Total de visualizações de página

sábado, 25 de fevereiro de 2017

AS LARANJAS DE DONA JULITA.

Certa vez quando eu conversava com o meu amigo Antônio Macêdo, à porta de sua residência, em Candeias, foi quando me deparei com o nome do seu edifício: “Dona Julita” sua mãe. ---- E numa revirada nas gavetas das minhas memórias, encontro-me com Dona Julita, quando ela morou numa casa antiga que ficava onde está hoje, o prédio do Zé do Anjo, ao lado do galpão que estabelecia a sua oficina mecânica. 

Eu tinha os meus doze anos e meu pai havia me colocado como aprendiz na oficina mecânica.  Naquele tempo era assim: o pai chegava a casa e dizia ao filho: eu arrumei serviço para você, vai começar amanhã. Não tinha esse negocio de saber de salário e nem o que iria fazer. Era uma ordem e pronto.

Dona Julita estava sempre costurando ou bordando, na sala e quem passasse pela rua poderia vê-la com a sua filha Ivone enquanto trabalhavam e ouviam rádio. Lembro-me de certa feita, ver e ouvir a Ivone cantando junto com Caubi Peixoto, através do rádio, a canção, “Conceição”, quando esta fazia grande sucesso.

Posteriormente ela mudou-se para uma casa nova na Rua do Capão, hoje Rua Pedro Vieira de Azevedo. Dona Julita mulher de estatura alta, magra, olhar severo, filha do coronel João Afonso Lamounier. Boa mãe, boa amiga e muito brava. Não mandava recados. 

Com essa mudança, a velha casa ficou abandonada e havia por lá um grande quintal com um pomar cheio de pés de laranjas. Eu no verde dos meus anos trabalhava sem remuneração num dos meus primeiros empregos, na oficina mecânica do Zé do Anjo. --- Não existia essa história de patrão dar lanche para empregados. A gente tomava o café da manhã, almoçava às 11 horas e jantava quando voltava à tarde para casa.

Da oficina poderiam ser vistas as belas frutas no quintal daquela casa esquecida; Laranjas baianas, doces e deliciosas que cresciam os meus olhos, separadas de minhas mãos apenas por um velho muro quebrado. ------ Ali os olhos viam; o estômago pedia; o cérebro autorizava e a consciência julgava.

Incentivado pelos colegas, Pato, Patinho, Bento, Carlinhos da Alzira, eu comecei a entrar no quintal da casa abandonada e roubar laranjas para todos.

Até hoje eu sinto o sabor doce dessas laranjas. No meu entender de menino eu imaginara não estar cometendo um roubo. Estaria apenas subtraindo aquilo que estava se perdendo... 

Algum tempo depois, numa quarta feira santa, ao passar pela porta do Sr. Nestor Lamounier, irmão de Dona Julita, pude avistá-la sentada à sala do Sr. Nestor, quando fui surpreendido com o seu chamado: ----- Oi menino da roupa suja vem aqui! -----Eu, com as roupas sujas da mecânica levei um susto danado sendo chamado por Dona Julita a qual foi me perguntando: 

-----Como te chamas? De quem tu és filho? 

Respondi: Meu nome é Armando e meu pai é Zé Delminda. Diante daquele interrogatório e eu com a consciência pesada, tremi dos pés a cabeça. E continuou: 

-----Fiquei sabendo que tu estás roubando as minhas laranjas... 

Respondi de novo: eu não senhora! Eu nunca fiz isso! A senhora está enganada! E ela continuou: 

------ Tu: além de ladrão de laranjas ainda és um tremendo cara-de-pau. Qual outro menino trabalha no Zé do Anjo? És só tu? Vou falar com o Zé do Anjo e com o teu pai.

Naquele dia eu não dormi. Eu chorei e não podia contar o motivo. E pensava: aquela mulher vai me fazer perder o emprego... Vai me fazer tomar uma sova do meu pai. Fui à procissão do encontro e rezei o tempo todo pedindo a Jesus e Nossa Senhora das Dores que me ajudasse. Rezei para todos os santos e em especial para o meu Santo Antônio, mas pensando: eles não vão proteger um ladrão de laranjas, mas parece que todos me ajudaram naquele momento. 

No outro dia, ao chegar à oficina, eu pensei que iria sentir um colapso. Dona Julita bem ali, parecendo estar esperando o Zé do Anjo para me delatar. Mas não. Ela esperava a mim e veio logo dizendo: Oi menino! Eu resolvi, tu podes apanhar as laranjas desde que seja só para ti, para os outros não.

Diante daquela surpresa eu comecei a chorar e não tive o que falar. Minha voz sumiu e fiquei por entender o motivo daquela flexibilidade. Talvez tenha sido pelo fato de estarmos em plena semana santa. Mas eu nunca mais apanhei de suas laranjas. Nunca mais entrei no quintal de alguém. Nunca mais chupei uma laranja que não fosse conseguida de forma lícita. Tornamo-nos amigos; onde eu a via, aproximava-me a cumprimenta-la e mesmo já depois de crescido, Dona Julita me chamava de menino.

Anos depois como pintor de paredes a sua casa foi o meu ultimo trabalho em Candeias, antes de ser levado para São Paulo pelo seu filho Antônio Macêdo, num emprego que me arrumara de contínuo no Banco Mineiro da Produção SA.

Sabendo ela que eu iria dali em diante trabalhar no Banco ela me disse: 

---Tu és um menino bom. Vai se dar bem no Banco. Siga o exemplo do Antônio que tu serás um gerente. -. 

E os anjos disseram AMÉM. Diante dessas palavras me senti perdoado e pensei: que bom, ela confia em mim... Graças a Deus!

Obrigado Dona Julita, onde quer que esteja receba o meu agradecimento carinhoso.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

AS FILHAS DO CHEFE DA ESTAÇÃO!

ANTIGA ESTAÇÃO DE BUGIOS , HOJE DESATIVADA.

A Estrada de Ferro em Candeias representa um grande capítulo da nossa história. Pena que as autoridades constituídas de Candeias, nos últimos anos, vêm sendo totalmente despreocupadas com a história da vida do município.  Seja por incompetência, seja por falta de cultura histórica; seja por falta de amor a terra em que representam ou por completo desleixo. Haja vista a história de Candeias relatada no site da prefeitura Municipal se apresenta cheia de desencontros de todas as ordens, dando a entender que o redator daquele instrumento não teve o menor cuidado nem com o nome das pessoas.

Mas como eu dizia a chegada da Estrada de Ferro à Candeias foi um marco histórico que merecia ser do conhecimento senão de todos, mas pelo menos de uma parte dos candeenses.

Recentemente eu lamentei profundamente quando um jovem de família destacada em Candeias, diante de um computador onde aparecia a imagem de um homem alto e robusto perguntou-me aquele jovem: Quem é mesmo este homem? Dizem que foi importante?  ------ Pois é! Sendo ele nascido e criado em Candeias não sabia que se tratava do Dr. Zoroastro Marques da Silva, o fundador de Candeias, ---- fato lamentável.

Mas voltando à ferrovia, os políticos do distrito de Candeias Coronéis Marques, João Afonso e Américo Paiva, foram aqueles que muito influenciaram para que a linha férrea passasse por dentro de Candeias.

Tendo em vista as dificuldades da época, as obras eram lentas e feitas por etapas. A ferrovia chegou a Candeias no ano de 1898 e foi inaugurada no dia 10 de fevereiro, quando ainda não havia sido construída a Estação de passageiros. A solenidade da inauguração foi feita na residência do Sr. Américo Paiva, com a presença do povo em geral e muitos visitantes, personalidades e autoridades.

A próxima etapa seria Bugios, contudo, isso só viria acontecer em 1903, ou seja, cinco anos depois, tendo em vista a construção de um pontilhão de vigas de ferro no Km. 388, considerada uma obra vultuosa o que atrasou sobremaneira a inauguração da Estação de Bugios.

Nas estações de passageiros situadas na zona rural, era construída, em anexo, a residência para o chefe da estação. E sempre nas proximidades da ultima estação inaugurada, eram estabelecidos os acampamentos dos empregados da empreiteira das obras da ferrovia.

Inaugurada a Estação de Bugios, logo veio ali residir o chefe da estação, acompanhado de sua família composta pela sua esposa e duas filhas adolescentes.

À tarde a peonada se aglomerava na plataforma da Estação, conversando e contando piadas que refletiam a liberdade de expressão chula, num ambiente inteiramente de homens sem mulheres. Se já não bastassem as piadas pornográficas, havia também de dirigir gracejos para as adolescentes; o que fez com que o chefe da Estação procurasse o mestre de obras, chefe dos peões trabalhadores, um português muito enérgico, e pedisse-lhe uma providência no sentido de impor respeito à sua família que estava ali a mercê de um comportamento despropositado.

O português mestre da obra, que era um elemento bastante expressivo, se prontificou a tomar uma providência urgente assim que teve conhecimento do caso, e se apressou em atender o chefe da estação, já marcando uma reunião, ali mesmo, na plataforma da estação, com os trabalhadores. A reunião seria por volta das cinco horas da tarde quando já teriam parado o serviço. E para que as coisas ficassem bem claras, fez questão da presença da esposa e das filhas do Chefe da Estação. Chegada a hora, o chefão se dirige à turma e começa:

Olha aqui seus curalhos tarados, estou sabendo que estão a pronunciarem palavrões perto da senhora dona do chefe da Estação e das rapariguinhas suas filhas. Sei também que estão de olhos atolados nos traseiro delas ---- Palavrões como ku, bruxetta, curalho estão sendo esporrados à vontade e sem respeito. ------ Então prestem bem atenção no que tenho a lhes dizer seus tarados: A partir de amanhã aquele que continuar fazendo essa suruba de palavrões da putaria, eu vou comer-lhe o ku sem dó e sem piedade.  Troquem os seus rabos ai pelo meio do mato, desafoguem as suas carências com algum pederasta, mas deixem essas senhoras em paz. Ouviram seus filhos da puta!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O MEU AMIGO CARNEIRO.

                                               Carneiro e Armando, 26/03/2013

No final da década de 50, durante a gestão do prefeito Dr. José Pinto de Resende, ---- o prefeito que remodelou Candeias, ----vieram da cidade de Campo Belo, diversos profissionais para participar das obras da cidade.

Para comandar o começo do calçamento em paralelepípedos, veio o Sr. José Gomes, acompanhado de sua equipe. Entre eles os seus dois irmãos Maré e Nelson e o parente, José Carneiro.

Chegando ao final da tarefa que lhes competia, José Gomes e seus irmãos retornam às suas origens ficando para trás o amigo dos candeenses, Carneiro, que se juntou a nós para participar da nossa história.

Carneiro casou-se com a jovem Doca, filha do Sr. Joãozinho da Fazenda, e na constituição da sua família nasceram três filhos, sendo, Cleber, Sandra e Izabella.

Amigo e pai de família exemplar, foi o candeense por adoção José Carneiro. Ele Viveu maior parte de sua vida em Candeias participando da construção da nossa história. ----- Seresteiro conservador. ----- Grande admirador do esporte e era um excelente jogador muito disputado pelos times de Candeias, Clube Atlético Candeense e Associação Esportiva Candeense. Como servidor público, Carneiro foi um exemplo de admiração e respeito.

Convivemos muitos anos como vizinhos.  Carneiro e família sempre foram aqueles vizinhos que todos gostariam de tê-los.

Certa feita, quando lhe visitava, ele me contou como foi o dia em que conheceu Candeias, e pareceu-me que gostava de se lembrar desse dia.

Teria vindo de Campo Belo, um time de futebol para jogar com a Associação Esportiva Candeense, numa época em que os times regionais disputavam o Torneio das Águas. O futebol de Candeias era nesse tempo muito bom e o Esparta e o Comercial de Campo Belo eram os grandes adversários.

Nesse dia Carneiro acompanhou a “embaixada” de Campo Belo, junto de seu grande amigo, um dos melhores jogadores da agremiação que iria enfrentar o time Candeense.
Esse amigo do Carneiro, que andava empencado de ouro, ou seja, com grossos cordões no pescoço, relógio, anéis e um boné muito bonito, pediu ao carneiro fizesse o uso de suas joias para que essas não estivessem em risco nos vestiários do campo.

Numa velha casa localizada onde atualmente se encontra a Prefeitura de Candeias, era ali a sede da A.E.C. onde eram recebidos os visitantes.  Nesse local o jogador passou as suas joias para o Carneiro protege-las.  Dali, ao descer para o campo, Carneiro ornamentado com as joias e o caro boné, defrontou-se com um grupo de moças à porta da Farmácia do Julinho, na esquina da descida para o campo.

Ao ver o Carneiro empencado de ouro e com os dedos cheios de anéis e a cabeça coberta por um lindo boné, uma das moças gritou forte chamando a atenção das demais: “Gente! corram venham ver o crioulinho mais metido do mundo”.

Carneiro gostava de contar essa história e foi nesse dia que ficou conhecendo Candeias, depois veio definitivamente para nunca mais voltar.

Grande Carneiro, grande amigo! Que Deus o tenha bem guardado, porque você fez por merecer. Pessoas assim são como disse o escritor Guimarães Rosa; elas não morrem apenas se encantam para passar a viver nos corações de seus admiradores. Portanto, onde quer que esteja designado por Deus, receba o meu abraço. E nesta humilde homenagem, não poderia deixar de registrar uma canção de Nelson Gonçalves que você sempre a cantava nas suas serenatas. Por mais de uma vez, na minha casa, nos despertamos na madrugada com você nos brindando com o seu violão, mostrando essa música que sempre esteve entre as suas preferidas. Fato que entra pelo meu cérebro e desce ao meu coração para nunca mais sair.

Amigo Leal (Nelson Gonçalves)

Escute meu grande amigo ---- preste atenção no que digo: -----vim despedir-me de ti! Trocamos um abraço forte ---- desejos de boa sorte  --- e, incontinenti, eu parti. ----A tristeza mal contendo --- até hoje estou vivendo ---- como o meu destino quer. E esse amigo até agora----- não sabe que eu vim embora ---- por causa de uma mulher. --- Pra não cometer um erro ---preferi este desterro ---- com toda a resignação. ----Pra eles a vida é bela, ---- hoje ele vive com ela, --- e ela no meu coração.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos