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terça-feira, 27 de setembro de 2011

OS GATOS NO TELHADO (Primeira Parte)


Primeira parte:


  A Praça Antonio Furtado, situada na zona leste da nossa cidade, já foi palco de grandes concentrações nos tempos em que não havia um banco e nem uma árvore. Na época das chuvas, o mato crescia e servia de pasto para os animais dos carroceiros. Uma enorme área na qual eram armados os chamados circos de cavalinhos, touradas, barracas de ciganos, camelôs e caminhões vendendo produtos de todos os tipos. Ali, estacionavam os mais variados itinerantes. Além disso, era onde a meninada concentrava os diversos times de futebol de rua. Era muito gostoso assistir a uma partida de futebol entre aqueles times de várzea que, inclusive, tinham torcidas, cartolas e muita briga. Eu, por exemplo, não jogava bola, mas, torcia pelo time do Antônio do Arlindo Barrilinho, o sacristão do Monsenhor Castro. Tinha um jogador, Ratinho, seu irmão, que era tão bom que se o Neymar o visse jogar iria ficar meio acanhado. Ratinho era um corrupio entre os meninos maiores e o seu time tinha a maior torcida por causa dele.
Interessante que hoje, com essas escolinhas de futebol, parece que a descoberta de grandes jogadores diminuiu-se. Subentende-se que a várzea vai se acabando e com ela a facilidade de descobrir grandes talentos. Isso porque a criança, ao desenvolver o seu futebol, não tem liberdade. Bem, isso é apenas uma opinião minha. Digo isso porque Candeias, como outras cidades, teve jogadores de futebol que se estivessem hoje, no cenário futebolístico, estariam ricos. Aliás, no passado, tivemos grandes jogadores profissionais que não tiveram interesse em continuar porque não ganhavam quase nada e era comum o jogador profissional acabar na miséria. Não havia essa conotação existente nos dias de hoje sobre o futebol.


Dos jogadores profissionais candeenses de que tenho conhecimento teve o Bigode, um barbeiro falecido que jogou no Rio de Janeiro, no time do Flamengo. Passou no teste, mas, não quis continuar. Abandonou o seu contrato e perdeu o direito de jogar em quaisquer outros times profissionais. O Evérton do Alonso foi um goleiro com capacidade e perfil para qualquer grande time do Brasil. Não me lembro em que localidade jogou, mas, com toda a certeza, foi jogador profissional. Tivemos, também, o Nenzinho do Torquato. Talvez, um dos maiores jogadores nascidos em Candeias e que poderia ter sido um grande ídolo do futebol brasileiro. Outro grande jogador foi o Passarinho, do meu querido Rio Branco, que ganhava para enxertar times nas diversas cidades da região. Ele ganhava por cachê. Já mais recentemente, e ainda entre nós, o Danilo do João Surdo, grande goleiro que jogou muito tempo no Formiga E.C., quando este clube ainda se encontrava no seu apogeu. Danilo foi um grande goleiro e viveu do futebol durante muito tempo. Esses são os exemplos que me vêem à memória e que marcaram presença no futebol candeense. Portanto, considero que a Praça Antonio Furtado foi um recanto de completo lazer e que atendia toda a cidade.
Eu não sei o que se passa na cabeça dos prefeitos de Candeias. Sai um, entra outro e parece que esses representantes do nosso povo nunca saíram de Candeias para ver o que existe de bom e que pode ser trazido para a nossa cidade. A Praça Antônio Furtado, no passado, serviu muito mais do que nos dias atuais. Encheram-na de bancos e árvores. Silenciaram-na, pois, é uma praça morta cujos bancos ficam vazios sem nenhum filho de Deus a usá-los. Ali, poderia ter sido edificado um centro de convenções, o que seria mais barato do que a construção de uma praça que não atende a ninguém. Isso poderia ter sido feito ou ainda pode ser feito, sem prejuízo ao meio ambiente. Até parece que existe uma lei para construção obrigatória de praças em Candeias. Certa vez, eu as contei e, se não me falha a memória, existem umas trinta praças para uma cidade de 15.000 habitantes, onde, durante a semana, essa população durante o dia está trabalhando e durante à noite está assistindo às novelas. Nos fins de semana, ficam pelas roças ou assistindo aos programas do Faustão ou do Gugu. Portanto, quase ninguém para usufruir de tantas praças. Para um evento qualquer, não existe uma área específica. Na praça principal da cidade, furam-se buracos, por toda parte. Fazem até curral de gado, palanque de carnaval, quase todos dentro das igrejas. Parece que acham bonita essa bagunça de frente à Prefeitura ou no adro da igreja Matriz. Isso é falta de sensibilidade ou, então, é apoio a uma política populista para fomentar a popularidade pessoal.


Acho que os próximos candidatos à Prefeitura de Candeias poderiam pensar na construção de um centro de convenções na cidade, como também, na definição de um local adequado e decente para a armação dos itinerantes. Afinal, um parque de diversões e um circo fazem parte da cultura do nosso país e se tornaram tão minguados, com o advento da televisão, que seria um despropósito, diante dos interesses comuns, colaborarmos com a extinção dessas visitas em nossa cidade.


Continua na próxima edição.




Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

NA ESCURIDÃO DA RIBALTA




Wilsa Carla, atriz, teve uma carreira ativa na década de 50, 60 e 70. Sua trajetória artística foi cheia de altos e baixos. Nasceu em Niterói, Estado do Rio de Janeiro. Foi rainha do carnaval carioca, vedete das mais famosas do teatro rebolado quando este era uma grande atração nacional. Atriz de cinema que pnaarticipou de mais de cinquenta filmes. Fez teatro e novela. Atuou na Rede Manchete, Rede Record e Rede Globo de Televisão. Participante, no SBT, do Programa Sílvio Santos, por muito tempo. Era neta de um dos governadores do Rio de Janeiro e teve uma relação íntima com o Presidente Getúlio Vargas. Foi uma mulher linda quando jovem e atriz respeitada quando levada a sério pela sua cultura e o seu meio aristocrático. Infelizmente, Wilsa Carla deu um rumo diferente em sua carreira, passando a fazer uma arte deturpada.

Wilsa Carla morreu, aos 75 anos, esquecida, amargurada e pobre. Morando de favor e vivendo com a quantia de um salário mínimo. A última vez que a vi no programa da Rede TVfoi em um quadro estarrecedor. Jamais a teria conhecido se não tivesse sido anunciada. Ela, em uma cadeira de rodas, dizia que o seu único desejo era voltar a trabalhar e ser querida pelo público como fora outrora. Mas, infelizmente isso não lhe foi possível.

Geisa Celeste , outra cantora brasileira famosa, natural da cidade de Sacramento/MG, teve uma carreira de sucesso formando dupla com sua irmã Diva. O Duo Irmãs Celeste foi um grande sucesso nacional com os seus boleros apaixonados, na década de 60. Lembro-me de que, nos parques de diversões, as suas músicas tocavam repetidamente. Com o casamento de Diva, Geysa prosseguiu na sua carreira fazendo grande sucesso, todavia, no exterior, mais precisamente, na Europa e na América do Sul, em especial na Argentina e no Chile, países em que era muito conhecida. Tinha uma voz singular que atraía os espectadores mais exigentes.

Geysa Celeste morreu, aos 72 anos, na cidade de Sorocaba, interior do Estado de São Paulo, de forma muito melancólica. Doente, totalmente esquecida, vivendo com a sua ínfima aposentadoria. Às vezes, era vista, de porta em porta, vendendo CDs caseiros extraídos dos seus diversos discos gravados por grandes gravadoras como Chantecler e RCA Victor e ainda sendo ajudada pelos seus pouquissimos amigos.




Geisa Celeste, uma das mais belas vozes do cancioneiro brasileiro.





Tinoco, da dupla caipira Tonico e Tinoco, fez sucesso por mais de meio século. Tonico faleceu depois de um tombo que levou à porta de seu apartamento em São Paulo. Não se sabe como estava a sua situação financeira. Tinoco, entretanto, chegou a colocar seu carro, um gol 1998, numa rifa para tratar da saúde de sua mulher. Pobre, idoso e doente, já com mais de noventa anos de idade e ainda cantava para ganhar a vida. Contudo, nesta idade, Tinoco não tinha mais como trabalhar. Seu corpo já não resistia a viagens e sua voz já não ajudava. Sua arte já não atraia a maioria do público.

                                            Tinoco                                                        

Pouco tempo antes de falecer recebeu ajuda de outros artistas sertanejos, inclusive de Roberto Carlos, para remediar a sua situação financeira.                 

Nelson Ned, figura anã do cenário artístico brasileiro, com apenas 1,12 m de altura, contudo, considerado o “O Pequeno Gigante da Canção”, natural da cidade de Ubá/MG, começou a fazer sucesso na década de 60. Teve grande cartaz como cantor e compositor, no Brasil e no exterior. Único cantor latino a vender mais de um milhão de discos nos Estados Unidos com apenas uma música. (Feliz Aniversário Amor). Foi, também, o latino a lotar, por quatro vezes, o Carnegie Hall de Nova York uma das mais famosas salas de espetáculos do mundo.  

Nelson Ned
  Sua música, “Tudo passará”, lhe rendeu muito dinheiro no Brasil e em outros países além de um vasto repertório romântico. Muitos cantores brasileiros e internacionais gravaram as suas músicas.

 Doente, pobre foi levado para o esquecimento, após ter se envolvido com drogas e uma vida irregular. Ganhou muito dinheiro, mas, quanto mais ganhava mais gastava. Já não suportando mais o peso do corpo sobre as pernas e cheio de problemas de saúde já não conseguia mais cantar. Sem dinheiro para um tratamento, teve que contar com a ajuda de seu amigo e condiscípulo, Agnaldo Timóteo, que junto aos seus amigos, recolheu dinheiro para ajudá-lo. Até a igreja evangélica que o acolheu, talvez, com a intenção de tê-lo como fonte de renda, o abandonou quando mais precisava. 

É muito difícil imaginar como será o fim da vida de um artista. Apesar de viver diante das emoções de uma ribalta ou de um palco iluminado, o artista é, na maioria dos casos, aquele cuja carreira está cheia de altos e baixos. Vive cantando a tristeza para uns e a alegria para outros. Encenando as mentiras e as verdades da vida humana. Sem dúvida vive, naturalmente, quase sempre, enganando a si mesmo.

O artista, outrora famoso e agora velho, doente e sem trabalho é uma pessoa que foi alegre e que ficou triste. Tornou-se desiludida e para o público que um dia o aplaudiu ele é, agora, um pobre coitado. Acaba sendo digno de piedade e, com certeza, ele percebe essa piedade como um dia percebeu os aplausos. Os artistas em baixa na mídia seguem dois rumos: um que alimenta a chance de voltar ao sucesso e o outro que sabe que jamais voltará. Um se torna infeliz e o outro acaba desmerecido porque não reconhece que o seu sucesso acabou. Mas, ambos vivem a mesma esperança; a esperança de um dia voltar a ser aplaudido mesmo sem saber como, mas, espera. O artista não desiste do aplauso porque sabe que, sem ele, é uma planta que se esturrica em um sol escaldante.

O artista, sem mercado de trabalho, se considera uma vítima dos injustos critérios que lhes tiraram de uma seleção, onde se lhe faz derrotado diante de alguém sem qualidade que atrai o público através do seu dinheiro dando o poder de comprar influências e chegar ao público. É como se lhe roubassem a fama e devolvessem-no para a platéia na qual não encontra mais lugar. Um artista sem trabalho chora às escuras, lágrimas de verdade porque não tem como chorar as lágrimas da ilusão diante das luzes do proscênio.

Não devemos nunca vaiar um artista sem platéia. Como também não devemos aplaudi-lo como esmola. Um artista fora de mercado é uma pessoa que sofre o castigo dos pecados que a fama lhe proporcionou. Sofre a solidão que lhe faz recordar e reviver todos os seus momentos de glória.

Infelizmente, há o artista que se esquece que um dia as luzes da ribalta que o ilumina vão se apagar e as cortinas que lhe abre, agora, serão fechadas para sempre e a sua platéia irá embora. É que será o início de um espetáculo real para o artista sem platéia, sem cortinas e sem ribalta. – Salvo as exceções.


Clique aqui para conhecer ou recordar Geisa Celeste


Armando Melo de Castro
Candeias mg Casos e Acasos








sábado, 17 de setembro de 2011

DIMAS O IMACULADO



Num dia desses, quando eu fazia umas compras em um supermercado, presenciei uma cena incomum. Uma cliente exigia da funcionária do caixa, R$ 0,01 (um centavo) de troco. A caixa, à vista daquele fato inusitado, de maneira hostil, falou que não tinha moedas de um centavo. A freguesa, irredutível, exigiu o seu troco no que a funcionária, uma vez mais, hostilizando a situação, tomou-se de uma moeda de R$0,05 (cinco centavos) alegando que ela (funcionária), uma pobre coitada, não faria questão de uma importância tão pequena e que lhe daria cinco vezes mais. Diante daquela controvérsia, a consumidora exigiu a presença do gerente da loja no local a fim de resolver aquela situação constrangedora por ter exigido o seu dinheiro como legítimo direito.
Vê-se que a fragilidade humana compra brigas por muito pouco. Apenas R$ 0,01 (um centavo) acabou criando um conflito entre duas pessoas em que estiveram juntos um grande erro e um acerto insignificante. Isso a meu ver merece uma reflexão.

Se o comerciante tem uma mercadoria de R$10,00 e a abaixa para R$ 9,99 para ludibriar a imaginação do freguês, é um direito do cliente receber o seu centavo. Parece não ser nada, contudo, é um valor e, mesmo sendo insignificante, o caixa de qualquer instituição tem que tê-lo para atender ao cliente reclamante. O fato de não dar o troco de R$ 0,01 (um centavo) para o freguês caracteriza um comportamento torpe. Isso porque R$ 9,99 não são $10,00. Não se pode omitir o direito do cidadão mesmo que esse direito custe apenas R$ 0,01 (um centavo). Para cada cabeça há uma sentença quando se trata da defesa de seus direitos. Se eu não faço questão de R$ 0,01 (um centavo), não me cabe o direito de querer que os demais o dispensem. Aquele que faz questão de tê-lo está correto.

Em uma estimativa para uma família de três pessoas isso representa, para o consumidor, um gasto a mais de R$18,00 por ano e o lucro de milhares de reais para os comerciantes. Esse negócio que o comércio inventou de usar os “99” centavos para tabelar os preços é uma imoralidade porque, além da tentativa de iludir o freguês, não devolve o troco de R$ 0,01 (um centavo) e se desculpa dizendo que essa moeda está fora do mercado.

O Banco Central do Brasil, realmente, deixou de suprir o mercado com essa moeda que tem um custo de R$ 0,10 (dez centavos) para ser produzida. Isso quer dizer que a cada moeda de R$ 0,01 (um centavo) dá-se R$ 0,09 (nove centavos) de prejuízo. Contudo, ainda existe, em circulação, mais de oito milhões de reais dessas moedas perdidas ou esquecidas, em algum porquinho de barro. Rodando é que elas não estão.

A meu ver, o problema maior não é o valor da moeda. É a falta de respeito ao freguês nessa desvirtuação de valores. Não vamos criar problemas por causa de R$ 0,01 (um centavo), pois, realmente, se trata de um valor pouco significativo, mas é um desaforo ao consumidor. Se a moeda está em falta, então se acaba com essa palhaçada de R$ 0,99 (noventa e nove centavos). Esse comportamento generalizado, desse jeito, no comércio brasileiro, é uma vergonha. A importância é ínfima, mas, a imoralidade é sem exemplo. Afinal, quem tira um centavo de real do consumidor, dessa maneira ilegal, não é uma pessoa 100% (cem por cento) correta. Isso porque está burlando um direito do cidadão. E burlar um direito do cidadão, seja ele qual for, merece ser enquadrado numa terminologia ampla para esse condenável feitio.

Mas, mudando o assunto de pedra para tijolo, quem gosta muito de moeda são as pessoas viciadas em jogo de bicho. Eu conheci um cidadão que se chamava Dimas, morava pelas bandas do Bairro da Gruta, aqui em Candeias, e a sua paixão era o jogo do bicho. Jogava todo santo dia, nas diversas formalidades desse jogo.

Trabalhava no campo. Contava, mais ou menos, com os seus quarenta anos. Chapéu de palha, barba meio crescida, cobrindo apenas os lábios e o queixo. Dentes escuros e um sorriso triste. Devia ser molenga na sua atividade, pois era mole até para falar. Assentava e ficava assegurando o rosto com a mão e com o braço suportado na mesa. Vestia sempre uma camisa de riscado e calças de brim grosso, surrados. Suas roupas traziam sempre um remendo de pano novo, contrariando o dito por Jesus Cristo, em Marcos 2/21-22: Ninguém cose um remendo de pano novo num vestido velho porque mesmo sendo um remendo novo leva parte do velho e fica maior a ruptura.

Era retraído. Conversava, mas, não olhava nos olhos do seu interlocutor. Estava sempre presente no antigo Bar e Restaurante Pinguim, do Lulu, onde eu trabalhava como empregado, quando rapazinho. O Pinguim ficava situado em uma casa velha onde hoje está o comércio de produtos rurais do Sr. José Alencar Ribeiro. O bar era bastante freqüentado e lá faziam paragens diversos cambistas do jogo do bicho. Dimas ali chegava todos os dias, por volta das cinco horas da tarde, e já me pedia para trocar uma nota em moedas miúdas para fazer os seus jogos no bicho, em quantias pequenas.
Isso explica a presença de Dimas, todas às tardes, naquele local. Era viciado no jogo do bicho. Quando falava em jogo do bicho ele se descontraía, falava, dava palpite, pedia palpite, etc. Parece até que sentia um orgasmo. Sabia o grupo, dezena, centena e milhar de qualquer bicho de forma instantânea. Fazia as mais engraçadas análises de sonhos. E as pessoas, para vê-lo falar, consultavam-no com o sentido de apreciar o seu jeito diferenciado e hilariante de palpitar. E os freqüentadores do Pinguim se deleitavam com a presença do inocente:

Um já perguntava:

---Ta esperando o que pra hoje, Dimas?

---Hoje, eu to esperando um cavalo. Vô pô tudo nele.

Vinha outro querendo saber:

---O que você espera para amanhã, Dimas?

---Pra manhã, eu quero uma cobra com 36.

---E o veado?

---Taí um bichinho que eu num sô muito chegado, não! Tem mais de um ano que eu num ponho nele. Eu fiquei iscardado, sô! Fiz uma progressão nele, punha nele todo dia e o danado num deu de jeito ninhum. Aí, eu larguei pra lá.

---E o cachorro?

---Bichinho safado, sô! Tava dano, quase todo dia. Eu puis nele e o danado num deu mais.

Dimas analisava, também, os sonhos que lhe apresentavam:
---Sonhei com um tatu o que vai dá, Dimas?
--- Pode pô tudo na cobra.
---Por que você acha que a cobra vai dar?
---Cobra é chegada num buraquinho de tatu..
---Sonhei com um homem gordo o que vai dá, Dimas?
--Pode pó tudo no touro?
---Por que touro?
---Home gordo é home erado igual touro...

E assim, Dimas ia respondendo a cada um com todo respeito e atenção. Não se ofendia com o sarcasmo da turma e sempre dava aquele seu sorrisozinho tristonho o que lhe era peculiar. Para todos ali, Dimas era um casto, era o símbolo da pureza, um homem imaculado que jamais teria se encostado numa mulher. Muitos seriam capazes de jurar que ele era “virgem” tendo em vista o seu jeito inocente de falar sobre o jogo do bicho.

Edmundo Simões era cambista e, certo dia, disse para os demais que teria arrumado um pedido de palpite para o Dimas para o qual ele não teria resposta:

---Dimas, eu tive um sonho muito estranho. Sonhei que você estava nu, nuzinho, numa cama com uma mulher nua também. Que bicho vai dar hoje?
---Uai, Dimundo, qui dia qui ocê sonhô isso? Responde assustado! Assustadíssimo.

---Foi na noite passada...
---Nossa!Tá certo! Tá certinho! Pode pó tudo na Ção Cazeca, era ela...Era ela qui tava cumigo... Quer dizeê, bão, quer dizê pode pó tudo na vaca...

Conceição Cazeca era uma mariposa do Zé Bolinha, dono do cabaré e Dimas, ao que tudo indica, estava bolinando a cabrita.

Casto, imaculado!? Bobo era todos nós que fazia hora com a cara do bobo.

É como dizia um caipira, lá de Formiga: É ruim, hein!Deus tá vendo!

Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A VISITA DE UM PORCO


    O   nosso corpo é um território que está sempre ameaçado de ser invadido pelo inimigo. Além da defesa natural do organismo, temos, também, as defesas artificiais isso porque, às vezes, é necessária uma intervenção externa mais rápida e eficiente como o soro, os antibióticos, a vacina, etc. A falta de higiene facilita a entrada de certos microrganismos em nosso corpo, como bactérias, protozoários, fungos, vermes e vírus, podendo nos causar doenças sérias. Além disso, a falta de bons hábitos de higiene faz com que exalemos um odor nada agradável. Portanto, para que possamos manter a saúde do nosso corpo e evitar a invasão desses inimigos no nosso território, é preciso que o mantenhamos higienizado.

Infelizmente, nem todas as pessoas se preocupam com esse conceito e nem trazem consigo essa preocupação fundamental na vida de cada um. Deparamos, diariamente, com a falta de higiene; seja nas residências, no comércio e na forma pessoal. Existem pessoas que se preocupam, demasiadamente, com a higiene dos filhos, com a casa, enfim, no lugar onde lotam, e, no entanto, se esquecem de si, do corpo, cuja higiene é tão importante para uma boa saúde. Ao contrário, há pessoas que se preocupam muito com a higiene pessoal e se esquecem de cuidar da higiene do seu meio.

Hoje, quando estive na sala, junto de minha mãe que assistia à novela, ouvi quando se falava de um personagem chamado Antenor. Esse nome trouxe à tona de minha memória um senhor tratado por Sô Antenor e que esteve morando, em uma curta temporada, na minha rua, nos tempos em que vivi na Rua Coronel João Afonso.

Sô Antenor teria vindo de fora, não me lembro de onde, pai de uma família que consistia em sua esposa, Dona Lalade, uma ninhada de cinco filhos, uma cunhada e a sogra de contrapeso. Sua esposa era uma mulher forte, sacudida, tinha uma voz meio rouca, um cabelo coberto por um lenço branco, pessoa atirada, boa de prosa e exageradamente asseada. Gostava de tudo limpo, a começar pelos terreiros. Detestava animais, principalmente, cachorros e gatos. Ela não suportava os excrementos desses bichos. Tinha pavor de baratas, formigas, ratos e outras pragas mais. Vivia jogando veneno no quintal, por debaixo das camas. Às vezes, era vista dando rabanadas com um pano, tentando matar as moscas. Tremia só de pensar na possibilidade de seu filho caçula pegar piolho na escola. Ela, para se prevenir dos piolhos, quase matava o filho aplicando-lhe, sobre os cabelos, um inseticida chamado Neocid.

Segundo o seu marido, quando os meninos estavam colocando a última garfada de comida na boca, ela já tomava do prato para lavá-lo. Tinha nojo de tudo. Não pegava na mão de ninguém. Enfim, uma mulher doente, com uma forte mania de limpeza.

Sô Antenor, homem calmo, tranquilo e que dava a entender que não era muito chegado ao batente. Gastava quase uma hora para fazer o seu cigarrinho de palha, conversava o tempo todo com as pessoas conhecidas e desconhecidas que passavam pela rua enquanto ele ficava assentado em um banco, à porta da casa. Era baixo, grosso, cabelo meio ruim, grisalho, rosto redondo, barba bem feita, botinas bem engraxadas, dentadura com meio dente de ouro e muito bem escovada. Contava seus sessenta e tantos anos. Não trabalhava, pois vivia de rendas que a venda de sua propriedade rural lhe proporcionava e tudo indicava não ser grandes coisas. Chegou a Candeias com o seguinte projeto: já teria emprestado parte do dinheiro a juros para um amigo e, com a sobra, iria abrir um açougue. Diziam-lhe que açougue dava muito dinheiro. Alguém havia lhe prometido, aqui em Candeias, na Prefeitura, um emprego para o terceiro filho. O segundo filho era uma mulher que já estava casada. O primogênito teria ido para São Paulo e arrumado um emprego na rodoviária, daquela cidade. O caçula poderia ajudá-lo no açougue e a cunhada poderia se virar trabalhando de doméstica ou lavando roupas para fora. A esposa cuidaria da casa com a ajuda da filha mais nova e a sogra, que já estava um caco, não teria o que fazer.

Infelizmente, os projetos de Sô Antenor furaram-se no lavrado. Os juros e o capital do dinheiro emprestado não apareciam. O açougue foi aberto em um antigo cômodo próprio para isso que existia na Rua Professor Portugal, de frente ao Restaurante do Vicentinho Vilela. Sem freguesia, sem experiência e sem coragem para trabalhar o açougue caminhava para a falência pois, ia sendo engolido pelo fiado e Sô Antenor não entendia de nada, nem de açougue e nem de comércio. A cunhada já teria brigado com a dona da primeira mala de roupa que lavou. O emprego na Prefeitura, para variar, não saiu. Agora, chegava a uma triste conclusão: vir para Candeias foi um tiro no pé.
A sogra do Sô Antenor, como não tinha o que fazer, vivia de casa em casa, na vizinhança. Era um tipo de repórter que levava e trazia notícias. Dessas pessoas que apenas sabe falar de gente e que tem a língua quente. Eu achava bom quando via Dona Joana chegar com as suas últimas notícias.

Certa vez, receberam a visita do sogro da filha casada que morava na cidade de Bambuí. Era viúvo e meio esquisito, quase careca, gordo, usando uns óculos de lentes “fundo-de-garrafa”. Uma dentadura solta que, ao falar, deixava os dentes dançando na boca. Metido a engraçado. Usava uma camiseta cavada. Tinha os sovacos muito peludos e molhados de suor. A camiseta para fora da calça deixava a mão livre para coçar as partes pudendas, onde as suas mãos passeavam, livremente, por dentro das calças largas. Falava grosso e estava sempre com um palito de fósforo no canto da boca. Essa visita, com certeza, foi do tipo “persona non grata”. O cidadão parecia que tinha uma sarna espalhada no corpo todo. Em questão de pouco tempo, ele achava, com os dedos das mãos, os nove buracos do corpo. Coçava aqui, coçava lá e era uma pessoa desassossegada.

Depois de retornar a sua cidade natal, recebemos, em nossa casa, a visita de Dona Joana, a sogra do Sô Antenor que fez os comentários detalhados sobre a estadia daquela visita indesejável, durante cinco dias. E, em um comentário com a minha avó, Olinda Gomide, eu registrei o seguinte diálogo:

--- Óia, Dona Olinda, num tem coisa mais triste no mundo do que uma visita porca na casa da gente. O Sogro da Ritinha, minha neta, veio com eles e quase matou nóis tudo de nojo. Principalmente, a coitadinha da minha filha, a Lalade. Ela não morreu porque Deus é pai. E eu quase morri de dó dela.

--- Mas, o que houve de tão grave assim, Dona Joana?

---Minha fia, a senhora nunca viu, no mundo, um home mais porco.

---Porco! Como assim? Não tomava banho?

---Se fosse só isso, tava bão! O pior era a porcariada que ele fazia na frente da gente, sem dar à mínima importança. Óia, ele enfiava a mão dentro das carças, coçava tudo, na frente e atrás, sem nem ligar de vergonha. Paricia que ia rancar as parte de baixo, tudo com a mão. O danado do home tinha uma coceira que eu nunca vi igual. Enfiava os dedos naquele subacão cabeludo que quase matava a gente de nojo. De noite, lá do meu quarto, eu iscutava os arroto do porcão. Dona Olinda! Eu num sei como que a Lalade num morreu. Eu quase morri de dó dela.

---Mas, o que é isso Dona Joana!?

---O que qué isso, Dona Olinda? Na hora da cumida, pegava tudo com a mão. Eu fritei uma pratada de biscoito e o atentado para comer um biscoito pegava neles tudo. Fiz pão de queijo e foi do mesmo jeito. E tinha mais! Limpava o nariz na barra da camiseta. E, dispois, ficava enfiando o dedão no nariz. A hora que ele entrava no banheiro é que a coisa ficava brava. Era uma raspação de guela que deixava a gente morrendo de nojo... Coitadinha da Lalade! Quase morria de nojera. E eu quase morria de dó dela.

---Foi uma situação bem difícil, né, Dona Joana!...

---Põe difícil nisso, Dona Olinda! O homem era tão porco, mas tão porco, que um dia a Lalade pegou o porco lavando a dentadura na pia da cozinha... Coitadinha da Lalade! Ela quase sofreu um trem e eu quase morri de dó dela.

---Que Deus me defenda de uma coisa dessas, Dona Joana!

---Nóis é tudo um povo muito asseado, Dona Olinda! Nóis toma banho direitinho. Há de havê água e sabão pra nóis! E aquele porco troxe uma imundiça que a gente num tinha como limpá! Coitadinha da Lalade! Ela quase morria por causa da lambança dele, e eu quase morria de dó dela.

---Coitadas!

Isso só pode ser um castigo que nóis recebeu. Na hora daquela peste ir embora, veio com aquela mãozona pegar na mão da gente. Eu, mais a Lalade, retraiu. Mais não é que o pamonha do meu genro pegou e ainda sacudiu aquela mão porca. A Lalade vendo aquele lambão pegá na mão do Antenor e abraça tamém, Dona Olinda. Coitadinha da Lalade! Agora ta com nojo da mão do Antenor... Ela tá desinfetando tudo dentro de casa. Graças a Deus que o diabo vortô pro seu inferno! Tadinha da Lalade! Ela quase morreu de nojo e eu quase morri de dó dela.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O RETRATO DA MORTE

                                              Foto apenas para ilustrar o texto.
   
Navegando pelas profundezas da minha memória, encontro-me com o dia em que tive o primeiro contato com a morte. Com certeza, foi o pior dia da minha alegre infância, eleito pelo meu coração. Até então, eu não teria conhecido e nem tido a noção do que seria a morte. Eram tantas as coisas boas para pensar que não me sobrara tempo para saber disso. Não aflorara, ainda, a minha curiosidade. E, felizmente, não me teria sido dada essa triste oportunidade.

Meu pai, nesse tempo, teria transferido-se, juntamente com toda a família, para a comunidade dos Arrudas, abrindo em nossa residência, uma pequena venda. ---- Dois meses depois, chega um mensageiro trazendo a triste notícia da morte fulminante de meu avô.

Tenho nítido, na lembrança, o momento quando cheguei a sua casa, nas proximidades da Praça Antônio Furtado, onde hoje se situa o Centro Espírita Bezerra de Menezes. Foi ele o meu avô materno, Calito, o primeiro morto que eu vi, falecido na década de 50 quando eu contava sete anos de idade.


Posso ouvir, através da memória, o momento de desespero de minha mãe abraçando o corpo sem vida de seu pai. Portanto, este foi o primeiro impacto que tive quando soube que o meu avô seria enterrado em buraco fundo e eu, que tanto o amava, nunca mais o veria.

Naquele cenário fúnebre, eu via o meu queridíssimo avô inerte, dentro de um caixão roxo, sobre uma mesa. Vestido com um terno amarelado com o qual eu sempre o via indo à missa aos domingos. Tinha os pés unidos, amarrados com um lenço branco. Outro lenço rodeava o seu rosto e prendia o queixo para mantê-lo com a boca fechada. Na cabeceira, sobre duas cadeiras, queimavam duas velas amarelas fazendo arder um cheiro de cera que se misturava ao perfume das flores contidas em uma jarra próxima. Minha avó e minha mãe assentadas, ao lado do caixão, derramavam as suas lágrimas enquanto recebiam os pêsames das pessoas que chegavam. E eu, ali, absorto. Talvez, fosse a primeira vez que a tristeza mexia comigo.

No corredor, o canário-do-reino cantarolava como se a casa estivesse em festa. Canário que, todas as manhãs, meu avô supria de alpiste, água, ovo cozido e uma pequena folha de couve. Então, perguntei a Deus: agora, quem vai dar de comer ao canário que hoje está cantando tanto? Talvez, esteja até pedindo comida e se sentindo meio esquecido...

E as minhas perguntas para Deus continuavam: E as galinhas? Quem irá tratá-las? Quem quebrará os cupins do fundo do quintal para lhes alegrar o apetite? E a minha cabritinha, criada no quintal, e que fora um presente seu comprado do Dionísio Passatempo, quem lhe dará capim para lhe matar a fome? E as minhas balas? Minhas bolachas? E a minha mãe a quem irá tomar a bênção?

Assim, naquele conflito emocional, nunca sentido antes, perguntei a mim mesmo obtendo logo a resposta: E minha avó? Quem lhe comprará comida para sua sobrevivência? Automaticamente, respondi: é meu pai. Teria que ser meu pai! E quem dormirá com ela? Seria eu, teria que ser eu porque ela não terá ninguém e nós moramos na roça e isso, felizmente, aconteceu. Durante anos, eu fui a sua companhia.

Eu tinha sete anos de idade e nunca havia pensado que o meu avô era velho e que me deixaria daquele jeito indo para um buraco fundo ao ser enterrado, assim, tão de repente! Aquilo era a morte. Uma coisa que eu não conhecia. Uma ladra que nos rouba as pessoas que amamos. A morte que dói sendo uma dor sem nome.

É chegada a hora da saída do enterro. Minha avó e minha mãe, aos prantos, vendo fechar o caixão, enquanto alguém apagava as duas velas. Aquela porção de gente levando o meu avô, dentro daquele caixão roxo. As pessoas se revezando no transporte do caixão, enquanto outros rezavam o terço. Eu gostaria tanto de poder, também, carregar o meu avô, mas eu era uma criança.

Segurando a mão do meu pai ia ali assustado, sentindo algo que nunca havia sentido. Eu buscava uma explicação através de perguntas que não tinham respostas. Por que morrer? Por que ser enterrado? Ao chegar ao cemitério assisti dois homens colocando o caixão dentro de um buraco fundo. Com enxada e pá, foram cobrindo, para sempre, alguém que era tão importante para mim.

Aquele foi o primeiro retrato da morte que ficou cravado no meu cérebro inocente. Eu estive triste, mas, não chorei. Naquele tempo, eu não tinha, ainda, lágrimas para chorar.

Algum tempo depois, acompanhando a minha avó, fomos ao cemitério rezar na cova do meu avô. Chamaram-me à atenção os túmulos. O Cemitério São Francisco tinha poucos túmulos e a maior parte eram covas. Perguntei a minha avó o que eram aquelas casinhas e ela me disse: ali se guardam os ricos.


Assim, pela primeira vez, em minha vida, eu tive vontade de ser rico, apenas para poder ver o meu avô guardado e não enterrado.

Armando Melo de Castro

candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais








sexta-feira, 2 de setembro de 2011

UMA ZEBRA NO CINEMA!


A vida de um adolescente é um negócio meio complicado. É uma sinonímia de insegurança, de descobertas e o encontro com o desconhecido. Mas, antigamente, era bem mais difícil. Hoje está mais facilitado. Atualmente, há mais dinheiro, mais escolas, mais intimidade. “Ficar”, hoje, nos termos dos adolescentes, é uma paquerinha, sem compromisso. Isso antes significava um ato sexual.

No passado a coisa era preta. Adolescente tinha uma cabeça que zoava o tempo todo pensando como seria o seu futuro, a sua vida amorosa. O mundo não tinha os recursos atuais. A sociedade era muito atrasada em todos os sentidos. O povo parecia ser mais tímido, acanhado, avexado... Os adolescentes de hoje são mais extrovertidos, mais afoitos.
Eu era muito bobo, portanto, fiquei muitos anos esperando a oportunidade de bolinar um sutiã recheado e passarinhar umas pernas grossas. Eu gostava de apreciar uma moça de pernas grossas.

Eu tinha uns dezessete anos quando meu pai me patrocinou um terno de linho para ser pago em dose meses, através de um consórcio do Chiquinho Alfaiate. Não existiam vendas à prestação em Candeias. Aconteciam eram esses consórcios.

O Chiquinho Alfaiate uniformizou uma quantidade enorme de gente na cidade. Isso porque fez o consórcio e as opções de cores eram poucas. E para muitos saiam à mesma cor. Na Igreja, era até bonito. Parecia uma irmandade. Boa parte dos fieis vestidos com a mesma cor. A maior parte era de cor cinza. E quem via sabia que era terno do consórcio do Chiquinho.

Ter um terno era um privilégio do proletariado: A gente não vestia essa roupa a não ser para ir à missa ou então em alguma festa muito importante. Como não havia festas importantes, tornava-se uma exclusividade da missa. Era o famoso “bate não quara”. Chegava a casa ia direto para o guarda roupa. Era um cuidado excessivo para que não o sujasse a fim de não ser muito lavado.

Ao me empanar naquele terno e me olhar no espelho, apaixonei-me comigo mesmo e pensei: mereço arrumar uma “gata” para me arranhar. E caí no capinado, assim diziam. Fui para a praça e devo ter pensado que eu era o homem mais bonito do mundo.

Enquanto as moças rodavam no passeio da praça de frente ao Bar Piloto, eu fiquei por ali, soltando o meu charme. Com aquele terno, eu imaginei que as “minas” não iriam me dispensar.

Acontece que eu era bobo demais. Eu não sabia “chegar” em uma moça. Eu me danava a gaguejar e não saía, absolutamente, nada. Entretanto, nesse dia, eu dei sorte. Logo me ajeitei com uma moça da roça, de um lugar chamado Vargem Grande.

Eu a convidei para ir ao cinema. E ela aceitou o meu convite. Subimos a Avenida 17 de Dezembro em silêncio. Eu era ruim de papo. Contudo, ia alimentando o meu ego. Bem vestido, com uma garota do meu lado (não podia nem pegar na mão). Chego ao cinema, um pouco envergonhado, diante do Sebastião Salviano, o porteiro do cinema, que sorriu para mim, como estivesse dizendo: desencalhou-se, Armando?

Eu um tanto desajeitado, procurei assento no meio da plateia. Lembro-me que estavam assentados, logo atrás de nossas cadeiras, o Edson Cordeiro, Paulo Pessoa e sua esposa Dona Carmem e outros veteranos mais. Tão logo a luz se apagou e o filme iniciou, a minha mente começou a fermentar.

Eu não me lembro de nem que filme foi esse. Sempre ouvia dos meus condiscípulos e contemporâneos às proezas do escurinho do cinema. E é de se saber que, naqueles tempos, não existiam outras opções além do cinema. Eram raras as oportunidades para quem tinha namorada. Imaginem para quem não as tinha? Lembro-me, agora, do Caveirinha. O Cacá do gás. Safadinho como ele só. Claro, antes do seu namoro com a Ana Zélia.

Depois de meditar bastante como tomar a iniciativa, imaginando que a moça seria mais velha do que eu e que aceitaria o meu atrevimento numa boa, levei a minha mãozinha delicada e aveludada, temerosa, desejosa, desajeitada e trêmula ----- primeiramente, nas suas pernas. O recheio do sutiã seria uma segunda etapa do projeto. 

Foi só isso, eu juro que foi só isso. Mas, foi o bastante. Foi como se soltasse uma bomba dentro do cinema. E quando acontecia qualquer coisa, o monsenhor Castro, lá de baixo, dava um sinal e o operador de máquinas acendia as luzes e o padre começava o sermão. Felizmente foi tudo muito rápido.

A danada da mulher arrumou um berreiro dentro do cinema. E dizia:

---Ocê num presta seu cachorro. Cê tá pensando que eu sô muié do Zé Bolinha? Tá inganado, trem ruim. Eu sou moça de famia. Bem que o pai fála: essa rapaziada da cidade é tudo sem vergonha.

Eu? Sem vergonha! Coitadinho de mim! É até engraçado! Eu quase morria de tanta vergonha! Bem! É verdade que, no escurinho do cinema, eu perdi um pouco da vergonha.

É claro que depois disso, eu passei a prestar a atenção. Tem que conversar, bater um papinho. Eu fui silencioso, com muita sede ao pote e a coisa deu errado. A moça tinha que ser cortejada, bajulada, conversada...

Ela falou muito mais, mas eu só ouvi até aí. Porque quando ela parou de falar eu já estava escondido atrás do chafariz do sansão lá na rua, de onde eu vi o Sebastião Salviano levantar a porta para ela sair.

Eu teria dado sorte de ter encontrado a porta sendo aberta para um expectador atrasado. Saí feito um gato que esteve preso debaixo de uma bacia.

Além de bobo azarado! E para um poltrão como eu, a coisa era muito mais difícil. Há quem diga que:

“Criar um bobo dá trabalho, mas, depois de criado, dá gosto vê-lo babar”.

Eu sei dizer que, depois que comecei a babar, Deus me compensou.  Bobão eu era mesmo... Mas era insistente feito um danado!

Felizmente, a bobagem afronta a felicidade.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos