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domingo, 3 de julho de 2011

O VASO SANITÁRIO 01

Imagem para simples ilustração do texto.
Dando uma revisão nas gavetas da minha memória, encontro uma família que foi minha vizinha, quando os meus olhos e ouvidos de criança viviam apurando os fatos. Eu era, sem dúvida, um patrulheiro da vizinhança e dava notícia de tudo que se passava ao derredor.

Veio nos vizinhar, oriunda da região das bandas dos  Baiões, uma família de cinco pessoas. O pai se chamava Joaquim. Devia ter uns sessenta e tantos anos. Magro, careca, barba rala e um bigode à moda Hitler. A mãe, Isabel, tinha o corpo médio, cabeleira grisalha, olhos fundos e sobrancelhas largas. Contava, mais ou menos, a mesma idade do velho. E três filhas solteironas que tinham, compostamente, o nome de Maria: Maria Isabel, a mais velha. Magra, alta, cabelos escondidos debaixo de um lenço branco. Estava sempre trajando um vestido de chita muito estampada. A segunda, Maria de Fátima, uma morena desajeitada, com traços másculos e trejeitos varonis. Era ela quem socava o pilão e o transferia de lugar, na maior maciota.

A terceira era a Maria das Graças, a mais jovem e que tinha uma aparência um pouco melhor, mas, também, era muito feia. Contudo, era a única que dava um papinho para os vizinhos. Naquele tempo, as mulheres não se preocupavam em fazer depilação e essas tinham tanto pêlo que poderiam competir com certos homens. A velha Isabel, por exemplo, tinha um buço maior que o bigodinho do seu marido. Eu era criança, mas, já pensava: aqueles dois se beijando deveria ser uma coisa desarrumada.

Um povo arredio, esquisito. Viviam cochichando nos ouvidos, uns dos outros. Moravam na roça e teriam vindo para a cidade dada a precariedade da saúde do velho. Não se abriam com os vizinhos. A lida da casa começava cedo, quase que com o escuro. Já nessa hora, começava o barulho do pilão socando café torrado para ser coado. Aliás, o pilão era um instrumento de grande serventia naquela casa. Socava-se de tudo: arroz, café, milho, paçoca e outras coisas mais. Quase sempre, era ouvido o ruído do pilar de alguma coisa.

O velho sempre assentado num tôco à porta da rua e as mulheres remexendo o dia todo. Era pouca a conversa. O barulho maior era quando estavam lavando roupa. O batido da roupa no batedouro era ouvido por toda a vizinhança. No mais, era a mão no pilão.

Mas o ruído que mais incomodava a minha mãe era o da vassoura da Maria Izabel, a filha mais velha.

Essa mulher tinha mania de limpeza o que, hoje, chamamos de T.O.C (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). Ela varria o terreiro da porta da rua, duas ou três vezes por dia. E como a rua não tinha calçamento, o poeirão que se levantava deixava as casas dos vizinhos empoadas, causando um tremendo incômodo. Calcava a vassoura no chão, com tanta força, que parecia que queria lavrar a terra.

Mas quem ficava mais prejudicada com isso era a minha mãe.

O terreiro do quintal deles era amplo e de terra. E como a praga tiririca lastrava muito, quando ela varria, ficava tentando detonar as raízes com a vassoura. E nessa incitação, a poeira que levantava acomodava na nossa casa nova, pois tínhamos mudado, recentemente, para a casa inda há pouco construída.

Minha mãe ficava danada da vida, mas, não ousava falar nada.

Naquele tempo, quase não havia vasos sanitários dentro de casa. Quase não havia os chamados banheiros. Isso era coisa das pessoas mais aquinhoadas. Mesmo porque, não era comum água encanada dentro de casa. A chamada pena dágua, por vezes, era dividida entre dois vizinhos. E a pressão da água era tão pouca que, em diversos pontos da cidade, não tinha força suficiente para subir até ao teto da casa. As cisternas eram comuns. A profissão de furador de cisternas e fossas era evidente e esses profissionais tinham o cuidado de furar a cisterna distante da chamada latrina seca, no mínimo de dez metros, para a não contaminação do lençol freático.

Usavam-se, muito, essas latrinas nos fundos dos quintais. Consistia num pequeno cômodo de, no máximo quatro metros quadrados, sobre uma fossa soalhada ou cimentada com um pequeno orifício por onde as pessoas faziam as suas evacuações. Sem dúvida, tratava-se de um gabinete bastante desconfortável e anti-higiênico. E à noite, essas necessidades eram feitas com o uso do penico ou urinol. Um tipo de vaso portátil, esmaltado que ficava debaixo da cama. Eu tive uma experiência com essa coisa quando menino e foi um desastre. Foi terrível.

O tempo ficou incumbido de trazer até à sociedade proletária o conforto do banheiro. Ou seja, um chuveiro elétrico ou de serpentina para os banhos; o vaso sanitário para as necessidades fisiológicas e o lavatório para substituir o caneco na lavação das mãos e do rosto. Começava o fim da era do jarro esmaltado e da bacineta.

Mas, isso, de antemão, não era bem compreendido. Quando as pessoas mais humildes, que ainda não conheciam esse conforto, ouviam, resumidamente, falar que seria colocada uma latrina dentro de casa, muitas pessoas se assustavam e já imaginavam as moscas verdes, as varejeiras, voando e sobrevoando sobre os alimentos.

Assim, foi o comentário da Maria Isabel, maníaca da limpeza, quando foi dada, ao seu pai, a sugestão de colocar um vaso sanitário dentro de casa para facilitar as suas defecações, porque, dado ao seu estado de saúde, estava tendo dificuldade para usar os urinóis.

Nesse dia, eu pude ouvir tudo, tim-tim por tim-tim, porque ela, com a sua mania de limpeza, ficou, totalmente, desesperada e bradou alto e em bom som:

---Mais de jeito ninhum, papai, que eu vou deixá fazer privada dentro de casa! Isso eu num aceito mesmo!

---Mais num é privada dentro de casa, Lia! É um vaso, num quartinho, que vai sê separado, explicou o velho...

---Mais de jeito ninhum! E isso num é privada? O pinico tá muito bão. É só comprar um maior!..

---Mais o seu pai já tem o maior, Lia, e ele tá fazendo o trem fora... Comentou a velha---

---Mamãe, é bão nem pensá! Vacuá aqui dentro, mais de jeito ninhum!... Já pensou no cheiro que vai dá, dentro de casa? Océis já pensou, gente!!??

---Mais no pinico, tamém, é feito dentro de casa, Lia! Que bobage é essa sua? Contestou a Mariazinha, a caçula.

---Mais de jeito ninhum! Cedinho, a mamãe leva pra latrina e já lava o pinico lá fora e ninguém vê nada. Agora, uma privada, dentro de casa, vai sê uma lambança! A catinga e as moscas...E quem vai me dizê que num vai tê chero? Gente, cumé que océis vê as coisa?

---Eu já vi falá que esse trem é bão. Lá no consultório, do Dr. Renato, tem. É um pinicão e, no fundo dele, é cheio dágua! A gente “faz” é dentro dágua. E essa água some. Num tem como chegar mosquito não e a porcaria vai para um buraco, feito do lado de fora. Concluiu a Maria de Fátima.

---Ah!Me vale Nossa Senhora da Conceição! Até ocê, Fatinha? Onde já se viu fazê necessidade dentro dágua. Meu Deus! Océis num incherga!!! E o dia que fartá água?Tá sempre fartando... Mais eu num posso acreditar que oceis qué uma coisa dessa pra nóis....Óia, aqui:! Océis que sabê? Se puzé privada, dentro de casa, eu num fico aqui de jeito ninhum. A casa vai virá uma imundiça. E eu num to pa imundiça. Eu vorto pa roça. Lá, num tem essas invenção. Tem é muito mato, muita moita. Lá a gente fazia necessidade sossegada, sem ninguém pa iscuitá o barulho.

---Barulho!? Mais qui barulho, Lia?

---Uai, barulho, uai! Ah! Sei não!



(Continua na próxima postagem)


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e a



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