coroa. Dava sinais de que tinha um bom poder aquisitivo. Teria trazido presente para todo mundo e prometia voltar mais amiúde e nunca esquecer de trazer do feijão roxinho. Lembro-me de ouvir o velho dizer: Feijão roxinho igual do Goiás num tem!

O táxi, um Ford 46 do Edson Cordeiro, naquele tempo, denominado carro de aluguel, sobe a rua levando alguém que estaria deixando algo que seria o inferno astral para quem ficava.

Maria Isabel, imediatamente após a partida de Rosa, foi vasculhar o banheiro e o que encontrou foi um vaso entupido, com os dejetos saltando a boca do vaso e se esparramando sobre o piso do aposento.

Que desespero! A vizinhança toda tomou conhecimento de que algo errado havia acontecido ali. A Ester, vizinha de frente, chegou a pensar que o velho estava morrendo. Maria Isabel falava alto:

---Aquela porca! Aquela lambona! Aquela desaprumada! Aposto que é o tal de modis que ela comprou na farmácia do Wardemar. Por que não usou paninho?! Essa porcaria intupiu o vaso, mas, não intupiu ela. Mardito vaso.

Olha! Eu vou ficar por aqui. Acho que não há necessidade de falar mais. Eu tive muita dó. Dó da Rosa porque se as pragas proferidas pela Maria Isabel lhe tocaram a coitada terá chegado a Goiás aos pedaços.

Viver é um negócio complicado!



Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.


domingo, 3 de julho de 2011

O VASO SANITÁRIO 01

Imagem para simples ilustração do texto.
Dando uma revisão nas gavetas da minha memória, encontro uma família que foi minha vizinha, quando os meus olhos e ouvidos de criança viviam apurando os fatos. Eu era, sem dúvida, um patrulheiro da vizinhança e dava notícia de tudo que se passava ao derredor.

Veio nos vizinhar, oriunda da região das bandas dos  Baiões, uma família de cinco pessoas. O pai se chamava Joaquim. Devia ter uns sessenta e tantos anos. Magro, careca, barba rala e um bigode à moda Hitler. A mãe, Isabel, tinha o corpo médio, cabeleira grisalha, olhos fundos e sobrancelhas largas. Contava, mais ou menos, a mesma idade do velho. E três filhas solteironas que tinham, compostamente, o nome de Maria: Maria Isabel, a mais velha. Magra, alta, cabelos escondidos debaixo de um lenço branco. Estava sempre trajando um vestido de chita muito estampada. A segunda, Maria de Fátima, uma morena desajeitada, com traços másculos e trejeitos varonis. Era ela quem socava o pilão e o transferia de lugar, na maior maciota.

A terceira era a Maria das Graças, a mais jovem e que tinha uma aparência um pouco melhor, mas, também, era muito feia. Contudo, era a única que dava um papinho para os vizinhos. Naquele tempo, as mulheres não se preocupavam em fazer depilação e essas tinham tanto pêlo que poderiam competir com certos homens. A velha Isabel, por exemplo, tinha um buço maior que o bigodinho do seu marido. Eu era criança, mas, já pensava: aqueles dois se beijando deveria ser uma coisa desarrumada.

Um povo arredio, esquisito. Viviam cochichando nos ouvidos, uns dos outros. Moravam na roça e teriam vindo para a cidade dada a precariedade da saúde do velho. Não se abriam com os vizinhos. A lida da casa começava cedo, quase que com o escuro. Já nessa hora, começava o barulho do pilão socando café torrado para ser coado. Aliás, o pilão era um instrumento de grande serventia naquela casa. Socava-se de tudo: arroz, café, milho, paçoca e outras coisas mais. Quase sempre, era ouvido o ruído do pilar de alguma coisa.

O velho sempre assentado num tôco à porta da rua e as mulheres remexendo o dia todo. Era pouca a conversa. O barulho maior era quando estavam lavando roupa. O batido da roupa no batedouro era ouvido por toda a vizinhança. No mais, era a mão no pilão.

Mas o ruído que mais incomodava a minha mãe era o da vassoura da Maria Izabel, a filha mais velha.

Essa mulher tinha mania de limpeza o que, hoje, chamamos de T.O.C (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). Ela varria o terreiro da porta da rua, duas ou três vezes por dia. E como a rua não tinha calçamento, o poeirão que se levantava deixava as casas dos vizinhos empoadas, causando um tremendo incômodo. Calcava a vassoura no chão, com tanta força, que parecia que queria lavrar a terra.

Mas quem ficava mais prejudicada com isso era a minha mãe.

O terreiro do quintal deles era amplo e de terra. E como a praga tiririca lastrava muito, quando ela varria, ficava tentando detonar as raízes com a vassoura. E nessa incitação, a poeira que levantava acomodava na nossa casa nova, pois tínhamos mudado, recentemente, para a casa inda há pouco construída.

Minha mãe ficava danada da vida, mas, não ousava falar nada.

Naquele tempo, quase não havia vasos sanitários dentro de casa. Quase não havia os chamados banheiros. Isso era coisa das pessoas mais aquinhoadas. Mesmo porque, não era comum água encanada dentro de casa. A chamada pena dágua, por vezes, era dividida entre dois vizinhos. E a pressão da água era tão pouca que, em diversos pontos da cidade, não tinha força suficiente para subir até ao teto da casa. As cisternas eram comuns. A profissão de furador de cisternas e fossas era evidente e esses profissionais tinham o cuidado de furar a cisterna distante da chamada latrina seca, no mínimo de dez metros, para a não contaminação do lençol freático.

Usavam-se, muito, essas latrinas nos fundos dos quintais. Consistia num pequeno cômodo de, no máximo quatro metros quadrados, sobre uma fossa soalhada ou cimentada com um pequeno orifício por onde as pessoas faziam as suas evacuações. Sem dúvida, tratava-se de um gabinete bastante desconfortável e anti-higiênico. E à noite, essas necessidades eram feitas com o uso do penico ou urinol. Um tipo de vaso portátil, esmaltado que ficava debaixo da cama. Eu tive uma experiência com essa coisa quando menino e foi um desastre. Foi terrível.

O tempo ficou incumbido de trazer até à sociedade proletária o conforto do banheiro. Ou seja, um chuveiro elétrico ou de serpentina para os banhos; o vaso sanitário para as necessidades fisiológicas e o lavatório para substituir o caneco na lavação das mãos e do rosto. Começava o fim da era do jarro esmaltado e da bacineta.

Mas, isso, de antemão, não era bem compreendido. Quando as pessoas mais humildes, que ainda não conheciam esse conforto, ouviam, resumidamente, falar que seria colocada uma latrina dentro de casa, muitas pessoas se assustavam e já imaginavam as moscas verdes, as varejeiras, voando e sobrevoando sobre os alimentos.

Assim, foi o comentário da Maria Isabel, maníaca da limpeza, quando foi dada, ao seu pai, a sugestão de colocar um vaso sanitário dentro de casa para facilitar as suas defecações, porque, dado ao seu estado de saúde, estava tendo dificuldade para usar os urinóis.

Nesse dia, eu pude ouvir tudo, tim-tim por tim-tim, porque ela, com a sua mania de limpeza, ficou, totalmente, desesperada e bradou alto e em bom som:

---Mais de jeito ninhum, papai, que eu vou deixá fazer privada dentro de casa! Isso eu num aceito mesmo!

---Mais num é privada dentro de casa, Lia! É um vaso, num quartinho, que vai sê separado, explicou o velho...

---Mais de jeito ninhum! E isso num é privada? O pinico tá muito bão. É só comprar um maior!..

---Mais o seu pai já tem o maior, Lia, e ele tá fazendo o trem fora... Comentou a velha---

---Mamãe, é bão nem pensá! Vacuá aqui dentro, mais de jeito ninhum!... Já pensou no cheiro que vai dá, dentro de casa? Océis já pensou, gente!!??

---Mais no pinico, tamém, é feito dentro de casa, Lia! Que bobage é essa sua? Contestou a Mariazinha, a caçula.

---Mais de jeito ninhum! Cedinho, a mamãe leva pra latrina e já lava o pinico lá fora e ninguém vê nada. Agora, uma privada, dentro de casa, vai sê uma lambança! A catinga e as moscas...E quem vai me dizê que num vai tê chero? Gente, cumé que océis vê as coisa?

---Eu já vi falá que esse trem é bão. Lá no consultório, do Dr. Renato, tem. É um pinicão e, no fundo dele, é cheio dágua! A gente “faz” é dentro dágua. E essa água some. Num tem como chegar mosquito não e a porcaria vai para um buraco, feito do lado de fora. Concluiu a Maria de Fátima.

---Ah!Me vale Nossa Senhora da Conceição! Até ocê, Fatinha? Onde já se viu fazê necessidade dentro dágua. Meu Deus! Océis num incherga!!! E o dia que fartá água?Tá sempre fartando... Mais eu num posso acreditar que oceis qué uma coisa dessa pra nóis....Óia, aqui:! Océis que sabê? Se puzé privada, dentro de casa, eu num fico aqui de jeito ninhum. A casa vai virá uma imundiça. E eu num to pa imundiça. Eu vorto pa roça. Lá, num tem essas invenção. Tem é muito mato, muita moita. Lá a gente fazia necessidade sossegada, sem ninguém pa iscuitá o barulho.

---Barulho!? Mais qui barulho, Lia?

---Uai, barulho, uai! Ah! Sei não!



(Continua na próxima postagem)


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e a



sexta-feira, 1 de julho de 2011

UMA VIAGEM DE CARRO

Um ponto comercial muito antigo situado na Rua Professor Porgugal esquina com a Praça Antonio Furtado.

Um dos pontos comerciais mais antigos de Candeias fica na esquina da Rua Professor Portugal com a Praça Antonio Furtado onde, atualmente, se encontra a residência do Sr. Wanderley Andrade sendo que o ponto comercial reduziu-se a um pequeno depósito de pães. Lá, no correr dos tempos, foram estabelecidos diversos segmentos comerciais: bares, empórios, padarias, botequins, etc.

Guardado na minha mente, está o primeiro comércio que conheci ali, quando eu comecei a me entender por gente. Era o Bar do Sr. Otávio. Um bar fuçado, totalmente desorganizado. O piso era de um assoalhado já velho, cheio de buracos por onde, naturalmente, deveriam trafegar ratazanas de todas as ordens. Havia uma velha sorveteira que, quando ligada, fazia uma acústica com o assoalho provocando tanto barulho que a conversa entre os fregueses se tornava quase impraticável. E, na competição, com o ruído da máquina, os freqüentadores falavam tão alto que da rua se ouvia tudo. Parecia uma locomotiva dentro do bar cujo cômodo era grande e havia muito espaço vago. Os sorvetes e picolés, ali fabricados, não tinham nenhum requinte de higiene e aqueles copos próprios para sorvete de que os fregueses, quase sempre, os saboreiam, ao final da iguaria, eram, comumente, vistos com rastros de ratos. Além disso, a caixa da salmoura da máquina tinha ferrugens que vazavam e se juntavam ao congelado, fato que levava sempre o freguês a reclamar que o sorvete ou o picolé estava salgado.

As prateleiras com garrafas cheias e  vazias pareciam seguras pelas teias de aranha. As vitrinas eram forradas com papel manilha da cor rosa, de péssima qualidade, e que, às vezes, deixava o produto manchado. As cadeiras, tipo “balança mais não cai”, de quando em vez, levava um freguês ao chão. E, quando essas estavam todas ocupadas, os fregueses tomavam assento no balcão bastante amplo.

Havia água encanada no bar, mas, estava sempre em falta. Nas construções antigas, não se faziam caixas de depósito para água. Usava-se, normalmente, um tambor de duzentos litros sem tampa e comprado, de segunda mão, nos postos de gasolina. Este era preso em quatro forquilhas do lado de fora. Aquilo nunca era lavado e servia de bebedouro para gambás e aves que morriam ali, acidentalmente, e que só eram descobertas quando a água se tornava fétida.

Naquele tempo, a água encanada, principalmente nas ruas de baixo, comumente, faltava. Aí, então, a lambança dobrava. Tomava-se de uma gamela cheia dágua e, à medida que os copos eram usados, iam sendo jogados ali, e, quando necessários, apenas retirados e usados novamente. Não se usava lavar os copos com sabão. Apenas deixava-os mergulhados na mesma água usada, horas e horas.

Num dos cantos de dentro do balcão, havia um varal de bambu onde ficavam dependuradas lingüiças, salsichas e uma bexiga de mortadela, da pior qualidade, expostas às moscas que, naturalmente, davam, ali, o seu toque de imundície. E eu, quase sempre, estava beliscando um pedaço daquela iguaria. Os intestinos dos fregueses, inclusive os meus, já estavam tão providos de anticorpos que seria mais fácil morrerem os parasitos intestinais do que os consumidores.
Hoje, só de me lembrar disso, eu me arrepio.

Eu morava próximo dali, na Rua Coronel João Afonso, e acompanhava sempre o meu pai quando estava lá a chamado do proprietário, que era seu grande amigo e compadre, a fim de tocar violão para atrair os fregueses que gostavam de formar duplas sertanejas.

Eu era muito agarrado com o meu pai. Onde ele estava eu também estava por perto. Quando saia, sem me chamar, eu ia a sua procura e minha mãe sempre gritando: - lá vai o rabo. Por pouco, esse apelido de rabo não me pega. E os amigos do meu pai estavam sempre a me agradar com balas, doces, biscoitos ou um picolé. E eu me deliciava com aquelas lambanças. O meu estômago já estava tão afinado com as porcarias dali que o sentido do paladar nem se ofendia. E meu pai, também, por sua vez, não estava nem aí. Tomava a sua pinguinha e a sua cervejinha naqueles copos infectados, mal lavados e trincados como se estivesse bebendo numa taça usada na Santa Ceia.

Um dia, Otávio resolveu vender o seu bar. Cansado daquele trabalho, resolveu mudar de ramo. Negociou o estabelecimento na troca de um automóvel. O carro era um galipão antigo, quadrado, muito usado, na época, como carro de praça, hoje, chamado táxi. Otávio queria engrenar um de seus filhos na profissão de motorista de praça. Em Candeias não tinha, naquela época, esse conforto. Um carro de aluguel.

Realizado o negócio com um trambiqueiro de Campo Belo, Otávio quis, logo, fazer um pequeno passeio no carro. Como ele não sabia dirigir, arrumou logo um motorista e parou à porta de minha casa, quando teria ido chamar o meu pai para acompanhá-lo na sua viagem de estréia que seria até a usina do Bonaccorsi.

Um carro, por mais velho que fosse, naquele tempo, era um luxo. Eu nunca, sequer, havia entrado num carro e vivia imaginando este dia que chegara agora, naquele momento.

Ao ver o meu pai sendo convidado, me senti também convidado. E já me postei como tal, quando ouvi da impossibilidade de me levar. No que a defesa natural de uma criança foi desabada: o choro. Vendo-me chorar, Otávio insistiu para que eu fosse, também, incluído na lotação que já contava sete pessoas dentro do galipão. Parecia sardinha na lata, e eu todo feliz, parecia até fazer parte de uma comitiva do Papa.

Se cem anos de vida eu tivesse, durante cem anos eu lembraria dos cinco minutos vividos nesse dia. Eu, no colo do meu pai, enquanto o carro foi descendo, vagarosamente, passando pelos buracos da Rua Coronel João Afonso. Eu estava na maior felicidade do mundo. Alucinado, empolgado, encantado muito mais do que Gagarin, quando voou ao céu profundo com a sua Vostok. E mais ainda do que Colombo, quando buscava o Novo Mundo.

Após passar a ponte, ao começar a galgar o morro, ouviu-se um estalo. Um grande estalo, debaixo do carro. E, junto com o estalo, Otávio murmurou: - “ai ai ai! Deve ter quebrado.” E quebrou mesmo...

O Nestor Lamounier foi chamado e ficou confirmado que o motor do carro havia quebrado e que não teria recurso. Foi uma decepção para todos, mas, para mim, foi uma decepção maior. Era aquela a primeira viagem que eu fazia de carro. E apenas um estalo roubou-me toda aquela felicidade. Era um sonho meu entrar num carro. Dar uma volta de carro. Sentir o cheiro de um carro. E agora, após ter conseguido a realização desse intento, a custo de lágrimas, o destino vem me roubá-lo? Era muito azar. Se eu imaginasse quem seria o “pé frio” que estava ali naquele carro eu o teria apedrejado. Aliás, isso nem seria azar seria um castigo dos céus. Só pode...

Para rebocar o carro para a mecânica, a forma encontrada foram quatro juntas de bois que o arrastou, morro acima, aos gritos de um carreiro e o mecânico no volante. E eu, da porta de minha casa, vi passar aquela carreata fúnebre aos meus olhos cujo carro eu nunca mais pude ver novamente. Toda vez que vou até à antiga usina, eu não fico sem imaginar como teria sido aquela viagem que eu não fiz e que teria sido uma das alegrias da minha vida frustrando a minha pobre infância pelo resto de minha vida.

No transcorrer da minha vida, já tive diversos carros. Mas, nenhum deles, jamais, terá me causado tanta emoção como o galipão do Otávio Martins.

Dizem que o homem é um produto do meio, portanto, aí está: a pobreza transformada em lirismo é a presença de Deus. É como diz o poeta: a felicidade está sempre perto da gente. É pena que nós a procuramos longe de onde estamos.


Armando Melo de Castro

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CANDEIAS –MINAS GERAIS