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quinta-feira, 26 de abril de 2012

AS QUIMERAS DO TAZINHO.

                                                    
Chafariz do Sansão, antigo ponto de encontro.

Remexendo no armário da minha memória, encontro-me com meu companheiro de infância e de adolescência chamado Baltazar, conhecido mais por Tazinho. Magricelo, cabelos lisos, dentes amontoados, nariz pontudo, olhos fundos, sobrancelhas largas. Tudo isso formando um rosto miúdo e mal feito. Não me lembro do seu sobrenome e não faço ideia a qual família pertencia. Sei apenas que era criado por seu avô, um senhor baixo, gordo e viúvo que vendia produtos da roça de porta em porta, especialmente, queijos, polvilho e ovos.

Tazinho, à vista dos colegas, era muito mentiroso. Dizia-se filho de um homem rico, todavia, ninguém, jamais, vira tal pai sob os céus de Candeias. Sua mãe morava em São Paulo e, segundo o seu avô, era empregada doméstica. Antigamente, a viagem de Candeias para São Paulo era muito difícil. Assim, ela aparecia por aqui, talvez, uma vez por ano. Baltazar, com certeza, foi o resultado de um relacionamento extraconjugal entre a sua mãe e o patrão. Éra o que diziam as más línguas. Fora trazido na barriga da mãe, em uma das raras vezes em que esta vinha visitar os seus pais. Tão logo deu a luz ao filho, voltou para São Paulo que era, naquela época, a terra prometida, chamada de terra boa, terra da garoa, deixando a cria aos cuidados dos pais já idosos cuja avó, logo depois, morreu. Dessa maneira, o neto ficou aos cuidados exclusivos do avô. Parece-me que, naquele tempo, já existia esse tipo de comportamento tão evidente nos dias atuais.

Sei que, durante a nossa época de adolescentes, ele morava no Bairro da Gruta. Era um rapazinho cheio de projetos de vida. Tinha uma maneira muito particular de ver as coisas. Parecia ser inteligente, autoconfiante, curioso, estudioso, gostava de ler e tinha ideias que, às vezes, impressionava os seus colegas. Habitualmente, se vangloriava ao comentar sobre um pai que nunca teria visto e de uma mãe que se limitava a lhe enviar, mensalmente, uma quantia em dinheiro o que lhe dava alguns privilégios perante a nossa turma de meninos pobres. Não chamava o seu avô como tal e sim de padrinho. Soubesse eu, naquele tempo, o significado de visionário ou excêntrico lhe teria colocado um desses adjetivos.

Muitos de seus colegas, apesar de terem seus pais e mães presentes, sentiam uma ponta de inveja daquele companheiro excluso dos seus pais que, entretanto, não levava isso em conta tirando, ainda, a diferença no “gogó”. Com o seu jeito esnobe, se julgava superior a tudo e a todos. Tudo dele era melhor. Dizia-nos que um dia haveríamos de vê-lo desfilar em um carrão pelas ruas de Candeias.

Após os seus catorze anos de idade, Baltazar sumiu. Ninguém mais o viu. Acreditava-se que fora para São Paulo viver em companhia de sua mãe. Contudo, ele continuou em nossas lembranças como uma incógnita. E não era raro algum colega exclamar: “O que estará fazendo o Baltazar?”.

Flávio Ribeiro, que não o suportava, dizia, quando alguém demonstrava uma vaidade excessiva a ponto de mentir descaradamente: “Sai pra lá, Tazinho” “Vai mentir prá lá, trem”.

Naquela época, o “jeans” tomava o lugar do brim e as camisas volta-ao-mundo substituíam o morim e o fustão, as japonas e jaquetas faziam desaparecer as pobres blusas de flanela e a cueca Zorba colorida vinha para enfeitar a intimidade masculina.

Nesse píncaro de transformação social, diante de um soar da voz de Elvis Presley, das canções dos Beatles, de Roberto Carlos e a sua Jovem Guarda, do espírito solto de James Dean sobre uma moto barulhenta, aparece-nos, depois de ter se ausentado por uns quatro anos, como uma entidade evocada em uma mesa de concentração espírita, a imagem transformada de Tazinho. Baltazar estava muito bem vestido, andando como se estivesse passeando sobre ovos na paróquia candeense. Chegou junto à roda de amigos, comumente reunida no chafariz do Sansão, onde os mais aquinhoados pagavam por um copo de cerveja, em uma prazerosa seresta ao ar livre.

Nós, candeenses arraigados, enraizados e ferrados em nossos costumes não teríamos onde e nem com o quê comprar indumentárias tão rigorosas. Éramos, portanto, a turma da cueca samba-canção recentes membros da tribo dos cafonas.

Enquanto o Flávio Ribeiro tocava um violão e puxava as canções de seus ídolos (Ray Charles, Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, mais os Mirins com a sua sertaneja “Barbaridade”), nós, os outros, fazíamos o coral do refrão.

Dessa maneira, somado ao grupo, após um tempo de ausência, desfilando seu visual moderno, estava o Baltazar em pé como se estivesse fazendo um discurso e se fazendo acompanhar por um jovem paulista, mais ou menos, de sua idade.

Se antes, Baltazar teria esnobado o dia de sua volta, imagina-se agora, diante desse prometido dia! E assim começou com a interrupção do som do violão:

---Vejo que os meus amigos continuam na mesma! Vestindo as mesmas roupas! Serrando um copinho de cerveja aqui outro ali! É pena que vocês não tenham a coragem que eu tive, arrancando-me para São Paulo em busca de dias melhores. Vocês estão fadados à pobreza. Eu, em São Paulo , estou faturando, mensalmente, quatro salários mínimos, o que não é uma “tutaméia” trabalhando como auxiliar de escritório.

Diante dessa exaltação, Flavio meteu os dedos no violão e já puxou a “Barbaridade” dizendo antes, vamos oferecer uma música para o rei dos mentirosos:

Barbaridade

Os Mirins

Eu tava pescando peixe embaixo de um pé de embira

Peguei duzentos dourados e quatrocentas traíras

E ainda me escapou um peixe que até hoje me admira

Barbaridade isso é bom que mete medo

O que mete medo é bom isso é bom barbaridade....

Num canudo de taquara eu achei uma abelheira

Com quinze guampas de mel catorze arrobas de cera

Do canudo da taquara fiz vinte e cinco peneiras

Achei um ninho de pomba e fiquei admirado

Duzentos pombinhos andando e trezentos ovos gorado

Duzentos e vinte e cinco que não tinham descascado

Fui fazer uma caçada me lembro quase desmaio

Só com um tiro que eu dei matei trinta papagaio

E a bala veio de volta e matou meu cachorro baio

Domingo de tardezinha vi uma coisa interessante

Vinte e cinco formiguinhas carregando um elefante

E o bicho de sentimento enforcou-se num barbante.

Diante daquelas circunstâncias, Baltazar afastou-se com o seu amigo e nunca mais foi visto.

Durante a Semana Santa passada, quando me encontrava no Banco Itaú, aguardando o atendimento pelo Caixa, tomou assento, junto a mim, um cidadão da cabeça, totalmente, pelada. Tinha um olhar tristonho e desanimado, enquanto conversava com uma pessoa ao seu lado tendo a voz bastante fanhosa. Suas mãos estavam despigmentadas pelo vitiligo. Suscintamente, falava do seu tempo em Candeias e da saudade que guardava no coração dos dias de sua infância. Observei-lhe uma pinta, logo abaixo da orelha esquerda, o que me fez suspeitar tratar-se do Baltazar. Estava sem os dentes amontoados, sem o corpo magro que, agora, apenas balançava dentro das roupas como uma caixa de ossos. Baltazar estava totalmente diferente.

Puxei conversa e lhe perguntei:

---Boa tarde! Como o senhor se chama?

---Boa tarde. Meu nome é Baltazar.

---Por acaso, você é o Tazinho!?

---Uê, você me conhece?

---Sim, fomos meninos juntos aqui, em Candeias.

---E quem é você?

---Sou o Armando do Zé Delminda! Lembra-se?!

---Claro, o sapateiro? Seu pai fazia sapatos, não é isso?

---Isso mesmo...

---Pois é Armando! Eu sou o Tazinho que criou para si um mundo mentiroso. Tão mentiroso que chegava a acreditar em suas próprias mentiras. Sou o Tazinho que nunca teve um pai e que criou para si um pai rico. O Tazinho que tinha uma mãe prostituta que não o ensinou a amar! Uma mãe que trocou o seu filho por um bandido. Uma mãe que sumiu e nunca mais apareceu deixando o filho perdido em uma grande cidade, em plena adolescência, no meio de bandidos. Fui preso inocente. Apanhei sem saber o porquê! Eu sou o Tazinho cheio de idéias vãs que nunca deu um sorriso sincero para si e nem para ninguém. Estou aqui, hoje, em Candeias, realizando um sonho de quase cinquenta anos, quando eu prometia voltar desfilando de carro à vista de vocês. E veja quem voltou: estou quase cego pelo diabetes, com os passos trôpegos, com os pulmões dilacerados pelo cigarro e com o coração partido. Eu sou o Baltazar infeliz cujo casamento durou apenas dois anos e dezesseis dias. Eu sou um pobre coitado cujos dias estão contados e cujo único sonho que ainda alimentava era voltar à sua terra a fim de reviver um pouco de felicidade. Mas, sinto agora estar ainda mais infeliz do que antes. Ainda bem que encontrei você.

Á vista daquele drama, ofereci-lhe hospedagem em minha casa, propus lhe procurar os amigos ainda vivos, todavia, ele se recusou. Pediu notícias do Odilon Trindade, pai do Junei, com quem era mais ligado e do Flávio Ribeiro que o apelidou de Tazinho Mentiroso. A notícia de suas mortes o deixou desconsolado.

Alguém me esperava e eu tive que ir embora. Despedimo-nos, diante de um abraço frio, no qual existiu apenas dois sentimentos: um de pena e o outro de dor.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 18 de abril de 2012

UM PECADO CAPITAL


Foto para ilutração
Nesta semana, quando viajava de Itu/SP para Candeias, ao fazer uma parada, em um restaurante, na cidade de Bragança Paulista, observei que adentrou ao ambiente uma família cujo casal apresentava um porte físico totalmente em desacordo ao modelo convencional. 

A mulher, uma morena com uns quarenta anos, trazia consigo o donaire de uma atriz: um corpo bem cuidado e bem ataviado. O homem, um cidadão de mais ou menos a mesma idade, devia ter, no mínimo, três vezes mais o peso da mulher. Coitado! Uma barriga pedindo passagem, coberta por uma camiseta cor de goiaba, salientando um umbigo de humilhar qualquer laranja-da-baía por maior que fosse esta. Uma calça “jeans” naturalmente feita por encomenda, cujas pernas friccionando em cada passo, davam uma impressão de que o baita macho estava todo assado nas partes. Como diria o meu amigo, falecido Lulu: “É um bifão na boca de um cachorro”.

Notei, ao meu redor, que a espiada indiscreta não fora somente a minha. Vi que os olhares levianos bateram como martelo de juiz no casal recém-chegado. Era um olho no homem e o outro na mulher. E como para cada cabeça há uma sentença, eu fico imaginando qual foi o veredicto para um casal naquela ordem.

É verdade que existem pessoas que não estão preocupadas com o seu porte físico. Querem é comer e pronto. Agora, aqueles que não aceitam esse estado pimelótico sofrem com as causas físicas e psicológicas porque se aborrecem, também, quando alguém diz: “Poxa! Você engordou hein?” E o pior, é que tem gente que pensa estar sendo delicado.

Para alguém que inicia uma dieta, nada mais prazenteiro do que ouvir alguém dizer: “Como você emagreceu!? Por acaso, está fazendo dieta?”Isso é uma observação agradável para quem tem passado fome, caminhando sem destino para se livrar da barriga, do mal estar e das inconveniências que a obesidade proporciona. Se por acaso, a pergunta for feita sobre suspeita de que o emagrecido esteja doente, ele não se ofenderá com isso. Ficará contente, mesmo porque, esta é uma das recompensas diante do sacrifício. Afinal, comer é a coisa mais agradável do mundo.

Ontem, ao passar pela Farmácia São José do meu amigo Júlio Maia, o Julinho, com toda aquela sua gentileza, que lhe é peculiar, comentou: “Você emagreceu, Armando! Está fazendo dieta?” E eu fiquei até inchado de satisfação. Entretanto, o mesmo não aconteceu comigo, em um dia anterior, como veremos:

Eu sempre gostei muito de incluir na minha alimentação a beterraba. Faço uso desse alimento, constantemente, seja ela crua, cozida ou nos sucos. E como no Supermercado Teixeira há sempre uma diversificação maior de verduras, lá estava eu a procura de beterrabas.

Ao sair daquele estabelecimento, encontro-me com uma pessoa, há muito minha conhecida e que nunca me poupa com a sua franqueza ou com a sua ignorância ou, talvez, digamos, com a sua humildade. É quem eu costumo chamar de Rainha do Cochicho. Vive preocupada, constantemente, com a vida alheia. Chega às casas dos outros, em horários inconvenientes, se alguém passa com uma sacola por perto quer saber o que vai ali. Vendo-me, aproximou-se com aquela sua admiração desdenhosa:

---Olá, Sô Armando, sumidão! Ondé qui o sinhor tem andado?

---Dias em Lagoa da Prata e dias aqui em Candeias!

---Mintira, eu num tenho visto o sinhor aqui, só se tá iscundido dentro de casa. O senhor sabe que eu dô nutícia, né?

---Claro que sei! E como sei!

---Mais me conta uma coisa, que magreza é essa? O pasto lá de Lagoa tá tão ruim assim?

---Não, é que eu estou fazendo uma dieta e já emagreci quinze quilos?

---Quinze? Não, Sô Armando!A balança do sinhor tá robano. O senhor num emagreceu isso tudo não. A barriga tá do mesmo tamanho. A anca continua larga. Só a cara que miudou um pouco.

---Eu estava pesando cento e vinte quilos agora estou com apenas cento e cinco.

---Engana eu que eu gosto, Sô Armando! Bão, Miorou um poco. Mais tem uma coisa, Sô Armando, o senhor tá meio amarelo e o seu pescoço tá que é pelanca pura. O lugar que pudia dechá, o senhor tirou que é na cara. Parece que até a vóis do senhor tá meia fraca! Essa bobagera de passá fome pra ficá magro. Eu, hein! Nem morta! Mais o que qui o sinhor come? O que vai levano aí dentro dessa sacola?

---Beterraba! Deu-me vontade de comer beterraba cozida, hoje. Isso é muito bom!

---Bão!? O senhor fala que esse trem é bão? Eu num como isso pur nada, Sô Armando! Sabe purquê? Eu era casada de pôco e fui cumê na casa da minha sogra. Eu nunca tinha visto isso. Cheguei lá tinha uma travessa dessa porcaria, cheia com arface. E eu intrei. Cumi até, eu até qui achei bão. Tudo bem! Fomo imbora, quando foi no ôtro dia cedo eu fui no banhero. Assim que eu obrei, eu dei uma olhadinha pra dar discarga no trem, e vi que era sangue puro. Eu quase murri de tanto susto. Meu marido tinha viajado e eu curri na casa da minha sogra. Mais o meu sogro é que tava lá querendo sabê o que qui eu tinha. E eu cum vergonha de falar que tava obrano o puro sangue. E eu fiquei naquele disispero! Vortei pa minha casa, rezava, rezava e pidia a Deus e Nossa Senhora pra me curar. Eu pensei que tava com um cânce, daqueles bem brabo. Passei uma noite in claro, chorando e rezano. Minha cunhada veio vê se eu tinha miorado, foi quando eu falei que tinha obrado o puro sangue. Aí que ela me falou que era essa tal de beterraba que nóis tinha cumido. Eu nunca mais quis saber de comer essa merda.

Depois desse papo, eu pedi perdão a Deus por ter, mesmo sendo na minha privacidade de pensamento, observado o homem gordo lá de Bragança Paulista. Ele comendo, tranquilamente, a sua pratada bem dimensionada, escolhida no balcão do “Self Service” o que formava o protótipo de uma “serra altaneira”; comia como se fosse um Apóstolo de Cristo na última ceia e perdoado pela gula e sem se preocupar com o tamanho da sua barriga. Queria sim, vê-la cheia, bem cheia. Enquanto a sua bela mulher comia tal qual uma nutricionista, no exercício da sua profissão, degustando o manjar dos deuses. Ali, naquele mundo de delícias, em completa sintonia, marido e mulher sem infringir um pecado capital.

Enquanto eu e os demais estávamos tal qual um rato, com um olho no queijo e o outro no gato, talvez morrendo de inveja e pecando feio.
Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O QUE SERÁ ARAPABACA?

Foto apenas para ilustração

Uma das mais recentes secretárias do lar que passaram pela casa de minha mãe deixou-nos boas lembranças. Foi uma curta temporada. Acredito que não durou três meses. Entretanto, foi o suficiente para que o seu nome ficasse bem guardado entre nós. Se não fosse o seu pedido de dispensa, jamais teria sido mandada embora. Chamava-se Marlene.

Pessoa extremamente humilde, natural da cidade de Camacho, sendo o seu marido lavrador, tendo, recentemente, adquirido um pequeno sítio nas imediações que formam um quadrilátero no qual se juntam os municípios de Itapecerica, Candeias, Formiga e Camacho.

Marlene era magra, alta, mulata, voz silenciosa, sorriso acanhado, contando, mais ou menos, com uns cinquenta anos de idade, deixou o seu marido na roça e veio para a cidade com os quatro filhos, na faixa etária de vinte anos, em busca de melhores condições de vida. Cada um com um objetivo, contudo, não obtendo nenhum resultado desejado, tendo em vista o despreparo de cada um para o mercado de trabalho urbano. Com isso, a moça e os três rapazes só foram encontrar ocupação na zona rural, junto às lavouras de café existentes em grande número, aqui, no município.

Analisada a situação, resolveram voltar para as suas origens, onde se diziam trabalhar menos e viver melhor chegando à conclusão de que a vida na cidade é, para o matuto, uma mera ilusão. Lembravam da vaquinha que dava leite para todos em troca de quase nada. O porquinho no chiqueiro prometendo fartura com a sua morte. 

O galo cantando de madrugada, anunciando um novo dia. A galinha fornecendo ovos em troca da sua liberdade. O gato trabalhando dia e noite, livrando a casa dos ratos. O cachorro latindo alegre, anunciando, sempre, alguma novidade. A água correndo dia e noite sem nenhum custo. O canteiro de hortaliças, à beira do rego, proporcionando verduras frescas dava de tudo. O caldo do franguinho caipira. 

E o dia de matar o porco!? Aquilo é que era esperança boa! A bananeira em que bananas se perdiam. Abóboras para dar e vender. Milho verde assado, cozido, transformado em bolinho, mingau, pamonha, bolo e outras guloseimas. O café catado, sem nenhum custo, socado, torrado e moído, além de ser muito mais gostoso. 

O feijãozinho novo, sem veneno e conservado na garrafa de coca. Um caldeirão cheio, misturado com pele de porco, fervilhando o dia todo no fogão de lenha, nem compara com o feijão cascudo e misturado o novo com o velho na mesma embalagem e todo envenenado.

Aqui, na cidade, a situação estava indo de mal a pior, estava ficando cada vez mais preta. Era um mundo diferente! E quanto mais a coisa ficava preta, mais saudade dava do canto do galo, do berro da vaca, do grunhir do porco, do miado do gato, do cacarejar das galinhas, enfim, saudade que mata daquela barulhada, da bicharada e do cantar das aves. Saudade do cheiro do caldeirão de feijão destampado quando dava fome.

Sob todos os aspectos, Marlene não era a empregada ideal para a minha mãe, entretanto, a sua pureza de alma, o seu carinho, a sua humildade, a sua religiosidade, a sinceridade com que falava as coisas e, finalmente, o seu desejo de fazer um trabalho bem feito tudo isso a teria feito ficar por aqui, até hoje, se não fosse de sua livre e espontânea vontade em deixar o emprego e ter voltado para o seu meio.

Às vezes, eu lhe dizia: viver é difícil, Marlene! E ela, humildemente, me respondia com o seu sorriso acanhado:
---Difícil é, mais cum Deus, nóis chega lá, Sô Armando!

O marido, que ficara na roça, não estava tendo tempo para fazer a sua comida. Consequentemente, não tendo tempo para cozinhar, cozinhava mal. Cozinhando mal, ele errava a mão no sal e a pressão subia, e atrás da pressão alta, vinha o medo, a cisma de ficar sozinho, a saudade da mulher, dos filhos, da comida da patroa e de outras coisas mais indisponíveis.
De manhã, Marlene chegava para o trabalho como quem teria passado noite no rio de espinho que a levaria ao mar de rosas. Cumprimentava com o seu sorriso acanhado e dizia:

----Que o dia de hoje seja santo pra todos nós!

Contudo, dava para ver a tristeza escondida em seus olhos segurando uma bica de lágrimas.
E já querendo saber o que fazer para o almoço, recebia instruções da minha mãe:

---Marlene, faça uma farofa de Jiló?
---Farofa de Jiló? Como é que faz, Dona Luca?
---Cozinha o jiló, joga ovos e mexe a farinha...
---E a senhora tem coragem de comer isso?
---A vida toda eu comi.
---Jiló com ovo é veneno.
---O que é isso, Marlene! Se fosse assim, eu já teria morrido.
---Nossa Senhora! Meu Deus!
Outro dia, minha mãe mandou-a fazer couve rasgada com angu:
---Couve rasgada com angu? Num pode ser picada?
---Por que não rasgada?
---Rasgada é veneno, ela não derrete no estame!
---O que é isso, Marlene, eu como desde menina! – Dizia minha mãe!
---Nossa Senhora! Meu Deus!

Certo dia, eu ganhei umas mangas. Cheguei, e após descascar uma delas, lhe ofereci:

---Chupa manga, Marlene!---Não, Sô Armando, brigada. O dia que eu chupo manga é só manga, num ponho outra coisa na boca.
---Por que, Marlene?
---Manga vira veneno se misturá ela cum quarqué outra coisa.
---O que é isso, Marlene, aqui nós comemos e nunca fez mal.
--- Leite, banana, laranja e manga, lá in casa nóis não mistura cum nada. Isso misturado vira veneno.

Eu vou fazer uma batida e você vai ver. Peguei um copo de leite, duas bananas, uma laranja e uma manga. Coloquei tudo no liquidificador. Enchi um copo e tomei. Ofereci-lhe para experimentar e ela assustada e com os olhos arregalados, disse:

--Nossa Senhora! Meu Deus!
Deixei passar um pouco, tomei em um copinho de pinga e lhe disse: Agora, vou rebater a vitamina!
---Pelo amor de Deus, Sô Armando, num fais isso, não! Esse lambiscão mata mais que Arapabaca!
---ARAPABACA?! Nossa Senhora! Meu Deus! O QUE SERÁ 
ARAPABACA!?

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

Arapabaca: Planta loganiácea, também chamada de lombrigueiro.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

QUE DEUS ME PERDOE



                               Foto apenas para ilustração.
     Estamos na Semana Santa. Acho válida essa intenção dos católicos em obedecer ao seu itinerário teológico diante dos dogmas do catolicismo sobre a Penitência e o Sacramento. Eu entendo que a liberdade de pensamento é uma prerrogativa humana. Tenho em mente que todos nós temos o direito de escolher os seus deuses, os seus santos, os seus mitos e os seus pregadores. Para dar uma ênfase maior à liberdade a que me refiro, eu diria: Por que não o direito, também, de escolher os seus demônios, desde que não se faça incomodar os filhos de Deus?

Há poucos dias, eu tive a oportunidade de ouvir alto e em bom som, pela boca de um Pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, que o dinheiro não traz felicidade. Então, por que a sua Igreja vive explorando os seus fiéis com um dízimo indevido segundo a própria Bíblia Sagrada.?

É necessário ser dito para que todos saibam que o dízimo não é devido a nenhum cristão.

O que se deve dar, pelo texto sagrado, é uma contribuição conforme manda o coração. O dízimo passou a ser a única tradição judaica que se mantém, até hoje, no seio da igreja gentílica, principalmente, no sistema religioso cristão. E isso é um verdadeiro absurdo. Portanto, dízimo é coisa de judeu. Nós, cristãos, não temos nada com isso. Devemos, sim, dar a nossa contribuição conforme a nossa vontade. Que seja mais de dez por cento, mas, que não seja por coação. Devemos contribuir pela graça do amor de Cristo conforme está escrito em, II Coríntios 9.7.

Esse negócio de falar que dinheiro não é tudo é coisa de pobre querendo se desculpar pela sua falta de dinheiro ou, então, de pastores querendo crescer  as contas de “sua igreja” (ou seria melhor dizer de sua conta). Quem diz uma balela desta está tentando enganar a si mesmo, apenas para justificar a sua fragilidade financeira. Falar que o dinheiro não traz felicidade é aberrar diante da verdade. É negar o óbvio, é ser ridículo perante os ricos. Ora! Isso, a meu ver, é conversa de gente da mente tolhida que dá dez por cento de seus parcos rendimentos para engordar os bolsos de pastores que se enriquecem a custa dessas pessoas. 
A internet mostra as mansões do Bispo Edir Macêdo compradas com dinheiro do dízimo e venda de milagres que a bem da verdade não passa de conversa fiada. É triste saber que existem pessoas que acreditam nesses elementos tipo Edir Macêdo, Waldomiro Santiago, RR Soares, e outros vigaristas mais que enfestam a sociedade em nome de Jesus Cristo. Mentira e conversa fiada. Essas, portanto, são as mercadorias que se comercializam nos palanques e nos púlpitos dessas casas de comércio intituladas, “Igrejas Evangélicas”.

Eu digo, rebatendo essa frase ridícula dita por esse pastor mentiroso, outro rifão: “O dinheiro não é tudo, mas, para eles tudo é o dinheiro”.

Eu sou cristão e me orgulho de ser cristão. Sou católico, todavia, não me orgulho de ser católico. Não frequento mais os rituais católicos. Não vejo necessidade nisso. Jamais trocaria de religião, não que seja convicto, mas sim, por entender que todas as religiões são iguais. Todas são materialistas, querem dinheiro e poder e têm, somente, conversa. São poucos os seguimentos religiosos que agem corretamente pela orientação de Cristo, tendo em vista o número de igrejas existentes no país.

Na trajetória da minha vida, tenho observado que os verdadeiros cristãos não frequentam igrejas e, nem tampouco, estão preocupados com a fé com que as igrejas lhes cobram. “A verdadeira religião está nas obras, porque a fé sem obras é morta. (Tiago 2)”.

Entretanto, como dizia, estamos na Semana Santa e, como se vê, é hora de muita gente procurar as igrejas para acertar as contas com Deus, através de um gesto simples, contudo, incrédulo sobre a minha percepção: a confissão.

Eu falo por mim, obviamente. Entretanto, não pode existir uma coisa mais sem sentido do que seja alguém se ajoelhar junto a um padre e lhe contar os seus pecados. Por que não pedir perdão diretamente a Deus? E quem confessa, por acaso, nunca mais vai cometer o mesmo pecado? A verdadeira religião está na caridade, no amor ao próximo e no respeito. Ter um coração que seja isento de orgulho e de rancor. As pessoas vão à igreja para pedir e será que alguém vai lá para oferecer a Deus uma ajuda na Obra da Sua Criação? Não ofecendo diheiro, mas sim, amor e caridade ao próximo. Muitos vão à igreja para mostrar o vestido novo, para ver o namorado ou a namorada, ou, até mesmo, pela força do hábito. Muitas vezes, nem sabem o que se passou durante uma celebração. E, é por isso, que, dificilmente, alguém me vê em uma igreja em horários de cerimônia ritual. Não vejo consistência espiritual. As pessoas estão ali para pedir e, no máximo, agradecer. Muitos estão dentro de uma igreja por estar. Se todos os frequentadores de igrejas prometessem algo para Deus, o mundo seria muito melhor. Esquecem que Deus apesar de onisciente precisa de nossa ajuda. Isso porque ele não dá o peixe, ele ensina a pescar, conforme aconselhava Jesus Cristo.

Ficar dizendo por aí o nome de Deus em vão, ficar ajoelhando aos pés de pecadores e contando os seus pecados não vai levar ninguém a nada. A consciência sobre o pecado não é sólida e o pecado pode ser subjetivo, ou seja, ser ou não ser.

Quando jovem, fui um assíduo frequentador da igreja. Tive uma formação católica rígida. O dia que não ia à missa, não podia sair de casa. Eu rezava, pedia, confessava, tornava a pecar e, assim, foi indo. Conclui que eu deveria construir uma igreja dentro do meu coração.

Contudo, diante desse assunto, encontro, nos cafundós da minha memória, mais precisamente quando contava com os meus oito anos de idade e foi chegada a hora da minha primeira comunhão. Foi um tempo quente. Eu era muito bobo, muito acanhado e não queria mexer com isso. Porém, a pressão familiar venceu como sempre vencia. Meu pai assentava em uma cadeira, fazendo o papel de padre e eu ajoelhado contava os meus pecados. Nesse ensaio, recebia a orientação paterna como deveria me comportar. Eu faria a minha primeira comunhão por ocasião da Semana Santa. Muitos pais aproveitavam o ensejo para que os filhos cumprissem esse sacramento.

Era um sábado, à tarde, a igreja cheia de gente para se confessar. Vivíamos no tempo da antiga Matriz que tinha um confessionário em cada nave, onde se formavam grandes filas. Meu pai, a fim de me encorajar, acompanhou-me no mesmo objetivo. Eu fui à frente e ele veio depois. Começa a minha confissão e eu não conseguia falar baixo. Pecadinhos de menino inocente. Nem sei se caberia uma absolvição. No outro dia, fiz a comunhão e, antes dessa, já havia cometido o primeiro pecado. Reclamei do jejum porque não podia beber nem água antes da comunhão.

Para finalizar a confissão, o padre me faz uma pergunta:

---Quando você está sozinho, o que você faz?

---Não faço nada, não!

---Nada! Você não faz bobagem?

---Bobagem!?

Voltei para o meu pai e, em voz alta, pergunto, na presença dos outros:

---Pai! Ele está me perguntando se eu faço bobagem, o que é que eu falo?

E meu pai, cochichando nos meus ouvidos, disse! --- Fala que, por enquanto, não!

Se alguém duvida, acredite: "Eu juro, por Deus, que isso é verdade"

Armando Melo de Castro


Candeias MG Casos e Acasos