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quinta-feira, 24 de março de 2011

O TERNO MARROM


Cenas da peça teatral Matter Dolorosa, Lia Langsdoff, Gabriel Carlos, Armando Melo e Willlian Ferreira, 1961.

Candeias tinha, antigamente, um grêmio teatral cuja trupe era formada com atores candeenses. Chamava-se Grêmio Teatral Mosenhor Castro. E alguns dos atores eram Gabriel Carlos, Antônio Macêdo, João de Sousa Filho, Titoco, Willian Ferreira, Zé Delminda, Maria Amélia, minha irmã, Lia Langsdoff, Ivanilda Vilela, Claudete Freire, Wanderley Alvarenga, Luiz Bonaccorsi Neto, Zé Mori, Edinho Chagas, Cristovão Teixeira, eu, e muitos outros que, no momento, me fogem à mente. Gabriel era o diretor. E muito se orgulhava disso. Fazia o papel central da peça, ou seja, quase sempre o mau-caráter. Se alguém lhe perguntasse o seu nome, ele dizia: Meu nome é Gabriel Carlos da Costa, mas eu não gosto do Costa. E depois Gabriel Carlos é o meu nome artístico...

De quando em vez, aparecia no ensaio meio turbinado e dizia: “Eu aqui não sou diretor, sou um lava-cachorro. Ninguém me respeita.” Mas os goles nunca atrapalhavam os seus ensaios, apesar de deixa-lo demasiadamente eufórico e falador.

Tinha ele dois ternos bons que só eram vistos quando por ocasião de representar uma peça teatral. Era um terno marrom e um azul. Ele sempre dava um jeito de usar os dois ternos em dois atos. Dizia sempre que o terno marrom era de uma casimira superior e que teria lhe custado uma nota preta. O outro, conseguido num consórcio do Chiquinho Alfaiate, teria sido mais barato.

Naquele tempo era obrigação de cada cidadão ter pelo menos um terno, ou seja, paletó, calças e colete. Esse era o traje que as pessoas reservavam para o caso de ser enterrado. Nos dias atuais, principalmente aqui no interior, uma pessoa de terno e gravata dá a entender ser religioso (crente) ou advogado.

Lembro-me da peça “A Ré Misteriosa” cujos protagonistas foram Ivanilda Vilela, Lia Langsdoff e Gabriel Carlos. O personagem de Gabriel era assassinado e teria que cair no palco. E com isso foi a sua maior preocupação, estar neste ato, com o terno azul.

Nas discussões sobre o vestuário, durante a representação, era infalível este comentário: “Eu estarei com o meu terno marrom.”.

Um dia ele me disse:

“Ninguém nunca me viu com o meu terno marrom fora do palco. Ele é reservado, exclusivamente, para o teatro.” E fazia questão de realçar:

“São poucas as pessoas que tem um terno igual àquele”.

O fim da vida de Gabriel foi dramático. Vitimado pelo câncer, faleceu antes de completar sessenta anos. O final de sua vida foi marcado pela pobreza e apenas com a ajuda dos parentes e amigos. Não teve uma aposentadoria, não tinha nenhum tipo de recurso financeiro e, já velho e doente, não tinha mais forças para trabalhar. Naquele tempo, o serviço social ainda deixava muito a desejar e não era como nos dias atuais.

Estive presente no seu sepultamento. Foi muito triste vê-lo morto. Agora, não era teatro, ele estava morto de verdade.

Não se usava, naquele tempo, cobrir o morto com flores. E ele, empanado no seu traje preferido, com certeza, teria vindo a este mundo apenas buscar aquele terno. O seu tão querido terno marrom.

Meu amigo Gabriel, sempre no dia 10 de abril, eu me lembro de você. O bom amigo que você foi; as suas brincadeiras como aquela do frango do Vicente Santana. Sempre quando estou comendo um frango caipira lembro-me de você quando dizia: “O dia que eu saboreio um franguinho feito por mim é como se fosse um dia de festa”.

Agora, vou fazer uma prece. Fecho os meus olhos, concentro-me e vou ao seu encontro. Quero vê-lo vestido com o seu terno marrom, vou abraça-lo e saborear com você um belo pedaço de frango caipira do jeitinho daquele que você brincou de roubar do Vicente Santana.

Que o Bom Deus o tenha meu bom amigo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.