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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A VISITA DE UM PORCO


    O   nosso corpo é um território que está sempre ameaçado de ser invadido pelo inimigo. Além da defesa natural do organismo, temos, também, as defesas artificiais isso porque, às vezes, é necessária uma intervenção externa mais rápida e eficiente como o soro, os antibióticos, a vacina, etc. A falta de higiene facilita a entrada de certos microrganismos em nosso corpo, como bactérias, protozoários, fungos, vermes e vírus, podendo nos causar doenças sérias. Além disso, a falta de bons hábitos de higiene faz com que exalemos um odor nada agradável. Portanto, para que possamos manter a saúde do nosso corpo e evitar a invasão desses inimigos no nosso território, é preciso que o mantenhamos higienizado.

Infelizmente, nem todas as pessoas se preocupam com esse conceito e nem trazem consigo essa preocupação fundamental na vida de cada um. Deparamos, diariamente, com a falta de higiene; seja nas residências, no comércio e na forma pessoal. Existem pessoas que se preocupam, demasiadamente, com a higiene dos filhos, com a casa, enfim, no lugar onde lotam, e, no entanto, se esquecem de si, do corpo, cuja higiene é tão importante para uma boa saúde. Ao contrário, há pessoas que se preocupam muito com a higiene pessoal e se esquecem de cuidar da higiene do seu meio.

Hoje, quando estive na sala, junto de minha mãe que assistia à novela, ouvi quando se falava de um personagem chamado Antenor. Esse nome trouxe à tona de minha memória um senhor tratado por Sô Antenor e que esteve morando, em uma curta temporada, na minha rua, nos tempos em que vivi na Rua Coronel João Afonso.

Sô Antenor teria vindo de fora, não me lembro de onde, pai de uma família que consistia em sua esposa, Dona Lalade, uma ninhada de cinco filhos, uma cunhada e a sogra de contrapeso. Sua esposa era uma mulher forte, sacudida, tinha uma voz meio rouca, um cabelo coberto por um lenço branco, pessoa atirada, boa de prosa e exageradamente asseada. Gostava de tudo limpo, a começar pelos terreiros. Detestava animais, principalmente, cachorros e gatos. Ela não suportava os excrementos desses bichos. Tinha pavor de baratas, formigas, ratos e outras pragas mais. Vivia jogando veneno no quintal, por debaixo das camas. Às vezes, era vista dando rabanadas com um pano, tentando matar as moscas. Tremia só de pensar na possibilidade de seu filho caçula pegar piolho na escola. Ela, para se prevenir dos piolhos, quase matava o filho aplicando-lhe, sobre os cabelos, um inseticida chamado Neocid.

Segundo o seu marido, quando os meninos estavam colocando a última garfada de comida na boca, ela já tomava do prato para lavá-lo. Tinha nojo de tudo. Não pegava na mão de ninguém. Enfim, uma mulher doente, com uma forte mania de limpeza.

Sô Antenor, homem calmo, tranquilo e que dava a entender que não era muito chegado ao batente. Gastava quase uma hora para fazer o seu cigarrinho de palha, conversava o tempo todo com as pessoas conhecidas e desconhecidas que passavam pela rua enquanto ele ficava assentado em um banco, à porta da casa. Era baixo, grosso, cabelo meio ruim, grisalho, rosto redondo, barba bem feita, botinas bem engraxadas, dentadura com meio dente de ouro e muito bem escovada. Contava seus sessenta e tantos anos. Não trabalhava, pois vivia de rendas que a venda de sua propriedade rural lhe proporcionava e tudo indicava não ser grandes coisas. Chegou a Candeias com o seguinte projeto: já teria emprestado parte do dinheiro a juros para um amigo e, com a sobra, iria abrir um açougue. Diziam-lhe que açougue dava muito dinheiro. Alguém havia lhe prometido, aqui em Candeias, na Prefeitura, um emprego para o terceiro filho. O segundo filho era uma mulher que já estava casada. O primogênito teria ido para São Paulo e arrumado um emprego na rodoviária, daquela cidade. O caçula poderia ajudá-lo no açougue e a cunhada poderia se virar trabalhando de doméstica ou lavando roupas para fora. A esposa cuidaria da casa com a ajuda da filha mais nova e a sogra, que já estava um caco, não teria o que fazer.

Infelizmente, os projetos de Sô Antenor furaram-se no lavrado. Os juros e o capital do dinheiro emprestado não apareciam. O açougue foi aberto em um antigo cômodo próprio para isso que existia na Rua Professor Portugal, de frente ao Restaurante do Vicentinho Vilela. Sem freguesia, sem experiência e sem coragem para trabalhar o açougue caminhava para a falência pois, ia sendo engolido pelo fiado e Sô Antenor não entendia de nada, nem de açougue e nem de comércio. A cunhada já teria brigado com a dona da primeira mala de roupa que lavou. O emprego na Prefeitura, para variar, não saiu. Agora, chegava a uma triste conclusão: vir para Candeias foi um tiro no pé.
A sogra do Sô Antenor, como não tinha o que fazer, vivia de casa em casa, na vizinhança. Era um tipo de repórter que levava e trazia notícias. Dessas pessoas que apenas sabe falar de gente e que tem a língua quente. Eu achava bom quando via Dona Joana chegar com as suas últimas notícias.

Certa vez, receberam a visita do sogro da filha casada que morava na cidade de Bambuí. Era viúvo e meio esquisito, quase careca, gordo, usando uns óculos de lentes “fundo-de-garrafa”. Uma dentadura solta que, ao falar, deixava os dentes dançando na boca. Metido a engraçado. Usava uma camiseta cavada. Tinha os sovacos muito peludos e molhados de suor. A camiseta para fora da calça deixava a mão livre para coçar as partes pudendas, onde as suas mãos passeavam, livremente, por dentro das calças largas. Falava grosso e estava sempre com um palito de fósforo no canto da boca. Essa visita, com certeza, foi do tipo “persona non grata”. O cidadão parecia que tinha uma sarna espalhada no corpo todo. Em questão de pouco tempo, ele achava, com os dedos das mãos, os nove buracos do corpo. Coçava aqui, coçava lá e era uma pessoa desassossegada.

Depois de retornar a sua cidade natal, recebemos, em nossa casa, a visita de Dona Joana, a sogra do Sô Antenor que fez os comentários detalhados sobre a estadia daquela visita indesejável, durante cinco dias. E, em um comentário com a minha avó, Olinda Gomide, eu registrei o seguinte diálogo:

--- Óia, Dona Olinda, num tem coisa mais triste no mundo do que uma visita porca na casa da gente. O Sogro da Ritinha, minha neta, veio com eles e quase matou nóis tudo de nojo. Principalmente, a coitadinha da minha filha, a Lalade. Ela não morreu porque Deus é pai. E eu quase morri de dó dela.

--- Mas, o que houve de tão grave assim, Dona Joana?

---Minha fia, a senhora nunca viu, no mundo, um home mais porco.

---Porco! Como assim? Não tomava banho?

---Se fosse só isso, tava bão! O pior era a porcariada que ele fazia na frente da gente, sem dar à mínima importança. Óia, ele enfiava a mão dentro das carças, coçava tudo, na frente e atrás, sem nem ligar de vergonha. Paricia que ia rancar as parte de baixo, tudo com a mão. O danado do home tinha uma coceira que eu nunca vi igual. Enfiava os dedos naquele subacão cabeludo que quase matava a gente de nojo. De noite, lá do meu quarto, eu iscutava os arroto do porcão. Dona Olinda! Eu num sei como que a Lalade num morreu. Eu quase morri de dó dela.

---Mas, o que é isso Dona Joana!?

---O que qué isso, Dona Olinda? Na hora da cumida, pegava tudo com a mão. Eu fritei uma pratada de biscoito e o atentado para comer um biscoito pegava neles tudo. Fiz pão de queijo e foi do mesmo jeito. E tinha mais! Limpava o nariz na barra da camiseta. E, dispois, ficava enfiando o dedão no nariz. A hora que ele entrava no banheiro é que a coisa ficava brava. Era uma raspação de guela que deixava a gente morrendo de nojo... Coitadinha da Lalade! Quase morria de nojera. E eu quase morria de dó dela.

---Foi uma situação bem difícil, né, Dona Joana!...

---Põe difícil nisso, Dona Olinda! O homem era tão porco, mas tão porco, que um dia a Lalade pegou o porco lavando a dentadura na pia da cozinha... Coitadinha da Lalade! Ela quase sofreu um trem e eu quase morri de dó dela.

---Que Deus me defenda de uma coisa dessas, Dona Joana!

---Nóis é tudo um povo muito asseado, Dona Olinda! Nóis toma banho direitinho. Há de havê água e sabão pra nóis! E aquele porco troxe uma imundiça que a gente num tinha como limpá! Coitadinha da Lalade! Ela quase morria por causa da lambança dele, e eu quase morria de dó dela.

---Coitadas!

Isso só pode ser um castigo que nóis recebeu. Na hora daquela peste ir embora, veio com aquela mãozona pegar na mão da gente. Eu, mais a Lalade, retraiu. Mais não é que o pamonha do meu genro pegou e ainda sacudiu aquela mão porca. A Lalade vendo aquele lambão pegá na mão do Antenor e abraça tamém, Dona Olinda. Coitadinha da Lalade! Agora ta com nojo da mão do Antenor... Ela tá desinfetando tudo dentro de casa. Graças a Deus que o diabo vortô pro seu inferno! Tadinha da Lalade! Ela quase morreu de nojo e eu quase morri de dó dela.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

Um comentário:

Celle disse...

Não meça meu interesse pelos seus escritos pelos meus comentários, tenho andado ausente, correndo muito e sem tempo para comentar, mas, acho bem interessante o que escreve!
Parabens!
Celle