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sábado, 11 de dezembro de 2010

O PINTO DO GALO




O sábado sempre foi para mim o dia preferido para satisfazer integralmente o meu apetite. Um churrasquinho; um feijão-tropeiro; um franguinho... Enfim, gosto de sair da rotina da semana. Hoje, sábado, amanheci instigado a comer alguma coisa muito gostosa. E pensei logo numa galinhada bem suculenta, daquelas com galinha caipira --- uma caipirinha ou uma cervejinha acompanhada de uma boa dose da cachaça “João Cassiano”. --- Só de pensar nisso, me sinto arrepiado de desejo. Posso imaginar até um outro tipo de orgasmo: O orgasmo alimentar. E nesse acme me aparece uma lembrança “empata fome” dizendo que eu não posso comer isso.

Não porque esteja doente ou o delicioso manjar brasileiro me faça mal. Não. Acontece que eu tomei a decisão de fazer uma dieta e para quem está fazendo dieta a galinhada não é recomendada.

Não existe um sacrifício maior do que seja fazer dieta. Pelo amor de Deus! Parece que quando estamos de dieta pensamos mais em comida do que nas outras coisas. O paladar fica mais aguçado e os olhos ficam iguais a olhos de menino: vê tudo que é de comer.
Eu não estou fazendo dieta porque estou em busca de uma delgadeza para o meu corpo e nem uma boniteza para o meu rosto. Eu estou apenas procurando um buraco para jogar uns quilos fora porque do jeito que vem vindo comigo, eu vou acabar é me transformando num capado de chiqueiro. Para quem não sabe, o capado de chiqueiro é aquele porco que quando já cevado, pesa uma dúzia de arrobas e até o seu rabo tem gordura.

Na sala de casa, está colocado um espelho. E eu me vejo o dia todo durante o vai-e-vem. A camisa saindo de dentro das calças... Os braços querendo levantar voo. As calças apertando tudo. Um verdadeiro protótipo de sapo-boi. Cortar uma unha do pé e calçar um sapato é um martírio. O resto, quem entende sabe do que estou falando...

Portanto, resolvi passar uma efêmera fome. Jogar fora um pouco desse unto, que deveras muito me incomoda. De quando em vez, eu faço isso. Mas, com certeza, é uma coisa difícil. Meu Deus! Como é difícil. Afinal, comer é uma das maravilhas da vida.

E como eu dizia, o dia hoje estaria apropriado para comer uma galinhada bem chorumenta e depois ficar quietinho dentro de casa; curtindo a “cheiura” e agradecendo a Deus. Mas, como eu não pretendo quebrar o meu jejum, contentar-me-ei com um pouco de salada e três ovos cozidos, daqueles da gema bem amarelinha... Afinal, estão dizendo por ai que ovo não faz mal mais. Prefiro acreditar, pois assim vou ter a sensação de que vou comer três galinhas.


Quando falo em ovo da gema bem amarelinha, penso em galinha. E ao pensar em galinha, faço-me lembrar de uma história que se encontra bem funda nas minhas lembranças.
Eu tinha, mais ou menos, uns oito anos de idade quando o miolo da minha caixa craniana fermentou-se tal qual um líquido numa pipa mostífera.
Eu estaria impressionado com a forma de reprodução das galinhas.
Já teria tomado conhecimento de como a gente chegava ao mundo. Meu pai cuidadosamente teria me contado. E como o seu vocabulário era bem no coloquial e sem rodeios, essa mania de substituir o espermatozóide por sementinha não era do seu feitio - (Acho isso uma incongruência) – Portanto, aos oito anos de idade, eu já teria tomado conhecimento como fui parar na barriga da minha mãe.
Zé Delminda, meu pai, um filho criado sem mãe e que teve apenas três meses de escola, chegou a ser professor da Prefeitura, na zona rural, e ensinou-me coisas que as escolas e os pais não ousavam ensinar. As crianças e adolescentes, na sua maioria, viviam de curiosidade e a rua era a escola da vida.
Mas, voltando à reprodução da galinha, eu perguntei ao meu pai como que o pinto saia da barriga da galinha. Foi quando ele me disse que o pinto não saia da barriga e sim do ovo. E, por mais que ele me explicasse, não conseguia entender.
A minha tia, que morava ao nosso lado, criava galinhas. E essas tinham os seus ninhos, bem nos fundos do quintal. E eu sempre estava por perto estudando as suas vidas. E por mais que eu tentasse entender o modo de procriação desses animais, estava muito difícil para eu associar a diferença entre um mamífero e uma ave.
Encontrava-me totalmente perdido e muito curioso. Mesmo porque, o meu pai me explicou direito como eu teria nascido. Como nasce um bezerro ou um cavalo. O gato e o cachorro. Mas, a galinha eu não sei se por falta de paciência, ou por falta de palavras adequadas, ele não teria me convencido de como era o processo da reprodução através dos ovos.

O galinheiro de tia Eliza virava um frege quando botavam um ovo. Cacarejavam como se houvesse botado um asteróide. Aquilo parecia uma grande festa pelo nascimento de um filho. Mas, eu não tinha visto o processo de incubação. Como que um pinto saia do ovo se eu via sair era uma gema amarelinha dos ovos que minha mãe fritava?
Certo dia, fiquei horas e horas, de tocaia sobre um ninho para ver como o ovo saia de dentro da galinha. E vi! Vi tudo, inclusive o sofrimento da pobre ave. Roubei-lhe o ovo e o quebrei para ver se saia um pinto. Mas, que nada!
Minha tia orientou-me dizendo que posteriormente a galinha iria chocar os ovos ficando dia e noite sobre eles durante vinte e um dias. Aquele negócio da galinha ficar durante dias sobre os ovos fez a minha cabeça rodopiar. Parece que os meninos de antes eram mais curiosos e menos inteligentes.

O meu projeto de descobrir como aqueles ovos poderiam se transformar em pintos deixou-me aguardando com ansiedade o dia em que a minha tia fosse colocar uma galinha para chocar. E essa hora chegou.
Todos os dias, assim que eu vinha da escola, corria para visitar a choca que estava lá inerte sobre os ovos.
Um belo dia, quando cheguei para ver a minha amiga mamãe-galinha, lá estava o ninho vazio, com apenas as cascas dos ovos. Dali por perto estava a carijó ciscando e tendo em volta os seus filhotes recém-nascidos.
Aquele momento, com certeza, terá sido um momento feliz da minha vida.
Passava horas pastoreando a galinha com os seus pintos.
Aos domingos era dia do frango com macarronada. Quem o matava era a minha avó, pois minha mãe tinha dó de fazê-lo. E neste momento, quando o pobre galináceo se estrebuchava para morrer, eu já o apalpava para examiná-lo, pois uma incógnita ainda mexia com os meus neurônios. Fiquei observando com a maior atenção a minha mãe depenar, sapecar, lavar e desventrar o frango, já quase galo.
Ansioso eu aguardo a chegada do meu pai para me dar a resposta que iria satisfazer a mais funda das minhas curiosidades:
Pai, como que o galo faz pinto se ele não tem pinto!?


E meu pai rindo, satisfeito por ver-me interessado num assunto macho, responde:
“Vamos lá fora. Eu vou explicar tudo pra você.”Ouvi quando minha mãe bradou!
“Ê Zé! Cê vai acabar deixando esse menino perdido!”



Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias-Minas Gerais

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