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segunda-feira, 2 de junho de 2008

UM JUBILOSO VELÓRIO...



No momento em que toco neste assunto, eu busco nos porões da minha memória um discurso histórico guardado nos arquivos da minha juventude. Histórico no sentido pejorativo, mesmo porque, trata-se de um fato anedótico que deve constar nas lembranças de todas as pessoas que estiveram aglomeradas numa sala durante um velório na cidade de Cristais - MG - e isso já faz tempo.

Quando jovem eu tive vários amigos em Candeias. Uns mais novos do que eu, outros da mesma idade e alguns mais velhos. Entre os mais velhos eu comento agora o Wanderley Alvarenga, apelidado por "Ley Careta".  Foi um grande amigo meu. Talvez lhe tenha faltado sorte na vida, como acontece com muitas pessoas nesse mundo de Deus no qual vivemos e morremos sem entendê-lo direito. Éramos compadres, pois, de antemão ele já teria me convidado para padrinho do seu primogênito Christian, conforme ele sempre dizia.

Conheci toda a sua trajetória de vida, infelizmente sempre cheia de dramas, dado o seu temperamento difícil e a falta de firmeza nas suas atitudes. Escrevia letra por letra quando ia assinar o nome. Dono de uma memória invejável. Registrava tudo em apenas uma observação. Gostava de recitar poesias, principalmente àquelas de autores cordelistas. Alfaiate de meia tesoura fazia apenas calças. Dizia sempre não ter sorte na vida. Teve um bar em Candeias. Mas infelizmente, tornou-se num consumidor do próprio estoque o que lhe impediu de se prosperar. Gostava de fazer pequenos discursos em público; gostava das palavras diferentes. 

Comprara, certa vez, um livrete de cordel onde ensinava escrever cartas e fazer discursos. Havia os modelos básicos para cartas de amor e alguns pronunciamentos. O modelo de discurso preferido por ele era o que segue, o qual ele o alterava de acordo com as circunstâncias festivas... Era mais ou menos assim: 

"Seria faltar a um dever" que a mais sincera amizade impõe calar comigo o preito que julgo traduzir nas poucas palavras que vou pronunciar: distinguido com honra de ter um lugar em meio a esta JUBILOSA FESTA, cumpre-me corresponder a ela com os mais vivos protestos de estima e toda a HILARE do meu coração. 

E assim o meu amigo Ley estava sempre iniciando o seu discurso nas festas de aniversário e outras comemorações. O introito do discurso era já decorado e conhecido pela rapaziada que sempre fazia o seu comentário: "Já vem o Ley com o seu discurso".

O primeiro carro que possuí era um Simca Chambord, cor abacate. Isso foi no ano de, por ocasião da copa do mundo. Quando cheguei com esse carro em Candeias, não fui diferente dos outros jovens. Estava sempre procurando festas e bailes. E numa dessas oportunidades fiquei sabendo que havia um baile na cidade de Cristais. Enchemos o velho carro e fomos parar lá... E é claro: junto, o meu amigo Ley, que nessas alturas do campeonato já havia tomado um meio litro da água que o gato não bebe que naquele tempo não era João Cassiano, era João Marques. 

Chegamos à cidade de Cristais e lá encontramos com um amigo nosso, João Cambota, também apreciador do gole e que era casado lá com uma moça chamada Mercês; com a qual veio futuramente a se casar.

Em companhia do João Cambota, já bem relacionado na cidade, fomos parar num velório. E o João a fim de botar lenha na fogueira disse ao "Ley": O defunto era meu amigo, faça um discurso ai como se nós todos fossemos amigos dele... E o orador com a voz, o corpo e a cabeça titubeantes, inicia: 

"Seria faltar a um dever que a mais sincera amizade impõe calar comigo o preito que julgo traduzir nas poucas palavras que vou pronunciar; distinguido com honra de ter um lugar em meio a este JUBILOSO VELÓRIO, cumpre-me corresponder a ele com os mais vivos protestos de estima e toda a hílare do meu coração. Não tive o prazer de conhecer o amigo morto quando era vivo, mas faço isso agora com muito respeito"!

Lembro-me apenas de ter ouvido uma voz no canto da sala? "Quem é esse doido?". Sei dizer que depois de ouvir a palavra, doido, eu já estava a caminho da rua e atrás de mim vinha o João Cambota, segurando para não rir e o Ley andando na pontinha dos pés com o seu terno branco, e uma gravatinha vermelha; e dizendo nervosamente para o João Cambota: "A culpa foi sua João que não me deu dados para o discurso e eu me embananei"!

Desculpe-me meu amigo Ley, eu não poderia deixar de contar esta história. Receba ai onde estiver o meu abraço... Abraço de quem tem muita saudade da sua amizade.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


Um comentário:

Claudia Saldanha disse...

Lembro me dos dois: Ley e João Cambota! Figuras marcantes em nossa cidade!