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sábado, 17 de setembro de 2011

DIMAS O IMACULADO



Num dia desses, quando eu fazia umas compras em um supermercado, presenciei uma cena incomum. Uma cliente exigia da funcionária do caixa, R$ 0,01 (um centavo) de troco. A caixa, à vista daquele fato inusitado, de maneira hostil, falou que não tinha moedas de um centavo. A freguesa, irredutível, exigiu o seu troco no que a funcionária, uma vez mais, hostilizando a situação, tomou-se de uma moeda de R$0,05 (cinco centavos) alegando que ela (funcionária), uma pobre coitada, não faria questão de uma importância tão pequena e que lhe daria cinco vezes mais. Diante daquela controvérsia, a consumidora exigiu a presença do gerente da loja no local a fim de resolver aquela situação constrangedora por ter exigido o seu dinheiro como legítimo direito.
Vê-se que a fragilidade humana compra brigas por muito pouco. Apenas R$ 0,01 (um centavo) acabou criando um conflito entre duas pessoas em que estiveram juntos um grande erro e um acerto insignificante. Isso a meu ver merece uma reflexão.

Se o comerciante tem uma mercadoria de R$10,00 e a abaixa para R$ 9,99 para ludibriar a imaginação do freguês, é um direito do cliente receber o seu centavo. Parece não ser nada, contudo, é um valor e, mesmo sendo insignificante, o caixa de qualquer instituição tem que tê-lo para atender ao cliente reclamante. O fato de não dar o troco de R$ 0,01 (um centavo) para o freguês caracteriza um comportamento torpe. Isso porque R$ 9,99 não são $10,00. Não se pode omitir o direito do cidadão mesmo que esse direito custe apenas R$ 0,01 (um centavo). Para cada cabeça há uma sentença quando se trata da defesa de seus direitos. Se eu não faço questão de R$ 0,01 (um centavo), não me cabe o direito de querer que os demais o dispensem. Aquele que faz questão de tê-lo está correto.

Em uma estimativa para uma família de três pessoas isso representa, para o consumidor, um gasto a mais de R$18,00 por ano e o lucro de milhares de reais para os comerciantes. Esse negócio que o comércio inventou de usar os “99” centavos para tabelar os preços é uma imoralidade porque, além da tentativa de iludir o freguês, não devolve o troco de R$ 0,01 (um centavo) e se desculpa dizendo que essa moeda está fora do mercado.

O Banco Central do Brasil, realmente, deixou de suprir o mercado com essa moeda que tem um custo de R$ 0,10 (dez centavos) para ser produzida. Isso quer dizer que a cada moeda de R$ 0,01 (um centavo) dá-se R$ 0,09 (nove centavos) de prejuízo. Contudo, ainda existe, em circulação, mais de oito milhões de reais dessas moedas perdidas ou esquecidas, em algum porquinho de barro. Rodando é que elas não estão.

A meu ver, o problema maior não é o valor da moeda. É a falta de respeito ao freguês nessa desvirtuação de valores. Não vamos criar problemas por causa de R$ 0,01 (um centavo), pois, realmente, se trata de um valor pouco significativo, mas é um desaforo ao consumidor. Se a moeda está em falta, então se acaba com essa palhaçada de R$ 0,99 (noventa e nove centavos). Esse comportamento generalizado, desse jeito, no comércio brasileiro, é uma vergonha. A importância é ínfima, mas, a imoralidade é sem exemplo. Afinal, quem tira um centavo de real do consumidor, dessa maneira ilegal, não é uma pessoa 100% (cem por cento) correta. Isso porque está burlando um direito do cidadão. E burlar um direito do cidadão, seja ele qual for, merece ser enquadrado numa terminologia ampla para esse condenável feitio.

Mas, mudando o assunto de pedra para tijolo, quem gosta muito de moeda são as pessoas viciadas em jogo de bicho. Eu conheci um cidadão que se chamava Dimas, morava pelas bandas do Bairro da Gruta, aqui em Candeias, e a sua paixão era o jogo do bicho. Jogava todo santo dia, nas diversas formalidades desse jogo.

Trabalhava no campo. Contava, mais ou menos, com os seus quarenta anos. Chapéu de palha, barba meio crescida, cobrindo apenas os lábios e o queixo. Dentes escuros e um sorriso triste. Devia ser molenga na sua atividade, pois era mole até para falar. Assentava e ficava assegurando o rosto com a mão e com o braço suportado na mesa. Vestia sempre uma camisa de riscado e calças de brim grosso, surrados. Suas roupas traziam sempre um remendo de pano novo, contrariando o dito por Jesus Cristo, em Marcos 2/21-22: Ninguém cose um remendo de pano novo num vestido velho porque mesmo sendo um remendo novo leva parte do velho e fica maior a ruptura.

Era retraído. Conversava, mas, não olhava nos olhos do seu interlocutor. Estava sempre presente no antigo Bar e Restaurante Pinguim, do Lulu, onde eu trabalhava como empregado, quando rapazinho. O Pinguim ficava situado em uma casa velha onde hoje está o comércio de produtos rurais do Sr. José Alencar Ribeiro. O bar era bastante freqüentado e lá faziam paragens diversos cambistas do jogo do bicho. Dimas ali chegava todos os dias, por volta das cinco horas da tarde, e já me pedia para trocar uma nota em moedas miúdas para fazer os seus jogos no bicho, em quantias pequenas.
Isso explica a presença de Dimas, todas às tardes, naquele local. Era viciado no jogo do bicho. Quando falava em jogo do bicho ele se descontraía, falava, dava palpite, pedia palpite, etc. Parece até que sentia um orgasmo. Sabia o grupo, dezena, centena e milhar de qualquer bicho de forma instantânea. Fazia as mais engraçadas análises de sonhos. E as pessoas, para vê-lo falar, consultavam-no com o sentido de apreciar o seu jeito diferenciado e hilariante de palpitar. E os freqüentadores do Pinguim se deleitavam com a presença do inocente:

Um já perguntava:

---Ta esperando o que pra hoje, Dimas?

---Hoje, eu to esperando um cavalo. Vô pô tudo nele.

Vinha outro querendo saber:

---O que você espera para amanhã, Dimas?

---Pra manhã, eu quero uma cobra com 36.

---E o veado?

---Taí um bichinho que eu num sô muito chegado, não! Tem mais de um ano que eu num ponho nele. Eu fiquei iscardado, sô! Fiz uma progressão nele, punha nele todo dia e o danado num deu de jeito ninhum. Aí, eu larguei pra lá.

---E o cachorro?

---Bichinho safado, sô! Tava dano, quase todo dia. Eu puis nele e o danado num deu mais.

Dimas analisava, também, os sonhos que lhe apresentavam:
---Sonhei com um tatu o que vai dá, Dimas?
--- Pode pô tudo na cobra.
---Por que você acha que a cobra vai dar?
---Cobra é chegada num buraquinho de tatu..
---Sonhei com um homem gordo o que vai dá, Dimas?
--Pode pó tudo no touro?
---Por que touro?
---Home gordo é home erado igual touro...

E assim, Dimas ia respondendo a cada um com todo respeito e atenção. Não se ofendia com o sarcasmo da turma e sempre dava aquele seu sorrisozinho tristonho o que lhe era peculiar. Para todos ali, Dimas era um casto, era o símbolo da pureza, um homem imaculado que jamais teria se encostado numa mulher. Muitos seriam capazes de jurar que ele era “virgem” tendo em vista o seu jeito inocente de falar sobre o jogo do bicho.

Edmundo Simões era cambista e, certo dia, disse para os demais que teria arrumado um pedido de palpite para o Dimas para o qual ele não teria resposta:

---Dimas, eu tive um sonho muito estranho. Sonhei que você estava nu, nuzinho, numa cama com uma mulher nua também. Que bicho vai dar hoje?
---Uai, Dimundo, qui dia qui ocê sonhô isso? Responde assustado! Assustadíssimo.

---Foi na noite passada...
---Nossa!Tá certo! Tá certinho! Pode pó tudo na Ção Cazeca, era ela...Era ela qui tava cumigo... Quer dizeê, bão, quer dizê pode pó tudo na vaca...

Conceição Cazeca era uma mariposa do Zé Bolinha, dono do cabaré e Dimas, ao que tudo indica, estava bolinando a cabrita.

Casto, imaculado!? Bobo era todos nós que fazia hora com a cara do bobo.

É como dizia um caipira, lá de Formiga: É ruim, hein!Deus tá vendo!

Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

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