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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O MERCENARISMO RELIGIOSO

No princípio da década de 50, apareceu aqui, em Candeias, um cidadão protestante pregando o evangelho, nas proximidades do chafariz, que fica localizado nos jardins que fronteiam a Igreja do Senhor Bom Jesus.
Não havia, nesse tempo, em Candeias, praças e nem calçamentos. A Avenida 17 de Dezembro era chamada de Largo. E os três chafarizes que ainda existem (hoje inoperantes), eram pontos de referências para esse tipo de coisa: encontro de namorados, camelôs, pose para fotos, etc.

Um pregador protestante, naquele tempo, era visto pelos católicos como se fosse o diabo. E ao iniciar, a sua pregação, ajuntaram-se, ao seu redor, algumas pessoas, talvez, por curiosidade.

Logo que correu a notícia de que alguém de outra religião pregava na cidade, o pároco mandou badalar os sinos e convocou os fieis através do microfone para uma procissão de desagravo. A bem da verdade, esta procissão seria para dar início ao processo de expulsão daquele estranho no ninho.

De forma muito humilhante, o cidadão foi escorraçado da cidade por um grupo de pessoas, incitado, pelo padre, que pretendia expulsar o intruso do seu território religioso.
Os manifestantes agrediram o pobre homem com cusparadas no rosto, chutes, pernadas e, por fim, ao se darem conta de um monte de pedras, nos fundos da Igreja do Senhor Bom Jesus, a criatura indefesa passou a ser ameaçada de ser apedrejada.

Não fosse a iniciativa do Sr. Willian Viglioni, que num gesto de afoiteza, tomou-se de uma faca de cortar salame no bar que existia junto à sua residência, acredito que a situação teria tomado proporções dramáticas diante da fúria do povo católico.
Auxiliado pelo seu amigo, Edgar do Conde, Willian amparou o pregador e o levou até o antigo Hotel do Bitu que ficava localizado onde hoje esta situada a Loja dos Colchões. Dali, o homem seguiu para a estação ferroviária, de onde partiu levando consigo as mais contristadoras lembranças de nossa terra.

Sem dúvida, esse comportamento fanático deixou-nos uma mácula para a história de Candeias. Teria sido como a vergonha da inquisição presente aqui na nossa pacata cidade.Jiddu Krishnamurti, o grande pensador indiano, dizia que o falatório e a estrutura das religiões organizadas tendem a separar os homens. Eis que aí está.
As religiões estão se tornando, a cada dia, mais organizadas, mais cheias de falatórios e mais estrategistas nessa tomada de espaço por parte dessas igrejas que se intitulam evangélicas ou crentes. A bem da verdade, não se trata de evangélicos e nem crentes. Vivem buscando seus estratagemas no Velho Testamento e o verdadeiro Deus de sua crença é o dízimo. Crentes ou evangélicos são titularidades criadas apenas para confundir pessoas humildes, sofridas, passando por dificuldades, carentes de atenção e de amor. Pensam que com isso podem passar uma imagem de que são mais puros e mais privilegiados perante Deus. Como se fossem diferentes. Dizem que são religiões, mas, na verdade, são seitas desprovidas de senso moral e que abusam vergonhosamente da fragilidade humana. Não precedem de nenhuma ramificação cristã, pois não se definem como oriundas do catolicismo e nem do protestantismo.
Talvez, os engambelados seguidores dessas igrejas que pagam caro por ser delas um fiel, sejam, verdadeiramente crentes. E como a fé remove montanhas, os “donos” dessas “igrejas” roubam-lhes até a fé.
Igrejas que não têm filosofia própria e o tema de suas pregações é uma paçoca teológica de luteranismo, calvinismo, anglicanismo, bramanismo, catolicismo, pentecostalismo, kardecismo, umbandismo, e o principal: o “dizimismo”.

Crente é todo aquele que crê em algo. Pode ser crente em Deus, nos santos, na ciência, nas assombrações, nas promessas dos políticos e até no diabo. Enfim, todo seguidor de uma religião qualquer, consequentemente, pode ser um crente.
Portanto, ser um crente não significa propriamente ser evangélico. Evangélico é aquele que se orienta através do Novo Testamento. Os católicos, os pentecostais, etc. Os verdadeiros evangélicos não se confundem com o velho testamento. Tomam do seu conhecimento apenas para se orientarem. O verdadeiro cristão está inserido no Novo Testamento, ou seja, no Evangelho de Jesus Cristo. Portanto, quem cobra dízimo, em percentuais, não é evangélico.
Estamos vendo, por aí, titulares dessas igrejas nadando em dinheiro em detrimento da pobreza de seus seguidores. Prometendo milagres com hora marcada e abusando da fragilidade de pessoas moralmente debilitadas. Postam-se como inimigos do diabo e privilegiados de Deus. E nesse paradoxo, vão fazendo dos seus adeptos um enleado pronto para ser escravo. Executam um curandeirismo sem o propósito ideal como propaganda da venda de milagres. Criam-se meios astuciosos e fazem de suas denominações religiosas, verdadeiros partidos políticos e usam os seus altares como comitês para se elegerem. Haja vista que, dentro do poder constituído, o conceito político é sempre ressaltado: “Bancada Evangélica”.
Nada impede um religioso de se candidatar a um cargo eletivo, mas, por que bancada “evangélica”!? Isso avilta ainda mais a política brasileira.

Igrejas que cobram 10% de dízimo de seus fieis e se dizem evangélicas são verdadeiras empresas que só visam o lucro e o materialismo.

A Igreja Católica, detentora da maior fatia do poder religioso, aqui no Brasil, parece-me um tanto perdida nesta guerra com os “evangélicos”. E com isso, vai tomando rumos bem parecidos. Não somente no púlpito, mas, no meio político-partidário, no meio social e em meio aos veículos de comunicação que são objetos favoráveis para a busca de condições no sentido de atingir o alvo dominante. E isso faz com que os católicos usem das mesmas armas para defenderem o seu território. Apropriam-se de estações de rádio e televisão tendo padres em suas direções. Padres artistas cobrando altos cachês pelas suas apresentações, em espetáculos pouco atinentes à verdadeira objetividade de uma igreja.
Estão se transformando com o firme propósito de assegurar o espaço que vem sendo tomado por essas empresas denominadas “Igrejas Evangélicas”. Mas, o faz de maneira opaca. Criam-se tantos estorvos, tantas exigências que vão, cada vez mais, perdendo os fieis para os seus concorrentes (Infelizmente este é o termo certo: concorrentes)Os padres vão se tornando, a cada dia, quase que uma figura simbólica dentro da Igreja Católica. Os fieis vem tomando conta da maioria das tarefas, de forma pouco orientada. Comumente, se vê pessoas da comunidade fazendo até casamentos. A organização católica tem ministros tanto quanto o Governo Lula. Ministro disso, ministro daquilo e os padres pouco aparecem. Talvez, intimidados por esse tsunami interminável de pedofilia dentro da sua igreja. Essa pouca vergonha que vem enodoando o catolicismo, cada dia mais. O padre católico está se transformando em uma figura que perfuma a pedofilia enquanto ela fede para as famílias de bem. E, com certeza, a culpa maior desses desvios, entre os representantes da Igreja Católica, é devido a um celibato que não mais se justifica diante de um mundo em que o sexo vem ocupando lugar de destaque nas relações. E por que a Igreja Católica não acaba com essa tempestade humana chamada celibato? Esta é uma pergunta que muitos formulam e sem resposta. Por quê? Porque envolve dinheiro, patrimônio etc. e tal...

A celebração da missa tornou-se um ritual monótono. A pregação dos padres, longas e enfadonhas, quase não consegue tomar a atenção do fiel.
A maioria dos padres não tem o dom da eloqüência e são anti-sociais.

O ritual de um sepultamento vem se tornando tão fastidioso que, boa parte dos fieis, ficam do lado de fora da Igreja aguardando aquele falatório sem um tema próprio, para cada caso. Os leigos chamados ministros, apesar da boa vontade, são despreparados e não sabem, na maioria das vezes, presidirem um ritual onde seriam necessárias algumas palavras soltas diante de uma circunstância específica. Lêem aquele texto maçante e demorado que não diz nada para ninguém, que não conforta ninguém e, talvez, até o defunto se cansa!...

Como católico, isento de fanatismo, estou sentindo que a Igreja Católica está aceitando a sua própria rendição principalmente com essa pedofilia no âmago da Igreja. Enquanto essas casas comerciais, chamadas “igrejas evangélicas”, vão avançando em busca de dinheiro e, consequentemente, de poder.


São os líderes religiosos usando dos mais diversos estratagemas para vencer uma competição onde o princípio essencial deveria ser o amor alimentando as três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade.

E não há dúvida de que a arma principal para qualquer tipo de guerra é o poder do dinheiro. E aí entra o “pé de coelho” do mercenarismo religioso: o dízimo.

Esse antagonismo já chegou aqui em Candeias. Já se vê igrejas com diversas denominações correndo atrás dos “cobres”.

A Igreja Católica alega que não estabelece contribuição percentual para o dízimo sobre a renda do seu fiel. Mas, são tantas as frações da Igreja a pedir que se o cristão for atender todos os pedidos, dez por cento da sua renda, será pouco. E ninguém vê caridade. E para onde vai esse dinheiro?
Uma fração da Igreja Católica, chamada “Os Carismáticos”, pedem tanto que se alguém for escutá-los acaba dando cinqüenta por cento de dízimo. E ainda se dizem evangelizadores, mas, não fazem nada de graça. Aliás, todos se dizem evangelizadores, mas, claro, a custa de dinheiro. Eu tinha uma vizinha, que sempre dizia: “Religião é dinheiro”. E é mesmo!...

Algumas, muito poucas, instituições “evangélicas” não estabelecem os dez por cento de dízimo, mas, ao pregarem, usam textos do Antigo Testamento, como por exemplo: “Repreenderei o devorador... Roubais ao Senhor nos Dízimos” etc.etc.etc. Termos que nada tem a ver com o Cristianismo.
Já a maioria dos “crentes evangélicos” é obrigada a dar a contribuição de dez por cento da sua renda para a sua igreja. É de se saber que as igrejas não pagam imposto. E quem não paga o dízimo é enquadrado no “Malaquias 3.8. como ladrão”. (?)

Não somente em Candeias, mas em todo o Brasil, qualquer um pode montar uma igreja. Aliás, fundar uma igreja tornou-se um grande negócio. Pessoas, semi-analfabetas, desprovidas de qualquer princípio teológico, tomam-se do cargo de pastor, amedrontando pessoas humildes através de um diabo violento e forte. É tão forte que, em suas pregações, às vezes, esses equivocados pastores se fazem entender que o diabo seja mais forte do que o próprio Deus... Do que o próprio Jesus Cristo! Aliás, existem igrejas que mencionam tanto a figura do diabo que se acaso amanhã ficar provada a sua inexistência, ficarão todas vazias.
Igrejas montadas em garagens de automóveis, galpões, cinemas, lugares desprovidos de quaisquer princípios sacros.
Ali se discute princípios ausentes da Bíblia Sagrada sendo que o principio básico daquela igreja nem sempre é a fé em Deus e sim no dízimo.

Certa vez, conversando com um pastor de uma Igreja Evangélica, ele me disse que de acordo com o livro de Malaquias (O ultimo livro do Velho Testamento) aquele que se negar a dar o dízimo é ladrão do Senhor.

Durma-se com um barulho desses...

Ora, o livro de Malaquias contém apenas quatro capítulos e, no entanto, está sempre na boca dos “cata-dízimos”. O líder religioso que usar deste livro para ameaçar um cristão sobre o dízimo será ele o legítimo ladrão. Isto porque, nenhum cristão tem a obrigação de pagar o dízimo e quem diz isso é a própria Bíblia.

Eu não tenho aqui a intenção de contrapor o dízimo, mas, simplesmente, responder àquele que disse que baseado no livro de Malaquias, quem não der o dízimo é ladrão.
O dízimo foi estabelecido para os sacerdotes judeus, filhos de Levi e não para a Igreja de Jesus Cristo. Hebreus 7:5 - Devemos entender a diferença que existe entre contribuir em Lei e contribuir em Graça.
Na Lei, o dízimo era a causa principal da bênção do povo judeu. Portanto, a bênção referida deste dízimo do Malaquias 3:10; refere-se ao povo judeu que contribuía conforme a Lei dando o dízimo para ser abençoado.
Na Graça, o sacrifício de Jesus Cristo é a causa principal da bênção do povo cristão. Jesus morreu para nos salvar e para que fôssemos abençoados. Por isso, a maneira correta de o povo cristão contribuir em Graça é através de
Coríntios II 9:7: Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.
Em Romanos 8:1 está escrito: Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus
.E por que vêm os senhores pastores usar do livro de Malaquias para dizer que quem não paga o dízimo é ladrão?
Jesus condenou quem dizimava até a hortelã e o cominho e não ofertava o seu amor ao próximo. Por ai nota-se que mesmo o dízimo do Velho Testamento, era um dízimo agrícola e não em dinheiro.

Ao invés de incentivar os cristãos, principalmente os mais humildes, a contribuírem espontaneamente com amor, certos “pastores” procuram causar medo de maldição visando somente o dinheiro do dízimo.
A forma com que a maioria das igrejas trabalha o dízimo é desonesta e não tem a ver com a Bíblia.

Eu acho que as pessoas deveriam confrontar sempre o que dizem por aí, pelo rádio, pela televisão e pelos púlpitos dessas igrejas, com o que, verdadeiramente, se encontra no livro sagrado. A maioria desses pastores de rádio e de televisão vive fazendo proselitismo de igrejas que cujo Deus é o dinheiro. Abusam da fragilidade humana para persuadir pessoas humildes. Montam uma programação como se armam uma arapuca, dizendo que são missionários do Cristo, quando na verdade são os mercenários do Cristo. Auto se intitulam com poder de cura, de salvação e outras baboseiras mais quando, na verdade, são eméritos exploradores e pecadores que não curam coisa nenhuma.
Infelizmente, muitas igrejas tornaram-se bem parecidas com a antiga Igreja Romana que usava das indulgências como fonte de lucro induzindo fieis a contribuírem por medo da maldição, a comprarem a sua salvação do inferno e do purgatório.

O cristão não é obrigado a dar o dízimo. Mas ele deve sim, contribuir feliz por saber que pode fazê-lo por amor a Deus e do jeito que propuser o seu coração. Contribuir pela graça e não pela coação psicológica e doutrinária, utilizadas por líderes de igrejas, através de versículos da lei judaica. Portanto, não existe nenhum versículo, no Novo Testamento, que registra a obrigatoriedade do cristão dizimar.
.

Fazem uma lavagem cerebral religiosa porque o dízimo é a galinha dos ovos de ouro que proporciona aos inescrupulosos, estabilidade financeira e poder como se fossem os donos da fé vendida a altos preços para os fieis. Deus de nada necessita, pois é o dono de todas as coisas. Nem é servido por mãos de humanos.

A cruz, símbolo maior da cristandade, pouco a pouco, vai se afastando de Cristo e já se torna objeto de decoração ou de enfeite. O estar ou não estar exposta, numa repartição, seja pública ou privada, não está mais fazendo o efeito de outrora. Infelizmente, trata-se de uma cruz desprovida do sentimento cristão. Uma cruz que já não atinge quase ninguém.

Concluindo a minha reflexão: eu sinto que a lição que Jesus Cristo nos deixou está deturpada. E eu pergunto: Por que essas pessoas que se dizem portadoras de poder para curar querem fazê-lo diante das câmaras de uma televisão? Ou no púlpito de suas igrejas?
Se essas pessoas que se dizem munidas do poder de cura, curassem realmente ou se fossem, verdadeiramente, seguidores do Evangelho de Cristo, naturalmente, iriam lembrar que Jesus disse em Mateus 10.8: Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; dai de graça o que de graça recebestes.
É lamentável esta exploração que estamos vendo por todos os cantos...

Armando Melo de Castro
Candeiasmg. blogspot.com
Candeias MG
Nota do Autor:
Apesar de raras, muito raras, existem instituições religiosas sérias e merecedoras de respeito. Por si sabem quem são e não se farão incluir
na filosofia deste texto.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O PINTO DO GALO




O sábado sempre foi para mim o dia preferido para satisfazer integralmente o meu apetite. Um churrasquinho; um feijão-tropeiro; um franguinho... Enfim, gosto de sair da rotina da semana. Hoje, sábado, amanheci instigado a comer alguma coisa muito gostosa. E pensei logo numa galinhada bem suculenta, daquelas com galinha caipira --- uma caipirinha ou uma cervejinha acompanhada de uma boa dose da cachaça “João Cassiano”. --- Só de pensar nisso, me sinto arrepiado de desejo. Posso imaginar até um outro tipo de orgasmo: O orgasmo alimentar. E nesse acme me aparece uma lembrança “empata fome” dizendo que eu não posso comer isso.

Não porque esteja doente ou o delicioso manjar brasileiro me faça mal. Não. Acontece que eu tomei a decisão de fazer uma dieta e para quem está fazendo dieta a galinhada não é recomendada.

Não existe um sacrifício maior do que seja fazer dieta. Pelo amor de Deus! Parece que quando estamos de dieta pensamos mais em comida do que nas outras coisas. O paladar fica mais aguçado e os olhos ficam iguais a olhos de menino: vê tudo que é de comer.
Eu não estou fazendo dieta porque estou em busca de uma delgadeza para o meu corpo e nem uma boniteza para o meu rosto. Eu estou apenas procurando um buraco para jogar uns quilos fora porque do jeito que vem vindo comigo, eu vou acabar é me transformando num capado de chiqueiro. Para quem não sabe, o capado de chiqueiro é aquele porco que quando já cevado, pesa uma dúzia de arrobas e até o seu rabo tem gordura.

Na sala de casa, está colocado um espelho. E eu me vejo o dia todo durante o vai-e-vem. A camisa saindo de dentro das calças... Os braços querendo levantar voo. As calças apertando tudo. Um verdadeiro protótipo de sapo-boi. Cortar uma unha do pé e calçar um sapato é um martírio. O resto, quem entende sabe do que estou falando...

Portanto, resolvi passar uma efêmera fome. Jogar fora um pouco desse unto, que deveras muito me incomoda. De quando em vez, eu faço isso. Mas, com certeza, é uma coisa difícil. Meu Deus! Como é difícil. Afinal, comer é uma das maravilhas da vida.

E como eu dizia, o dia hoje estaria apropriado para comer uma galinhada bem chorumenta e depois ficar quietinho dentro de casa; curtindo a “cheiura” e agradecendo a Deus. Mas, como eu não pretendo quebrar o meu jejum, contentar-me-ei com um pouco de salada e três ovos cozidos, daqueles da gema bem amarelinha... Afinal, estão dizendo por ai que ovo não faz mal mais. Prefiro acreditar, pois assim vou ter a sensação de que vou comer três galinhas.


Quando falo em ovo da gema bem amarelinha, penso em galinha. E ao pensar em galinha, faço-me lembrar de uma história que se encontra bem funda nas minhas lembranças.
Eu tinha, mais ou menos, uns oito anos de idade quando o miolo da minha caixa craniana fermentou-se tal qual um líquido numa pipa mostífera.
Eu estaria impressionado com a forma de reprodução das galinhas.
Já teria tomado conhecimento de como a gente chegava ao mundo. Meu pai cuidadosamente teria me contado. E como o seu vocabulário era bem no coloquial e sem rodeios, essa mania de substituir o espermatozóide por sementinha não era do seu feitio - (Acho isso uma incongruência) – Portanto, aos oito anos de idade, eu já teria tomado conhecimento como fui parar na barriga da minha mãe.
Zé Delminda, meu pai, um filho criado sem mãe e que teve apenas três meses de escola, chegou a ser professor da Prefeitura, na zona rural, e ensinou-me coisas que as escolas e os pais não ousavam ensinar. As crianças e adolescentes, na sua maioria, viviam de curiosidade e a rua era a escola da vida.
Mas, voltando à reprodução da galinha, eu perguntei ao meu pai como que o pinto saia da barriga da galinha. Foi quando ele me disse que o pinto não saia da barriga e sim do ovo. E, por mais que ele me explicasse, não conseguia entender.
A minha tia, que morava ao nosso lado, criava galinhas. E essas tinham os seus ninhos, bem nos fundos do quintal. E eu sempre estava por perto estudando as suas vidas. E por mais que eu tentasse entender o modo de procriação desses animais, estava muito difícil para eu associar a diferença entre um mamífero e uma ave.
Encontrava-me totalmente perdido e muito curioso. Mesmo porque, o meu pai me explicou direito como eu teria nascido. Como nasce um bezerro ou um cavalo. O gato e o cachorro. Mas, a galinha eu não sei se por falta de paciência, ou por falta de palavras adequadas, ele não teria me convencido de como era o processo da reprodução através dos ovos.

O galinheiro de tia Eliza virava um frege quando botavam um ovo. Cacarejavam como se houvesse botado um asteróide. Aquilo parecia uma grande festa pelo nascimento de um filho. Mas, eu não tinha visto o processo de incubação. Como que um pinto saia do ovo se eu via sair era uma gema amarelinha dos ovos que minha mãe fritava?
Certo dia, fiquei horas e horas, de tocaia sobre um ninho para ver como o ovo saia de dentro da galinha. E vi! Vi tudo, inclusive o sofrimento da pobre ave. Roubei-lhe o ovo e o quebrei para ver se saia um pinto. Mas, que nada!
Minha tia orientou-me dizendo que posteriormente a galinha iria chocar os ovos ficando dia e noite sobre eles durante vinte e um dias. Aquele negócio da galinha ficar durante dias sobre os ovos fez a minha cabeça rodopiar. Parece que os meninos de antes eram mais curiosos e menos inteligentes.

O meu projeto de descobrir como aqueles ovos poderiam se transformar em pintos deixou-me aguardando com ansiedade o dia em que a minha tia fosse colocar uma galinha para chocar. E essa hora chegou.
Todos os dias, assim que eu vinha da escola, corria para visitar a choca que estava lá inerte sobre os ovos.
Um belo dia, quando cheguei para ver a minha amiga mamãe-galinha, lá estava o ninho vazio, com apenas as cascas dos ovos. Dali por perto estava a carijó ciscando e tendo em volta os seus filhotes recém-nascidos.
Aquele momento, com certeza, terá sido um momento feliz da minha vida.
Passava horas pastoreando a galinha com os seus pintos.
Aos domingos era dia do frango com macarronada. Quem o matava era a minha avó, pois minha mãe tinha dó de fazê-lo. E neste momento, quando o pobre galináceo se estrebuchava para morrer, eu já o apalpava para examiná-lo, pois uma incógnita ainda mexia com os meus neurônios. Fiquei observando com a maior atenção a minha mãe depenar, sapecar, lavar e desventrar o frango, já quase galo.
Ansioso eu aguardo a chegada do meu pai para me dar a resposta que iria satisfazer a mais funda das minhas curiosidades:
Pai, como que o galo faz pinto se ele não tem pinto!?


E meu pai rindo, satisfeito por ver-me interessado num assunto macho, responde:
“Vamos lá fora. Eu vou explicar tudo pra você.”Ouvi quando minha mãe bradou!
“Ê Zé! Cê vai acabar deixando esse menino perdido!”



Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias-Minas Gerais

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O DEFUNTO ABANDONADO




O que há de mais interessante é que dentre todas as referencias feitas às estações ferroviárias da região, a de Candeias teria sido acrescida de um realce bem pessoal, por parte do Sr. Edson Teixeira, residente na cidade de Caraguatatuba-SP - e que, naturalmente, teria feito contato com o autor do site. O Sr. Edson Teixeira, é candeense, filho do Edinho do Dorfinho da Doca (Família Chagas) e da Rosa, do Vico Teixeira e Sra. Laura Barreto. Há cerca de três anos, mais ou menos, esteve estabelecido com um restaurante, em Candeias, na Avenida 17 de dezembro, em frente a sua tia Luzia. Leva o nome do seu pai, Edson Teixeira Chagas, já falecido e muito lembrado pelos candeenses mais antigos. A iniciativa do nosso conterrâneo, de registrar a sua mensagem no mencionado site da Internet, falando das suas saudades do tempo de criança em Candeias, é, realmente, de um gesto meritório e digno de aclamação dos candeenses saudosistas.
Experimento junto do Sr. Edson, essas lembranças que vivem bem guardadas nos cofres da minha memória. E diante dessa saudade, relembro, também, a velha estação ferroviária de Candeias, há muitos anos, quando eu ainda era criança... Tempo em que Candeias representava todo o meu mundo e minha imaginação me conservava ali, pensando que seria como uma fruta que cai-de-madura, sobre as sombras e raízes do seu pé. Todavia, o destino mudou a minha rota, mas eu trouxe comigo as lembranças para hoje sentir uma saudade feliz. ------- Saudade! um sentimento estranho para mim quando ainda criança...
Vejo-me, portanto, entrando pela primeira vez na estação ferroviária de Candeias। O meu coração batendo forte, de tal forma, que se não fosse eu um menino, talvez, esse teria saído pela boca... Aquela aglomeração... Pessoas falando alto... Outros contando histórias... E alguém dizendo: o trem está atrasado... E eu desesperado perguntando ao meu pai: por que o trem está atrasado? --- Meu pai respondendo que aquilo era normal... Começa a fermentar no meu cérebro todas as historias de trens que eu já teria ouvido। Enquanto meu pai conversava com um amigo a minha imaginação estava a todo vapor. Ouvira dizer que dentro dos trens havia restaurante com cozinha e tudo; camas para dormir e até uma privada... Ouvira dizer, também, que o combustível da máquina era água e fogo... E essa se locomovia com vapor. Aquelas idéias me deixavam atordoado... Pelo fato de morar do outro lado da cidade, eu nunca teria visto um trem de perto. Estava acostumado a ouvir o apito muito familiar das marias-fumaça que trafegavam dia e noite levando e buscando gente e mercadorias...
E meu cérebro continuava fermentando: Daí a pouco eu iria conhecer esse trem... Ia ver uma cozinha se locomover... Um restaurante... Um quarto de dormir... Uma privada... E como seria essa privada dentro do trem!? Quanto mais o trem demorava, mais o meu cérebro fermentava.
Finalmente chega aquele monstro negro jogando fumaça e vapor por todos os lados। Os passageiros até então acalmados agora se agitam... Entram, falam, despedem-se. Ouve-se o soar de um sino. Trata-se do sinal para a partida do trem. Eu não ouvira ainda, um sino bater fora da igreja... Acho aquilo interessante... Ouve-se um apito. Aquele apito familiar da maria-fumaça já conhecido à distância, agora ali perto de mim. O trem vai saindo vagarosamente me levando cheio de uma felicidade indescritível... Vejo pessoas estranhas; vou olhando para todos os lados; procuro com os olhos cheios de curiosidade a cozinha... ------- E as camas? Onde estariam as camas? E a privada? Onde seria essa privada!?

Perguntei ao meu pai: Onde estão? E meu pai sorrindo responde: Aqui só tem a privada. As outras coisas só no trem da noite e que se chama noturno. Este trem é do dia e é chamado de misto. Com essa resposta a minha felicidade tomou um empurro... Mas não me abati. A curiosidade, agora, se concentrava no desejo de conhecer a tal privada... Desejei, para isso, a vontade de fazer xixi. Poder fazer xixi!... Cocô dentro do trem?! Como seria isso?!
De repente alguém próximo disse: vou até à latrina. E eu no auge da minha curiosidade pergunto ao pai: o que é latrina? Fico sabendo tratar-se da privada. Sinto inveja daquele rapazinho que se dirige até a uma portinha num canto do vagão e entra. A minha curiosidade foi tanta que meu pai se propôs levar-me a conhecer aquele gabinete.
Nesse dia eu fui conhecer a cidade de Formiga, numa visita que meu pai fez a um compadre seu. E eu torcendo para que a viagem de volta pudesse vir a ser de noite... Mas não foi. Portanto, não foi dessa vez que pude ver algo além da privada. Acredito ter sido um dos dias mais felizes de minha vida... Pois não bastaram as emoções de conhecer o trem, viria, também, a emoção de conhecer uma cidade grande, bem maior do que Candeias.
A partir daí o meu convívio com os trens se tornou rotineiro। A estação de Candeias era bastante movimentada. Quase nada entrava na cidade ou saia a não ser via trem de ferro. O meio de transporte rodoviário era então, muito atrasado. Os ônibus se limitavam em pequenas jardineiras e era um transporte caro. E os caminhões em número muito reduzido. Comumente ouvia-se dizer: viajar de trem é bom... É confortável... Parece que o povo daquele tempo não tinha muita pressa para chegar ao destino... Era um povo mais calmo e não se irritava com os atrasos constantes dos trens. Não criticavam com veemência, as deficiências da ferrovia... E as viagens, mesmo de negócios, eram transformadas em passeios... ---- Estarei certo ou fortuitamente enganado? Ou quem sabe a ingenuidade de criança ainda perdura em mim?
Junto à estação localizava-se a máquina de limpar café e um grande armazém de depósito. Muitos trabalhadores circulavam por lá trabalhando o café। Uma sirena de som estridente levava a todos os cantos da cidade a marca dos horários de trabalho. Um motor a óleo bastante barulhento quebrava o silêncio do largo da estação. Havia, sempre, vagões estacionados no pátio da estação carregando ou descarregando. Agentes, conferentes, guarda-chaves, pra lá e pra cá, trajados com o fardamento da ferrovia, davam vida naquele ambiente hoje morto. De frente, estava a máquina de limpar arroz, bastante movimentada, beneficiando o arroz produzido no município. Manipulando esta máquina estava o amigo João do Sô Nico, músico sempre ativo, da Banda de Música.
A chegada do trem de passageiros dá um clima de festa। A estação era ponto turístico onde até casais de namorados iam ver o trem chegar e sair. Os carroceiros apostos, entre eles, Juca Cordeiro, Arlindo Barrilinho, Serafim e outros, se movimentavam para pegar as mercadorias que chegavam. Os carregadores de malas abordavam os passageiros e principalmente os caixeiros-viajantes, cujas gorjetas eram polpudas. Logo após, a Rua Coronel Marques, ou melhor, a Rua da Estação, aliás, a primeira Rua de Candeias a receber calçamento; parecia uma maratona... Pessoas que desciam e depois subiam para ganhar o centro da cidade. Subindo o morro ia o Joaquim Estafeta com aquele baita saco cheio de cartas sendo levado para a agencia do correio. Os telegramas eram recebidos e transmitidos através da Estação Ferroviária. O correio não tinha telegrafo nessa época.
Posteriormente as marias-fumaça foram substituídas pelas grandes locomotivas movidas a óleo diesel; e os comboios agora maiores ficaram restritos em seus horários. Pois apenas uma locomotiva levava a carga de três marias-fumaça...
Há um tempo passado, eu estive lá remoendo esses quadros de minha infância। Vendo aquele local deserto, sem uma pessoa, ali, naquele momento, senti uma saudade danada daquele dia em que fiz a minha primeira viagem de trem e estive tão feliz naquela plataforma cheia de gente e agora completamente vazia. E ao me retirar daquele local avistei a única fonte remanescente do ruído de outrora. Afrontando o tempo, apenas um pouco arredada do seu antigo lugar, está à máquina de beneficiar arroz. Um pouco mais preguiçosa, mas ainda tendo ao seu derredor a figura do amigo, João do Sô Nico*, que, talvez, como eu, guardando dentro de si os quadros veneráveis daquela estação e os apitos da Maria-fumaça, subindo e descendo... Buscando e levando a vida da cidade. Seria inútil tentar arrancar de mim essas lembranças doloridas. Elas entraram pelo cérebro, desceram ao coração e lá se acomodaram.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.