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quarta-feira, 30 de maio de 2012

A LIRA DOS MEUS DEZOITO ANOS.




Busca-me, o tempo, o ano de 1964. Ano que mexeu fundo na minha cabeça. Foi quando completei dezoito anos. Eu estava há muito tempo esperando a chegada desse tempo. E ele chegou. Chegou como um vendaval tempestuoso, desconectando meus neurônios da freqüência do meu cérebro. E essa presença, tão desejada da maioridade penal, chegava sem pena, fazendo com que a agulha da rosa-dos-ventos que orientava o meu mar de idéias se entortasse e desentortasse a cada momento. Eu sei que eu me senti perdido! Eu queria fazer tudo em um só dia. Queria conhecer a zona boemia. Ah, a zona boemia!... Entrar no cinema e assistir aos filmes proibidos para menores, entrar em um bar e pedir uma cerveja sem o dono da casa perguntar pela minha idade. Queria que alguém me visse calado, ficar na rua pela madrugada. Isso deveria ser muito gostoso. Meu pai, Zé Delminda, como era do Juizado de Menores, cobrava de mim o exemplo. A partir de agora, ele não iria querer criar um filho escondido dentro de casa. Certa vez, eu o ouvi dizer que criar filho homem é bem mais fácil. Dizia ele: “Quando eles crescem a gente solta. Já com as mulheres, é diferente. Elas crescem e a gente prende”.

Coitado do meu pai! Fosse vivo hoje, iria ver o quanto estava enganado. As moças, atualmente, estão mais soltas do que os rapazes.

Ao completar meus dezoito anos, não me passou pela cabeça que, dali para frente, as minhas responsabilidades aumentariam. Eu já poderia ir preso. Ser chamado de vagabundo, se não fosse visto trabalhando, etc. Os deveres, eu não os anotei, agora, quanto ao direito à liberdade, aí sim, já fiquei atento. Já me imaginava sem a vigília dos meus pais. Sem o olhar sorrateiro do Sebastião Salviano na portaria do cinema. E nem do Zé Bolina, dono do meretrício, perguntaria qual a minha idade. Poderia entrar no Bar Piloto e pedir qualquer cerveja, uma pinga ou quem sabe até um conhaque a ser servido em silêncio. Sem querer saber, ainda, se o meu pai se importava com o fato. Sem, por fim, beber apressadamente e meio ressabiado...

Dali para frente, eu seria maior, seria gente grande e os menores de idade, já metidos a grande, iriam morrer de inveja de mim...

Uma semana depois, resolvi trabalhar em um bar e restaurante que existia às margens da rodovia Fernão Dias, na cidade de Oliveira. Agora, eu era dono do meu nariz e, com certeza, seria mais notado em uma cidade estranha podendo trabalhar, ganhar meu dinheiro, enfim, viver a minha independência.

O restaurante tinha três turnos de funcionários. Cozinheiros, garçons, faxineiros, caixas, etc. Eu estava entre eles e passava as minhas horas de trabalho enfiado em um enorme avental azul, camisa branca e calça preta à frente de uma grande máquina de coar café. E como me usavam como uma espécie de coringa, eu estava, volta e meia, na cozinha a ajudar e assistindo à lambança dos cozinheiros: Dico, Zé e Zéferino. Havia alojamento no local. Entretanto, um grupo desses empregados resolveu alugar uma casa na cidade e eu, mais do que depressa, candidatei-me a uma vaga. Cada um comprou a sua cama. Ali, era só para dormir.
No dia da grande estréia, a turma mais orientada já tinha os seus buracos de cobra e eu, ainda não! Naquela época, eu estava como uma borboleta que se escapava da crisálida buscando asas ou um anuro em sua metamorfose final, doido para pular.

Chegou ao meu conhecimento que na Rua dos Cabrais havia um salão de gafieira. Assim, me lambuzei de brilhantina Glostora, perfume Lancaster, desodorante Gessy, cigarros Fio de Ouro e me empanei em um terno preto, adquirido em um consórcio do Chiquinho Alfaiate. Observei-me no espelho. Eu me achei lindo e, logo, parti. Parti para o pombal à busca da caça.

Tão logo cheguei, observei que se tratava de um salão existente no quintal de uma casa residencial. A entrada era por um corredor que dava voltas, parecendo um caramujo. A comunidade era toda negra. Apenas eu tinha a pele branca. Na entrada do salão, havia uma mulatona vendendo churrasquinhos e cachaça da marca Âncora. Eu, de cara, tomei uma boa “lambada” de pinga e comi um churrasquinho. Na ponta do corredor, um negão vendendo as entradas. Paguei e entrei no salão. Olhei para um lado, olhei para o outro. Não conhecia ninguém. Avistei, próxima a uma pilastra, uma neguinha tão chique que faria inveja a Escrava Isaura.

Resolvi, então, chamá-la para dançar ao que ela aceitou, prontamente. E como eu não era nada ruim nos passos, rodei no bolero, rodopiei no samba e corrupiei no forró. Dado algum tempo, encostei-me em um canto do salão para tomar um bom papo com a cabrita. Mas, até então, papo de santo. Só o pensamento era ruim. O comportamento era bom.

Em um relance, eu vi se aproximar de mim um negão do tipo, Toni Tornado. Aí, vi o caldo entornado. O cidadão me pegou pelo colarinho, levantou-me como se levanta uma pluma. Dei uma olhada angustiada e vi o bufado de pinga sair pela sua bocarra e pelo nariz grosso e carnudo, debaixo de uns olhos arregalados e vermelhos:

---Some daqui, branco! Aqui, não tem lugar para você, rapaz!

---Moço, mas, eu não fiz nada!

---Não fez ainda, só que tá pensando em fazê! Isso aqui não é zona, viu!

---Mas, ele não fez nada não, Tio Amaro! --Interveio a cabrita. Ele é muito gente fina!

---Só que eu não gosto de branco!

Pois é! Vejam, só: eu fui colocado para fora e, ainda por cima, chamado de branco! Tem base? Diria o meu primo, Vicente. Que culpa tenho eu de ter nascido branco?

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


                                                 















domingo, 20 de maio de 2012

A CASTIDADE DA ILDA.


                                                   Foto apenas para ilustração

sessenta  anos, mais ou menos, quando eu contava menos de dez anos de idade, o cenário rural de Candeias era totalmente diferente. Lembro-me de que os roceiros não circulavam muito na cidade. O homem do campo ficava retido, maior parte do tempo, no seu habitat natural e, ao invés do barulho das máquinas, ouvia o canto dos pássaros. Uma grande parte deles vinha à cidade somente por ocasião das festas religiosas: Semana Santa e/ou Festa do Rosário. Outros, nem nessas oportunidades, apareciam. O meio rural era bastante produtivo e quase suficiente para abastecer a cidade de grãos e carnes. 

Pouca coisa vinha de fora. Muitos ruralistas compravam apenas sal para o gado do qual se guardava, também, para o uso doméstico. Não existia o sal iodado e refinado de hoje, motivo pelo qual era comum depararmos com pessoas das roças portadoras do bócio (hipertrofia da glândula tireoide), o popularmente chamado papo. A partir da lei que obriga as indústrias a colocar iodo no sal, esse mal desapareceu da nossa população.

A gente conhecia, de longe, uma pessoa que chegava da roça após ter passado uma grande temporada sem vir na cidade. Aquele jeitão de tabaréu era sentido de longe pelo povo da cidade. Existiam diversas casas de comércio na zona rural, as chamadas “vendas”. E o que faltava nessas vendas era levado como encomenda pelos caminhões leiteiros. Na comunidade Vieiras, por exemplo, tinha uma casa de comércio do Sr. Carmo Elias que era das mais bem supridas do município. Existia farmácia e dentista também e, ainda, um laticínio cujos produtos eram de qualidade muito boa. Antes de existir telefones, em Candeias, já existia uma linha telefônica que ligava a cidade à comunidade Vieiras que, no passado, teve uma representatividade mais destacada do que nos dias atuais. Inclusive, a seção eleitoral ali existente é quem decidia a eleição do município.

Outras comunidades como Bugios, Pereiras, Pires, Chapadão, Córrego do Cavalo, Boa Vista, Arrudas, Quarta Turma, Lopes, Vianas e muitas outras que me falha, agora, a memória possuíam as suas vendas, além de receber as visitas dos chamados mascates. Isso, naturalmente, prendia o roceiro no seu meio. De outra forma, também, não existiam os meios de transporte de hoje. A maioria do pessoal da área rural de Candeias utilizava os cavalos.

Era uma cultura muito diferente e as pessoas se curavam com os chás de plantas medicinais e outras coisas. O gado nem sabia o que era ração. As reses eram chifrudas e não havia esse sistema de mochar o gado e nem os cuidados existentes nos dias atuais, com a saúde dos animais. Não tinha um veterinário e era tudo muito natural.

O morador da zona rural não possuía, como hoje, um sindicato. Era totalmente desprovido de recursos. A saúde da população recebia do governo uma assistência precária, pois contava com apenas um posto de saúde sem equipamentos, com apenas um médico, o Dr. Zoroastro Marques da Silva e um médico particular, o Dr. Renato Vieira. Não existiam aposentadorias. Portanto, quando o pobre adoecia, estava fadado à morte. Muitos morriam nas roças sem vir à cidade, tomando os medicamentos caseiros. Na Rua Coronel João Afonso, era comum a gente ver um morto subir, em uma padiola tosca, tipo de uma escada, transportada por algumas pessoas.

O pessoal mais antigo não falava farmácia e sim botica. Lembro-me da esposa do Sr. Ulisses que morava em uma casa velha, quase no final da Rua Pedro Vieira de Azevedo. Era uma mulher magra, alta, rosto todo trançado de rugas, vestida sempre de preto, com um vestido quase arrastando ao chão e que dizia para a minha tia Eliza, sua vizinha: “Eu num tomo remédio de botica, nem vê! Isso num vale nada e pode até matá a gente.”.

Certa vez, veio de mudança da roça para a cidade, uma família que morava em uma casa velha na Rua Coronel João Afonso. Marido, mulher e uma filha solteirona que se chamava ZIlda. A moça, quando viu que não arranjava o noivo lá na roça, deu de cima do pai para vir para a cidade alegando que ele andava muito doente. Eu sei que esse pessoal era muito amigo do meu avô, João Delminda, que sempre parava por lá a fim de conversar com o homem que estava sempre assentado em um toco à porta de sua casa. Era um cidadão grosso, moreno, de uns setenta anos, mais ou menos. Boca sem dentes, um bigode, tipo Cantinflas, e uma barba de bode. Tinha um tremendo pigarro devido ao uso excessivo do cigarro. Trazia no bolso traseiro das calças pega-frango uma cabeça de palha para cigarros. Era meio risão, mas, quando ria, era interrompido por uma tosse seca que quase lhe fazia perder o fôlego. Ele falava de um jeito engraçado e eu ficava sempre escutando e apreciando o seu jeito de ser, envolvido no meu silêncio de menino, proibido de entrar na conversa dos mais velhos.

---Ê, João Derminda, ocê num imagina que sofrimento é o meu, aqui, na cidade, sô! Se num fosse a tentação da minha fia, Irda, pra vim pra cá eu tava quetim, lá na roça. Ela tanto me isquentô pra vim por causa da minha perringuice, que eu acabei vino. Mas eu acho que tô ficano ainda mais perrengue aqui sô! A vida na cidade é muito custosa.

---Mas, o que foi Sebastião, o que te aborrece?

---João! Tudo por aqui é mais difici. Cê imagina! Aqui na cidade é tudo a peso dos cobres. Lá na roça, a luiz de lamparina saía baratinha. Água é o quanto Deus dá, uai. Lenha era só catá ou rachá. Pegava uns pexes, matava uns bicho, tirava um leitinho, prantava umas rocinha e com isso ia viveno.

---Mas, é que você ainda não se acostumou por aqui, Sebastião. A vida aqui não é tão difícil assim não.

---Cê tá doido, João! Cê qui pensa. A Irda, minha fia, já é uma moça véia e foi só chegá, aqui na cidade, que já tá com o fogo aceso. A minha muié inventô de toma banho todo dia e a fia tamém. A Irda fica infiano umas coisa na cabeça dela. Lá na roça, que a água era dada, elas popava, divéra, aqui, que é pagado, elas nada e rola.
Os preço é tudo pra hora da morte. Um pesinho de arface tá custano quinhentos réis. Um môio de cove, o memo preço! Isso tudo lá na roça era dado. Um franguinho quarqué tá custano um absurdo. Tá tudo custano o ôio da cara.

---Calma, Sebastião, que tudo se ajeita.

---Num ajeitá não, João. Já vi qui não. A Irda, minha fia, lá vai disimbestano pur causa de home. Tá pareceno qui nunca viu esse bicho. Agora danô a pintiá cabelo, passá pó de arrois e andá com a boca vermeinha de batom. Esse trem num me agrada nem um pingo! E a muié dá asa. Fica falano que se ela num se ajeitá vai fica véia, sem casá. Eu iscutei, aí prá dentro, que ela já tá enrabichada num tal de Zé Galinha. Ocê conhece esse moço, João? Ele é bão?

---Olha, Sebastião, eu não o conheço direito, mas ele é famoso na cidade.

---Famoso?! Que fama que ele tem?

---É! Já foi preso, suspeito de ter arrombado o Banco de Crédito Real, vive acompanhando parque de diversão pelo mundo afora. Vive enchendo a cara de pinga. Já trabalhou num circo e aprontou por lá. Dizem que ele levou uma sova de ficar com o couro quente. Gosta de fazer mágicas, enfiando palitos de fósforo no nariz e soltando pela boca e ainda cuspindo fogo. Toma uma dúzia de ovos cru. Já conseguiu dar 38 peidos, um atrás do outro em troca de cerveja. E chama Zé Galinha por ser uma verdadeira raposa nos galinheiros da cidade.

---Danou-se! Danou-se, João do céu! Nessas artura, a pureza da Irda já foi prus inferno. E esse caboco é o diabo. Quera Deus ele já num tê atrapaiado um monte de moça de famía puraí...  Aí a Irda, sem duda, já rodô tamém...

O velho sebastião morreu poucos dias depois dessa conversa com o meu avô!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos





































quinta-feira, 10 de maio de 2012

A LINGUIÇA DO DIONÍSIO


              
A vida é assim: hoje saboreamos em um banquete de gala e amanhã, aquilo se transforma em excremento nojento para o próprio dono do organismo que ingeriu. As pessoas que não cuidam do próprio corpo são sempre repudiadas pelos outros. Portanto, a higiene é um hábito, estritamente, necessário não só para a saúde física, como também para a saúde social.

Para as pessoas que têm nojo excessivo diante de muita lambança, arrumaram uma doença chamada, T.O.C. - Transtorno Obsessivo Compulsivo. Essas pessoas sofrem muito diante da falta de higiene, além de outras manias. Entretanto, apesar de serem consideradas maníacas, às vezes, apenas repudiam a falta de higiene. É verdade que a doença leva ao certo exagero, todavia, diante da porcaria em que vivemos não os considero tão extremados assim.

Acontece que, infelizmente, se alguém sente nojo exagerado das coisas, a vida se torna, também, muito mais difícil para quem vive em comunidade. Afinal, por mais higiênico que seja o homem, ele é produto do meio e o meio, muitas vezes, não ajuda! A começar pela forma que a natureza nos criou, com uma imundície dentro de nós. Não comparando com a filosofia de Jesus Cristo, mas em outro ponto de vista, nós somos, realmente, como sepulcros caiados por fora e cheios de imundícies e ossos por dentro. (Mateus 23.27)

Na pequena Rua Belmiro Costa, entre a Praça Antônio Furtado e Rua Coronel João Afonso Lamounier, em Candeias, onde se encontra hoje, uma sorveteria, havia um açougue cuja loja era de aluguel. De vez em quando, trocava-se de dono. Em certa ocasião, foi alugada ao Sr. Dionísio Passatempo. Dionísio era um homem alegre, brincalhão, corpo mediano, risonho, parecido com o cowboy americano Alan Ladd. Era, como se dizem, muito boa praça. Tinha ele uns burros de carga com os quais viajava pelas roças comprando ovos, leitões, carneiros, cabritos, creme de leite e outros produtos das roças que eram levados para fora de Candeias.

Apesar dessa sua atividade, Dionísio resolveu abrir um açougue onde poderia expandir a mais os seus negócios vendendo parte dos seus produtos vindo das roças. O açougue do Dionísio começou com um movimento muito bom pelas novidades. Como naquele tempo não havia refrigeradores ou congeladores nos açougues, a carne verde somente era encontrada nos fins de semana, oportunidade quando ele estava presente com a sua alegria. Durante a semana o seu filho, ficava de plantão, vendia a carne salgada que teria sobrado da semana anterior.

Por lá, encontrava-se carne de carneiro, de cabrito, de leitão, porco, boi e galinhas caipira que ficavam num cercado no quintal do açougue. Nesse tempo não existiam os frangos de granja. Aos sábados, ele colocava uma churrasqueira no quintal do açougue e, com um garrafão de pinga, a turma do gole aparecia para comer um suculento espetinho e bebericar um trago. Espetinho de carne de carneiro fez muito sucesso enquanto existiu. Porém, a festa durou pouco.

No intuito de ter um açougue completo, Dionísio arrumou uma mulher para fazer linguiça. Acontece que essas linguiças eram feitas artesanalmente. Não havia, naquele tempo, máquinas elétricas de moer carne e nem para encher linguiça. Era tudo manual. O que sobrava tinha que salgar e colocar na salmoura que se encontrava em um anexo do açougue.

A linguiça do Dionísio começou a fazer sucesso. Era muito bem temperada e não tinha muito toucinho. Mas, quem a fazia não tinha o mínimo de asseio. Era uma senhora idosa conhecida por Dona Zulmira, e que ficava assentada num banco, em uma pequena coberta, no quintal do açougue. Trazia no colo uma bacia de latão na qual ia enchendo as tripas manualmente e, ao seu lado, cheia da carne moída temperada, uma gamela bem grande. 

Para movimentar o cenário, as moscas verdes faziam as suas acrobacias e zumbiam como quê os aviões da Esquadrilha da Fumaça, querendo entrar até nas tripas. Ela estava sempre usando uma tampa de caçarola como abano, mas, nada adiantava. De vez em quando, enfiava o dedo no nariz, coçava o sovaco peludo e, chegou a ser vista, também, entrando numa latrina de fosso, próxima dali, que não tinha lavatório e nem papel higiênico e ao voltar continuava com o serviço.

Dona Marica Barros, prima do Sr. Erasto de Barros, a vizinha do lado do açougue, cujos quintais se encontravam e eram separados por um muro baixo, era uma pessoa muito asseada e bastante famosa pela sua rigidez com a limpeza. Não comia coisa de qualquer mão, e pensando bem hoje entendo que ela tinha o tal de T.O.C. porque sempre estava falando da sua grande relação de coisas que lhe causava nojo.

Certo dia, Dona Marica, resolve subir em uma cadeira e ficar olhando Dona Zulmira praticar todos os atos de porcaria e, sobretudo, mais um para arrematar a bomba que estouraria sobre o açougue do Dionísio. Dona Marica dizia ter visto quando Dona Zulmira deu aquela coçada caprichada no fiofó e continuar fazendo as linguiças.

Não precisou mais nada. O apelido de Dona Marica na rua era Repórter Esso, o noticiário da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que espalhava uma notícia, talvez, com mais rapidez do que, hoje, a Rede Globo de Televisão.

 Os comentários de Dona Marica eram os mais sucintos e variados. Basta apenas imaginar... Uma frase de Dona Marica que ficou bem guardada nas gavetas da minha memória:

“Aquela mulher é a mulher mais porca do mundo, do mesmo jeito que ela enfia a carne na tripa ela enfia o dedo lá, isso pode dar câncer”.

Dessa maneira, o açougue do Dionísio foi para o beleléu! E eu gostava tanto daquelas linguiças... Como eram gostosas!


Armando Melo de Castro
Candeias MG - Casos e Acasos










































quarta-feira, 2 de maio de 2012

O BICO DE LAMPARINA



A medicina é uma ciência que tem por objetivo evitar, curar ou remediar uma doença. Infelizmente, nem todos que se encontram envolvidos na medicina são pessoas responsáveis. Comumente, estamos vendo, por aí, erros médicos fazendo com que pessoas, ao invés de serem curadas dos seus males, voltem do tratamento médico em um estado lânguido, ainda pior de como se encontravam antes, como foi o caso ocorrido com minha sobrinha, na semana passada. Após sofrer um pequeno acidente de motocicleta, foi atendida em um pronto socorro, na cidade de Formiga, onde recebeu alguns pontos na perna acidentada sem, contudo, ser providenciada a limpeza necessária do local sendo, posteriormente, feita a costura do ferimento contendo resíduos de areia. Por pouco, muito pouco, a paciente, de trinta e nove anos, não teve a sua perna amputada. Ainda assim, salva ficará com inevitáveis sequelas. Isso é lamentável. Isso é doloroso.

Já não bastasse isso, aparecem, constantemente, esses picaretas na televisão prometendo curas em nome de Jesus Cristo, sendo que o dinheiro que afanam, talvez, fosse mais objetivo na cura de um mal. Afinal, para receber uma cura por intermédio de Jesus Cristo, basta suplicar ao Filho do carpinteiro. Entretanto, como os vigaristas são bons de papo, acabam cobrando mais do que uma consulta médica dos pobres ignorantes que frequentam essas igrejas mercenárias.

De outra forma, estão por todos os cantos os charlatões raizeiros com as suas garrafadas cujas raízes ninguém saberia identificar.

Nos últimos tempos, podemos verificar o aumento de erros médicos. Esses, embora menos divulgados, são quase sempre acobertados por um diploma que, não poucas vezes, nem sempre concluído pela maneira formal e ortodoxa. Na mesma proporcionalidade, aumenta, também, essa epidemia de maus religiosos vendendo curas nas igrejas. Sem contar na proliferação de raizeiros que não curam sequer os seus males, propondo curar os males dos outros.

O bom seria não adoecer. Todavia, como a doença está entre os desígnios de Deus, cumpre-nos colocar as nossas vidas em Suas mãos, porque a Bíblia Sagrada que acolhe o médico, o pastor e o curandeiro, não está sendo levada a sério por grande parte desses designados. A saúde do ser humano tem sido vista como fonte de dinheiro, quando antes era, absolutamente, um sacerdócio.

Mas, com tudo isso, é inegável que já foi pior. É duro dizer isso, mas é uma verdade. Antigamente, os médicos não se dispunham dos recursos de hoje. A cura de uma doença era como um alvo que deveria ser acertado. A prova maior disso é que a média de vida aumentou no mundo inteiro. Não fossem os maus profissionais, somados ao mercenarismo, seria a medicina, com certeza, uma das maravilhas da vida.

Há cinquenta anos, em Candeias, dispunha-se de dois médicos. O Dr. Zoroastro Marques da Silva e o Dr. Renato Vieira. O primeiro era um filho da terra, descendente de família da melhor gema candeense. O segundo, que era da região do Triângulo Mineiro, casou-se, em nossa cidade, e, por aqui, passou maior parte de sua vida até à morte. Ambos exerceram uma medicina sacerdotal e colocavam a vida humana em primeiro lugar. Muitas vidas foram salvas pelas mãos desses dois médicos, diante de parcos recursos disponíveis na época. Nesta oportunidade, registro um voto de louvor a esses dois profissionais da medicina que, por aqui, labutaram em uma época na qual Candeias nada lhes havia para oferecer a não ser pessoas doentes.

O outro ponto de apoio para a cura de doenças era um curador, já citado neste blog, chamado Chico do Viriço. É verdade que a ignorância sempre andou a cavalo. Contudo, em Candeias, naquele tempo, ela foi vista não só a cavalo, mas de carro também. Na porta do Chico do Viriço, eram vistos carros de placas de cidades distantes, inclusive, de outros estados. O pau-de-amarrrar-cavalo fincado, à sua porta, andava abotoado. Chico era o patrono da ignorância. Fazia todo aquele teatro na sala de sua casa e, posteriormente, vendia uma garrafada por cinco contos de réis, o que lhe proporcionava andar com os bolsos cheios.

Certo dia, um rapazinho, na companhia de seu pai, apareceu mancando na sala de curas do Chico. Quando alguém chegava, o pseudo curador puxava um papo e, dessa forma, fez com o recém chegado:

---Uai, sô, que qui foi isso? Que manquera é essa?

---É, Sô Chico, eu num to bão, não!

---Mais vai ficá, uai! Aqui é o lugá que o nego entra ruim e sai bão! Mais o que qui tá te amolano?

Nisso, o pai do moço cochicha nos ouvidos do Chico que dá uma risada maldosa e diz:

---Danou. Isso aí é brabo. O trem dele é mais cumpricado! Nóis vai lá pru quarto. Eu vô oiá isso é lá...

Quando era um caso mais complicado, Chico levava o paciente para um quartinho contíguo, mais discreto. Entretanto, lá de dentro, falava alto como querendo que as demais pessoas tomassem conhecimento dos seus diagnósticos:

---Pó descer a carça! Num pricisa ficá com vergonha, não!

Após verificar a infermidade, dá o seu diagnóstico:

---Oh! Eu vô falá procê, isso aí é coisa pá dotore. Num tá nas minha mão, não. Isso aí chama bico de lamparina e pricisa de cortá o bico. O seu bico de lamparina tá encabrestado, inchado e inframado. O dotore passa a faca aí, rebenta esse cabresto e aí ocê pode até fazê fio se quisé. Isso aí é coisa atôa. Eu até sei corta, mas é mió ocê ir lá im Camp’Belo. Lá eles tem uma tisôra própria e corta isso aí, nunstantinho.

Depois dessa, o rapaz, acompanhado do pai, saiu sem mancar, amarelo feito um asafrão, desconfiado feito um rato, assustado feito um gato enquanto, entre os presentes, ficava o comentário:

---Bico de lamparina? Que doença é essa?

E um outro, mais esclarecido, responde:

---Acho que é trombose! Quer dizer, fimose!

Armando Melo de Castro
CandeiasMG – Casos e Acasos