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quarta-feira, 18 de abril de 2012

UM PECADO CAPITAL


Foto para ilutração
Nesta semana, quando viajava de Itu/SP para Candeias, ao fazer uma parada, em um restaurante, na cidade de Bragança Paulista, observei que adentrou ao ambiente uma família cujo casal apresentava um porte físico totalmente em desacordo ao modelo convencional. 

A mulher, uma morena com uns quarenta anos, trazia consigo o donaire de uma atriz: um corpo bem cuidado e bem ataviado. O homem, um cidadão de mais ou menos a mesma idade, devia ter, no mínimo, três vezes mais o peso da mulher. Coitado! Uma barriga pedindo passagem, coberta por uma camiseta cor de goiaba, salientando um umbigo de humilhar qualquer laranja-da-baía por maior que fosse esta. Uma calça “jeans” naturalmente feita por encomenda, cujas pernas friccionando em cada passo, davam uma impressão de que o baita macho estava todo assado nas partes. Como diria o meu amigo, falecido Lulu: “É um bifão na boca de um cachorro”.

Notei, ao meu redor, que a espiada indiscreta não fora somente a minha. Vi que os olhares levianos bateram como martelo de juiz no casal recém-chegado. Era um olho no homem e o outro na mulher. E como para cada cabeça há uma sentença, eu fico imaginando qual foi o veredicto para um casal naquela ordem.

É verdade que existem pessoas que não estão preocupadas com o seu porte físico. Querem é comer e pronto. Agora, aqueles que não aceitam esse estado pimelótico sofrem com as causas físicas e psicológicas porque se aborrecem, também, quando alguém diz: “Poxa! Você engordou hein?” E o pior, é que tem gente que pensa estar sendo delicado.

Para alguém que inicia uma dieta, nada mais prazenteiro do que ouvir alguém dizer: “Como você emagreceu!? Por acaso, está fazendo dieta?”Isso é uma observação agradável para quem tem passado fome, caminhando sem destino para se livrar da barriga, do mal estar e das inconveniências que a obesidade proporciona. Se por acaso, a pergunta for feita sobre suspeita de que o emagrecido esteja doente, ele não se ofenderá com isso. Ficará contente, mesmo porque, esta é uma das recompensas diante do sacrifício. Afinal, comer é a coisa mais agradável do mundo.

Ontem, ao passar pela Farmácia São José do meu amigo Júlio Maia, o Julinho, com toda aquela sua gentileza, que lhe é peculiar, comentou: “Você emagreceu, Armando! Está fazendo dieta?” E eu fiquei até inchado de satisfação. Entretanto, o mesmo não aconteceu comigo, em um dia anterior, como veremos:

Eu sempre gostei muito de incluir na minha alimentação a beterraba. Faço uso desse alimento, constantemente, seja ela crua, cozida ou nos sucos. E como no Supermercado Teixeira há sempre uma diversificação maior de verduras, lá estava eu a procura de beterrabas.

Ao sair daquele estabelecimento, encontro-me com uma pessoa, há muito minha conhecida e que nunca me poupa com a sua franqueza ou com a sua ignorância ou, talvez, digamos, com a sua humildade. É quem eu costumo chamar de Rainha do Cochicho. Vive preocupada, constantemente, com a vida alheia. Chega às casas dos outros, em horários inconvenientes, se alguém passa com uma sacola por perto quer saber o que vai ali. Vendo-me, aproximou-se com aquela sua admiração desdenhosa:

---Olá, Sô Armando, sumidão! Ondé qui o sinhor tem andado?

---Dias em Lagoa da Prata e dias aqui em Candeias!

---Mintira, eu num tenho visto o sinhor aqui, só se tá iscundido dentro de casa. O senhor sabe que eu dô nutícia, né?

---Claro que sei! E como sei!

---Mais me conta uma coisa, que magreza é essa? O pasto lá de Lagoa tá tão ruim assim?

---Não, é que eu estou fazendo uma dieta e já emagreci quinze quilos?

---Quinze? Não, Sô Armando!A balança do sinhor tá robano. O senhor num emagreceu isso tudo não. A barriga tá do mesmo tamanho. A anca continua larga. Só a cara que miudou um pouco.

---Eu estava pesando cento e vinte quilos agora estou com apenas cento e cinco.

---Engana eu que eu gosto, Sô Armando! Bão, Miorou um poco. Mais tem uma coisa, Sô Armando, o senhor tá meio amarelo e o seu pescoço tá que é pelanca pura. O lugar que pudia dechá, o senhor tirou que é na cara. Parece que até a vóis do senhor tá meia fraca! Essa bobagera de passá fome pra ficá magro. Eu, hein! Nem morta! Mais o que qui o sinhor come? O que vai levano aí dentro dessa sacola?

---Beterraba! Deu-me vontade de comer beterraba cozida, hoje. Isso é muito bom!

---Bão!? O senhor fala que esse trem é bão? Eu num como isso pur nada, Sô Armando! Sabe purquê? Eu era casada de pôco e fui cumê na casa da minha sogra. Eu nunca tinha visto isso. Cheguei lá tinha uma travessa dessa porcaria, cheia com arface. E eu intrei. Cumi até, eu até qui achei bão. Tudo bem! Fomo imbora, quando foi no ôtro dia cedo eu fui no banhero. Assim que eu obrei, eu dei uma olhadinha pra dar discarga no trem, e vi que era sangue puro. Eu quase murri de tanto susto. Meu marido tinha viajado e eu curri na casa da minha sogra. Mais o meu sogro é que tava lá querendo sabê o que qui eu tinha. E eu cum vergonha de falar que tava obrano o puro sangue. E eu fiquei naquele disispero! Vortei pa minha casa, rezava, rezava e pidia a Deus e Nossa Senhora pra me curar. Eu pensei que tava com um cânce, daqueles bem brabo. Passei uma noite in claro, chorando e rezano. Minha cunhada veio vê se eu tinha miorado, foi quando eu falei que tinha obrado o puro sangue. Aí que ela me falou que era essa tal de beterraba que nóis tinha cumido. Eu nunca mais quis saber de comer essa merda.

Depois desse papo, eu pedi perdão a Deus por ter, mesmo sendo na minha privacidade de pensamento, observado o homem gordo lá de Bragança Paulista. Ele comendo, tranquilamente, a sua pratada bem dimensionada, escolhida no balcão do “Self Service” o que formava o protótipo de uma “serra altaneira”; comia como se fosse um Apóstolo de Cristo na última ceia e perdoado pela gula e sem se preocupar com o tamanho da sua barriga. Queria sim, vê-la cheia, bem cheia. Enquanto a sua bela mulher comia tal qual uma nutricionista, no exercício da sua profissão, degustando o manjar dos deuses. Ali, naquele mundo de delícias, em completa sintonia, marido e mulher sem infringir um pecado capital.

Enquanto eu e os demais estávamos tal qual um rato, com um olho no queijo e o outro no gato, talvez morrendo de inveja e pecando feio.
Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

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