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quinta-feira, 12 de junho de 2008

UM INFELIZ NATAL




Apesar de ter sido um menino pobre, eu tive uma infância muito feliz. Com relação ao Papai Noel, eu posso dizer que os natais da época em que eu acreditava na existência do bom velhinho foram os mais felizes da minha vida. Mesmo pertencendo a uma família proletária e numerosa, meus pais sempre souberam remediar as coisas. No verdor dos anos, tanto eu quanto os meus irmãos,tivemos muito carinho e o natal nunca foi uma festa indiferente para nós. Vivemos aquela doce ilusão de colocar os sapatos atrás da porta e, no outro dia, pela manhã, estarmos muito felizes com os presentes recebidos. Meu pai confeccionava os brinquedos. A cada ano, era um caminhãozinho diferente. Certa vez, ele construiu até uma bicicleta de madeira. Fazia isso escondido, na chácara do meu avô. O caminhãozinho sempre estava cheio com os presentes dos meus irmãos menores. Um saquinho de bala e, às vezes, um pacote de bolacha "Maria" com o nome de cada um. Em outro momento, teve até uma barra de chocolate para ser repartida. As meninas eram presenteadas com pequenos bonecos de papelão que eram fabricados, naquela época, por uma fabriqueta na cidade de Formiga e vendidos, às vésperas de natal, por camelôs a preços bem baratinhos. Não me lembro de ceia de natal. Cear na noite de natal foi um hábito que minha família veio a adquirir muitos anos depois. Sei que, no dia de natal, éramos levados até a Igreja Matriz para vermos o presépio e darmos as boas vindas ao Menino Jesus. E rezávamos, também, agradecendo ao Papai Noel pelos presentes recebidos.

O tempo se incumbiu de roubar esta alegria do meu coração. Não pelo fato da descoberta da inexistência de Papai Noel. Quanto a esta questão, eu apenas fiquei triste no dia em que soube que ele foi uma inofensiva e gostosa mentira na minha vida. O motivo que me levou a sentir o natal distante do meu coração, aconteceu quando eu presenciei um fato que está guardado nos fundos dos meus olhos pelo resto da minha vida. De lá para cá, vi que o natal nada mais é do que uma simples medida das diferenças humanas. Naturalmente, trata-se muito mais de uma convenção comercial. Uma festa que nem sempre o homenageado está presente.

Eu morava em São Paulo e contava com os meus vinte e cinco anos de idade, quando fui convidado por uma família amiga a passar o natal com eles. Uma pequena família portuguesa, formada por apenas a mãe e um filho. Dona Encarnação e o Sr. Antonio com quem eu trabalhava, pela manhã, como datilógrafo. Ele era um corretor de imóveis cujo escritório estava locado junto a sua residência. Esse foi o primeiro natal em que eu passei longe da minha família. O fato de morar fora e distante, me permitia escolher uma das datas de fim de ano para passar em casa. E, nesse ano, resolvi passar o dia de ano novo em Candeias junto aos meus familiares.

À mesa, a ceia, com certeza, causaria muita inveja aos discípulos de Jesus Cristo. Imaginei que haveria, por ali, outros convidados devido ao tamanho da mesa e à fartura exposta. Entretanto, não foi essa a realidade. Somente eu havia sido convidado. Sem dúvida, haveria, naquela mesa, comida para vinte pessoas. Subentendia-se que a velha portuguesa havia trabalhado horas e mais horas para organizar aquela ceia.

Começamos a comer e a velha não parava nem sequer por um minuto. Nem em pé ou assentada. Enquanto eu dava uma garfada nas iguarias, ela colocava alguma coisa no meu prato e sempre dizendo: “Sô Armando, coma isso; coma aquilo; beba isso; beba aquilo e, de quando em vez, ainda dizia: Coma “NOZES PORTUGUÊSAS”. Então, eu não suportava a vontade de rir e me divertia com os micos dos portugueses.

Dessa maneira, eu me encontrava ali, meio perdido, naquele ambiente diferente do meu meio, com a cabeça cheia de vinho português e a barriga cheia de peru, outras carnes, castanhas, nozes e sei lá mais o quê! Um monte de coisas que eu nunca tinha visto na minha vida e mais aquela leréia nos meus ouvidos: Coma, beba, beba, coma e eu me enchia só com a
insistência dos portugueses.

O português parecia um glutão e não era nada engraçado ver uma boca comer, falar e beber ao mesmo tempo. A velha disse que havia outros convidados, mas que, por motivos alheios às suas vontades, não apareceram. Duvidei dessa aleatoriedade e imaginei que a ausência desses convidados poderia ser justificada pelo estilo em recepcionar um convidado. Eu já estava enfarado diante daquele arsenal de comida e da esganação daqueles dois.

No prédio, o movimento cessava. Era facilmente ouvido pelos vizinhos, moradores na respectiva rua, o barulho de quem limpava a sujeira e jogava o resto no tambor de lixo, estacionado à porta do prédio.

Às três horas da manhã, eu estava empanturrado e já não aguentava mais nem olhar para a mesa que ainda se encontrava, absolutamente, cheia, como se ninguém a tivesse tocado. Despedi-me dos anfitriões, agradecendo o carinho e a consideração, e desci pela escada. Na portaria do prédio, dei de cara com um quadro vivo: uma mulher remexia, tal qual uma cadela de rua, no tambor de lixo e apanhava os restos dos banquetes e dava aos seus dois filhos, assentados à beira da calçada, o alimento lixoso que comiam educadamente. A mãe ainda dizia: “Olha que pedaço bonito!”

Da janela do terceiro andar, meninos riam daquele gesto infeliz. Parei, olhei e me emocionei quando aquela mãe, em um gesto desconfiado, olhou para mim e me perguntou: “Tem portança eu mexê aqui, moço” E eu, praticamente sem voz para respondê-la, fiz apenas um pequeno gesto com a cabeça dizendo que não.

Fiquei aturdido diante daquele cenário cujo proscênio, sob o clarão da ribalta, mostrava uma ceia de natal cuja miséria humana era perspicaz. A desigualdade do poder em se fartar numa noite em que os sinos bimbalhavam nas torres das igrejas, da cidade toda engalanada comemorando o nascimento do Menino Jesus, ali, num canto da cidade de São Paulo, eu sentia o meu coração partido, espremido e o sumo me saindo pelos olhos. Naquele momento, eu perguntei aos céus: por que aquela infelicidade no meu coração e tanta alegria nos olhos daquela mãe e de seus filhos miseráveis que eram observados com desdém por moradores do prédio? E ao tentar responder a mim mesmo, não pude obter resposta. A vida é, realmente, cheia de mistérios insondáveis!

Hoje, quando me vem à memória que Jesus nasceu em uma manjedoura, entre os ruminantes, posso entender que o natal é uma festa paradoxal, principalmente, se houver carne de boi ou de porco porque o primeiro recebeu Cristo e Lhe acolheu em sua manjedoura, assistiu ao Seu nascimento e Lhe deu aconchego com o seu bafo. E o outro, por ser impuro e indigno, em uma festa oferecida a Jesus Cristo. Portanto, eu imagino que o natal deveria ser uma festa de pobre para pobre e que os mais aquinhoados acabaram, insensivelmente, alterando o seu real sentido. A prova maior disso é recebermos de um judeu ou de um ateu os votos de um “Feliz Natal”.

Eu queria falar de um natal diferente, contudo, foi esse que me veio à mente:
 UM INFELIZ NATAL



Armando Melo de castro
Candeias MG Casos e Acasos 
































domingo, 8 de junho de 2008

DOCES LEMBRANÇAS



Defronto-me com um calendário de parede, ou seja, um prospecto comercial da Pharma Vita, situada na Rua Coronel João Afonso, 481A. Diante disso, dou uma olhadinha no retrovisor da minha vida e bem lá do início desta estrada vejo a Rua Coronel João Afonso, antiga rua da ponte.

Minha chegada ao mundo se deu bem ali no número 306, onde hoje reside o Sr. Milton Alves. Meu Deus! Que saudade! Em cada número desta rua eu teria um caso para contar, mas, recordarei aqui apenas os números 481, que entendo ser a antiga casa de Dona Filomena Barros e 481A, onde residia sua filha Quinha, numa pequena casa edificada por detrás de um muro alto, com um portão de entrada, cuja área, creio, era o quintal de Dona Filomena.  

Não tenho certeza de quantos filhos Dona Filomena Barros tinha, mas lembro-me perfeitamente de quatro mulheres: Guiomar, Muca, Sota e Quinha. ----Guiomar era casada com Sílvio Barbeiro e residia no Rio de Janeiro. ---- Sota era casada com Majó --- Muca era  minha madrinha e era solteirona------- Quinha era casada com Dedé do Alonso e tinham quatro filhos meus contemporâneos: Toinzinho, Márcio, Armando e Rosângela. Aliás, eu imagino que o meu nome tenha sido inspirado através do meu xará Armando, grande amigo meu.

Percorrendo os labirintos da minha memória, vejo madrinha Muca moribunda numa cama pouco antes de morrer numa visita em que lhe pedi a bênção. É a única lembrança que tenho dessa minha madrinha, falecida quando me encontrava ainda no verdor dos anos. Dona Quinha, cozinhando num fogão de lenha toldado de fumaça, enquanto o Xará aguardava uma trempe para fazer a goma de polvilho para colar o papagaio que estávamos fazendo ali no terreiro. Os filhos de Dona Quinha faziam o melhor papagaio (Pipa) chupão, ou seja, aqueles que não utilizavam rabo e que empinavam com facilidade. E toda a meninada queria aprender com eles.

Dona Filomena e suas filhas estão juntas nos céus, inclusive alguns netos. Eu tenho saudade de passar na porta de Dona Filomena e vê-la tecendo alguma coisa e observando os passantes, por cima dos óculos. Esteja com Deus Dona Filomena, juntamente com as suas filhas e netos. Onde quer que estejam, receba o meu abraço saudoso e em especial à minha madrinha Muca e ao meu amigo Armando.

Entre a porta da casa de Dona Filomena e a garagem do Sr. Raimundo Bernardino de Sena,  (O Raimundo do Mariano) então prefeito da cidade, havia uma árvore. E por ocasião da era prefeitoral do Sr. Raimundo, essa árvore localizada no limite da rua, foi podada, transportada e transplantada para alguns metros defronte a então residência do Sr. Emídio Alves, hoje o Velório da Funerária N.S. das Candeias. Esta transplantação de uma árvore adulta – lembra-me bem - causou uma grande rema entre os curiosos que chegavam a dizer que o prefeito não estaria bom da cabeça. Mesmo porque, foi ele mesmo quem dirigiu a ação, afirmando que em breve a árvore estaria brotada. E para vexame da maioria, a árvore lá está até hoje depois de mais de cinquenta anos.

Quando busco nas minhas memórias um dia de aperto... Um dia de susto... Um dia que a viagem da minha vida poderia ter sido interrompida, eu me lembro do dia 1º de janeiroU de 1958 quando eu estava prestes a completar doze anos de vida. Bem de frente de onde está situado o número 481 A, havia então, uma caixa de registro da rede de fornecimento de água da Prefeitura. Nesta época eram comuns essas pequenas caixas com registros, a fim de equilibrar o fornecimento. Cada rua tinha o seu registro e um determinado tempo para provisão. A rua não tinha calçamento e nem passeios, portanto andávamos pelo meio da rua. Eu gostava de passar por aquela caixa e dar um pulo sobre a sua tampa num gesto de menino travesso.

Eram sete horas da noite e eu voltava para a minha casa após ter assistido a bênção do santíssimo, celebrada aos domingos pelo Padre Joaquim. Naquele tempo não havia missas vespertinas. - Ao sair da Igreja Matriz, deu-se início a uma grande tempestade. E eu não sei porque não caminhei pelo meio da rua. Bem no rumo da referida caixa, a dez metros de mim, caiu um raio deixando-me em total desespero diante daquele cheiro forte de pólvora queimada... Cheguei a minha casa totalmente atordoado, causando grande susto aos meus pais. No outro dia verificava-se que o raio havia arrancado a caixa de cimento de sua instalação deixando-a com a parte inferior virada para cima. Aos 69 anos de idade. Toda vez em que vejo uma tempestade busco nas minhas convicções o fato de que ninguém morre fora de sua hora...

Mas, voltando ao prospecto da PHARMA VITA, penso aqui agora: Eu nunca imaginei que na minha rua fosse ter, um dia, uma farmácia... Teria sido muita falta de humildade pensar uma coisa dessas naquele tempo... Portanto, isso me faz sentir feliz... Parabéns Dra.. Maria Amélia, por escolher a minha rua, que já não é tão minha, para fincar o seu estabelecimento promotor de saúde... Ai nessa parada da estrada da vida eu vi cair um raio, mas, também, vi subir uma pipa diante dos meus olhos brilhantes... Vi também uma árvore adulta renascer cheia de viço... E vi a morte levando a minha madrinha... Só não vi a tristeza porque eu não a conhecia e o meu coração era só a alegria de um novato da vida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 4 de junho de 2008

UMA VIAGEM INESQUECÍVEL...


Andei procurando na internet histórias sobre os tempos das marias-fumaça, pois trago dentro de mim boas recordações dessa época. E nas minhas observações sobre as estações ferroviárias da região de Candeias, observei que a de Candeias, teria sido acrescida de um realce bem pessoal, por parte do Sr. Edson Teixeira, candeense de boa gema e residente na cidade de Caraguatatuba-SP.

 O Sr. Edson Teixeira, é candeense, filho do Edinho do Dorfinho da Doca (Família Chagas) e da Sra. Rosa, do Vico Teixeira e Sra. Laura Barreto. Há cerca de três anos, mais ou menos, esteve estabelecido com um restaurante, em Candeias, na Avenida 17 de dezembro, em frente a sua tia Luzia. Leva o nome do seu pai, Edson Teixeira Chagas, já falecido e muito lembrado pelos candeenses mais antigos. A iniciativa do nosso conterrâneo, de registrar a sua mensagem no mencionado site da Internet, falando das suas saudades do tempo de criança em Candeias, é, realmente, de um gesto meritório e digno de aclamação dos candeenses saudosistas.

Experimento junto do Sr. Edson, essas lembranças que vivem bem guardadas nos cofres da minha memória. E diante dessa saudade, relembro, também, a velha estação ferroviária de Candeias, há muitos anos, quando eu ainda era criança... 

Junto à estação localizava-se a máquina de limpar café e um grande armazém de depósito. Muitos trabalhadores circulavam por lá trabalhando o café। Uma sirena de som estridente levava a todos os cantos da cidade a marca dos horários de trabalho. Um motor a óleo bastante barulhento quebrava o silêncio do largo da estação. Havia, sempre, vagões estacionados no pátio da estação carregando ou descarregando. Agentes, conferentes, guarda-chaves, pra lá e pra cá, trajados com o fardamento da ferrovia, davam vida naquele ambiente hoje morto. De frente, estava a máquina de limpar arroz, bastante movimentada, beneficiando o arroz produzido no município. Manipulando esta máquina estava o amigo João do Sô Nico, músico sempre ativo, da Banda de Música.

Há um tempo passado visitando a estação ferroviária, desativada, de Candeias. Hoje um local deserto, sem ninguem por ali naquele momento, senti uma saudade danada do dia em que fiz a minha primeira viagem de trem e estive tão feliz naquela plataforma cheia de gente e agora completamente vazia. E ao me retirar daquele local avistei a única fonte remanescente do ruído de outrora. Afrontando o tempo, apenas um pouco arredada do seu antigo lugar, estava à máquina de beneficiar arroz. Um pouco mais preguiçosa, mas ainda tendo ao seu derredor a figura do amigo, João do Sô Nico*, que, talvez, como eu, guardando dentro de si os quadros veneráveis daquela estação e os apitos da Maria-fumaça, subindo e descendo... Buscando e levando a vida da cidade. 

Para ler mais sobre este assunto clique aqui: http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_tronco/candeias.htm

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

SEBASTIÃO QUIRINO: UM TALENTO SEM ALENTO!

                                                             Foto Clara Borges
 Recebo de meu amigo Nico do Zinho Borges, candeense de boa gema e linhagem tradicional, a lembrança do nome de um companheiro meu, que já se encontra no céu das rosas entre nuvens sem tempestade:Tião Quirino, como era mais conhecido.

Tião foi um bom rapaz. Estatura mediana, dentuço, rosto rústico, quase lampinho, tinha o hábito de gesticular usando a cabeça para confirmar as suas próprias palavras. Não era dado ao trabalho convencional; sobrevivia com o que lhe rendia pequenos ganhos avulsos, como pintor letrista de faixas, cartazes, cartonagens, etc.

Parece-me que jamais teve um emprego.  Se me não engano, teria trabalhado, quando ainda garotão, unicamente na fábrica de fogos do Belmiro Costa, então situada à Rua do Cemitério, numa grande casa com diversas portas azuis edificadas ali onde se encontra a propriedade do Sr. Alexandro de Paiva.

Tião era muito inteligente a exemplo de toda a família Quirino. Certa vez fez um boneco de judas para a festa do sábado de aleluia. (sábado santo)

Numa época de São João, fez, também, um grande balão que teria gasto mais de uma hora para enchê-lo de fumaça, em meio a uma grande algazarra de meninos dos quais entre eles, eu estava lá, numa aglomeração junto ao chafariz do Sansão.

Eu acho que nunca vi alguém mais feliz do que quando vi Tião Quirino olhando aquele lindo balão de papel de seda, policromado, subindo aos céus todo iluminado e deixando a terra como se estivesse indo para perto de Deus.

Tião Quirino nasceu, viveu e morreu em Candeias... Mas com certeza nasceu, viveu e morreu no lugar errado. Candeias lhe deu o berço, mas não lhe deu condições de sobreviver com dignidade. Seus ideais trafegavam em caminhos pouco transitados. Sua vida foi um barco numa tempestade; sabia que iria naufragar, mas não sabia em que ponto da viagem.

Revirando os fundos das gavetas de minha memória, consigo estar junto de Sebastião Quirino falando-me de seus planos e de seus ideais. Planos e ideais que nunca, nem por perto, foram atingidos. Às vezes era visto como um visionário... Um utopista. Mas, a bem da verdade, parecia tratar-se de um espírito intelectual encarnado no corpo de um peão bem rude.

A televisão chegou ao Brasil no início da década de cinqüenta e só chegou a Candeias, ainda bastante precária, com poucos aparelhos e uma imagem muito ruim já quase no fim da década de sessenta. Até então as novelas existiam através do rádio e das revistas. As fotonovelas faziam o grande sucesso com as mulheres. Era, portanto, a - era - das revistas. Trocavam-se umas por outras no sentindo de variarem de histórias.

Sebastião Quirino escreveu uma fotonovela. Improvisou uma revista, desenhou quadro por quadro e mandou para uma editora e não obteve nenhuma resposta. Eu li a historia e gostei muito. Foi quando pela primeira vez pude observar o quanto era Inteligente. Posteriormente escreveu um livro... Um romance, e o enviou para uma editora que pelo menos teve a dignidade de devolvê-lo e apresentar as desculpas por não interessar.

Sebastião era autodidata, quase não freqüentou escolas, mas tinha notícias de tudo que se passava ao derredor do país e do mundo. Fazia os mais diversos comentários sobre conhecimentos gerais. Sebastião amava através da paixão alucinada; sonhava, mas vivia perdido entre as nuvens dos seus sonhos. A pobreza, às vezes, ludibria à felicidade. A verdade dificilmente entra pelos olhos dos cegos. E Sebastião apesar de inteligente era como um cego para atingir os seus objetivos.

Imaginava poder vencer na vida sem sair de Candeias. Deus, contudo, lhe negara a coragem de buscar fora o seu espaço. Eu sempre lhe falava: amigo, você parece querer ser como um rio: fazer o curso sem sair do leito!... Aqui não terá futuro!...

Infelizmente ele começou a beber. Suas doses foram sendo aumentadas e se tornou num alcoólatra inveterado; já era visto quase sempre embriagado. Certa feita, numa das costumeiras excursões na velha usina Bonaccorsi, em meio a tanta gente, pude ver o meu amigo totalmente desnorteado e servindo de chacota para os presentes. Ele bradava alto e em bom som: Eu amo a Marilda... Eu amo a Marilda Paixão... Sim ele amava a Marilda Paixão, mas não tinha um futuro para lhe oferecer e escondia as suas mágoas para afogá-las no álcool.

Após um recesso alcoólico, resolveu escrever uma peça de teatro. Reuniu alguns amigos entre eles eu estava como contra-regra e sonoplasta. Foi um sucesso. O cinema ficou lotado após um grande trabalho de toda uma equipe para ver a casa cheia. Tratava-se de um espetáculo beneficente, em favor das obras da Igreja Matriz.

Após o grande evento, Sebastião totalmente envolvido na sua condição de vitorioso, adentrou-se no Bar do Lulu e começou a beber. Tão logo se embriagou viera-lhe a metamorfose negativa, lhe fazendo expor a explosão que guardava na caixa do seu silêncio.

Logo depois desceu à rua do sobrado, atravessando a Praça da Fraternidade foi ater-se na residência do Dr. Pery Malheiros Simões, onde mora hoje a Sra. Wilba -----  médico, então diretor do Ginásio de Candeias.

Eram duas horas da manhã. O Sebastião totalmente embriagado despertou o morador e disse-lhe em voz alta: “Dr. Pery, eu amo loucamente à sua filha!...” Uma garota à época de pouco mais de dezesseis anos de idade, bonita e rica...
Naturalmente foi tratado como um proletário infeliz e bêbado desencantado da vida.

Alguns anos depois eu o encontrei ebrifestivo totalmente aturdido dando um sorriso sem dentes, mostrando um corpo doente que se não suportava mais a disciplina da vontade.

Levei-o à sua casa. E nesta oportunidade eu pude rever aquele local onde quantas vezes eu tentei reanima-lo, buscando convence-lo a começar uma vida nova fora de Candeias, e a resposta foi sempre surda: Não. Não Armando!... Não paga a pena, dizia...

Eu o conhecia bem de perto, portanto, sugeri a mim mesmo que ali não estava um gênio e sim um superdotado perdido no seu pequeno mundo cruel, sem um “deus” para lhe ajudar, porque ele não queria ajuda.

 Senti naquele momento uma funda e comovida piedade. Foi a última vez que o vi.


Armando Melo de Castro -
candeiasmg.blogspot.com









UM JUBILOSO VELÓRIO...



No momento em que toco neste assunto, eu busco nos porões da minha memória um discurso histórico guardado nos arquivos da minha juventude. Histórico no sentido pejorativo, mesmo porque, trata-se de um fato anedótico que deve constar nas lembranças de todas as pessoas que estiveram aglomeradas numa sala durante um velório na cidade de Cristais - MG - e isso já faz tempo.

Quando jovem eu tive vários amigos em Candeias. Uns mais novos do que eu, outros da mesma idade e alguns mais velhos. Entre os mais velhos eu comento agora o Wanderley Alvarenga, apelidado por "Ley Careta".  Foi um grande amigo meu. Talvez lhe tenha faltado sorte na vida, como acontece com muitas pessoas nesse mundo de Deus no qual vivemos e morremos sem entendê-lo direito. Éramos compadres, pois, de antemão ele já teria me convidado para padrinho do seu primogênito Christian, conforme ele sempre dizia.

Conheci toda a sua trajetória de vida, infelizmente sempre cheia de dramas, dado o seu temperamento difícil e a falta de firmeza nas suas atitudes. Escrevia letra por letra quando ia assinar o nome. Dono de uma memória invejável. Registrava tudo em apenas uma observação. Gostava de recitar poesias, principalmente àquelas de autores cordelistas. Alfaiate de meia tesoura fazia apenas calças. Dizia sempre não ter sorte na vida. Teve um bar em Candeias. Mas infelizmente, tornou-se num consumidor do próprio estoque o que lhe impediu de se prosperar. Gostava de fazer pequenos discursos em público; gostava das palavras diferentes. 

Comprara, certa vez, um livrete de cordel onde ensinava escrever cartas e fazer discursos. Havia os modelos básicos para cartas de amor e alguns pronunciamentos. O modelo de discurso preferido por ele era o que segue, o qual ele o alterava de acordo com as circunstâncias festivas... Era mais ou menos assim: 

"Seria faltar a um dever" que a mais sincera amizade impõe calar comigo o preito que julgo traduzir nas poucas palavras que vou pronunciar: distinguido com honra de ter um lugar em meio a esta JUBILOSA FESTA, cumpre-me corresponder a ela com os mais vivos protestos de estima e toda a HILARE do meu coração. 

E assim o meu amigo Ley estava sempre iniciando o seu discurso nas festas de aniversário e outras comemorações. O introito do discurso era já decorado e conhecido pela rapaziada que sempre fazia o seu comentário: "Já vem o Ley com o seu discurso".

O primeiro carro que possuí era um Simca Chambord, cor abacate. Isso foi no ano de, por ocasião da copa do mundo. Quando cheguei com esse carro em Candeias, não fui diferente dos outros jovens. Estava sempre procurando festas e bailes. E numa dessas oportunidades fiquei sabendo que havia um baile na cidade de Cristais. Enchemos o velho carro e fomos parar lá... E é claro: junto, o meu amigo Ley, que nessas alturas do campeonato já havia tomado um meio litro da água que o gato não bebe que naquele tempo não era João Cassiano, era João Marques. 

Chegamos à cidade de Cristais e lá encontramos com um amigo nosso, João Cambota, também apreciador do gole e que era casado lá com uma moça chamada Mercês; com a qual veio futuramente a se casar.

Em companhia do João Cambota, já bem relacionado na cidade, fomos parar num velório. E o João a fim de botar lenha na fogueira disse ao "Ley": O defunto era meu amigo, faça um discurso ai como se nós todos fossemos amigos dele... E o orador com a voz, o corpo e a cabeça titubeantes, inicia: 

"Seria faltar a um dever que a mais sincera amizade impõe calar comigo o preito que julgo traduzir nas poucas palavras que vou pronunciar; distinguido com honra de ter um lugar em meio a este JUBILOSO VELÓRIO, cumpre-me corresponder a ele com os mais vivos protestos de estima e toda a hílare do meu coração. Não tive o prazer de conhecer o amigo morto quando era vivo, mas faço isso agora com muito respeito"!

Lembro-me apenas de ter ouvido uma voz no canto da sala? "Quem é esse doido?". Sei dizer que depois de ouvir a palavra, doido, eu já estava a caminho da rua e atrás de mim vinha o João Cambota, segurando para não rir e o Ley andando na pontinha dos pés com o seu terno branco, e uma gravatinha vermelha; e dizendo nervosamente para o João Cambota: "A culpa foi sua João que não me deu dados para o discurso e eu me embananei"!

Desculpe-me meu amigo Ley, eu não poderia deixar de contar esta história. Receba ai onde estiver o meu abraço... Abraço de quem tem muita saudade da sua amizade.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


domingo, 1 de junho de 2008

O SILÊNCIO DO PISTOM DE JOÃO VIRGILIO RIBEIRO.




A morte se pensarmos bem, é uma recompensa e se a tememos é porque estamos contaminados pelos sentimentos de apego aos bens materiais. Pensa-se que a morte nos leva e nunca nos busca. É verdade que quando perdemos um ente querido o sentimento de perda se aflora como resíduo do amor dispensado durante o convívio. Portanto, nessas horas, podemos contar com a piedade alheia porque esse é o lenitivo para os momentos difíceis e que nunca deveria nos faltar. Assim, faço neste texto uma presença da morte sem, contudo, marcar a resignação digna de um estoico. No momento que traço essas linhas, penso nas pessoas com as quais convivi durante esta vida e que já não estão mais respirando o ar deste planeta.

 Sempre visito o cemitério São Francisco, onde grande parte das lápides me traz uma recordação de vida, ou seja, daqueles que se foram deixando o exemplo do dever cumprido perante o Criador; sobretudo, o meu pai... O meu querido pai Zé Delminda com quem converso como se estivesse vivo ali, aguardando a minha visita. Converso, também, com os meus amigos... Quantos e quantos estão lá... Sinto uma saudade danada e procuro ludibriar a morte fazendo de conta que todos aqueles amigos guardados naquele campo santo, estejam vivos, bem vivos, porque não morreram nas minhas lembranças, me faço sentir que estão apenas encantados.

Ontem, estive assistindo a retreta de uma banda e naquele momento me fiz viajar nas minhas lembranças para muito longe quando estive presente no cemitério São Francisco no sepultamento do meu amigo João Virgílio Ribeiro, o João do Sô Nico... Era um grande amigo e gostava de ler esses casos que escrevo remexendo, como brasas, as lembranças guardadas debaixo das ­­­cinzas da minha juventude... João Virgílio Ribeiro, o João do Sô Nico foi sempre um amigo do meu pai e consequentemente de toda a minha família.

João era músico nato. Trazia no sangue o afluxo da música. Durante muitos e muitos anos foi membro importante da Banda Musical de Candeias e do Jaz do Américo Bonaccorsi. Lembro-me, quando ainda menino e acompanhava meu pai nos ensaios do “Tiro e Queda” (Jaz do Américo) Lá estava o João, contando os seus casos e rindo das brigas dos colegas, porque havia os incompatíveis durante os ensaios. E o meu amigo João logo bradava: Gente! Vamos tocar... Parem com essa brigalhada cambada!...

O Jaz “Tiro e Queda” tinha como elenco: Américo no Saxofone; João no Pistom; Zinho no Trombone; Luizinho do Américo na bateria; Zé Delminda, meu pai, no violão; Pedrinho do Candola, no cavaquinho e Zé Vilela o cantor. A maior parte desse conjunto já estava no céu, porém desfalcado, até o dia seis de maio ultimo, do seu pistonista.  Agora está completo lá no céu. Chegou o seu último membro, João do Sô Nico, esperado por todos.

Meu amigo João Virgílio Ribeiro! Obrigado por sua amizade e parabéns por ter sido o cidadão exemplar que você sempre foi... Obrigado pela paciência com o meu mano Carlos, com aquela vespa velha... Obrigado pelo arroz vermelho que você tantas vezes me deu gentilmente... Obrigado pelo som do seu pistom destinado a alegrar o mundo e que doravante estará silencioso; contudo, com certeza, não sairá das nossas lembranças. Seu sepultamento terá sido um dos mais recheados de amigos.

A cidade parou para se despedir de você. Tal como que um dia de festa santa, a banda musical, que você tanto amava, marcou presença e lhe homenageava executando uma marcha triste, uma marcha lutuosa; um agradecimento por tê-la pertencido durante maior parte de sua vida dando-lhe vida às suas retretas. Mas, ali, naquele momento, parecia que a banda chorava por você... Ao acomodar-se no seio da terra mãe, o seu túmulo foi inaugurado com o silêncio determinado por um clarim... Melhor dizendo: por um pistom.

Uma festa triste, muito triste para nós, mas para você, com certeza, terá sido muito alegre. Onde quer que esteja receba o meu abraço e o meu respeito.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.





VAI SER CHATO TREM!


                                   

Hoje, uma das gavetas da minha memória, amanheceu bastante remexida. E após navegar pelo oceano das minhas lembranças, desembarquei-me diante de um fato que me levou ao principio dos anos 60, quando ainda eu era um adolescente.

Na década de 50 o correio brasileiro chegou a ser considerado o pior do mundo. Hoje, do mundo, é o melhor segundo a revista Forbes, ----- Os jornais chegavam às mãos dos leitores com até dez dias de atraso. Eles vinham com vagar, de trem, do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Eram poucos os assinantes.

As cartas e outras correspondências eram, comumente, extraviadas. Uma carta, por exemplo, para São Paulo, se não fosse aviada através de porte registrado, constantemente era consumida pela viagem. Remessas de dinheiro extraviavam-se, para onde? Só Deus sabe. E o pior, a responsabilidade não era arcada pelo correio. Não adiantava reclamar. Se reclamasse, ai então, a coisa piorava: os funcionários do correio detestavam reclamações.

Naquela busca de adolescente, querendo se firmar numa vocação ou numa profissão, eu resolvi fazer um curso de rádio por correspondência. Matriculei-me, portanto, no até hoje, existente, “Instituto de Rádio Técnico Monitor”, de São Paulo. Pagava por mês CR$ 15, 00 e o quanto me era difícil o dinheiro para esse meu projeto!

Bastara-me uma só vez para que o meu dinheiro sumisse e eu desistisse de continuar estudando rádio. Foi uma frustração. Mas o que mais me chamava à atenção eram os funcionários da agência dos correios de Candeias. Eu não sei quantos funcionários têm hoje aquela agência, mas imagino que não se compara com o quadro daquele tempo.

Com o fato de incrementar o telégrafo na Agência de Candeias, teria vindo o telegrafista, Sr. Nelson e Chefe da casa. O governo teria criado diversos benefícios para os soldados da Força Expedicionária, na II Guerra Mundial. Os chamados pracinhas. Nada mais justo. Eram pessoas com problemas financeiros... Problemas psicológicos, etc. Mas, o governo os colocou nos interstícios dos correios; tivesse ou não vagas, lá entraram. Haviam também os apadrinhados políticos. E nessa leva a agência dos correios de Candeias, tornou-se num verdadeiro trem da alegria.

Os guerreiros beneficiados foram os Srs. Clovis Cambraia Alvarenga, e Humberto Pulhez. Teriam, com certeza, merecimento para receber um benefício do governo, tendo em vista trazerem consigo a maldição da guerra, ou seja, os traumas. Justo se vê, todavia, tratar-se de duas pessoas totalmente despreparadas para o cargo a que foram submetidos. Apesar de merecedores.

De outra forma, um remanejamento da ferrovia, foi levado para os correios o Sr. Ovídio Ferreira. Um cidadão, então, visto pelos jovens como esquisito, mal-humorado e excêntrico... 

Um carteiro fardado tal qual um soldado, o Sr. Zezinho Mizael, teria ganhado o cargo como um presente político. Zezinho fazia sempre alusão ao seu salário de vinte e quatro contos, como dizia, para entregar uma meia dúzia de cartas. Na época, lembro-me de vê-lo comentar que o seu salário era de dois mínimos e meio.

Grita-me aos olhos aquele quadro de funcionários da agência dos correios de Candeias quando eu lá chegava e perguntava humildemente:- -- Tem carta para mim Sr. Ovídio? E uma seca resposta: -----" Não! Você já esteve aqui ontem!... Dá um tempo ai uai"!...

No outro dia, eu empanado na minha timidez, na minha vergonha e no medo da resposta perguntava de novo: Tem carta para mim Sr. Ovídio: "Não! Esse trem de rádio demora mesmo... Você vem aqui todo dia, vai ser chato trem"!

Vi que falava sério. Para o Sr. Ovídio que trabalhou muitos anos de sua vida na ferrovia, era um homem sem família, solteirão, não era de se estranhar o seu habito de tratar a tudo e a todos de trem.

Senti-me humilhado. Mas hoje agradeço ao Sr. Ovídio. Deixou-me uma lição de vida. Do lado de dentro de um balcão, fiz tudo para não ser um trem chato. A sua falta de jeito fez-me mais precavido. Foi um limão do qual eu fiz uma limonada.

Armando Melo de Castro

Candeias MG casos e acasos

A FIGURINHA DO MEU ÁLBUM


Eu gosto de futebol. Aliás, o brasileiro que não gosta de futebol deve ser uma pessoa incomum, mesmo porque, o futebol no Brasil é uma paixão nacional. Portanto, a pessoa que se diz não gostar de futebol em nenhuma circunstância, trata-se, com certeza, de uma pessoa que está fora dos padrões da normalidade.


Eu não sou aquele torcedor que quer saber de tudo que acontece na vida do seu time ou dos jogadores. Não me interessa saber o salário de um jogador; a sua vida particular etc. Basta-me saber o time que ele joga e se jogou bem. Sou torcedor sequaz da seleção brasileira. Afinal aquele que torce pelas vitórias da seleção brasileira não é apenas um apreciador da arte do futebol, mas sim um cumpridor dos deveres de bom cidadão que honra as cores da sua nação.


Entendo que torcer por uma agremiação esportiva quando esta representa o seu país é uma grande obrigação.Portanto, em épocas dos jogos da copa do mundo, eu fico bastante eufórico e muito ansioso pela vitória do time que leva o nome do meu país. Afinal, esta euforia geral é uma oportunidade que temos de exalar o nosso patriotismo. Na minha adolescência estavam no apogeu da fama os jogadores Pelé e Garrincha. E para mim aquelas jogadas do Garrincha ficaram guardadas na minha memória para sempre. Lembro-me que ao conseguir uma figurinha do Garrincha para um álbum da seleção de 1958, eu cheguei a chorar de alegria. Garrincha foi a “Alegria do Povo” e as alegrias que ele me deu na infância me levam a reverenciá-lo como torcedor do seu time da época, o Botafogo do Rio de Janeiro.


Em Minas Gerais torço pelo Cruzeiro. Talvez pelo famoso tripé que formou o grande nome do Cruzeiro: Tostão, Piazza e Dirceu Lopes... ou quem sabe, pela cor da camisa? Eu gosto muito da cor azul...Sei apenas que não seria capaz de escalar o Botafogo e muito menos o Cruzeiro.


Na minha terra, Candeias, existiam três times de futebol dos quais não tenho noticias se ainda existem: Rio Branco Esporte Clube – Clube Atlético Candeense e Associação esportiva Candeense.O Atlético tinha a sua sede no bairro do Alto do Cruzeiro e a Associação ficava no bairro da Lagem.Mas para mim o mais importante dos times candeenses, não pelo seu estádio e nem pelos seus jogadores, porque eram muito simples, mas sim pela história que para mim representa. Sempre foi e será sempre, mesmo se inexistente, o Rio Branco Esporte Clube, o meu querido “Ranca Toco”, que tinha o seu antigo estádio na Rua Coronel João Afonso, abaixo da Casa Vicente Vilela.


Entre os jogadores eu posso recordar o nome de alguns: Dedé do Alonso, Geraldo Freire, João Delminda, (meu tio) Wantuil de Castro (meu tio), Antonio do Orcilino, Lelé do Conde, Benevides, Zé Curuja, Passarinho e outros. Juiz era sempre o Quintino Enfermeiro e o Técnico era o Miguel Simões.O meu pai, Zé Delminda, era o goleiro e me levava consigo todas as tardes para vê-lo jogar e assistir o treino. E mesmo nos treinos quando aquele goleiro pegava uma bola eu enchia-me de júbilo como se estivesse hoje nas cadeiras dos estádios alemães assistindo o Dida frenar um atacante louco por vazar a rede.


Lembro-me perfeitamente numa partida final de campeonato quando o Rio Branco ganhou do Esparta Futebol Clube, de Campo Belo, por um pênalti agarrado por meu pai que saiu carregado do campo pelos torcedores e colegas de time. Nesse dia eu chorei sem saber por que chorava. Eu misturava o riso com a lágrima sem saber que fenômeno era aquele que me enchia de tanta emoção... Mas hoje sei: era a emoção do futebol. E esta emoção pode estar agora lá na Alemanha, como pode continuar viva após mais de cinqüenta anos, aqui dentro de mim.


Meu pai sempre será a figurinha mais rara do álbum estampado no meu coração!


Onde quer que esteja, meu pai, torça pelo nosso Brasil... nós precisamos de alegria.


Armando, Lagoa da Prata, 17 de junho de 2006.