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quinta-feira, 29 de maio de 2008

AS LARANJAS DA DONA JULITA


Certa vez quando eu conversava com o meu amigo Antônio Macêdo, à porta de sua residência, em Candeias, foi quando me deparei com o nome do seu edifício: “Dona Julita” sua mãe. ---- E numa revirada nas gavetas das minhas memórias, encontro-me com Dona Julita, quando ela morou numa casa antiga que ficava onde está hoje, o prédio do Zé do Anjo, ao lado do galpão que estabelecia a sua oficina mecânica. 

Eu tinha os meus doze anos e meu pai havia me colocado como aprendiz na oficina mecânica.  Naquele tempo era assim: o pai chegava a casa e dizia ao filho: eu arrumei serviço para você, vai começar amanhã. Não tinha esse negocio de saber de salário e nem o que iria fazer. Era uma ordem e pronto.

Dona Julita estava sempre costurando ou bordando, na sala e quem passasse pela rua poderia vê-la com a sua filha Ivone enquanto trabalhavam e ouviam rádio. Lembro-me de certa feita, ver e ouvir a Ivone cantando junto com Caubi Peixoto, através do rádio, a canção, “Conceição”, quando esta fazia grande sucesso.

Posteriormente ela mudou-se para uma casa nova na Rua do Capão, hoje Rua Pedro Vieira de Azevedo. Dona Julita mulher de estatura alta, magra, olhar severo, filha do coronel João Afonso Lamounier. Boa mãe, boa amiga e muito brava. Não mandava recados. 

Com essa mudança, a velha casa ficou abandonada e havia por lá um grande quintal com um pomar cheio de pés de laranjas. Eu no verde dos meus anos trabalhava sem remuneração num dos meus primeiros empregos, na oficina mecânica do Zé do Anjo. --- Não existia essa história de patrão dar lanche para empregados. A gente tomava o café da manhã, almoçava às 11 horas e jantava quando voltava à tarde para casa.

Da oficina poderiam ser vistas as belas frutas no quintal daquela casa esquecida; Laranjas baianas, doces e deliciosas que cresciam os meus olhos, separadas de minhas mãos apenas por um velho muro quebrado. ------ Ali os olhos viam; o estômago pedia; o cérebro autorizava e a consciência julgava.

Incentivado pelos colegas, Pato, Patinho, Bento, Carlinhos da Alzira, eu comecei a entrar no quintal da casa abandonada e roubar laranjas para todos.

Até hoje eu sinto o sabor doce dessas laranjas. No meu entender de menino eu imaginara não estar cometendo um roubo. Estaria apenas subtraindo aquilo que estava se perdendo... 

Algum tempo depois, numa quarta feira santa, ao passar pela porta do Sr. Nestor Lamounier, irmão de Dona Julita, pude avistá-la sentada à sala do Sr. Nestor, quando fui surpreendido com o seu chamado: ----- Oi menino da roupa suja vem aqui! -----Eu, com as roupas sujas da mecânica levei um susto danado sendo chamado por Dona Julita a qual foi me perguntando: 

-----Como te chamas? De quem tu és filho? 

Respondi: Meu nome é Armando e meu pai é Zé Delminda. Diante daquele interrogatório e eu com a consciência pesada, tremi dos pés a cabeça. E continuou: 

-----Fiquei sabendo que tu estás roubando as minhas laranjas... 

Respondi de novo: eu não senhora! Eu nunca fiz isso! A senhora está enganada! E ela continuou: 

------ Tu: além de ladrão de laranjas ainda és um tremendo cara-de-pau. Qual outro menino trabalha no Zé do Anjo? És só tu? Vou falar com o Zé do Anjo e com o teu pai.

Naquele dia eu não dormi. Eu chorei e não podia contar o motivo. E pensava: aquela mulher vai me fazer perder o emprego... Vai me fazer tomar uma sova do meu pai. Fui à procissão do encontro e rezei o tempo todo pedindo a Jesus e Nossa Senhora das Dores que me ajudasse. Rezei para todos os santos e em especial para o meu Santo Antônio, mas pensando: eles não vão proteger um ladrão de laranjas, mas parece que todos me ajudaram naquele momento. 

No outro dia, ao chegar à oficina, eu pensei que iria sentir um colapso. Dona Julita bem ali, parecendo estar esperando o Zé do Anjo para me delatar. Mas não. Ela esperava a mim e veio logo dizendo: Oi menino! Eu resolvi, tu podes apanhar as laranjas desde que seja só para ti, para os outros não.

Diante daquela surpresa eu comecei a chorar e não tive o que falar. Minha voz sumiu e fiquei por entender o motivo daquela flexibilidade. Talvez tenha sido pelo fato de estarmos em plena semana santa. Mas eu nunca mais apanhei de suas laranjas. Nunca mais entrei no quintal de alguém. Nunca mais chupei uma laranja que não fosse conseguida de forma lícita. Tornamo-nos amigos; onde eu a via, aproximava-me a cumprimenta-la e mesmo já depois de crescido, Dona Julita me chamava de menino.

Anos depois como pintor de paredes a sua casa foi o meu ultimo trabalho em Candeias, antes de ser levado para São Paulo pelo seu filho Antônio Macêdo, num emprego que me arrumara de contínuo no Banco Mineiro da Produção SA.

Sabendo ela que eu iria dali em diante trabalhar no Banco ela me disse: 

---Tu és um menino bom. Vai se dar bem no Banco. Siga o exemplo do Antônio que tu serás um gerente. -. 

E os anjos disseram AMÉM. Diante dessas palavras me senti perdoado e pensei: que bom, ela confia em mim... Graças a Deus!

Obrigado Dona Julita, onde quer que esteja receba o meu agradecimento carinhoso.

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

UM PAGODE NOS ARRUDAS.




Depois de ouvir dizer que Rui Barbosa teria dito ter muito, ainda, para aprender da língua portuguesa, entendo que ninguém tem convicção de, realmente, entende-la perfeitamente.

Lembro-me do meu colega de curso primário; colega de seresta; meu professor de inglês, matéria a qual eu não aprendi nada; apenas algumas palavras porque não tive vocação. Trata-se do meu grande amigo, Flávio Ribeiro do Nascimento, - Flávio sempre dizia: prefiro lecionar inglês a português. Inglês é fácil, português é difícil. E aquela observação me fazia confuso.

Certa vez conversando com um outro amigo Zé Quirino, um candeense superdotado intelectual, que aprendia línguas ouvindo rádio em ondas curtas nas altas madrugadas, mas que preferia trabalhar numa olaria, característica pessoal dos superdotados... Ele também disse: a língua portuguesa é muito difícil. É mais fácil aprender inglês sem mestre...O Dr. Fernando Sousa Lima, o primeiro diretor do Ginásio de Candeias e promotor da comarca, também teria dito: os grandes gramáticos vivem discutindo teses sobre a língua portuguesa. Ela é muito difícil. E fez uma explanação bem feita sobre o assunto. Mas, nem todos pensavam como o meu amigo Flávio, Dr. Fernando e o intelectual candeense, Zé Quirino. O meu amigo Ley Careta não via tanta dificuldade na língua portuguesa. Muito pelo contrário: ele a achava fácil e explicava: Eu sou um discípulo do Chacrinha: “Se eu posso complicar para que simplificar”? O que me interessa esse negócio de verbo, substantivo, sujeito? E eu lá quero saber quem é o sujeito? Eu faço o meu português do meu jeito e com sujeito; com substantivo; com verbo etc. Igual todo mundo, só que eu invento a minha formula e todo mundo gosta. Eu faço poesias; faço discurso; faço cartas e modéstia à parte, todo mundo diz que eu falo muito bem. Por exemplo: Águia de Aia? Quem era o sujeito? Era o Rui Barbosa. – Cesta de Natal? Uma comida substanciosa para os pobres; substantivo – Jesus de Nazaré? Verbo encarnado. E ai vai...”.

Diante de tais explicações, muitos como eu, ignorantes no verdor da idade, admiravam o meu amigo Ley Careta, com a sua sabedoria e a sua forma de interpretar as coisas.Aos 17 anos de idade, eu fui cobrador de jardineira. Para quem não sabe, jardineira era aquele ônibus antigo. Tratava-se de veículo com lotação de apenas vinte e quatro passageiros. Não tinha nenhum tipo de conforto e o porta-malas ficava sobre o teto do veículo. Uma pequena escada na traseira por onde o cobrador havia de subir com a mala que quando pesada era um castigo. A empresa não tinha nem nome e o proprietário era o Zé do Ângelo. Portanto, todos diziam a jardineira do Zé do Anjo.

A linha era de Candeias x Oliveira e em Oliveira havia uma baldeação para um ônibus mais confortável da Empresa Pinheiro Ltda.Este era o caminho para quem ia à Belo Horizonte. Aquela estradinha de terra, passando pela fazenda do João Pinto, Retiro, São Francisco e Oliveira.Andávamos com um cacho de bananas verdes no carro para tapar os buracos do radiador e uma lata para enchê-lo de água em todos os córregos que ficavam no itinerário. O motorista era o Jésus do Vico. E a viagem era um sinônimo de pobreza em meio à poeira, atoleiros, frangos, ovos, verduras e de quando em vez pintava para viajar um leitão, daqueles bem saudáveis, filho de um piau de oito arrobas.Como não havia rodoviária, o ponto de partida e de chegada da jardineira ficava à porta do Bar do Raimundo do Antero, ao lado do antigo Posto de Saúde.

Numa dessas viagens, aparece como passageiro o meu amigo Ley Careta. Estava indo para Brasília onde buscaria em novos horizontes dias melhores. Brasília, recém fundada e como capital do país oferecia condição de trabalho satisfatória. Portanto, prometia ao meu amigo Ley um futuro cheio de esperanças.O amigo empanado no seu terno branco, de linho, gravatinha, agora, preta de bolinhas brancas com um lencinho no bolso superior do paletó, combinando com a gravata. Sapatos, cinto marrom e meias-pretas em total combinação. Estava uma “gracinha”. Parecia que ia a “Hollyood” para as filmagens do seu próximo filme.Sentado na poltrona 2 quando a jardineira passava sob o campo do Clube Atlético Candeense, o amigo solta aquele suspiro e diz: “Adeus Candeias! Não sei quando a verei novamente”.Foi um momento triste. Os olhos do meu grande amigo lacrimejavam e eu tentei lhe consolar. E na conversa disse-me que havia escrito uma carta muito bem escrita para o Vice-Presidente da República, então João Goulart, a qual teria sido respondida. Com a sua memória prodigiosa contou-me o teor da carta nos seus mínimos detalhes:

“Excelentíssimo, e prezadíssimo Dr. Jango: ”Sirvo-me da presente carta para pedir ao amigo de partido, PTB, um emprego. Sou eleitor do famoso Dr. Zoroastro Marques da Silva, (Dr. Zoroastro era do PSD e fazia coligação com o PTB) colega de faculdade do Dr. Juscelino e nosso chefe maior. Foi ele quem me autorizou a escrever ao nobre Vice Presidente esta modesta carta.Devo deixar claro que não faço exigências. Qualquer emprego me serve. Sou um rapaz pobre e quero começar por baixo. Dou preferência para faxineiro do Palácio, mas na impossibilidade, qualquer outra coisa serve para mim.Se for atendido, ficarei imensamente feliz e poderei fazer muito por nosso partido aqui, em minha querida Candeias. Espero uma resposta positiva e já de antemão agradeço, com recomendações do Dr. Zoroastro Marques da Silva. Assinado: Wanderley Alvarenga.


Tendo decorrido alguns dias, o meu amigo teria recebido da Vice Presidência da Republica um cartão com a assinatura de um assessor: “O Vice Presidente acolheu o seu pedido o qual será designado para local não especificado”. Esse cartão foi visto por boa parte da nação candeense. E ao ser mostrado ao Sr Álvaro Teixeira, dono do cartório, ele deu aquela sua risadinha matreira dos Teixeiras e disse: “Vai ser bobo Ley, isso ai eles mandam até para os cachorros...”. Mas o Ley não acreditou no que ouviu do experiente Vico Teixeira e teria dito: “Ele está com inveja”.Este era o motivo da viagem do meu amigo Ley. Indo cheio de esperanças... alegre... sa-tis-fei-to da vida, como diria o Padre Zezinho...Não se preocupou com o leitão dentro do ônibus e nem com as galinhas e os ovos. Não se preocupou com o CC dos colegas passageiros e nem com a poeira... Ele ia feliz em busca do emprego tão sonhado. Iria tentar falar com o “Jango” parecia até serem íntimos... E para ser verdadeiro eu cheguei a sentir uma pontinha de inveja...

Foi-se embora o meu amigo Wanderley... Foi! Mas voltou! Voltou muito mais rápido do que se esperava. O terno branco pedindo um tintureiro; Sem dinheiro, sem emprego e o pior: sem esperança.--

Meu amigo Ley, onde quer que esteja, receba o meu abraço.

Armando Melo de Castro

candeiasmg.blogspot.com
Candeias - Minas

UMA VIAGEM DE JARDINEIRA




Depois de ouvir dizer que Rui Barbosa teria dito ter muito, ainda, para aprender da língua portuguesa, entendo que ninguém tem convicção de, realmente, entende-la perfeitamente.

Lembro-me do meu colega de curso primário; o inteligente colega de seresta; meu professor de inglês, matéria a qual eu não aprendi nada; apenas algumas palavras porque não tive vocação; o meu grande amigo, Flávio Ribeiro do Nascimento, levado por Deus ainda jovem, quando Flávio sempre dizia: prefiro lecionar inglês a português. Inglês é fácil, português é difícil. E aquela observação me fazia confuso.

Lembro-me, também, de outro amigo, o Zé Quirino, um candeense, superdotado intelectual, que aprendia línguas ouvindo rádio em ondas curtas nas altas madrugadas. Ele também disse: a língua portuguesa é muito difícil. É mais fácil aprender inglês sem mestre...

O Dr. Fernando Sousa Lima, o primeiro diretor do Ginásio de Candeias e promotor da comarca, também teria dito: os grandes gramáticos vivem discutindo teses sobre a língua portuguesa. Ela é muito difícil.

Mas, tanto o meu amigo Flávio, como o Dr. Fernando e o intelectual candeense, Zé Quirino, não pensavam como o meu amigo Wanderley Alvarenga, o conhecido Ley Careta.

O amigo Ley Careta não via tanta dificuldade na língua portuguesa. Muito pelo contrário: ele a achava fácil e explicava:

Eu sou um discípulo do Chacrinha: “Se eu posso complicar para que simplificar”? O que me interessa esse negócio de verbo, substantivo e sujeito? E eu lá quero saber quem é o sujeito? Eu faço o meu português do meu jeito e com sujeito; com substantivo; com verbo etc. Igual todo mundo, só que eu invento a minha formula e todo mundo gosta e entende. Eu faço poesias; faço discurso; faço cartas e modéstia à parte, todo mundo diz que eu falo muito bem. Por exemplo: Águia de Aia? A poesia que eu gosto de declamar! Quem era o sujeito? Era o Rui Barbosa. – Uma comida substanciosa; substantivo – Jesus de Nazaré? Verbo encarnado. E ai vai...”.

Diante de tais explicações, muitos como eu, ignorantes no verdor da idade, admiravam o meu amigo Ley Careta dez anos mais velho, com a sua sabedoria e a sua forma de interpretar as coisas. Dai refletia o rifão: “Na terra de cego quem tem um olho é rei”.  Ou se for cego também, dá para se entender.

Aos 17 anos de idade, eu fui cobrador de jardineira. Para quem não sabe, jardineira era aquele ônibus antigo. Tratava-se de veículo com lotação de apenas vinte e quatro passageiros. Não tinha nenhum tipo de conforto e o porta-malas ficava sobre o teto do veículo. Uma pequena escada na traseira por onde o cobrador havia de subir com a mala que quando pesada era um castigo. A empresa não tinha nem nome e o proprietário era o Zé do Ângelo Afonso. Portanto, todos diziam a jardineira do Zé do Anjo.

A linha era de Candeias x Oliveira e em Oliveira havia uma baldeação para um ônibus mais confortável da Empresa Pinheiro Ltda. Este era o caminho para quem ia à Belo Horizonte. Aquela estradinha de terra, passando pela fazenda do João Pinto, Retiro, São Francisco e Oliveira.

Trazíamos sempre um cacho de bananas verdes no carro para tapar os buracos do radiador e uma lata para enchê-lo de água em todos os córregos que ficavam no itinerário.

O motorista era o Jésus Teixeira. E a viagem era um sinônimo de pobreza em meio à poeira, atoleiros, frangos, ovos, verduras e de quando em vez pintava para viajar um leitão, esse já morto, normalmente colocado num cesto. Grande parte da bagagem ia à meio aos passageiros.

Como não havia rodoviária, o ponto de partida e de chegada da jardineira ficava à porta do Bar do Raimundo do Antero, ao lado do antigo Posto de Saúde, nas imediações do Foto Freire.

Numa dessas viagens, aparece como passageiro o meu amigo Ley Careta. Estava indo para Brasília onde buscaria em novos horizontes dias melhores.

Brasília, recém-fundada e como capital do país oferecia condição de trabalho satisfatória. Portanto, prometia ao meu amigo Ley um futuro cheio de esperanças. O amigo empanado no seu terno branco, de linho, gravatinha, agora, preta de bolinhas brancas com um lencinho no bolso superior do paletó, combinando com a gravata. Sapatos, cinto marrom e meias-pretas em total combinação. Estava uma “gracinha” como diria a Hebe Camargo. Parecia estar indo a “Hollyood” para as filmagens do seu próximo filme.

Sentado na poltrona de número 2 quando a jardineira passava pelo campo do Clube Atlético Candeense, antiga rota da estrada que ligava Candeias a Campo Belo e Oliveira, o amigo solta aquele suspiro e diz: “Adeus Candeias! Não sei quando a verei novamente”.

Foi um momento triste. Os olhos do meu amigo lacrimejavam e eu tentei lhe consolar. E na conversa disse-me que havia escrito uma carta muito bem escrita para o Vice-Presidente da República, então João Goulart, a qual teria sido respondida. Com a sua memória prodigiosa contou-me o teor da carta nos seus mínimos detalhes:

“Excelentíssimo, e prezadíssimo Dr. Jango: ”Sirvo-me da presente carta para pedir ao amigo de partido, PTB, um emprego. Sou eleitor do famoso Dr. Zoroastro Marques da Silva, (Dr. Zoroastro era do PSD e fazia coligação com o PTB) colega de faculdade do Dr. Juscelino e nosso chefe maior. Foi ele quem me autorizou a escrever ao nobre Vice Presidente esta modesta carta. Devo deixar claro que não faço exigências. Qualquer emprego me serve. Sou um rapaz pobre e quero começar por baixo. Dou preferência para faxineiro do Palácio, mas na impossibilidade, qualquer outra coisa serve para mim. Se for atendido, ficarei imensamente feliz e poderei fazer muito por nosso partido aqui, em minha querida Candeias. Espero uma resposta positiva e já de antemão agradeço, com recomendações do Dr. Zoroastro Marques da Silva. Assinado: Wanderley Alvarenga.

Tendo decorrido alguns dias, o meu amigo teria recebido da Vice Presidência da Republica um cartão com a assinatura de um assessor: “O Vice Presidente acolheu o seu pedido o qual será designado para local não especificado”. Esse cartão foi visto por boa parte da nação candeense. E ao ser mostrado ao Sr Álvaro Teixeira, dono do cartório, ele deu aquela sua risadinha matreira dos Teixeiras e disse: “Vai ser bobo Ley, isso ai eles mandam até para os cachorros...”. Mas o Ley não acreditou no que ouviu do experiente Álvaro Teixeira e teria dito: “O Vico está com inveja porque ele é da UDN”.

Este era o motivo da viagem do meu amigo Ley. Indo cheio de esperanças, alegre e feliz da vida como se tivesse ganhado o primeiro premio da loteria federal. Ia feliz em busca do emprego tão sonhado. Iria tentar falar com o “Jango” parecia até serem íntimos...

Foi-se embora o meu amigo Wanderley... Foi! Mas pouco tempo depois estava de volta. Voltou muito mais rápido do que se esperava. Voltou desiludido após ter gasto um dinheiro que teria arrumado emprestado para a viagem. O terno branco pedindo um tintureiro; amassado, enxovalhado.  Seu rosto mostrando um semblante com as marcas do cansaço e da desesperança.
Infelizmente a experiência do Sr. Vico Teixeira falou mais alto:
"Isso ai Ley, eles mandam até para os cachorros". E o Ley agora dizia: Bem que o Vico falou...

Meu amigo Ley, onde quer que esteja, receba o meu abraço.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e







                                           










MALDITOS OXIÚROS!


Wanderley Alvarenga. Assim se chamava o meu amigo Ley Careta. Era dez anos mais velho do que eu. Às vezes chego a pensar que fui um adolescente diferente, pois sempre gostei de ter amigos mais velhos. Entre eles, sito alguns como, Gabriel Carlos, João de Souza, Antonio Macedo, Alvim Ferreira e outros, que faziam parte do meu rol de amigos.

Porém, essa amizade, com cada um, acredito, teria sido por questões diferentes, ou seja, na captação de idéias; na intenção de um aprendizado adquirido com as pessoas mais velhas, devido à pregação exercida por meu pai. Já com o Ley Careta teria sido um fato diferente. Um rapaz dado a conquistas amorosas; gostava de fazer poesias para as suas pretendentes; fazer discursos; contar histórias etc. E eu em plena adolescência queria aprender todas essas aventuras. Tínhamos algo em comum: éramos pobres e um companheiro pobre e chorão como ele, poder-se-ia me animar a correr... Lutar e enfrentar a vida enquanto fosse tempo. 

Acredito, portanto, que a grande lição de vida aprendida com o meu amigo Ley, foi não perder tempo como ele perdia e procurando fazer o contrário, diante dos seus clamores, suas revoltas, seus anseios e seus fracassos. Poder, todavia, tirar as minhas conclusões e pensar em tomar um rumo diferente. É de todo patente que no curso da escola da vida todo amigo é nosso mestre. Muitas pessoas me  perguntavam: como você tolera o Ley?


À bem da verdade, não era o modelo para o qual eu queria ser. Foi um grande amigo, mas não foi um bom mestre. Não pude imitá-lo tendo em vista o seu relacionamento com o fracasso. Vivia queixando-se da sorte e culpando os outros pelo seu mau êxito. Fez isso até às vésperas de sua morte.Eram-me, bastante interessantes, as suas conversas sobre vitórias e derrotas. Normalmente perdia mais do que ganhava. Nunca teve um emprego, porque dizia não saber puxar o saco de ninguém. Não estudou porque as escolas só tinham vagas para os ricos. Era pobre por culpa de seu pai, dizia sempre. Suas paixões eram como paixões de adolescentes. Quando se pendia por uma moça ou se dela recebesse um sorriso ou um olhar, já era o suficiente para iniciar ai um processo de perseguição. Quando em estado invocativo, era visível para todas as pessoas o seu comportamento “preguento” em demasia.


Ao completar sessenta anos de idade busco, nas gavetas da memória, aqueles bons tempos quando eu ainda morava em Candeias. Lá vivi menos de um terço de minha vida até hoje. E nessas lembranças, tão bem guardadas, sempre surge o meu amigo, Ley Careta, colocando, sempre, um parágrafo nos capítulos na historia da minha vida. 

Certa feita, numa Semana Santa, quando os roceiros vinham à cidade para as festas, o meu amigo esteve ganhando alguns olhares, de uma jovem vinda de um local chamado “Quarta Turma”. Esse nome era uma menção à residência de uma turma de empregados da Ferrovia que ficava na zona rural do município.Tratava-se de uma moça muito bonita. Não me lembro o seu nome e nem de que família pertencia. Sei que não parecia ser alguém vinda da roça. O seu porte chamou a atenção de vários rapazes. Contudo, o Ley, empanado no seu famoso terno de linho branco, gravata vermelha e andando como que um coronel revisando a tropa, ganhou a simpatia da jovem e ai, não seria difícil imaginar o quanto de mel, melado, poesias, palavras difíceis, suor frio, ânsia, desatino, esperança e mais tudo que aquele coração apaixonado poderia sentir. Nós estávamos num parque de diversões instalado defronte à cadeia pública onde atualmente se encontra a estação rodoviária de Candeias.

O meu amigo era naquele momento o homem mais feliz do mundo. “Armando! desta vez eu armo o meu barraco”. “Ela é filha de um fazendeirão daquelas bandas da Quarta Turma”. “Parece estar apaixonada por mim...”. “A turma vai morrer de inveja de mim”. Disse.Ele havia conversado com a donzela no máximo cinco minutos. E teria ficado combinado um reencontro para o próximo dia. Mas ela somente se apresentaria após a procissão e o parque teria sido o local de referência. 

A procissão ainda não havia terminado e o apaixonado já se encontrava desesperado para ir ao encontro da sua Afrodita. E eu, não gostava de perder os lances e sempre em sua companhia fui lhe seguindo enquanto me perguntava se estava bem em seu visual, agora com um terno de casimira azul. Era sempre assim: num dia o terno branco, no outro, o terno azul e uma terceira e quarta opções era a calça de um terno com o paletó de outro. As gravatas eram confeccionadas por ele mesmo. Na verdade com dois ternos ele fazia quatro. Para quem não conhecia a pindaíba do amigo assim como a minha, dava para fazer vistas. 

Já no parque pudemos observar a chegada da ninfa. Ela era linda e trazia no seu seio a pureza e a beleza. O seu sorriso florido; o encanto dos seus olhos; o seu corpo tipo violão, coberto por um vestido branco, deixando às soltas as pernas morenas, tornavam-na num feitiço de mulher capaz de fazer sumir quaisquer caretas da praça e ou deixar alvoroçados até oxiúros, por mais ocultos que se encontrassem. Estava por pouco. Por muito pouco tempo o momento do encontro.

A programação consistia num papinho inicial e logo o convite para junto do Grupo Escolar Presidente Kenneddy, próximo dali, poder estar mais à vontade, onde se esperava rolar um pega-na-mão; um beijinho... e já teria pensado até mesmo num pega-pra-capar e com isso entrar em êxtase. 

De repente o meu amigo fala alto e irritado: “Não meu Pai do céu, agora não isso não é possível”. Mas que desgraça, logo agora?Assustado, pergunto: O que houve Ley? O que aconteceu? E ele responde: são os malditos oxiúros!!! Justamente agora eles começaram a me atacar...De início cheguei a pensar que ele estava ficando louco e perguntei de novo: Mas o que é isso? O que quer dizer isso? --- Eu não sabia o que era oxiúro --- É uma desgraça de um verme disse. Verme? Mas que verme? Onde você tirou verme? Perguntei. E muito danado da vida me explica:-Eu tenho um diabo de um verme que se chama oxiúro, ele fica localizado no ânus e dá uma coceira que dá vontade de enfiar a unha e arrancar tudo fora. E essa desgraça está me atacando justamente agora... Eu já fui ao Posto de Saúde, mas o Amilton do Dr. Zoroastro disse-me que só na semana que vem chegam os lombrigueiros. Aquela merda não tem nada... Desgraça de oxiúro... E chamou-me para ir embora.

Paramos no bar do Sebastião do Leonides, e ele foi para o banheiro, mas não saiu de lá disposto a voltar para o parque. Ele estava transtornado... revoltado e indignado.Não falei nada... não ri... não fiz nenhuma gozação... apenas pensei: pobre Ley! Que dó... ele estava tão feliz!!!! 

Que Deus o tenha meu amigo. Onde quer que esteja receba o meu abraço.


Armando Melo de Castro

Candeias casos e acasos




















sexta-feira, 23 de maio de 2008

O LOUCO DA ALDEIA

Foto para ilustrar o texto.
Numa revirada nas profundezas da minha memória, lembro-me de quando jovem, fiz parte de um grupo teatral existente aqui em Candeias.O grupo era institucionalizado, pois teria sido criado o “Grêmio Teatral Monsenhor Castro”.

Faziam parte da diretoria os amigos: Antonio Macedo, Gabriel Carlos, João de Souza Filho e outros. A trupe era composta pelos dirigentes do grêmio e por artistas escolhidos por eles. Ao candidato observava-se o princípio básico para se tornar um componente do elenco; ou seja, preencher necessários requisitos para a apresentação de um bom espetáculo.

No meu tempo, além dos diretores do grupo, alguns dos participantes das diversas peças encenadas foram: Willian Ferreira, Luizinho Bonaccorsi, Cristóvão Teixeira, Titoco, José Delminda (meu pai) Maria Amélia (minha irmã) Lia Langsdoff, Darlene Alves, Ivanilda Vilella, Zé Mori, Claudete Freire, Maria Helena do Piruca, Wantuil de Castro e muitos outros além de maquiadores, contra-regras, sonoplastas, pontos etc.

Entre as diversas peças que encenamos estavam, “A Escrava Isaura, O Louco da Aldeia, Os transviados, Mater Dolorosa, A Rosa do Adro, etc.”. --- O diretor artístico era o Gabriel Carlos, que se vangloriava de ver o seu nome nos boletins como diretor.

No elenco de – O Louco na Aldeia – houve a participação do meu amigo Wanderley Alvarenga, o Ley Careta. Era ele um fabricante de cutelos e eu era o seu filho Aníbal, especialista na fabricação de punhais e teria sido aquele que fabricou um punhal por encomenda do Visconde da Ribeira Branca (João de Souza Filho). A esse pormenor deu-se a inquirição que desvendou um crime nesse grande dramalhão.

Mas manipulando os holofotes das minhas lembranças, vejo o palco do Cine Circulo Operário São José, onde os ensaios aconteciam as segundas, quartas e sextas feiras, quando havia uma peça para ser encenada. Da platéia os atores aguardavam para entrar em cena enquanto liam e reliam os seus papéis com o fito de decorá-los.

O meu amigo Ley Careta, que participava de apenas uma cena no primeiro ato, tinha uma memória notável. Ele foi capaz de decorar os papeis de todos os atores, apenas pelo fato de estar presente aos ensaios. Lembro-me que o protagonista desta peça era o Willian Ferreira, e o Ley conseguiu decorar o papel do Willian antes dele. Contudo, confidenciara-me que se por acaso o Willian viesse a ter algum impedimento, ele estaria preparado para substituí-lo. Queria um papel melhor ou maior. E como tinha facilidade em decorar, não teve problemas. Mas, seus agouros não funcionaram e ele foi mesmo o cuteleiro num papel sem destaque porque diziam que a sua imagem não era boa para teatro. 

Chegado o dia da estréia foi aquela festa. A renda era sempre convertida em favor das obras da Igreja Matriz e da Sociedade de São Vicente de Paula. Tínhamos total apoio do Monsenhor Joaquim de Castro, dono do cinema.

Dias antes, o Ley ficara conhecendo uma moça por nome Maria do Carmo, da cidade de Campo Belo. Ela estaria visitando Candeias, oportunidade em que o meu amigo paquerador entrou em ação, como sempre com a mesma postura; com as suas balinhas de hortelã para apurar o hálito; seus galanteios; seus passos sobre ovos e suas estrofes de métrica mal dotada como, por exemplo, esta que ele inspirou naquele momento de euforia: 

“Vinda de Campo Belo, Vou receber a Carminha. Eu um fabricante de cutelo, poderei fazê-la só minha”.

O Ley queria, porque queria mostrar para a moça a sua arte dramática... o seu talento de ator... o seu porte no proscênio diante de uma cena curta, onde levaria o filho ao vizinho para despedir-se às vésperas de ir para Portugal. Lembro-me com clareza da antevéspera. Eu o acompanhei até ao centro telefônico a fim de dar um telefonema à sua pretendida. O telefonema seria para a casa de um vizinho, que intermediaria a ligação.

Naquele tempo telefone em Candeias era a coisa mais complicada. Uma ligação era bastante demorada e a comunicação era muito ruim. A pessoa da cabine deixava vazar o som que espalhava pela rua e todo mundo tomava conhecimento do assunto tratado pelo telefonador. E para a casa de um vizinho necessário seriam duas ligações. Finalmente o Ley conseguiu falar com a moça. 

Confirmara o convite já lhe feito dias antes e naturalmente, em repetição, um rápido comentário a respeito do espetáculo: Disse-lhe que estaria ansioso em recebê-la como visita para assistir o grande espetáculo da peça intitulada: “O Louco da Aldeia” na qual ele seria um dos atores. Resumiu o seu papel dizendo que havia um punhal fabricado em sua cutelaria, cujo instrumento seria a arma do crime no suspense da peça. ---- Falava com todo entusiasmo como fosse ele o protagonista de uma novela da Rede Globo de Televisão. Tal entusiasmo deixou a telefonista em serviço ali, num estado de hilaridade.-----

Os atores tinham direito a dois ingressos. O Ley deu um para a sua mãe e o outro seria entregue à sua “esperada” quando essa chegasse. Ser-lhe-ia oferecida, também, a hospedagem em sua residência. O espetáculo estava marcado para as vinte horas. As sete a moça não havia chegado. Ele queria lhe entregar o ingresso. Recepciona-la como um dom-Juan, mas isso não lhe foi possível. As sete e trinta horas todos os atores deveriam estar apostos. E lá estava o meu amigo Ley, com o seu terninho branco, caprichosamente lavado pela Maria do Dondico; sapatos tão engraxados que brilhavam mais do que as luzes da ribalta e a gravatinha colorida cheia de pontos brancos e confeccionada especialmente para o evento. No entanto, levara um bolo; um bolão!

Ainda inconformado, mandou que alguém entregasse o outro ingresso à sua família. Mas não perdeu a esperança e ficou olhando pela fresta da cortina se a sua requestada teria vindo. Mas não a viu. Terminado o espetáculo, todos foram saindo felizes pelo sucesso. E o Ley ao adentrar-se no Bar do Sebastião Cassiano, posteriormente do Lulu, ao lado do cinema, deparou-se ali com a sua esperada  amada. Só que ela estava acompanhada de um jovem o qual lhe foi apresentado:

“Wanderley este é o meu namorado Murilo; Murilo este é o meu amigo Wanderley....”.
E o príncipe da moça logo diz: Eu sou o vizinho para onde você telefonou convidando a Carminha para o espetáculo. Não poderia deixar de vir ver... Gostei. Principalmente do seu papel... muito importante... Disse isso com certo desdém. O meu amigo Ley ali massacrado, judiado, humilhado, derrotado, irritado, diz: OBRIGADO! Muito obrigado!

Perdão meu amigo Ley se estou sempre falando de você. Acontece que a gente nunca esquece um bom amigo. Receba o meu abraço onde quer que você esteja.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos