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segunda-feira, 28 de junho de 2010

ERA UMA VEZ UM TOUREIRO


                                                   Foto: AFP apenas para ilustração do texto.

Ano passado eu tomei conhecimento, através do noticiário, de que um touro teria dado uma chifrada no pescoço de um toureiro espanhol, e este estaria em estado muito grave. Hoje, fui surpreendido com a noticia de que esse toureiro está se preparando para voltar à arena e enfrentar, de novo, os touros.                                                                                    

Dá-se para entender que neste mundo existem pessoas para todas as loucuras. Levar uma chifrada no pescoço, ficar em estado grave e depois ainda querer touro de novo!?...

Não existe para mim uma violência maior do que seja este tipo de espetáculo... Não existe para mim uma sintonia maior entre o homem moderno e o homem da idade da pedra... Eu jamais entenderei, como pode estar nas gavetas da intimidade humana a satisfação de travar entre si um combate com a irracionalidade de um animal... Um animal que pode ser ou estar violento... Eu busco, com afinco, nas profundezas do meu raciocínio, ter uma idéia clara no sentido de justificar esse tipo de aplauso.

Diante disso, me vem à tona, um fato que se encontra guardado nos fundos dos meus olhos desde a minha infância, e que me fez repudiar, pelo resto da vida, essa coisa chamada “tourada”.

Luiz Belo cidadão natural da cidade de Formiga,bonitão; estatura elevada com os seus quase dois metros de altura... Moreno, boa pinta, cabelos lisos de um castanho bem claro; olhos fundos; bem escanhoado; boca grande e sorriso de machão... Bem trajado e bem calçado... O seu visual fazia-lhe juz ao nome de Belo e referência como quê: “um massa de homem rico e bonito”... A mulherada talvez acrescentasse: “gostosão”.

Era, Luiz Belo, um apaixonado pelas touradas espanholas. Filho de pai rico, foi parar na Espanha, e lá não se sabe como, tomou aulas sobre a técnica de tourear. Após ter andado lá pelo mundo das touradas, em busca de aprendizado dessa diversão, a meu ver, excêntrica, voltou e se tornou proprietário de um bem montado circo de touros.

No nosso país não existe e nunca existiu estrutura para esse tipo de coisa. O circo de touros não faz parte da nossa cultura apesar dos nossos fazendeiros admirarem esses espetáculos. Influência, talvez, do convívio com esses animais donos desta festa...

Era, portanto, o circo do Luiz Belo, com certeza, o melhor circo da ordem; ao passo que instalado na Espanha, com certeza, seria o pior de lá...

Diziam: “Luiz Belo, é o melhor toureiro do Brasil”! Era a ultima atração do espetáculo e para ele era reservado o touro mais teimoso e mais violento...

Apresentava-se com uma pose de toureiro espanhol, talvez, trazendo no seu íntimo a máxima: “Se El Cordobés chegou lá, eu também chegarei porque sou melhor...”. Garbosamente se empanava em vestes de estilistas espanhóis...

Segurava um boi pelos cornos enquanto o palhaço puxava o rabo do pobre animal...
Como se vê, apenas as vestes de Luiz Belo, poderiam ser comparadas com as touradas espanholas.

Um grande problema: não possuía uma manada de animais preparados para tal. Portanto, os animais eram cedidos por empréstimos por fazendeiros locais que escolhiam entre as suas rezes as mais violentas e que oferecessem algum perigo.

Prudente seria, todavia, transportar um animal desses, escolhido como bravo e rebelde, num veículo próprio, ou à noite, para maior segurança da população...Mas, não... Os animais designados para o espetáculo vinham tocados, como que para o matadouro ou para um apartamento de reses... E nem sempre se faziam acompanhados de uma madrinha.

Na década de 50 quando eu morava na Rua Coronel João Afonso, era nosso vizinho e residia, onde está localizado, hoje, uma loja de produtos agrícolas, na esquina com a Rua Belmiro Costa, um senhor chamado João Lopes.

Cidadão pacato e tranqüilo. Se me não engano já havia se aposentado de sua fazenda e teria se estabelecido definitivamente na cidade.

Eu o via sempre descer a rua e ir até a venda do Zé Lara, onde está localizado o Bar do filho do Vicentinho Vilela. Subia e descia como que já tivesse acertado as contas com a vida e já se encontrava desvinculado de compromisso com o futuro. Afinal, aposentar-se, é, infelizmente, queira ou não queira, estar como que, no aeroporto da morte aguardando o avião que faz escala no inferno, purgatório e céu... Pior, ainda, antes, quando o vivente trabalhava enquanto continha forças.

Eu, que sempre estava de plantão assentado num banco à porta da minha casa, dava noticias de tudo que se passava na rua. Vi, como sempre via, João Lopes, calçado de chinelos de couro, descer a rua com os seus passos lentos, sorrindo para um e para outro, exibindo os dois dentes de ouro no seu maxilar superior.

Lembro-me da última vez que o vi sorrindo, quando desceu a rua, rumo à venda do Zé Lara. Uma hora depois, eu o via transportado sobre uma cama conduzida por quatro homens, alguns acompanhantes e uma meninada curiosa.... Estava agonizante e a roupa tinta de sangue... Era uma quadro de dor que dali a pouco iria aumentar aos olhos da família.

E o que teria acontecido? Vi quando alguém perguntou a um dos transportadores da padiola improvisada, o que teria acontecido ao senhor João Lopes, e a resposta teria sido de que um boi bravo o havia atacado nas imediações da antiga praça do circo, hoje Praça Antônio Furtado.

A falta de recursos, ou mesmo a falta de expediente que havia naquele tempo, fez com que os atendentes do socorro prestado ao moribundo, se limitassem ao entregar, simplesmente, o corpo quase sem vida aos seus familiares, diante de um desespero incontrolável.

Aquela cena de horror encontra-se guardada dentro dos meus olhos. Vejo, ainda, aquele homem pacato, descansado, agora com o corpo banhado em sangue... Não o sangue de um boi, mas o seu próprio sangue...

Que boi bravo seria esse meu Deus?... Perguntei aos céus!...

A Praça Antonio Furtado era destinada a armação desses circos de arena, anfiteatros, parques de diversões etc. E ficava bem proximo dali. O animal estourou-se nas redondezas do circo quando era tocado livremente pelas ruas... João Lopes, nascido e criado numa fazenda não teria avaliado o perigo que corria ao passar pelo boi que se encontrava desnorteado por ali. O bicho avançou-se contra ele e o arremessou longe.

Naquele dia o serviço de alto falante do circo não funcionou, a casa da vitima ficava muito perto... Mas, enquanto João Lopes estava entre a vida e a morte dava para ouvir da trombeta do circo uma voz forte a gritar:

“Senhoras e senhores! Dentro de alguns minutos na arena o touro criminoso... Luiz Belo irá desafiá-lo com a sua capa espanhola”. Era Luiz Belo nos píncaros da glória!

Quanto ao João Lopes a morte não lhe poupou. Algumas horas após o término do espetáculo com o touro que lhe ferira, João Lopes partiu desta vida deixando impune os responsáveis pela tragédia.

Era como se fizesse cumprir as leis de Êxodo 21:28.

Anos mais tarde, vejo um pequeno circo armado nas imediações do bairro da “Lage”.
Era um circo com o aspecto geral da miséria traduzindo toda a falência da arte de tourear. Aquilo poderia se chamar tudo, menos um ponto de espetáculo.

Diziam cá de fora que o espetáculo se limitava a duas rezes e apenas um toureiro para operar... O semblante do bilheteiro/porteiro traduzia amargura e desânimo. Seu sorriso se escondia de uma boca sem dentes... Suas botas agora eram substituídas por chinelos de tiras... Seus cabelos escondiam debaixo de um chapéu velho... Um visual dramático... Era o fantasma de Luiz Belo, aguardando o ônibus da morte aqui em Candeias onde outrora teria atuado na sua arena iluminada... Já não era mais toureiro e talvez não tivesse mais gosto pelos touros. Caíra num buraco do qual não conseguia se livrar...

A pobreza tem o poder de pregar peças à felicidade...


Armando Melo de Castro

Candeias MM Casos e Acasos

terça-feira, 22 de junho de 2010

PAU PODRE NÃO DÁ CAVACO

Foto apenas para ilustrar o texto.  
Eu sempre participei da vida de Candeias mesmo estando morando fora. Um pouco lá, um pouco cá, e assim vou vivendo o meu ócio privilegiado, coisa de quem já labutou na vida durante mais de quarenta anos.

Nessas idas e vindas, tenho me dado ao luxo de fazê-las de ônibus. Afinal, não tenho compromisso com o relógio. O relógio é um amigo do tempo e o tempo, nem sempre, é um bom amigo da gente.

Pensando assim, decido não conflitar com o tempo. Sei das intenções dele comigo, mas, farei de contas que estou alforriado por ele, depois de ter sido seu escravo por tantos anos. Uma alforria simbólica, porque já me terá dito: “levar-te-ei à morte, queira ou não queira”.

Enquanto o tempo não me dispensa de vez, eu vou, por aqui observando as coisas levando o meu tempo observando a natureza ou me esticando no meu aposento como aposentado que agora se encontra ajustado com o ócio da dignidade.

E neste convívio eu vou apreciando a vida de forma diferenciada daquela de quando o trabalho não me permitia observar, ou seja, o comportamento humano; os animais e a natureza.

Num ônibus, por exemplo, conversamos com os estranhos numa curta e descomprometida amizade, ao mesmo tempo em que podemos observar os passageiros no celular expressando os seus sentimentos ou problemas; o cobrador fazendo o seu trabalho; o motorista atento ou não; um ou outro meio bêbado, dando o seu pequeno vexame. E num silêncio profundo surge um flato fétido quando alguém grita: “Queimaram o cabo do facão aqui dentro” fato que determina os demais passageiros o pensamento de que a galinha que grita é porque botou o ovo.

Certa feita eu me embarquei na Rodoviária de Candeias, no ônibus da Viação TransUnião que faz a linha Boa Esperança x Formiga. Passando defronte a velha estação ferroviária, tomou o ônibus um casal totalmente desproporcionado, ou seja, o marido contando uns cinquenta anos de idade, e a mulher sem passar dos trinta...

Ele miúdo e magro mostrando os ossos; ela graúda e gorda com um corpo esculpido em toucinho...

Ele branco, cabelo liso, grisalho e glabro de natureza... E ela quase negra, cabelos hirtos e com um buço realçado...

Ele trajando uma calça de tergal antiga e uma camisa de algodão e manga comprida quase encardida entalando o pescoço... E ela por sua vez, cobria o corpo sem curvas, com um vestido estampado parecendo ter sido adquirido de uma cigana.

Para completar o contraste, o cidadão falava baixo e a patroa falava alto... 

Com o sacolejo do ônibus ao se arrancar, a embarcada senhora cambaleou-se e quase se desequilibrou no que a fez soltar uma gargalhada, mostrando uma janela entre os dentes, que mais me pareceu um portão... Um portão do céu; (do céu da sua boca é claro!).

Os dois tomaram assento ao meu lado, e apesar de tentar isentar-me da curiosidade humana, tive a oportunidade de ver e ouvir tudo que se passou ali durante a viagem.

No introito da história eu já pude entender a essência da questão: A mulher seria natural de Candeias, do Bairro da Gruta... O Bairro da Gruta é onde está situado o cabaré do Pedro Pitanga. Quanto ao cidadão, tudo indicava ser ele natural da zona rural do município de Formiga.
Teriam vindo a Candeias em busca dos direitos de uma herança da avó dela, falecida há cerca de um ano.

Como diria a Hebe Camargo: “Ai que bonitinho”!

Ela: “amor prá cá e amor prá lá”... E ele um tanto desajeitado...

Ela começou dizendo:

----Amor, aquele “danento” do meu irmão vai pagá caro por tê me fintado a minha parte da herança da vovó...
---- É ruim...
---- Eu não divia ter dado tempo...Eu fui uma pamonha...
---- Foi ruim...
---- Amor, ele sempre foi safado e desonesto... Desde piqueno...
---- É ruim...
----Amor, ele fala que cuidou da vó por muito tempo, mas que mané tempo!...
---- É ruim...
----Aquele “danento” queria era cumê o que era dela sozinho...
-----É ruim...
-----E ocê viu lá amor, é uma casa que vale um tanto...
-----É bão...
-----Tem um quintal grande...
-----É bão...
-----Cê viu o pé de caqui?
-----Vi, é bão...
-----Deve valê uns trinta mil, ou mais...
-----É bão...
-----A Zilá me falou, amor, que ele é viciado no jogo de bicho...
-----É ruim cum força...
-----Fora a pingaiada... E tem mais, sabe amor? (cochichando no ouvido do marido, mas deu para ouvir) a Zilá me falou que ele num vale mais nada não... As honra dele só oia pu chão...
-----Ah eu cum medo! É ruim...
-----Tem dia qui num tem cobre nem pum li de leite...
-----É ruim...
-----Amor, por que que ocê num falô nada lá?
-----Num é bão não... É ruim...
-----Mas ocê é meu home...
----Mas o assunto é seu... É ruim...
----Amor ocê tinha que tê falado arguma coisa pra ele podê vê que eu tenho um home...
----Falá o quê?
----Que eu tenho direito na herança tamém...E que ele não pudia tê cumido a casa com angu...Cê ficou calado...
----Cê ficou doida?... Ele já tinha cumido a casa!... É ruim hein!?

Nesse ínterim o ônibus dá uma parada na comunidade dos Rodrigues, e entra um cidadão contando uns quarenta anos mais ou menos... Magro, usando um chapelão da aba quebrada, uma camiseta cavada mostrando um sovaco mal cuidado... E uma dentadura amarelada, carecendo de asseio e trazendo entre os dentes um fio verde, que mais parecia um pedaço de folha de couve picada.
Aquela boca enfeitada me leva a imaginá-lo um patriota da Copa usando de uma maneira exótica para homenagear a Seleção Brasileira.
Trás consigo um balaio de ovos e ao avistar o casal de passageiros já gritou:

---Oi compá Tião!...
---Oi cumá Mariquinha!... Cumé qui é? Quando nóis vai cumê o leitão com os cobre da herança?

Nisso, antes dela responder o maridão atalhou:

----Num vai tê herança não cumpá Jirimia, Ocê lembra que eu te falei que pau pôde num dá cavaco? Pois é o trem furô no lavrado...
----Meu irmão me passou a perna cumpá Jirimia... Aquele “danento” já tá com a casa no nome dele...
---Uai é? Que trem hem cumá Mariquinha! Nó! Coitada!... Quer dizê, qui ele deu uma pernada nocê?...
--- Deu! Cumpá Jirimia, mas o tempo vai cuidá disso se Deus quisé...
----Essas coisa é ruim né cumpá Tião...
---É ruim... É ruim com força cumpá Jirimia...

Moral da história: “O tempo vai cuidar disso.” E assim vamos!

Armando Melo de Castro

Candeias mg Casos e acasos

segunda-feira, 14 de junho de 2010

CRUZEIRO DO JOSINO


Hoje apontarei algo que muito enriquece a tradição candeense.Um local que merece registro pois trata-se de um ponto de veneração, que vem repassando gerações e gerações candeenses, numa demonstração de fé e espiritualidade. Eu me refiro ao “CRUZEIRO DO JOSINO”.
Josino - "Mestre" - como era conhecido, foi professor na zona rural. Tecnicamente era detentor apenas do conhecimento básico, mas possuía conhecimentos adquiridos através de uma cultura natural. Era visto pela sociedade candeense como pessoa bastante inteligente. Morava e lecionava na comunidade dos Cassianos. Tinha o dom da eloqüência e a palavra fácil. Gostava de discursar nas festas e cerimônias quando se propunha a falar da história de Candeias. Seus relatos eram isentos de registro histórico; sem consistência e baseados apenas em tradição oral. Empolgava-se nas exposições dos fatos e quando se perdia transportava o tema para uma observação lendária.

Sua origem é incerta, mas supõe-se que tenha vindo da cidade de Itapecerica em companhia de um padre. Era visto na cidade por ocasião de festas e quando se dispunha a trazer produtos da roça para vender.


Tinha fama de comilão, pois era um verdadeiro glutão. Quando na hipótese de passar alguns dias na cidade, trazia já pronta, uma lata de comida. E como naquela época não havia geladeiras, Josino mestre não se apertava, pois o acerbo da comida não lhe preocupava. Tinha ele um estômago de ferro...

Num cruzamento de caminhos, numa vereda da serra que leva aos Cassianos, em terras de propriedade da família do senhor Anísio Viana, está com os seus braços abertos, “O Cruzeiro do Josino”.

A história daquele Cruzeiro se perde no tempo. Vem vindo de geração para geração. Trata-se de informação anônima de que a existência da primeira cruz fincada naquele ponto data-se de antes da histórica picada de Goiás. Toda a geração Cassiana é unânime em informar que não se tem notícia da primeira vez em que foi colocada uma cruz ali. De tempo para tempo vem sendo transportada essa incógnita.

Dizia, o Sr. Tavico Cassiano, que naquele local teria morrido, há centenas de anos, perseguido pelo pai da moça, um casal de namorados. Essa informação não tem consistência perante outros membros da família Cassiano. Por conseguinte supõe-se ser esta, uma informação lendária.

Lembro-me de ouvir o meu avô, João José de Castro, o João Delminda, dizer que quando criança, levava água para banhar o pé da cruz num gesto de reverência, quando pedia aos céus um alívio através de uma chuva que pudesse amenizar o incômodo pelo estio...

Minha mãe hoje com oitenta e dois anos, também teria feito o mesmo quando criança. E eu muitas vezes acompanhei ao meu pai neste mesmo ritual.

Vigia aquele cruzeiro uma árvore centenária, uma Maria Preta, que lhe faz sombra no amanhecer, cujo tempo lhe faz tomada pelas ervas parasitárias.

Josino Mestre residia nas imediações e ali era o seu ponto de cultuar a Deus. Anteriormente, eram cruzes menores, mas posteriormente, por iniciativa de Josino foi colocado o primeiro cruzeiro. Motivo pelo qual, tornou-se o símbolo, denominado, “Cruz do Josino”.

Além de construir um pedestal, fez um cercado ao redor deste e construiu um grande cofre de latão que ficava adaptado numa grande tora de madeira. Esse cofre com o tempo desapareceu, naturalmente por vândalos no sentido de roubar os trocados que o povo ali deixava depositados. A partir daí tomou-se o nome de Cruzeiro do Josino.

Com a morte do professor a família do Sr. João Cassiano Máximo foi quem passou a zelar daquele capítulo da nossa história. Hoje, quem assumiu como um gesto benevolente, os cuidados daquele ponto depositário de fé popular, é o senhor João Cassiano Máximo Filho, e sua esposa Lucília que empenham em conservá-lo aos nossos olhos. Já pela segunda vez renovam a cruz às suas expensas, para que se não extinga aquele patrimônio espiritual tão importante do povo de Candeias.
Há pouco tempo o cruzeiro existente, já corroído pelo tempo, caiu tendo sido destruído e foi igualmente substituído, pela família Cassiano; oportunidade em que foi abençoada pelo Revmo. Padre Moncef, diante de um grupo de fieis e freqüentadores daquele ponto cultual.
A exemplo de outras pessoas, há anos, eu visito o Cruzeiro do Josino, buscando amparo espiritual. Você que lê esta mensagem, faça a sua reverência ao Cruzeiro do Josino e com certeza estará recebendo o amparo espiritual do maior símbolo de religiosidade cristã e do mais antigo ponto cultual de Candeias.

Texto: Armando Melo de Castro e fotos de Lilita Ribeiro de Castro.
Candeias/2010
NOTA DO EDITOR:
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segunda-feira, 7 de junho de 2010

PERCALÇOS DA VIDA



 No mês passado o povo de Candeias assistiu a um lúgubre cortejo de dor atravessar a cidade rumo ao Cemitério São Francisco. Era o sepultamento do jovem Geraldo Magela Teixeira, filho do grande amigo de minha família, Sr. Luiz Gonzaga Teixeira, o conhecido, Luizinho Teixeira; um dos cidadãos mais ilustres da sociedade candeense na atualidade; não só pela sua participação social na vida de Candeias, mas pela sua vida exemplar como bom filho, bom chefe de família e bom amigo. Jamais alguém terá ouvido sob os céus de Deus, algo que pudesse denegrir a intocável dignidade do senhor Luizinho Teixeira.

Magela, ainda jovem, contando apenas cinqüenta e sete anos de existência, partiu, quase que de repente, vítima de uma pneumonia dupla, para atender aos desígnios de Deus; deixando, entre os seus familiares e inúmeros amigos, um vazio que jamais será preenchido... Presença malograda e ausência surda próprias para dilacerar o coração paterno...Diante daquele cenário de profunda tristeza eu me senti inteiramente sensibilizado pela dor de um pai. Isso porque apenas aqueles que já estiveram diante de tal martírio podem fazer uma avaliação da dor pela perda de um filho.

Eu sei que é inútil todo consolo que se leve a um coração de pai ou mãe que perde um filho. Naturalmente os filhos enterram os pais... E os pais, ao contrário, estão incumbidos da vida dos filhos. É uma dor sem nome que leva o ser humano ao inteiro desânimo, para o qual só o tempo, esse criador de monstros, pode aliviar... Apenas aliviar sim, porque não há remédio que cure esse tormento e nem tempo que possa apagar de dentro de nós a certeza de que dia após dia, terá que conviver com uma ausência tão cruciante.

Minha filha Regina aos trinta anos de idade, cheia de vida, formada em direito, e com louvor, tinha isso como o seu maior desejo... Conseguiu o seu emprego no Fórum de Divinópolis... Teve o seu namorado querido... Vivia no seu apartamento próprio e tinha uma situação financeira consolidada. Possuía tudo para ser feliz e fazer um pai muito feliz... Tomada por uma depressão impiedosa perdeu a vida pelas próprias mãos, após um ano de enfermidade, sem nenhum motivo aparente, deixando-me numa tempestade emocional.

Sinto-me, com a sua morte, como que cair num poço sem fundo... Como estar no deserto dos meus dias... Como estar jogado numa lata de lixo do tamanho do mundo... Como estar vivendo diante de uma trombada entre a vida e a morte. Passo a não pertencer a este mundo e crio o meu próprio mundo, um mundo mental de desenganos, de maldade, de injustiças, de decepções e da ausência de Deus...

Procuro ser julgado pelo tribunal da minha consciência e sou absolvido... Afinal! Que mal eu teria feito a Deus para passar por tão severas penas? É a revolta que se acomoda dentro do meu coração e diante de tamanho infortúnio questiono Deus: “Onde estou meu Pai? Que mundo imundo é este no qual Tu me jogaste? Que mal eu Te fiz para ter que sofrer na minha carne uma dor tão profunda?

Enquanto eu procuro florir o lugar em que me colocaste, Tu me cobres de amargura e desânimo? Sendo Tu o Criador de todas as coisas, o Onipotente, o Onisciente, o Onipresente, de repente permite que minha filha, - a qual me deste cheia de vida e saúde, cheia de inteligência e bondade, cheia de alegria e caridade, - se transforme numa tocha de fogo e morra de forma tão cruel e humilhante? Será isso obra do diabo meu Pai?

Mas que Deus És Tu meu Pai que Te permites um opositor adepto do mal? O que poderás dizer de mim que se criando um cachorro atirasse fogo nele? Ou se cortasse a asa de um passarinho? Como seu filho será que me deixarias impune? E as pessoas não iriam considerar-me um traste da humanidade? Tu, meu Pai, não terás Te esquecido desse Teu mundo imundo enquanto dormes tranquilamente vigiado pelos anjos no canto mais aconchegante dos céus?
Por que meu Senhor de todas as coisas tantas sentenças?... Por que tantos castigos, para quem nem sabe se crime cometeu? Por que sofre aqui no Teu mundo as crianças inocentes? Eu custo a entender que um sofrimento desses seja obra Tua, meu Deus? Não! Não pode ser!...Se fosse tudo isso obra Tua, o Teu filho deveria se chamar satanás ou aquele rei maldito, que mandou degolar criançinhas inocentes. Se isso for obra Tua meu pai, o teu filho não é o filho do carpinteiro que protegia as criançinhas desamparadas!... Estará o teu mundo entregue ao diabo?...

Olha meu Senhor de todas as coisas: Eu, e outros pecadores podemos até merecer castigo por vivermos desafiando as Tuas leis e o Teu mundo... Esse mundo materializado, aonde a força do ódio vem ficando dia-a-dia mais forte... Onde a impunidade para os indignos se escasseia... O castigo da velhice, para quem vive muito -- só sabe crescer... Esse mundo onde o mal toma o lugar do bem... Mas e essas crianças atiradas pelas janelas pelos próprios pais; espancadas e assassinadas covardemente? O que fazem de mal essas pobres crianças meu Senhor Deus”!?...

Quero portanto dizer ao meu amigo Luizinho Teixeira e à sua esposa Dona Leda, que o Magelinha não morreu, ele continuará vivo nas suas lembranças, como vive nas minhas a minha filha Regina... Benza Deus!
E nessa agressão desencadeada pela emoção eu me perco entre os meus recalques... Entre as minhas revoltas... Levo um susto!... Felizmente, dou Graças, dou conta de voltar a mim. Encontro-me de novo e consigo me lembrar que Deus é a única forma de explicação da existência e razão. Ainda existe a esperança de que um dia o mundo será melhor... Existem ainda, as mãos para afagar e a voz para consolar... É de se entender que na construção da obra de Deus o mal existe para mostrar o bem....

Chego a conclusão de que pior, muito pior, estão aqueles como eu, procurando decifrar os desígnios de Deus... Questionando-O e esquecendo de que Ele pode estar bem dentro de mim... Perdoe-me meu Pai Celestial, uma vez mais Te peço perdão! Foi um pesadelo... Foi um descuido... Tomarei mais cuidado com as minhas fraquezas e posso entender que a felicidade está onde fui colocado, dependendo apenas que eu observe com fidelidade o aprendizado sobre os Teus desígnios.

Armando Melo de Castro
Candeias- MG - Casos e Acasos