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quinta-feira, 25 de junho de 2009

MAESTRO BELMIRO




                                                             Maestro Belmiro Costa
O nosso Blog estará homenageando hoje, o nome do Maestro Belmiro Batista da Costa.

E quem foi o Maestro Belmiro Batista Costa?

Belmiro, nasceu em Candeias, no dia 26 de novembro de 1904, numa antiga casa, onde hoje se encontram situados, o Bar do Orico e a Boate Cochicho.

Filho de João Batista da Costa e de Itelvina Silvestrina de Sousa. Primogênito de uma família de seis irmãos. Ainda jovem perdeu seu pai, ficando sob sua responsabilidade, a subsistência da mãe e dos cinco irmãos ainda no verdor dos anos.
Seus irmãos, hoje todos falecidos, foram: Benedita, Maria, Eufrida, José Fogueteiro, Sebastião e Iraídes.

Ainda menino aprendeu com o seu pai a profissão de pirotécnico. Tinha a sua pequena indústria de fogos e artifícios situada à Rua Expedicionário Jorge, nas proximidades da Mercearia do Divino. Era uma grande casa onde antes teria sido uma escola.

Naquele tempo as leis eram mais flexíveis e o trabalho de menores de idade não era proibido como nos dias atuais. Portanto, Belmiro empregava diversos adolescentes, entre eles, José da Vidica, que seria o futuro gerente da Minas Caixa, Professor Pedro Quirino e seu irmão Sebastião Quirino e muitos outros, de diversas gerações. Seus produtos eram vendidos em toda região.

Apesar de ser um trabalho muito perigoso, Belmiro sempre se preocupou bastante com a segurança. Haja vista, nunca ter acontecido nenhum tipo de acidente; motivo pelo qual, os pais dos adolescentes que ali operavam, não tinham motivo para se preocupar.

Belmiro era muito inteligente. Desde criança foi muito responsável. Cidadão honesto e fiel cumpridor dos seus deveres.

Na sua profissão de pirotécnico desenvolveu certo antimônio para a fabricação de pólvora, o qual até então era importado da China. Orgulhoso de si, Belmiro que já usava o produto do seu invento como um similar do produto chinês, tinha o sonho de vê-lo registrado e fabricado em Candeias. Mas, para isso, se fazia necessário procurar um centro de pesquisas.
Nas suas buscas através de informação, tomou conhecimento de que na cidade de Jacareí, no Estado de São Paulo, havia esse centro.

Infelizmente, no nosso país, os governantes apóiam pouco as pessoas necessitadas de recursos para pesquisas. Belmiro não conseguiu nenhum apoio governamental. O único apoio que conseguiu foi, então, do Sr. Mário Rigáli, o Piloto, dono do Bar Piloto, que o levou a Jacareí. Mas, como o Sr. Mário, também, não se dispunha de recursos financeiros para ajudá-lo, a formula preciosa de Belmiro, caiu nas mãos de pessoas inescrupulosas com a promessa de um retorno sobre o assunto e nunca mais foi vista e nem devolvida.

Belmiro Costa era autodidata. Leitor assíduo, colecionava pensamentos extraídos de livros e calendários. Solitário, era dedicado especialmente à literatura de filosofia. Após a sua morte foram encontrados diversos livros de Krishnamurti, o grande filósofo e pensador indiano. Belmiro conversava com os livros de Krishnamurti, pois os lia e colocava o seu parecer junto ao texto ou num apêndice da capa.

Com apenas cinco anos de idade Belmiro já dava sinais da sua grande vocação para a musica. Com essa idade já solfejava a sua flauta causando admiração nas pessoas que pressentiam o seu talento musical.

Estudou as primeiras notas musicais com professor desconhecido.
Vindo posteriormente aperfeiçoar os estudos quando serviu o Exercito Brasileiro, na cidade de São João Del Rei. De lá saiu mestre da música em teoria e execução, e seus instrumentos preferidos eram o saxofone e o clarinete.

Completado o seu tempo no Exercito, voltou imediatamente para Candeias. Dispensou, no exercito, promoções e vantagens, porque não tinha o objetivo de deixar a seu querido torrão natal e o convívio com os familiares e amigos.

De volta a Candeias, organizou a sua primeira turma para uma escola de música, tendo formado diversas turmas para a Banda Nossa Senhora das Candeias.

Belmiro Costa era um boêmio no bom sentido da palavra; poeta, compositor de diversas partes; marchas e dobrados para a Banda de Candeias, como, também foi compositor de diversas canções românticas, muitas dessas dedicadas aos amores de sua vida.
Autor da musica do hino a Candeias, cuja letra foi escrita pela Professora Niguita Alvarenga.
Autor, também, do hino da Escola Estadual Padre Américo, que teve a letra escrita pela Professora e Diretora, Maria do Carmo Bonacorsi.

Foi um particular amigo do Sr. João Sidney de Sousa, para quem dedicou, com muito carinho, a composição de uma missa musicada, missa essa que teve o discurso escrito pelo Dr. Mozar Sidney, filho do homenageado.

Grande seresteiro. Entre os seus amigos de seresta estiveram os Srs. Américo Bonaccorsi, Abelino Salviano e o Professor José Cristiano; todos os músicos, além de muitos outros.
Belmiro Costa não se casou. Apesar de ter sido noivo por três vezes e de moças prendadas de nossa sociedade, não chegou ao matrimônio. Talvez levado pelo excesso de responsabilidade que lhe fora atribuído durante a sua adolescência e juventude; fato que lhe deixava apreensivo diante do casamento.

À medida que a idade foi chegando, foi ficando solitário, prendendo-se exclusivamente a leitura filosófica. Morreu pobre e isolado no dia 14 de junho de 1981 aos 77 anos.

O único patrimônio deixado para os seus herdeiros, foi a sua batuta, órfão de maestro, a qual se encontra entre os guardados do Sr. José Rui Ferreira, o Ieié, seu sobrinho-neto, filho de Iraídes sua irmã caçula.

“Viver é a arte das artes. Viver é muito difícil, pois requer profunda inteligência e não apenas uma compreensão superficial da vida. Para viver com inteligência e com simplicidade a pessoa precisa estar livre das restrições, resistências e limitações da vida... A vida é aquilo que conhecemos por meio do espírito. Quanto ao mundo, à nossa volta, o conhecemos através da razão.”
Esta mensagem encontra-se num livro escrito por Krishnamurti, com a humilde observação de Belmiro Costa, com letras já bastante tremulas:


“MUITO BONITO... É UM FATO! É UMA VERDADE!”.

Esta é uma singela homenagem póstuma de reconhecimento a um candeense que muito contribuiu na construção da nossa história.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sexta-feira, 19 de junho de 2009

PASSARINHO, UM ÍDOLO CANDEENSE.


Passarinho

Hoje o nosso Blog Candeias MG Casos e Acasos estará homenageando uma grande figura candeense. Trata-se do Sr. José Bárbara Filho. Poucas pessoas saberão de quem se trata esse nome, porque ele sempre foi conhecido por um carinhoso apelido, pelo qual grande parte da população de Candeias poderá identifica-lo. Trata-se do nosso querido conterrâneo já falecido, “Passarinho”.

José Bárbara Filho, o Passarinho, nasceu em Candeias no dia 23 de setembro de 1923, na Rua José Furtado, no Bairro da Gruta. Filho caçula de uma prole de três irmãos. Seus pais José Bárbara e Dona Maria Felícia de Jesus.

Casado em 1944, com Dona Lázara Ferreira da Silva, falecida. Pai de oito filhos são eles, Geraldo, Juracy, Salvador, Amador, José Eustáquio, Antônio Belchior, Vanessa e Keny. Esta ultima é filha adotiva, porém, foi criada com o mesmo carinho dispensado aos outros. Pai de família exemplar. Cidadão extremamente humilde, sempre foi respeitado por seus amigos e seus pares. Bom filho. Herdou do pai não somente o nome, mas, também, a força do trabalho, o espírito festivo e a simplicidade.

Desde criança lutou pela vida de forma honesta. Sempre dedicado ao trabalho rural. Como lavrador trabalhou para os senhores, Jose Ribeiro, João Sidney, Nestor Lamounier, João Bernardo e muitos outros. Cidadão humilde e discreto, porém, a sua habilidade no trato com as pessoas o fez merecedor de muitos amigos, tanto do seu meio como, também, do meio elitizado.
Desde criança gostava de esporte e cresceu gostando. Durante muitos anos foi jogador de futebol, sendo um craque muito solicitado e admirado no seu tempo.

Na década de 30, Antônio Cacheiro, um jovem deficiente físico que gostava muito de futebol, acompanhava, sempre, todas as tardes, as peladas da garotada no antigo Estádio do Rio Branco Esporte clube, que ficava pouco abaixo da loja do Vicente Vilela. Numa dessas vezes, José Bárbara Filho se encontrava no gol e não deixou passar nada, deixando aquele torcedor solitário encantado com a atuação daquele menino feliz e sorridente voando feito um passarinho dentro do gol, defendendo a sua cidadela. “Foi quando Antônio Cacheiro eufórico disse: ‘‘‘Esse neguinho é um passarinho, ele voa”. Daí pra frente ninguém nunca mais lhe chamou de Zé. Todos passaram a lhe tratar de Passarinho.

Passarinho que sempre gostou de esporte desde criança vestiu a camisa do Rio branco Esporte Clube, e foi um dos seus melhores jogadores.

Nos torneios disputados pelo Rio Branco, Passarinho foi, por diversas vezes, o artilheiro. Nunca abandonou o seu querido “Ranca Toco” uma denominação pejorativa que os adversários criaram para o Rio Branco e que viera a ser recebida como que carinhosa pela torcida Rio-branquense.

Fora de Candeias, Passarinho atuou no Estrelense Esporte Clube, da cidade de Estrela do Indaiá. MG. Foi por lá um jogador muito aplaudido. Por várias vezes os times de Campo Belo vinham busca-lo para enxerto dos seus times.

Dentre as diversas histórias vividas durante uma partida de futebol, Passarinho contava uma do Cotó, de quando foi jogador do Estrelense. Cotó era um elemento alto, corpulento e muito esperto dentro de campo. Certa vez numa disputa acirrada, Cotó que não possuía o antebraço e nem a mão, vendo que o juiz não apitava falta de mão para ele, passou a usar mais o braço do que os pés para fazer gol. E ai o pau comeu.

Passarinho atuou, também, como profissional da terceira divisão, no Cruzeiro Esporte Clube, da cidade de Luz - MG. Seu nome consta nos anais daquele time.

Participou, ainda, do Campos-Altense Futebol Clube, durante os torneios regionais que esse participava.

Em Candeias foi dedicado exclusivamente ao Rio Branco Esporte Clube e entre seus muitos amigos e colegas de time, podemos citar alguns: Aurélio Vilela, Paulo Vilela, Balofo, Belchior, Dedé do Alonso, Edmundo Simões, Trajano Carrilho, Lázaro, Guinho da Zenóbia, Joaquim Passatempo, Antônio do Orcilino, João Delminda, Dite, Benevides, Quintino, Luizinho do Américo, Zizi Barreto, Antônio Capanguinha, Zé Roxo e muitos outros.

Nos dias atuais Passarinho faria muita inveja a jogadores de times famosos. É que naquele tempo o jogador de futebol não tinha essa conotação de hoje.

Em outra área Passarinho teve, também, uma das participações mais efusivas de sua vida. Trata-se da Festa do Congado, ou seja, a Festa do Rosário. Começou a participar desta festa aos sete anos de idade dançando no terno do Moçambique. Aos dezesseis anos era a figura principal do terno de vilão, aos oitenta e cinco anos era o Capitão Mor da festa, um cargo hereditário lhe deixado pelo seu pai. Trata-se de um dos principais responsáveis pela organização do evento.

Outra atividade social de Passarinho foi nas folias de Reis. Dono de uma voz muito afinada cantava no contra, melhor dizendo, fazia a terceira voz no conjunto. Sempre participava dos torneios de folia, de Campos Altos e Campo Belo.

Passarinho tinha grande talento musical, e sua veia artística lhe propunha a execução de diversos instrumentos: acordeom, violão, cavaquinho e chocalho. No passado foi grande seresteiro. Participou como cantor do Conjunto do Abelino Salviano. Também como cantor participou do Jazz Tiro e Queda do Sr. Américo Bonaccorsi.

Em 2001 foi agraciado com o diploma de colaborador do carnaval de candeias, como cantor, por fazer as pessoas felizes. Festa essa promovida pela Prefeitura Municipal de Candeias.

O neguinho que voava no gol feito um passarinho, hoje não voa mais... Mas voa no pensamento de quem o conheceu, as suas vitórias.
O Passarinho que dançava junto ao terno de vilão, hoje não dança mais. Contudo, ele sempre estará na lembrança dos jovens que dançam hoje e foram por ele orientados e disciplinados. 

Passarinho residia à Rua Cel. João Afonso, 203, bem defronte onde outrora era o estádio do Rio Branco Esporte Clube. Ali viveu durante muitos anos e passou os últimos dias de sua vida.

Na estrada da felicidade o único tropeço existente é a tristeza. A vida de José Bárbara Filho, o nosso querido Passarinho, foi uma bela canção composta para ser cantada e ouvida por aqueles que, como ele, sabia fazer vista grossa para a tristeza.

Obrigado meu grande amigo Passarinho!... Obrigado por você ter vivido uma vida exemplar... Obrigado por mostrar aos tristes que a alegria está ao alcance de todos nós... Basta fazer uma forcinha.

Passarinho faleceu no ano de 2013 aos 88 anos de idade.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos











domingo, 14 de junho de 2009

UM CACHO DE BANANA MARMELO


A banana é realmente uma fruta injustiçada. Sabe-se que se trata de uma fruta deliciosa e bastante apreciada por crianças, jovens e velhos. Mas, nem por isso deixa de ser difamada. No sentido figurado a palavra banana representa uma pessoa frágil, mole, sem iniciativa, pobre e desconsolada. É tratada, também, como comida de macaco além de prestar como índice paralelo do preço de produto barato. Ontem mesmo ouvi alguém dizer que o feijão está pela hora da morte, enquanto o arroz, em comparação está a preço de banana.

Entre os diversos tipos de banana temos a maçã, a prata, nanica, roxa, ouro, marmelo e da terra, esta a única espécie nativa do Brasil e rara na nossa região.

Hoje eu pude ver um cacho de banana marmelo; ao vê-lo veio à tona do meu lago de lembranças, uma história que se encontrava lá no fundo da gaveta do meu cérebro, um fato de quando eu era, ainda, um garoto e presenciei uma desavença entre duas famílias por causa de um cacho de banana marmelo.

Eu tinha, nesse tempo, uns dez anos mais ou menos e morava na casa onde nasci, na Rua Coronel João Afonso e me encontrava num salão de barbeiro, próximo de minha casa, a fim de cortar o cabelo. O barbeiro era o Zé, filho da Dona Joana Gorda, cujo salão ficava junto da residência de sua mãe.

Dona Joana Gorda era viúva e teria vindo da zona rural, acomodando-se com seus quatro filhos, Maximiano, Zé Barbeiro, Maria e Tereza, numa pequena casa edificada pouco abaixo da minha, uns três lotes, mais ou menos, e divisava com o Henrique Sotero, morador de uma velha casa onde hoje está estabelecida a loja do Paulinho Vilela. Henrique era um velho mandalete do Monsenhor Joaquim de Castro. Um tipo extravagante que ficava soltando suas estrondosas ventosidades à porta de sua casa, com o fito de acanhar as pessoas e algazarrando a meninada. Era considerado o maior peidorreiro da cidade. 

A família de Joana gorda era barulhenta, falava alto, gostava de cantar e por cima era briguenta, principalmente a filha mais nova, a Tereza; esta era de amargar e comprava briga a dinheiro para vender fiado.

O tapume que separava as duas propriedades se fazia por uma cerca de bambu. Henrique plantara um pé de banana marmelo nas proximidades desta cerca, o que proporcionou a sua expansão para que viesse nascer um broto sobre a divisa, que cresceu e deu um lindo cacho.

As duas famílias eram até, então, muito amigas. A Marica do Henrique estava sempre à beira da cerca papeando com a Tereza, a valentona. Assim que a banana estava já no ponto de ser cortada deu-se inicio a uma guerra entre as duas famílias.

A Maria Caraolha, que tinha um olho arregaçado por um monjolo, e quando falava dava-se a impressão de estar olhando para o chão, teria dito que o cacho de banana lhes pertencia; porque estava pendido para dentro do seu quintal. Isso teria acontecido após um pé-de-vento, bem antes de estar granado. Além disso, o pé de banana estava entrando uns dois ou três dedos a mais para o seu lado.

Sentindo-se ludibriada pela ideia, a esposa do Henrique o chamou e deu-se se inicio ao ataque. Eu que estava na cadeira do barbeiro Zé, cuja barbearia ficava na sala da casa, vi quando ele saiu para acudir a briga e entrou nela também, deixando-me feito, “meu Deus o que é isso?” Saí dali e fui apreciar a "cachorrada" por causa daquele cacho de banana. Dava-se a impressão que eram uns mortos de fome. E se dissesse que a contenda era por causa de banana, poderia se pensar que se tratava da disputa por um bananal.

A encrenca estava desproporcional porque tanto o Henrique quanto a sua mulher falavam baixo e os outros pareciam que estavam num campo de futebol. Falavam num só tempo, Joana, José, Maria Caraolha, e Tereza... Quando vem chegando o filho mais velho, o Maximiano, mais ponderado e respeitado pelo resto da família disse:

-----“Carma gente, ocêis fica tudo calado, porque quem vai resorvê isso ai é o Zé Ferreira, o Juiz de paz. Eu vô lá busca ele agorinha mesmo. E saiu”-----

Deu-se fim na discussão. As mulheres se recuaram e o meu cabelo continuou a ser cortado. Mas eu não me arredei dali. Fiquei aguardando a presença do Juiz de Paz que morava logo acima na Rua Francisco Bernardino.

Daí a pouco chega o Maximiano com o Sr. José Ferreira, e o campo de batalha, de um lado e de outro se trava de novo quando o Juiz diz: “Gente, isso está muito fácil de resolver. Vamos cortar o cacho parti-lo ao meio e cada um fica com a sua metade.”

Grita a Tereza, a mais encrencada: “Mais de jeito ninhum nóis vai aceitá soizé. Nóis dá metade do cacho pra eles? Nunca SôiZé. O senhor tem que vê que o que é do burro o capim num come! O pé da banana ta quase tudo dentro da nossa horta...”

E a irmandade fez coro com ela, menos o Maximiano. Ouve-se o protesto da mulher do Henrique: “Nois morre mais ocêis tamem não come as nossas banana cambada de isfamiados...Seus boca de fome...!”

O Lírio, o cachorro, o cachorro do Henrique, começa a latir. Um latido estridente fazendo com que a prole da Joana Gorda, também, abrisse o volume até o fim, no que leva o Henrique a gritar: “deita Lírio!” E sua mulher Marica se opõe com bravura: “deixa o Lírio latir Rique! É cachorro contra cachorro”

Diante da anarquia o Juiz de Paz decidiu que as bananas ficariam para os passarinhos, pois não achara alternativa para resolver a questão, mesmo porque, a ignorância era tanta que já se falavam em matar e poderia sair até morte, com certeza pensou o juiz...

Sempre quando vejo banana marmelo eu me lembro dessa discórdia. Tornaram-se inimigos e nunca mais conversaram. Tanto de um lado quanto do outro estiveram apreciando os sanhaços paparem as bananas que a Maria Caraolha já havia prometido, a si mesmo, remexer com farinha, açúcar e canela, para tirar o jejum; tal qual teria visto uma turma de ciganos fazer, certa vez, ali por perto.

Maria Caraolha filha mais velha da Joana Gorda, era a mulher mais esfomeada que já conheci,vivia falando em comida e em comer. Tudo que ouvia falar com referencia a comida dizia logo: “minha boca ta enchendo d´água;” Só faltava procurar saber o que tinha de iguaria na mesa da santa ceia. E nem assim era gorda como a sua mãe. Ela não tinha lombrigas... Era ela a própria... Uma rainha ascarídea...

Que me desculpe à plebe, mas não tem nada mais engraçado do que ver uma briga dessas entre vizinhos. É uma violência verbal... É uma valentia anormal. Falam em bater nuns aos outros, como se fala em bater numa porta... Falam em matar como se mata uma barata... Mas cada um do seu lado, cercados por uma cerca frágil, que pode ser de bambu; não ousam ultrapassar as fronteiras e a bravura fica seguro só no papo. 
Se nesse dia alguém me perguntasse o que eu queria ser quando crescesse, eu diria com toda a certeza: “quero ser juiz de paz”.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

PADRE JOSÉ ALBANEZ



Nasceu no dia 21 de novembro de 1925 em Candeias, MG, descendente de humildes imigrantes italianos que aqui aportaram, trazidos por ocasião do advento da ferrovia no final do século XIX.

Foram seus pais: Miguel Albanez e Carmélia Albanez . Seus avós paternos: Leonardo Albanez e Luzia Albanez e avós Maternos:Nicolas Tórtura e Thereza Tórtura.

José Albanez pertencia a uma prole de dez irmãos: Silvio, Afonso, Francisco, José, Miguel, Maria, Ângela, Carmelita, Luzia e Tereza.

José Albanez nasceu numa época em que Candeias vivia a condição de vila e muito carente de recursos. Cursou a escola primária de nossa terra até o terceiro ano, pois não havia o curso primário completo. Portanto, foi para a cidade de Congonhas do Campo, levado pelo Padre Rui, então, pároco de Candeias, onde completou o curso primário, tendo recebido o diploma no dia 26 de novembro de 1938, com distinção “10”.Nessa época, José Albanez já demonstrava a sua vocação sacerdotal. 

Com a ajuda do Padre Rui, José Albanez seguiu para Belo Horizonte, onde foi iniciar os seus estudos no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Seus estudos foram marcados por muitas dificuldades; isso porque apesar dos favorecimentos que a igreja proporcionava aos estudantes, necessário se fazia a complementação financeira; sendo que, a sua família dispunha de poucos recursos.

José Albanez, seminarista dedicado e de exemplar comportamento, veio a ser beneficiado com uma bolsa de estudos na Itália onde iria estudar teologia. Lá permaneceu por quatro anos formando-se, também, em direito canônico. Chegou assim com louvor ao seu ministério, depois de uma trajetória estudantil muito brilhante ao concluir os seus estudos superiores na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

De volta ao Brasil veio para Candeias, onde celebrou a sua primeira missa em sua terra natal na Igreja Matriz. Daí foi prestar serviços na Diocese de Oliveira-MG, como professor de latim e historia do Brasil do Seminário Sagrado Coração de Jesus, instituição da qual se tornaria posteriormente Reitor.

Participou da comitiva que acompanhou o Presidente Juscelino Kubistchek em Roma;
Após prestar relevantes serviços à Diocese de Oliveira, resolveu ir para São Paulo. Lá trabalhou em diversos estabelecimentos de ensino, entre eles, Colégio Paroquial “São Paulo do Belém”, tendo recebido nesse tempo o diploma de “Cidadão Belenense.”
Foi professor de latim do Ministério da Educação e Cultura;

Passou a prestar serviços a Cúria Metropolitana no princípio da década de 70, onde foi efetivado definitivamente ao Clero Arquidiocesano, em 16 de maio de 1974; nomeado pelo Arcebispo Metropolitano de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Na Cúria Metropolitana de São Paulo, chegou ao importante cargo de secretário, tendo, ali, prestado relevantes serviços; além de representante oficial do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Falava diversos idiomas entre eles, Italiano, Francês, Espanhol, Inglês e Alemão.Tradutor de diversas obras católicas editadas pela Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Detentor do diploma da Venerável Irmandade de São Pedro dos Clérigos, da Arquidiocese de São Paulo.Professor e capelão dos Irmãos Maristas.Colunista do Jornal O Glória, órgão das Associações do Colégio Nossa Senhora da Glória.Colunista do Jornal, O São Paulo. Mem bro superior do Tribunal da Causa de Beatificação e Canonização de Madre Paulina. Escritor de diversos artigos nos diversos jornais e revistas católicos de São Paulo. Membro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Por ser formado em direito canônico, e profundo conhecedor das leis da igreja, comumente era solicitado para debates na televisão.

Esteve sempre ligado a Candeias através de seus familiares aqui residentes. Colaborava com a nossa paróquia nas suas visitas, oportunidade em que celebrava missas e fazia batizados. Existem diversas pessoas que receberam, através dele, o sacramento diante da Pia Batismal, na igreja Matriz de nossa cidade.

Possuía a sua casa residencial em Candeias, na Rua João Caetano de Faria, onde residia a sua irmã Ângela Albanez. Era sua pretensão vir a fixar residência em Candeias após a sua aposentadoria. Contudo, faleceu de repente, em 08 de abril Ade 1987, em São Paulo, aos 61 anos de idade quando se encontrava em plena atividade de suas funções.
Está sepultado em Candeias, no Cemitério São Francisco.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos







terça-feira, 2 de junho de 2009

MAESTRO SILVIO BARBATO

Maestro Silvio Barbato.
 Conheci o maestro Silvio Barbato quando este era uma criança e era pajeado juntamente com uma de suas irmãs pelas suas babás, uma delas prima de minha mãe, chamada Nica; e a outra, Francisca, filha do Zé Pega Pão, e sua esposa Lourdes. Elas ficavam ali na praça frente à Casa Celestino Bonaccorsi, pajeando essas crianças.

Seus pais, Dr. Daniel Barbato e Dra. Rosalba Bonaccorsi Barbato. Ambos eram médicos aqui em Candeias. Para cá vieram ainda recem formados. Dr. Daniel, Já falecido, foi também professor de história no Ginásio de Candeias, oportunidade em que fui seu aluno. Faleceu em Brasília, vitima de um infarto fulminante, na década de 90, quando era professor na Universidade de Brasília.
Foi ele quem iniciou a construção da casa, hoje do Wandinho Bonaccorsi, primo da Dra. Rosalba.
Com a sua volta repentina para o Rio de Janeiro, Dr. Daniel vendeu a casa inacabada para o Wandinho que terminou a sua construção.
O Maestro Silvio Bonaccorsi Barbato, nasceu aqui em Candeias.
Em virtude de Candeias não possuir hospital naquela época, sua mãe Rosalba, foi ter o parto em Campo Belo. Aliás , isso era uma prática comum aqui em Candeias entre os mais aquinhoados.

Eram três os filhos do casal Bonaccorsi Barbato:

--Silviane Bonaccorsi Barbato, psicóloga de renome, com diversos cursos no Brasil e no exterior; professora universitária, residente em Brasília.
 

--Sandra Bonaccorsi Barbato, diplomada em engenharia; residente também em Brasília.
 

--Sílvio Sérgio Bonaccorsi Barbato, residente no Rio de janeiro, formado na Universidade de Chicago; maestro da Orquestra Sinfônica do Brasil, professor, doutor em filosofia, compositor clássico; maestro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro; e dono de um currículo extenso e admirável. Foi o mais jovem maestro de uma orquestra sinfônica.

Por ocasião da morte do maestro, tive um contato com as suas irmãs, em Brasília, através da internet, onde eu quis saber do pai delas e fui informado de que havia falecido. Na oportunidade Sandra se me revelou a mágoa que a família Barbato levou de Candeias, tendo em vista uma agressão física que seu pai teria tido aqui, por motivos inexplicáveis para os filhos.

Dra. Rosalba neta de Celestino Bonaccorsi, filha de Silvio Bonaccorsi e Dona Alvarina Bonaccorsi, irmã do nosso querido Américo Bonaccorsi, então tio tio-avô do Maestro Silvio Barbato.

Silvio Barbato estava no avião francês que caiu nesta madrugada do dia 01 de junho de 2009.
É uma pena! A musica brasileira perde com a morte de Silvio Barbato, grande parte do seu patrimônio; pois ele era muito jovem e ainda tinha muito para proporcionar ao seu país.

Veja parte do seu currículo:
Maestro Silvio Barbato - Diretor Musical e Regente Titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro em Brasília e Regente Titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Silvio Barbato estudou composição e regência com Claudio Santoro.
No Conservatório Giuseppe Verdi, em Milão, recebeu o Diploma de Alta Composição na classe de Azio Corghi. Ainda na Itália freqüentou a classe de Franco Ferrara, colaborando com o maestro Romano Gandolfi no Teatro Alla Scala. Em Chicago, realizou seu PhD em Ópera Italiana sob a orientação de Philip Gossett.No Teatro Nacional Claudio Santoro está na sua nona temporada como Diretor Musical. Com a Orquestra do Teatro regeu concertos em Roma (Piazza Navona), Lisboa (Mosteiro dos Jerônimos), nos Teatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro e em diversas capitais brasileiras. Suas gravações com a Orquestra incluem as Sinfonias Brasil – 500 Anos e os Clássicos do Samba, com Jamelão, Ivone Lara e Martinho da Vila.
 

Entre seus trabalhos com artistas internacionais, destacam-se: Aprile Millo, Montserrat Caballé, e Roberto Alagna e Angela Gheorghiu. No centenário de Carlos Gomes, a convite de Placido Domingo, foi o curador da ópera “O Guarani”, que abriu a temporada da Washington Opera. Diretor musical do filme “Villa Lobos, Uma Vida de Paixão”, foi premiado com o “Grande Prêmio Brasil de Cinema 2001” , na categoria de melhor trilha musical. Em 2003 compôs o balé “Terra Brasilis” que se apresentará, ainda em 2004, na Itália.Pelo trabalho que vem realizando na área cultural, Silvio Barbato recebeu inúmeras condecorações do governo brasileiro, tendo sido promovido ao grau de Comendador da Ordem do Rio Branco, além de ter recebido a Medalha do Mérito Cultural da Presidência da República.
 

O maestro tinha vários compromisso internacionais quando então faleceu.

Obs.: As notas em itálico foram extraidas da  Internet.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

BICHOS CATINGUDOS


Certa feita, na cidade de Bambui, onde estive morando por um período de dois anos e atuava como gerente do Banco do Estado de Minas Gerais SA, quando fui surpreendido com a informação de que o gambá é um animal cuja carne é bastante apreciada por muita gente. Isso me teria chegado após ter degustado um pedaço do marsupial asqueroso e fedorento, como rebate de um gole de cachaça numa mesa de bar em meio a uma turma de amigos.

A minha ignorância sobre a questão e a boca feliz demonstrada por mim pelo deguste do tira-gosto exótico, fizeram com que os meus amigos, em risos, se explodissem, em forma de gozação à minha surpresa quando descobri que havia comido gambá... Aquele bicho catingudo que tem como sua defesa um líquido fétido expelido quando perseguido e que me teria sido apresentado como que carne de coelho silvestre.

Não tive outra oportunidade para comer gambá. Mas hoje o faria sem preconceito ou nojo, apesar de minha mulher me haver insultado dizendo que não mais me beijaria caso viesse a colocar tal iguaria na boca novamente.

Interessante é que quando digo que já experimentei a carne de gambá as pessoas me olham com ressalva. Chego a pensar que elas me imaginam um famélico africano ou um indígena sem reserva. Mas, posso garantir tratar-se de uma carne muito saborosa. Em outras oportunidades pude experimentar carne de diversos animais exóticos e silvestres entre eles, cobra, lagarto, Piriá, tatu, e rã; e em quase todas as primeiras vezes o experimento me vinha camuflado e depois se me fazia revelado.

Existe um fato, todavia, que não me foge e sempre vem à tona de minha memória quando entro no Bar Piloto em Candeias:

Trabalhava naquele bar um conterrâneo por nome de Nande do Maximino Roxo. Elemento extrovertido, amigo da freguesia e detentor da confiança do patrão o então proprietário do bar, Guido Bonaccorsi.

Nande era magro, alto, um corpo meio arcado, principalmente as pernas. Quando estava parado seu pé direito mais parecia uma seta indicando para entrar à direita; rosto comprido, quase sem barba; cabelos amarelados; boca pequena e uma conversa mole. Era cheio de coisas; viciado no jogo de “porrinha” e era tido como campeão nesse tipo de jogo, cujo cacife era proporcional ao potencial dos jogadores. Vivia limpando os bolsos dos menos espertos, com a sua habilidade na manipulação dos palitos. Eu que o diga sobre as vezes que me deixou limpo... Mas era meu amigo... Eu gostava dele...

Passou-me, certa vez, a sua conversa e me vendeu um casal de jacu por um preço absurdo; dizendo que aquela ave poderia ser cruzada com galinhas e que poderia eu ser o criador de um tipo de galinha especial originária das Candeias; e que me poderia render muito dinheiro. -- E eu, um bobo da corte, empanado nos meus projetos de invencionices e tolices, caí na lábia do artista vendedor. Tomei posse do casal de galináceos e sai levando aquilo sem saber onde iria hospedá-los, pois não tinha galinheiro e nem gaiolas apropriadas. Tinha apenas a ideia de um jacu na cabeça... Ou seja, eu, um jacu querendo produzir galinhas com jacus e, à vista disso, ter uma raça de galinha só minha. Ideia gentilmente cedida pelo Nande... Durma-se com um barulho desses...

Não deu outra coisa. Ao chegar à minha casa num desarranjo total deixei escapar das minhas mãos, as aves que cruzaram os ares num grito de liberdade; fazendo-me sentir como que na fábula entre o vendedor, o alfaiate e a galinha preta, eu ali com a cara do alfaiate.

Mas, voltando ao Bar Piloto, sempre quando vejo falar em se comer carne de bichos exóticos, vem-me à mente, um fato que ocorreu nesse estabelecimento por ocasião em que lá trabalhava o amigo Nande:

Às margens do Campo da – AEC- Associação Esportiva Candeense, ou Estádio Silvestre Teixeira, havia um brejo onde habitava uma grande nação anura, que à noite poderia se imaginar uma grande torcida, como brincou certa vez o Quintino Enfermeiro, quando dizia que a torcida da Associação era de sapos, rãs e pererecas: Os sapos: Foi gol, foi gol, foi gol – e as rãs de outra forma protestavam: num foi não- num foi não -num foi não... E as pererecas insistiam: Um a zero -- um a zero – um a zero...

Nande era um grande apreciador da carne de rã. Não perdia a oportunidade de comer uma rãzinha, como dizia ele. E foram várias as vezes que se fez preparar no interior do Bar Piloto uma pratada de rã ao final do expediente. E quando nos dias estabelecidos em que haveria uma chacina de rã, os apreciadores da carne das filhas do brejo ficavam esperando, enquanto os caçadores desciam até ao brejo do campo a fim de capturar as infelizes torcedoras da AEC.

Numa dessas seções por volta da meia noite, quando o expediente do bar já se encontrava no ponto de encerramento, vem chegando dois caçadores trazendo num balde uma dúzia de rãs ainda vivas. Os já conhecidos da festa aguardavam com as suas bocas cheias d’água e os curiosos queriam ver como era aquela festa. Daí saiu lá de dentro o Nande com uma lata de vinte litros cheia de água fervente e à frente do balcão foi dado início a covarde seção de execução dos pobres batráquios.

Entre os expectadores encontrava-se o Antônio Macêdo que chegara ali e quis ver como seria aquela mortandade dos ambicionados animais indefesos. E o Nande num gesto prático e costumeiro foi pegando os bichos e mergulhando-os na lata d’água quente os quais num espaço de segundos se inchavam e se avolumavam momento em que se tomou de uma faca afiada e foi enfiando-lhes na barriga o que fazia exalar-se pelo recinto um mau cheiro terrível parecendo que ali se abrira uma fossa de imundícies ou uma cova de defunto recente.

Nessa hora, o Antônio Macêdo com aquele seu jeito de gozador e dar ênfase a uma critica bradou alto: Nossa! O que é que é isso?! Que bicho catingudo e fedorento!... O que é isso gente!? Vocês vão comer isso? Vocês estão morrendo de fome? Quem come isso come bosta misturada com merda. E enquanto ria tapava o nariz cheio de nojo e não suportando o cheiro saiu... (rindo).

Mais tarde o Nande com um pedaço de rã na mão diria:

"Êta Antonho Macêdo bobo meu Deus do céu? Num sabe o que é bão na vida não! Num sabe o que é uma rãzinha sarada com uma lambada de pinga!...E uma cervejinha bem gelada"...

Onde estiver Nande receba o meu abraço e saiba que é muito bom recorda-lo; você é uma lembrança festiva; é uma lembrança feliz...

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.



CLUBE RECREATIVO CANDEENSE


O Clube recreativo Candeense, foi, durante muitos anos, o cartão de visita de Candeias. Humilde agremiação social que serviu de palco para muitas histórias, muitas alegrias, muitos encontros e muitos romances.

Uma funda e doce emoção leva-me até aos dias da existência do Clube Recreativo Candeense, onde realmente eu pude me divertir trabalhando; como funcionário, como sócio e diretor. Participei da vida daquele segmento da sociedade candeense como se fosse o meu próprio lar.

A primeira vez que participei da vida do Clube foi quando a sua diretoria era composta pelos Srs. José Ribeiro, Presidente – João de Souza Filho, Vice Presidente, Carmélio Ferreira de Carvalho, Tesoureiro e Ari Ferreira Brasil, Secretário.

A sede consistia em apenas um palco, o salão, uma sala para a secretaria o barzinho e dois banheiros. Era muito humilde, porém bastante calorosa. Situava-se no segundo andar do prédio onde se encontra, atualmente, o Fórum Dr. Zoroastro Marques da Silva.

Além de suas atividades recreativas o clube servia, também, como ponto de apoio diversificado. Se um político visitava a cidade, lá acontecia o encontro com as lideranças. --- Se havia um júri, o salão era improvisado num tribunal do júri, tendo em vista que a sede do Fórum não possui um salão adequado. ---- Ainda servia às escolas para a apresentação de pequenas comemorações infantis, exposições culturais etc. Eu tinha mais ou menos uns doze anos de idade quando fui chamado pelo Lico do Matadouro para auxiliá-lo como garçom em noites de baile.

Lico era o funcionário responsável pela sede e comandava o bar nas noites de festas. Às vésperas de um baile preparava o salão e abastecia o bar. Durante a semana a casa era aberta e permanecia à disposição dos sócios para a audição de músicas, hora dançante, jogo de tênis de mesa e baralho etc. Enfim, um ponto de encontro muito saudável da juventude candeense.

Com o passar do tempo, Lico deixou o trabalho transferindo para mim o emprego que tinha como “bico”. Durante muito tempo fui responsável pela preparação da casa para as festividades: carnavais, festas de São João, bailes comemorativos etc. Deixei de participar dessa atividade quando tive que ir embora para outra cidade. Pois aquele emprego não me dava expectativas e eu já contava com os meus quinze anos.

De volta à Candeias, um ano depois, o clube estava as portas de seu fechamento. Teria contraído dívidas em virtude de grandes eventos, com orquestras de alto custo e os bailes haviam dado prejuízo. Ninguém queria assumir a diretoria e o Clube recreativo Candeense, outrora palco de tantas alegrias, estava com a sua ribalta apagada.

Nessa época formou se um grupo para recuperação da instituição. O grupo compunha-se de treze pessoas sendo elas: Zé do Anjo, Emídio Alves, João de Souza Filho, Ari Ferreira Brasil, Joãozinho do João Pinto, Salete Pacheco, Wander Bonaccorsi, Elda Riani, Cesare Mati, Waldir Fernandes Pinto, Pedro Vieira de Azevedo, Vavá do Joanico e eu. Cada um tinha a sua função. Zé do Anjo era o presidente e mais doze diretorias. O mandato seria por um ano e havia doze metas, entre elas a reforma dos estatutos. Competia-me a mesma terefa de antes, porém, agora sem remuneração.

Foram doze meses de muito trabalho, mas nesse ano aconteceram os melhores bailes e um grande carnaval de rua e de salão, com o Conjunto Centenário de Formiga, o mais famoso conjunto musical da região comandado pelo maestro Messias. Não houve sequer um evento que a casa não superlotasse. Nesse período foram apresentadas diversas orquestras famosas entre elas, “O Cassino de Sevilha” grande orquestra da época e outras mais que excursionavam pelo interior do Brasil, sem deixar de mencionar a famosa orquestra do maestro Totó, da cidade de Campo Belo. Foram prestigiados também os músicos de nossa cidade.

O Clube Recreativo Candeense teria renascido para a nossa felicidade. Não havia dívidas para pagar. Estava todo pintado de novo e com algum saldo em caixa. Entregamos a casa organizada para uma diretoria eleita.

Quanto a mim era hora de partir de novo em busca de novas plagas com o fito de arrumar a minha vida. Apesar de amar a minha terra, não havia como lá permanecer. Depois disso fui para São Paulo; desde então só retornei a Candeias para estar de férias e visitar familiares. Poucas oportunidades foram as quais eu pude freqüentar o meu querido Clube Recreativo Candeense nessa ausência.

Certo dia, quando de férias em Candeias, ao descer a Avenida 17 de Dezembro vi aquele amontoado de móveis à porta do Clube. Assustei-me! E ao saber que o Clube estava sendo despejado humilhantemente; através de uma ação judicial executada pela Prefeitura de Candeias, lamentei profundamente a forma dramática dada ao fim de uma instituição histórica e tão representativa para o povo candeense.

A saudade é um estado de emoção dorido que ludibria o nosso esforço para não senti-la. Aquela cena, até hoje, fere o meu coração. Foi como se rasgasse o retrato de um pedaço da minha vida.

Armando Melo de Castro
Lagoa da Prata- Minas Gerais

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O MEU AMIGO ANTÔNIO MACÊDO


A  expressão “meu amigo”, a meu ver, não é bem colocada na boca de muitas pessoas que a confundem com companheirismo, coleguismo etc. Um amigo na essência da palavra é um patrimônio dado por Deus para quem vive nesse mundo que vai ficando em debito com o respeito ao próximo e adquirindo mais e mais credito de ganância, violência e corrupção. O materialismo aumenta deixando o povo, dia após dia, sem a tão necessária fé no Criador de todas as coisas.

Amigo é sinônimo de simpatia, estima e fidelidade. Um grande amigo briga em nome da amizade. Tem uma boa palavra de ânimo para dar. Não precisa ter dinheiro, basta a sua amizade. Conhece-se um bom amigo nos momentos difíceis da vida. E quem nunca teve dificuldades, com certeza não saberá avaliar um verdadeiro amigo. Comumente se vê por ai alguém dizer: fulano é meu amigo... Beltrano é meu amigo... Na maioria dos casos não passam de “fulanos e beltranos” simples companheiros ou amigos restritos que não se entrelaçam de urtigas e rosas.

No meu rol de amigos, o que não me completa os dedos das mãos, um deles eu não o coloco nos armários da minha memória porque ele está no pretérito, no presente e no futuro da minha vida. E o seu nome só poderia estar na capela do meu coração recebendo as bênçãos de Deus rogadas por mim, como forma de lhe retribuir os tantos favores que dele recebi e que por toda a vida tenho sido beneficiado: ANTONIO MACÊDO.

Quando fui menino, em Candeias, às vezes, ficava à porta de casa, na rua Coronel João Afonso e, de quando em vez, via descer e subir à rua, com uma pasta, aquele jovem elegante nas vestes e no porte. Tinha mais ou menos dezoito anos; rosto corado, alegre e mostrando que era saudável. O seu objetivo naquela parte da cidade era o comerciante Vicente Vilela, que ficava abaixo, na esquina. Como era costume os viajantes passarem por ali para visitar o Vicente, eu imaginava que aquele jovem também fosse um viajante. Posteriormente fui entender que se tratava de um funcionário do Banco e como o cliente era economicamente folgado, supunha-se que o Banco o atendia em seu domicílio.

E sempre quando ali passava, talvez pela curiosidade minha e de outros ajuntados, ele sempre brincava falando alguma coisa que agora, no momento não me faço lembrar... E foi ai que conheci Antonio Macedo, nascido no mês de abril talvez no dia 14 e no ano de 1938 se me não falha a memória.

Tornamo-nos conhecidos, posteriormente, com a chegada de um Ginásio para Candeias; o que levou muita gente a matricular-se no curso ginasial. Com isso as diferenças de idade foram misturadas. O ginásio ainda sem uma sede definitiva foi inaugurado provisoriamente, funcionando apenas no horário noturno, na sede do Grupo Escolar Padre Américo.

Lembro-me, bem, que Antonio Macedo, Antonio Carlos e Guilherme Ribeiro, eram alunos líderes e deu algum trabalho para os administradores do ginásio. Isso porque a bagunça era total e o trio queria ver a casa organizada. Falava-se que os três mandavam no Ginásio.

A nossa professora de matemática era uma jovem muito bonita, de nome Shirley Santos, natural da vizinha cidade de Cristais. E o Antonio Macedo ao invés de prestar a sua atenção na aula, prestava mais atenção na professora. O namoro começou e posteriormente se casaram e são muito felizes.

Em certa época fui funcionário do Clube Recreativo Candeense e o Antonio era bastante influente no Clube, era um grande colaborador daquela casa com as suas idéias sempre inteligentes e respeitadas. Foi ai mais um convívio que tive com ele.

Havia em Candeias um grêmio teatral liderado por diversos artistas amadores e entre eles Antonio era um dos líderes. Posteriormente participei desse grupo como “carregador de piano” e depois fazendo alguns papéis no palco.

O Antonio Macedo era do tipo que não deixava para falar depois. Era convicto nos seus atos, sincero, gozador, amigo e quem não o conhecia bem, ignorava a sua humildade.
Um dos primeiros favores que recebi dele foi quando morava em Oliveira _MG - e me arrumou um emprego com um seu amigo, dono de uma Churrascaria, o Allim Mattar. Ali permaneci por alguns meses, quando me decidi ir para São Paulo.

Devido a grande crise que São Paulo atravessava na época após a revolução de 1964, não consegui nada e voltei para Candeias, decepcionado; agora receoso, portando uma intranquilidade íntima, sem uma profissão... Sem estudos e sem experiência e o pior: sem expectativas...
Antonio Macedo teria sido transferido de seu emprego do Banco, de Oliveira para São Paulo, onde ocuparia um importante cargo de chefia.
Encontrei-me um dia com ele que me disse: “Vai dar uma vaga de contínuo no Banco. Existem outros candidatos, mas eu posso colocar você. Você quer?”.

Ora, eu ajudante de pintor, garçom do Clube e depois de ter voltado de São Paulo como se tivesse escorregado na lama sobre o mármore! Convivendo com o medo do futuro. Medo de mudanças e incertezas... Isso para mim já não eram desconfortos eram metafísicas! E agora aquela pergunta! Aquela oferta tão assim verdadeira! --- A resposta foi de pronto e algum tempo depois no dia 7 de agosto de 1966 eu fui novamente para São Paulo.

Antonio Macedo me colocou no Banco. Ajudou-me nas primeiras promoções – Foi meu fiador – foi meu avalista... Emprestou-me dinheiro... Corrigiu-me nos meus erros... Aconselhou-me orientou-me e me fez digno do seu respeito.

A minha transferência de São Paulo para Minas foi muito importante para mim e sem a sua ajuda teria sido impossível. No seu casamento; nas suas bodas de prata; nos casamentos de seus filhos; no seu aniversário dos cinqüenta anos,na comemoração dos seus setenta anos; sempre o meu nome esteve na relação de seus convidados.

Por ocasião da minha viuvez eu pude receber a sua mensagem e uma pergunta de amigo verdadeiro: “Você está precisando de alguma coisa?...”.
Eu não me lembro de haver feito, um dia, algum favor para o meu amigo Antonio Macedo. Ele nunca precisou... E quem era eu? Um rapaz pobre, sem recursos, sem profissão, semi-analfabeto.

Durante os trinta e dois anos que fui funcionário do Bemge posso dizer que fui muito bem sucedido. Contudo, é com certeza que isso se deu porque sempre, mesmo distante, eu não me esqueci dos ensinamentos e dos princípios do meu professor.

Prezado Antonio Macedo, obrigado pela amizade e por tudo que fez por mim. Que Deus lhe abençoe hoje e sempre juntamente com todos os seus entes queridos.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.