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terça-feira, 30 de agosto de 2011

A BOCA E A VAGINA




Imagem apenas para ilustração do texto.
       Um leitor candeense e residente na cidade de Arinos, Estado de Minas Gerais, leu as postagens do nosso blog e fez um comentário sucinto relembrando o nome de um amigo seu, o Osmar dentista, quando o conheceu nos tempos em que assistiam a missa, munidos de uma fita azul celeste; eram eles membros da Congregação Mariana.

Diante de um nome tão significativo, resolvo expor, neste texto, o nome do meu amigo, Osmar da Sota. Posteriormente, Dr. Osmar Soares Alves.

Às vezes, pode parecer desagradável a gente fazer um comentário sobre um profissional falecido e que estaria isento de quaisquer culpas diante de um determinado comportamento. Talvez, pelo fato de se tratar de uma questão de ordem cultural. Mas, levemos em conta que as nossas narrativas são, normalmente, históricas e a nossa intenção, quase sempre, é acompanhar a evolução. Mostrar as regras do jogo do seu tempo. Regras que não mudariam através de uma só pessoa e nem de uma só cidade. Afinal, tratam-se, muitas das vezes, de um contexto geral.

No caso da odontologia, a questão era nacional. Logo, o atraso desta ciência não existia somente em Candeias. Era preciso avançar porque os nossos “práticos” não tinham fontes de evolução. Apenas o tempo poderia fazer isso e como fez em Candeias, a partir do momento em que chegou aqui um cirurgião dentista diplomado.

O Brasil, hoje, tem uma das melhores odontologias do mundo. As pessoas, atualmente, têm assistência governamental. As prefeituras municipais prometem tratamento e os empregadores se preocupam com isso. Coisas que, antigamente, não existiam, nem por perto.

Portanto, é importante a gente testemunhar que algo de bom acontece no nosso país. Já podemos sorrir mais à vontade e não é preciso que as pessoas tapem a boca, com as mãos, no momento de soltarem um sorriso. Isso é gratificante. Nada mais desagradável, mais triste, do que alguém esconder o seu sorriso diante do seu interlocutor. Talvez, omita, até mesmo, uma alegria ou um gesto de carinho para evitar o sorriso.

José Barreto foi o mais tradicional e o mais respeitado dentista prático de Candeias. Sem dúvida, o mestre dos demais dentistas candeenses. Isso nos tempos em que a nossa cidade ainda não era habitada por nenhum dentista diplomado e a odontologia engatinhava no Brasil. Era ele o professor da causa. Todos os demais práticos, no ramo odontológico, que aqui existiram, trabalharam junto dele. Seu gabinete ficava na sua residência onde mora, hoje, o Sr. Pedro Freire, bem nas proximidades do Largo da Matriz. Posteriormente, transferiu-se para Belo Horizonte, onde tinha um filho cirurgião dentista diplomado.

Osmar Soares Alves, o Osmar da Sota, era um rapaz humilde, religioso, Congregado Mariano, sacristão do Monsenhor Castro e que trabalhou com Zé Barreto como protético. Naquele tempo, prótese era apenas dentadura, ponte e pivô. Dali, Osmar resolveu montar o seu próprio gabinete. E pôde, por muitos anos, exercer a profissão de dentista como prático até quando chegou para Candeias um dentista diplomado que resolveu denunciar os dentistas práticos, levando-os a migrarem para as roças ou para outras cidades onde não existiam dentistas.

Outros deixaram a profissão, como no caso do Cristóvão Teixeira, foi ser motorista e dada a sua pouca experiência no ramo, acabou tendo um acidente com um caminhão cheio de carvão levando-o à morte.

Boanerges Pacheco era casado com uma fazendeira e se acomodou vivendo de rendas. Ele tinha alguns imóveis de aluguel. O sobrado onde fica o escritório do Sr. Zé Antônio, próximo da Igreja Matriz era de sua propriedade.

Osmar sobressaía em meio a essa confraria. Era cheio de ideias no ramo da odontologia e nunca teria feito outra coisa na vida e não desistiu. Foi trabalhar em Baiões, comunidade próxima de Candeias, que pertence, todavia, ao Município de Formiga. Esteve também no Município de Camacho e, apesar das dificuldades encontradas, se locomovia de motocicleta para esses locais. E como era muito esforçado e gostava daquilo que fazia, conseguiu tirar, dessa peleja, o sustento da sua família e fazer a sua faculdade de odontologia, na cidade de Itaúna, indo, até a referida cidade, todos os fins de semana.

Ainda nesse tempo, elegeu-se vereador por dois mandatos e foi um dos candidatos mais votados.

Certa vez, no auge da sua luta pela vida, ele me disse com os olhos lacrimejantes: “Um dia eu volto a trabalhar em Candeias sem ninguém pra me barrar”.

Osmar venceu. Venceu na vida. Formou-se cirurgião dentista. Agora, não tinha mais gabinete. Era dono de um consultório bem montado junto a sua residência, na Rua Francisco Bernardino de Sena. Andava em carro do ano. Tinha uma casa confortável e uma escadinha de filhos, bem cuidados. Teria sido um exemplo da persistência e da vontade de vencer. Mas ele já não era o mesmo. Agora, bebia e, a cada dia, aumentava as doses. Sua profissão começou a ficar em débito com a responsabilidade. Já não frequentava a igreja, como antes. Já não se entendia com a esposa e nem com a família dela. E quando era chamado de “Osmar”, repreendia: “Agora eu sou doutor. Dr. Osmar”. E, para outros, dizia: “Eu não sou dentista; eu sou odontólogo”. E explicava que a odontologia era um ramo da medicina. Ou seja, que ele era um tipo de médico. Naturalmente, ele tinha razão de pensar assim. Contudo, na prática, dada à cultura odontológica, o dentista é bem conhecido como um cirurgião que opera na boca das pessoas. Não caberia outra explicação para uma clientela leiga. No entanto, ele colocou, na fachada de seu consultório, uma placa com os dizeres: “Dr. Osmar Soares Alves – Odontólogo”.

Aquilo era como se estivesse exigindo de seus clientes um reconhecimento maior pelo fato de ser um dentista diplomado. Contudo, ele fazia o mesmo que sempre fez, entretanto, ele era, agora, formado e o que fazia era embasado na ciência. Mas, todo mundo sabia disso e o respeitava. Desnecessário seria a imponência.

Enfim: Osmar, agora, o Dr. Osmar, perdeu a humildade. E tornou-se alcoólatra. Mudou-se para a cidade de Formiga e, por lá, passou por uma dificuldade muito grande na sua vida. Perdeu uma filha em um acidente de carro. Tempos depois, Dr. Osmar volta para Candeias. Desacreditado pela sua clientela.

Certo dia, eu me encontrei com ele numa venda, na Rua Coronel João Afonso, na antiga venda do Pedro do Chico Freire. Ali estava ele meio embriagado. E, nesses momentos, as pessoas fugiam dele. Sua imagem era o protótipo do fracasso. E, num dado momento, tão escasso, ultimamente, em sua vida, tentou falar de ideias comigo e, aparentemente, empolgado disse:

---Armando! Eu estou para defender uma tese dentro da Odontologia. Vou abafar. Vou arrasar. Meu nome vai para a história. Você vai ver um candeense na história.

Perguntei-lhe: Mas, que tese é essa, Osmar? O que de tão importante está fermentando em seu cérebro inteligente? E ele responde, dando uma tragada no copo de aguardente:

---A tese que eu vou defender é para acabar com boa parte do desconforto das mulheres, em num exame ginecológico. Eu vou defender que a parte interna da vagina estende-se até à porção inicial do útero, região denominada de fórnice da vagina. Todo esse conjunto é denominado canal vaginal e tem uma semelhança muito grande com a boca. Isso quer dizer que uma mulher tem a boca do mesmo tamanho da vagina. E muita coisa pode ser feita através da boca.

Isso nada mais era do que um motivo de chacota. Uma alucinação escondida dentro, bem dentro, do seu ser. E, diante de tamanho disparate, eu lhe perguntei:

Quer que eu lhe deixe em casa, Osmar? Você não me parece bem!

E, em resposta, ele diz:

---Não! Obrigado!  -------- Põe mais uma aqui pra mim, Pedro!... Eu tenho muita coisa para botar em prática Armando...

Nesse momento, senti que o meu amigo, Osmar, naufragava no álcool, após ter flutuado por tanto tempo nas turbulentas águas da vida. Foi a última vez que o vi.

Algum tempo depois, embriagado, bateu com o seu carro numa casa onde está hoje, a Casa do Vaqueiro, vindo a falecer.

 Que Deus o tenha meu amigo, Osmar, ou melhor, Dr. Osmar!


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

BRINCANDO DE FAZER QUEIJO

Queijo Minas
Às vezes, eu não tenho o que fazer e começo a inventar coisas. Afinal, é bem cansativa esta vida de aposentado, o dia todo no aposento. Eu sempre digo: aposentadoria é tal qual o cachorro que corre atrás de um carro e quando o pega não sabe bem o que fazer com ele. Eu fiquei a vida toda aguardando a minha aposentadoria, agora que sou aposentado, tenho que ficar enrolando o tempo.

E, assim, de quando em vez, vou para a cozinha. Estando em Candeias, sou fiscalizado pela minha mãe e, se estou em Juiz de Fora, sou vigiado pela minha mulher. Com certeza, eu vou sujando a louça porque não tenho nenhuma vocação para lavar “trens”. Daí, as mulheres ficam implicadas comigo quando me veem na cozinha.

Improvisei um defumador de latas usadas de vinte litros e produzi uns defumados que ficaram deliciosos. Bacon, lombinho de porco, linguiça e outros produtos. Eu sempre gostei da arte culinária. Na área de forno e fogão, já fiz muitas coisas entre doces, pães, assados e cozidos, etc. Tudo sempre elogiado pelo sabor e asseio. Contudo, sempre criticado pelo fato de deixar os utensílios expostos e fora de seus lugares.

Num dia desses, me deu na cabeça a ideia de fazer um queijo. Imaginei eu comendo um queijo feito por mim. Parece até fantasia de menino, mas, um velho aposentado fica mesmo cheio de fantasias. E, com essa ideia fincada na mente, fui estudar e pesquisar a fim de entender a arte do laticínio.

Perguntei para a vizinha, procurei na internet, li um livro sobre o assunto e concluí que já estaria apto para fazer o meu queijo-de-minas. Fiquei até imaginando com qual o doce eu iria saborear aquele manjar especial fabricado pelas minhas mãos. Já teria pensado em pedir umas laranjas-da-terra para a vizinha, Dona Maria do Antero, e fazer um doce caldeado. Eu gosto muito de queijo fresco com doce de laranja-da-terra. Enfim, eu sempre fui um consumidor de queijo e, para mim, sempre foi uma incógnita o jeito de fazê-lo. Eu cá, com a minha intimidade, fiquei exaltando a minha ideia. Fazer o queijo e o doce de laranja-da-terra e, depois, saboreá-los à moda dos abades.

Tendo já tomado os conhecimentos teóricos, foi chegado o momento de por a mão na massa. A primeira providência foi comprar a forma e o coagulador, ou seja, o coalho vendido em qualquer supermercado.

Era hora de buscar o leite puro, direto da fazenda, o produto principal para a execução do meu projeto. Peguei um balde e fui até à residência do senhor João Cassiano a fim de comprar cinco litros de leite. Eu faria um queijo pequeno, como experiência, no sentido de fazer outro maior depois.

Com o balde de leite nas mãos, eu mais parecia um menino. Dos meus sessenta e sete anos de idade, eu voltei para dez. Sentia-me tal qual uma criança que teria esperado o Papai Noel e, agora, seria a hora de estrear o brinquedo.

Logo que saio no portão da casa do João Cassiano e atravesso a rua, ali na esquina do Nelio Gianasi, encontro-me com aquela senhora, a minha velha amiga, que tem uma língua que mal cabe dentro da boca. Quando ela conversa, a impressão que se tem é que a língua está empurrando a dentadura para fora.

Apresentava-se com um visual diferente e meio desencontrado com o seu perfil. Um lenço estampado de preto e vermelho cobrindo apenas o topo da cabeça. Acho que estava tentando esconder a raiz dos pelos descorados. Calçava um tênis desinteirado para pés femininos. Quando bati o olho naquilo, quase adivinhei tratar-se de um aproveitamento masculino, talvez, herdado de algum sobrinho. Mas, como eu não entendo bem dessas coisas, preferi o benefício da dúvida. E, naquele encontro, meio fora de hora para mim, ela, como sempre, já veio fazendo o seu questionamento indiscreto:

---Uai, Sô Armando! Vai nadá no leite? Parece que comprou o leite tudo?

---Não. Só comprei cinco litros. Ainda, tem muito leite lá!!

---Eu vou comprar dois litro. Será que senhor deixou pra mim?
---Claro que deixei! Parece que você bebe bastante leite!. Na sua casa é muita gente para tomar leite?

---É, mais eu fervo e refervo. Boto na geladeira, gela e regela e nóis vai bebeno com café. Às veis, eu faço um bolinho de fubá.

---Eu adoro um bolo de fubá.

---Bolo de fubá engorda. Purisso qui o sinhor tá com essa barrigona. E o que o sinhor vai fazê cum tanto leite, Sô Armando?

---Vou tentar fazer um queijo.

---Queijo!? O sinhor fazeno queijo!? Kákakaka, só fartava isso pro sinhor inventá né, Sô Armando? O sinhor deve é bebê um litro duma vez pá inchê essa barrigona!...

---Eu quase não tomo leite. Mas, vou sim. Vou experimentar fazer um queijo.

---Sô Armando, o sinhor tem umas idéia meia doida, num tem?

---Idéia doida? Por que doida?!

---Uma vez, eu vi o sinhor falano, lá no Zé Cabeça, que sabe fazê pinga na panela de pressão. Eu contei pro meu marido e ele falou que esses Derminda é tudo meio doido.

---Eu não me considero doido não! Eu fiz um litro de pinga de rapadura na panela de pressão e ela ficou muito boa.

---Meu marido falou que o avô do senhor, João Delminda, inventou, uma vez, uma espingardinha de cano de guarda-chuva e, quando foi dá um tiro, vuô pedaço de espingarda pra todo lado. Isso é verdade, Sô Armando?

---Isso é conversa do povo. Meu avô era um homem muito inteligente.

---O sinhor me discurpa, Sô Armando! Mais uma pessoa que sai falano que fabrica pinga, na panela de pressão, num tá muito bão da cabeça não, Sô Armando!

---Você dizendo que eu não estou bem da cabeça?!Engraçado!!!

---Aonde já se viu isso, Sô Armando!? Fazê pinga na panela de pressão?Panela de pressão serve pra cuzinhá os trem. E cumé que vai fazê pinga cuzida?

--- É por que você não entende do mecanismo e como ele funciona. Se entendesse, veria que a fabricação de pinga é simples e não iria ficar tão admirada.

--- Intão, me explica isso, Sô Armando! Esse trem pra mim tá muito esquisito! O sinhor cuzinha a rapadura e ela vira pinga?E pinga num é feita de garapa?

--- Ah meu pai do céu!!!!! A pinga em si é o vapor que sai da panela com a fervura do mosto. Mosto é a água de rapadura ou a garapa fermentada que passa por um processo de resfriamento, através de uma serpentina. Esse se liquidifica transformando-se em pinga. Chama-se pinga porque o vapor que se liquifaz e sai aos pingos. Os primeiros e os últimos 15% da pinga extraída não servem para ser consumidos, apenas os 70% entre o princípio e o fim. O aparelho de fazer pinga se chama alambique e o que eu faço é apenas uma adaptação transformando a panela de pressão num pequeno destilador.

---Eu num intendi nada, Sô Armando! É mió dexá isso pra lá. Se eu ficar aqui, conversando com o sinhor, eu vô acabá ficano doida igual o sinhor. Eu vou pegá o meu leite, senão ele acaba.

Saiu. E, logo que dou uns vinte passos, olha a mulher, atrás de mim:

---Sô Armando! Espera aí.

---O que foi?

---O leite cabô. Fiquei conversano com o sinhor inquanto eles vendeu o resto do leite.Tamém, o sinhorme prendeu na cunversa, né, Sô Armando! Agora, eu fiquei na mão.

--Fui eu que prendi você?! Fazer o quê, agora?

---O sinhor bem que podia me imprestá do seu leite e, amanhã, eu compro otro e pago o sinhor.

---E o meu queijo?!

---Mais qui mané queijo, Sô Armando! O sinhor num sabe fazê queijo coisa ninhuma. Dêxa essa duidurade hoje pra otro dia, sô! E me impresta logo esse leite.

E o menino de sessenta e sete anos teve que esperar por mais um dia para poder brincar de fazer queijo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e acasos.



sábado, 20 de agosto de 2011

O MEU AMIGO CANDINHO.

                                            Esquina do Bar e Restaurante Esquina
         Eu tinha um problema que, felizmente, consegui dominá-lo. Eu não conseguia conversar com uma pessoa gaga. Eu não sei o porquê disso. Toda vez que eu via um gago conversar, a minha primeira reação era rir. Achava a coisa mais engraçada do mundo. Não estava em mim... Acho que não é só comigo que isso acontecia. Existem centenas de piadas sobre gagos e as pessoas, em geral, acham graça de ver um gago falar e, muito mais engraçado, ver um gago nervoso tentando explicar alguma coisa. Certa vez, ainda menino, eu e meu primo, Vicente, levamos uma carreira de um gago, meio perturbado, que morava nas imediações do Chico Viriço. Era um negão de todo tamanho que me fez ver a minha avó por uma greta.

Mas, por falar em gago, lembro-me, de um grande amigo meu, já falecido e que era gago. Cândido Roberto Teixeira, o Candinho do Vico.

Candinho sempre foi um empreendedor. Fez tudo para se prosperar em Candeias, mas, a sorte pouco o ajudou. Foi um vereador. Mexeu com bar, com caminhão de transporte, com estúdio fotográfico, com pesca profissional, oficina mecânica e outras coisas mais. Mas, o seu futuro foi mesmo em Belo Horizonte para onde levou a sua família. 

Ele fez de tudo para ficar por aqui, mas, Candeias não o fez ficar.
No local onde se encontra, hoje, o boteco do Wantuil Badaró, na esquina das Ruas Professor Portugal e Expedicionário Jorge, Candinho construiu a casa que se encontra do mesmo jeito de quando foi construída. Ali, montou o seu Bar e Restaurante Esquina. O nome foi dado ao estabelecimento tendo em vista que o mesmo ficava numa esquina onde uma grande placa, bem elaborada, foi colocada a fim de ser vista pelas duas ruas. “Bar e Restaurante Esquina”

O serviço de alto-falante existente nos parques de diversões em trânsito por Candeias fazia propaganda para o comércio local. Não existia televisão. Parques de diversões e circos eram mais frequentes, armados, na Praça Antônio Furtado, não muito longe do local no qual viria a ser montado. E esse restaurante era, sem dúvida, o maior propagandista. E, com certeza, foi a primeira vez na vida que eu ouvi tais palavras. Não só eu, mas, boa parte da população daquele canto da cidade. “a la carte”, enlatado, bife molho “de madeira”, bife isso bife disso e bife daquilo. Para a maioria dos ouvintes, era uma incógnita.
No dia da inauguração do restaurante, Candinho montou, na outra esquina, bem próximo, ou seja, de frente ao bar, uma grande tolda de dança, com o piso, provisoriamente, cimentado. Fez um grande palanque e contratou, o então famoso em toda região, Maestro Totó e sua orquestra da vizinha cidade de Campo Belo. Na época, foi pago um preço absurdo para esta orquestra.

O cinema de Candeias tinha um serviço de alto-falante volante que corria a cidade toda anunciando os filmes da semana. Sebastião Salviano era o locutor desse serviço de som. Candinho contratou esse carro e o colocou rodando na cidade o dia todo anunciando o grande baile com a grande orquestra do Maestro Totó. E não faltou gente para marcar presença na festa só que, lá dentro do restaurante, tinha uma meia dúzia de gente. E a rua estava lotada.

A orquestra começa a tocar e a porta da tolda foi liberada para quem quisesse dançar. Pouca gente entrava. Na verdade, ali estava um povo humilde, constrangido, sem dinheiro e curioso. Queriam era ver o Totó com a sua voz bonita, pois, ele era o locutor principal da Rádio Clube de Campo Belo. Única emissora que entrava em nossos rádios, durante o dia, naquele tempo, através de ondas médias. Não existiam as emissoras da onda FM. E quando o Totó falava a turma apreciava, pois, a maioria só o conhecia pela voz. Era como se estivesse em Candeias um grande ator de novelas dos dias atuais

E, nos intervalos, Totó, com aquela sua bela voz de locutor de rádio, exaltava o Bar e Restaurante Esquina, naquela hora, inaugurado:
Senhoras e Senhores: Candeias acaba de ganhar um bem montado bar e restaurante, através do espírito empreendedor do jovem empresário, Cândido Roberto Teixeira. O popular, Candinho. Bebidas nacionais e estrangeiras. Latarias, em geral. Pratos nacionais e internacionais. Completo serviço “a la carte”. E não deixem de experimentar o famoso bife “a parmegiana.” Preços módicos.

Muita gente questionava: “Mas, que ideia sonsa é essa do Candinho do Vico por um “trem” desses, num canto da cidade? Isso tinha que ser lá em cima, no Largo...”.

Dionísio Passatempo era uma pessoa bastante conhecida na cidade, principalmente, ali, naquele meio. Morava nas proximidades do Vicente Vilela. Ganhava a vida comprando e vendendo aves e ovos, cabrito e carneiro, leitão e vitela, etc. Naquele tempo, não existiam granjas nem de galinhas e nem de porcos. E Dionísio viajava pelas roças, a cavalo, comprando e vendendo coisas.
Quando bebia, falava alto e gastava o ouro por quem teria dado o couro. Empanado, em um terno branco e gravata preta. Zoava em meio àquela festa até, então, singular. E, com o carburador queimando álcool, Dionísio, para fazer bonito, ofereceu um litro de uísque para os músicos. Naturalmente, teria sido a melhor garrafa do estoque do Candinho. Com certeza, um “Jonhy Walker” e a sugestão, naturalmente, teria sido do Candinho porque Dionísio nada entenderia de uísque.

O presente causou uma reação no maestro da orquestra que, gentilmente, agradeceu o presente oferecendo-lhe uma série de baiões do repertório do famoso cantor, Luiz Gonzaga.
Candinho, para ver a coisa animada, quis usar a cabeça cheia de “mé” do Dionísio e recomendou ao Totó que convidasse o Dionísio para subir ao palanque.

Daí, há pouco, Totó para a música e anuncia:

---Senhoras e senhores.
Temos o prazer de receber, em nosso palco, a presença do nosso amigo candeense, Sr. Dionísio Passatempo, o qual nos dirigirá algumas palavras.

Sobe o Dionísio sob o olhar atento do Candinho e começa:

Ôh, gente! Eu vou falá procéis! Esse trem do Candinho tá muito bão, mas, eu tenho umas coisa que eu num tô intendendo nada. Até agora, eu só tô intendendo o batidão desse jazz do nosso amigo de Campo Belo. Mas, o trem do Candinho eu vô falá a verdade, num tô intendeno nada. Tem umas palavra no negócio dele que num dá pra intendê. Ele tá muito mitido com esses nome das cumida dele. Isso aqui pudia cê uma coisa mais pobre igual o povão qui tá aqui. Sirviço de alicate, bife da Dona Megiana, temperado com madeira. Lataria. Bife pra mim é bife. Agora, aqui, veio tudo do outo mundo. Num sei mais o quê, rolê. Eu sou mais um torresminho com feijão, ovo mixido na farinha ou, intão, uma pratada de macarrão Pieroni, daquele bem grosso com massa de tumate.
E resolve convocar o Candinho:

Vem cá, Candinho. Ixplica esse trem pra nóis sinão esse restorante seu num vai vingá não...

E Candinho atravessou a rua e entrou dentro do seu restaurante e a meninada atrás rindo. (Eu no meio)

E o Candinho, Puto da vida, falava sozinho: Fi-fi-da-da-da-pupuuuuuuuuuuuuu!

Posteriormente, eu e Candinho nos tornamos grandes amigos. Onde quer que esteja, meu amigo, receba o meu abraço.

Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

terça-feira, 16 de agosto de 2011

VICENTE E A TURMA DO VIAGRA


                                                     Vicente Barbeiro

Hoje eu estive pensando como o tempo passa depois que atingimos certa idade. Dizem que quando entramos nos “enta” a vida corre e depois voa e é verdade. Até aos trinta anos, vai de macio. Mas, depois!...
Parece que foi ontem que eu fiz quarenta anos, já estou com sessenta e cinco. Daqui pra frente, só Deus sabe! E é por isso que eu gosto de comentar sobre o passado. Quando se tem mais de cinquenta anos, a gente dá uma olhadinha para trás e vê um tempo, intensamente, vivido. Éramos jovens, cheio de esperanças, saudáveis, trazendo o fogo da paixão e a vitalidade. O jovem vive o presente. O seu passado ainda não existe. E o futuro está distante.


A vida é como uma estrada que começa larga e asfaltada, parecendo nos levar rumo à felicidade. Mas, com o decurso de tempo, torna-se estreita, cheia de precipícios e perigosa.


Os buracos da estrada da vida são os sentidos que vamos perdendo. A visão enfraquece. A audição piora. Já não sentimos tão bem o perfume da natureza. O tato se mistura e o apalpo se realça nas dores. O paladar fica buscando na lembrança o franguinho que a mamãe fazia e que hoje já não tem mais gosto. A vida é, realmente, uma grande estrada na qual cada um caminha um trecho. Uns mais. Outros menos. E quanto mais se caminha, mais difícil vai se tornando a viagem. E com o tempo correndo, formamos o passado o qual vamos reviver enquanto vivemos o presente e pressentimos o futuro. A incógnita sobre o futuro vai sendo conhecida. Essa é uma realidade que não adianta querer fugir dela.


Aqui em Lagoa da Prata, eu sempre visito o meu amigo, Vicente barbeiro, cujo salão fica nas proximidades de onde eu moro, numa meia-água exprimida entre lojas suntuosas, na rua principal da cidade (Benedito Valadares).


Bastante modesto é o salão do Vicente. O fato de estar há cinquenta anos no mesmo ponto, lhe faz ser o detentor do título de barbeiro mais antigo da cidade. E que, ainda, não foi engolido pelo progresso tendo em vista os laços de amizade que o prende com o proprietário do imóvel, seu contemporâneo e amigo, Boquinha.


Vicente é um barbeiro, hoje, de pouca freguesia. Já não tem o tato de outrora para cortar um cabelo e nem fazer uma barba. Suas mãos são trêmulas a sua visão dificulta. Já não ouve bem o que o freguês conta e tem que parar com a tesoura para ouvir. A freguesia não é exigente. Praticamente, é todo mundo do seu tempo. E já há muito não tem um freguês novo. De vez em quando, dá uma barbeirada no rosto de um freguês e fica por isso mesmo. Vicente ainda é do tempo em que ao terminar o serviço perguntava para o freguês: “Você qué arco ou tarco?” Os barbeiros antigos usavam fazer esta pergunta para o freguês ao término da barba, se queria que passasse álcool ou talco no rosto.


O seu salão parece uma confraria de idosos. Eu lá me sinto um jovem, pois quando diante de qualquer assunto, sempre um diz: É, Armando! Mas, você ainda é novo... E eu acabo ornamentando o meu orgulho com a gentileza dessa frase.


Vicente conta oitenta anos. É um velho esperto para a sua idade. Estatura média, meio barrigudo, cabelos lisos e pintados de preto, bem preto. Parece que a tinta que ele usa para pintar os seus cabelos é extraída de carvão do ébano, porque é muito preta. E uma pessoa de oitenta anos com um cabelo preto, daquele jeito, é como se tivesse pintado o cérebro. E diante disso, vem a minha mente: Como é bom a gente fugir um pouco da realidade! Imagino eu que o Vicente não pinta o cabelo daquele jeito apenas para iludir as pessoas. Ele se ilude também. Naturalmente, repudia os cabelos brancos. Cabelo branco, certamente, para ele, é sinal de velhice. Velhice é sinônimo de fim. E fim é aquilo que acabou.


Sempre quando morre um amigo ele reclama: “Perdi mais um freguês!” E, assim, ele vai contabilizando perdas. E para compensar essas perdas, Vicente apela para outras atividades. Vende pinga e aparelhos elétricos usados. Mel de abelha e ovos. Para os produtos que não estão expostos no salão, ele anota a encomenda e o freguês procura depois. Aceita intermediação de quaisquer negócios. De uma agulha a um avião.


Como a sua freguesia é minguada, comumente, passa dia sem cortar nenhum cabelo. Mas, a venda de badulaques não lhe poupa tempo.


Nem todos que vão ao seu salão são seus fregueses. Pessoas que não se adaptam com o seu corte, mas, que têm amizade com ele também frequentam o seu pequeno salão. Parece que, de hora em hora, há uma reciclagem na turma. Claro, todos idosos. Os temas mais comuns discutidos naquela confraria são sempre os mesmos: doença, morte, idade, aposentadoria, viuvez, impotência sexual, problema dos parentes e preço dos remédios.


Hoje, eu estive lá batendo um papo. Naquele momento, a reunião contava com uma turma bem rica de idade. Carlos, Raposão, Neném, Milton, Bastião Goiaba e outros mais. Como o salão é pequeno, o banco de alvenaria existente no recinto não deixava espaço. Existe um banco do lado de fora onde os excedentes se acomodam.
Conversa vai, conversa vem, chega o Tatá que ficou viúvo recente. Tatá, que gosta de contar vantagem, chegou se esnobando para a turma ali presente que teria passado uma noite numa alcova a convite de uma jovem viúva, também recente, e que teria feito o exercício de casa bem feito. E, com certeza, teria ganhado nota 10 da viuvinha apaixonada. Momento em que, num eco só, a “velharada” soltou uma gargalhada:


E o Vicente, na qualidade de presidente da mesa, já tomou a palavra:
---Engana nóis, Tatá! Nóis aqui é tudo retardado... Nóis num intende nada dessas coisa... Engana nóis que nóis gosta! Esse viagra fais coisa. Cuidado quisso. Esse trem é brabo... Brinca quisso procê vê onde qui ocê vai pará!!

O raposão, com o seu tipão de intelectual, dá aquela risada discreta e diz:

---Traga-me um martelo para eu pregar essa piada no teto deste salão e na torre, ali da igreja.

E o Milton, com aquela sua cara “lambida”, até se levantou para se manifestar:



---Tatá, ocê teve corage de tentá? Ocê pra mim é doido rapaz e se ocê num desse conta? Ocê só pode ter tomado viagra.!

É a vez de o Bastião Goiaba falar:



Isso aí, gente, depende do tanto de viagra que ele tomou. Eu vi dizê que esse trem é bão memo, mais é caro pá daná...


Taquinho, o X-Tudo da turma, com o seu jeitão de conselheiro, comenta:
---Você, Tatá, não tem mais idade para ficar tomando esses aditivos. Isso pode elevar a sua pressão e, com isso, até levá-lo a óbito. Cuidado, meu amigo! Não vá avançando na lua pensando que se trata de um queijo.

O Neném, como que engolindo a voz, fez o seu comentário sucinto:



--- Num adianta cubri o corpo com a língua, Tatá. Depois de veio, muié serve é só pra companhia mesmo!

E o Carlos, num canto calado, resolve falar:



Porque que nóis num mata ele e óia o que tem lá den dele. Pá fala, assim, ele deve ser diferente de nóis tudo aqui.

Enfim, após tantos argumentos, Tatá, num afã de se defender, toma a palavra e diz:



---Ocêis tá tudo por fora! Mais por fora do arco de barril. Esse negócio de viagra é coisa pra home fraco. Nunca tomei essa porcaria prá cunhá o cabo da minha inchada, não! Viagra pra mim é a muié! Se o treinzinho fô ajeitado, o canzil num dorme nunca. Ocêis é igual monjolo de um pilão só. Cumigo o trem é diferente. Aqui, a cana tem garapa. Cêis tá é cum inveja!


Observei que aquilo ali mais parecia um tribunal onde o réu seria condenado por mentir. Cada jurado tinha uma sentença, mas, ninguém a justificava.
Apesar da intimidade, eu não quis falar nada. Preferi usar das prerrogativas do tribunal da minha consciência. Apenas pensar e guardar o meu veredicto:

Tendo em vista o tamanho da barriga do réu, os dentes estufados, um bafo suspeito, olhos remelentos e avermelhados, cabelos pintados e desbotados, bigode torto, passos trôpegos e idade acumulada o que traduz, de forma explícita, a improdutividade dessa máquina humana para o quê se propõe, com exceção da língua que, ainda, poderá deter funções alternativas, considero-o, contudo, sem a mínima chance de alcançar uma nota 10 no exercício de alcova.


Sendo assim, a meu juízo, o réu é um grande mentiroso e estará condenado a mentir pelo resto da vida.

Armando Melo de Castro

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Candeias – Minas Gerais

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O RONCO DO DEFUNTO

                                       
   Eu fui criado dentro de um conceito religioso próximo do rigoroso. Se não participasse da missa aos domingos, não poderia sair de casa. Se não fosse ao catecismo ministrado pela Maria Brasileira, neta do Padre Américo, não poderia ir à matinê do cinema.

Com um ano de idade, minha avó materna, Olinda Gomide, me colocou na irmandade de Santo Antonio. Eu guardo com muito carinho uma grande medalha de alumínio, com dizeres em latim, presa numa fita marrom. Na hora do meu aperto, seja ele qual for, sempre recorro ao meu Santo Antonio que, pelos muitos anos de convivência, já pude tomar a liberdade de chamá-lo de Toinzinho. Ele é o meu irmão mais velho numa alusão que faço à forma que minha avó sempre falava: “Você, meu filho, é irmão de Santo Antonio desde que tinha um ano de idade...” Portanto, quando ainda criança, assumi um compromisso com Santo Antônio: Todas as primeiras terças feiras do mês, distribuir alguns pães para os pobres. Faço isso há sessenta anos desde quando eu era, ainda, bem criança.

Mas, não foi por aí que, em mim, estabeleceu-se o conceito religioso. Foi uma ação convertida em obras que me fez sentir mais próximo de Deus.
O meu outro irmão é São Vicente de Paula. Meu avô, João José de Castro (Delminda), me colocou na irmandade, a chamada Conferência, quando eu tinha oito anos. Aos domingos, havia a reunião dos irmãos de São Vicente, na Igreja do Senhor Bom Jesus. E eu era o encarregado de correr a sacola entre os irmãos. Meu avô sempre me dava uma moedinha para que eu, também, participasse daquela coleta.

Durante anos, participo das atividades da Conferência, como confrade. O meu compromisso com São Vicente de Paula nunca foi embaraçado. Mesmo ao mudar de cidade, sempre me procurei estar presente.

Eu acho que ter uma religião é ter uma fé bem administrada. E a fé só é bem praticada diante do sentimento da caridade. A fé sem obras é morta disse São Tiago, em 2-14,22. Infelizmente, não é de hoje que as religiões se escondem por detrás da caridade para fazer o seu pé de meia. As religiões organizadas estão, a cada dia, explorando mais as pessoas de boa fé. Já não se fazem mais samaritanos como antigamente (Lucas 10,25 a 37). Daqueles que não fogem do caminho. Levitas e sacerdotes continuam a passar de largo para o outro lado da estrada caso encontrem algum necessitado de caridade pela frente. A maioria das pessoas faz caridade sem ser caridoso. Dão com uma mão, mas, não escondem a outra. Muitos prometem a Deus alguma coisa esperando a recompensa. Outros já querem dinheiro em troca de blábláblá. Ao invés de dar, tomam. Como é o caso desses evangélicos que dão dez por cento de sua renda em troca de um pouco de alimento para a sua alma. Mas, sequer se lembram de dar um simples sorriso para um próximo necessitado.

Antes dessas aposentadorias, atualmente existentes, a pobreza ardia. A Vila Vicentina de Candeias vivia de parcos recursos. Suas instalações eram precárias. A miséria levedava ali, naquele canto da cidade. A situação dos idosos era lastimável. Nos dias atuais, essa instituição dá um tratamento digno ao necessitado, mas antigamente, a coisa era feia. O cristão trabalhava a vida inteira e quando não tinha mais forças para tal e nem algum parente para acolhê-lo, era entregue para a Vila Vicentina onde terminava os seus dias na mais completa miséria. Não porque a Vila fosse omissa, absolutamente, mas pela falta de recursos. A procura era maior do que a oferta. E é por isso que, até hoje, existe certo preconceito sobre levar alguém para a Vila apesar das melhoras vividas hoje, naquela casa.

A Sociedade não tinha ajuda governamental. E podia contar, apenas, com a ajuda da comunidade. A maioria das pessoas que ajudava era pobre também. Comumente, as pessoas faziam promessa de dar algo para os pobres. O que, a bem da verdade, não era uma caridade, era um negócio feito com a sua própria fé. Os fazendeiros forneciam alguma coisa, quase sempre um pouco de feijão com arroz. Isso, naturalmente, porque se viam comprometidos, moralmente, com a instituição pelos pobres, ex-empregados, ali entregue.

Parte da população dava uma ínfima contribuição, pouco representativa, para completar o sustento daquela casa na qual faltava uma alimentação substanciosa, médicos, remédios etc. Muitos ali morriam à míngua.

Foi nesse tempo em que eu convivi com um dos candeenses mais caridosos da nossa cidade: Alvino Ferreira.

A Rua Coronel João Afonso terminava onde está localizada a Igreja do Rosário. Dali para baixo era a estrada cercada de mato e à beira da estrada, antes de chegar até a ponte do Bairro Rio Branco, existiam diversas moitas de bambu. Um pouco antes da ponte, à direita de quem vai, tinha um pequeno barraco. Ali morava um cidadão idoso, chamado Sebastião. Muito maltratado pela vida. Ele mesmo fazia a sua comida. Lavava a sua roupa. Fazia os seus chás. Os confrades que o visitavam pouco podiam fazer a não ser levar algo para a sua subsistência. A casa não tinha água encanada, longe disso. A água tinha que ser apanhada no córrego, junto à ponte, onde se ajuntavam muitas lavadeiras de roupas. Estas, comumente, iam até a casa do pobre mendigo, levavam água e limpavam. Enfim, aquele homem solitário teria sido um trabalhador, teria ficado viúvo, seus filhos foram embora para outras terras em busca de maiores recursos. E, naquele tempo, as pessoas iam e não sabiam quando voltavam e, muitas vezes, nunca mais voltavam e nem davam notícias.
Certo dia, uma lavadeira de roupas, chamada Alzira, ao adentrar a tapera para auxiliar o pobre velho, o encontrou morto. Com certeza, teria sofrido um infarto fulminante ou um derrame qualquer.

A Vila Vicentina fora acionada e, imediatamente, alguns membros avisados. Alvino Ferreira, então o responsável pela instituição, convocou-me, pela primeira vez, para auxiliá-lo a dar banho no morto. Não havia, nesse tempo, funerárias em Candeias e os mortos eram preparados em casa para serem enterrados.

Lembro-me como se fosse hoje. Alvino colocou um avental de vaqueta, doado pelo seleiro Joaquim Lopes, segurou o morto de pé sobre uma bacia enquanto eu, um pouco ressabiado, com uma bucha, fui esfregando o cadáver com sabão preto. Depois seria enxaguado com um regador.

Nessa mexida, o morto deu um roncado e eu levei o maior susto do mundo, e, nessa hora, “perninha pra que te quero!” Joguei o regador para um lado e sai correndo com medo. Eu era, ainda, um adolescente e não tinha a minha coragem amadurecida. Posteriormente, não tive mais medo após ter sido orientado pelo Alvino. O morto teve o seu cabelo cortado e barbeado para que fosse enterrado com dignidade. Alvino fazia isso com prazer, com alegria e nunca recebeu nada em troca desse trabalho.

À tona de minha memória, vem a miséria levada a efeito naquela pobre casa com que aquele pobre homem foi extinto, após longos anos de vida. Sem esposa, sem filhos e sem ninguém. Aí eu penso: a vida não vale nada se não confiarmos em Deus. Aquele infeliz não tinha nada para deixar, mas, poderia estar levando consigo muita coisa desta vida. Ou poderia estar, diante da desproporcionalidade social em que vivera, liquidando uma dívida feita sabe Deus onde, como dizem os espíritas!

A vida é de uma desigualdade patente e a morte é um mistério insondável. Ambas andam juntas, porém, em silêncio. As religiões usam delas fazendo incutir nas pessoas uma abstração religiosa. Parece que as religiões pensam que têm privilégio sobre o incognoscível. Religião nenhuma é sinônimo de caridade. A caridade, a meu ver, está dentro do coração de cada um de nós. E esta é a verdadeira religião porque é o fator principal para a Obra da Criação.




Armando Melo de Castro

Candeias – Minas Gerais

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O defunto abandonado.

sábado, 6 de agosto de 2011

DESNUDANDO A VIDA

                                                                
                                   Batina clerical


                 Circula na internet um texto escrito pelo Padre Fábio de Melo sobre o celibato, intitulado: “A graça de ser só”. O padre defende o celibato e diz que o casamento não irá resolver os problemas do mundo. Que as pessoas querem transformá-lo em propriedade privada e depositam sobre ele um universo de carências e necessidades e que estão iludidas de que ele é o redentor da vida dessas pessoas.

Parece que o jovem padre se esquece que uma religião é uma tese onde se discute a própria tese. Portanto, um padre deve antes de ser padre, saber ouvir, ver e calar. E parece que o popular sacerdote está meio confuso entre os palcos da vida e os palcos das canções e dos espetáculos, nem tanto religiosos.

Que me desculpe o Padre Fábio de Melo. Apesar de respeitar a sua profissão. Se ele diz, por si, sobre o celibato, tudo bem, é uma questão subjetiva. Agora, se diz por um todo, ele está, completamente, equivocado. Subentendo, todavia, que ele fala não somente, por si, manifesta, também, a sua opinião pluralizada. Ele se diz indignado quando vê a sociedade ver o celibato como mera restrição sexual. Eu acho que a sociedade está também indignada de ver um celibato descumprido e corroído pela pedofilia. Celibato que oculta tendências homossexuais para aqueles que as têm e não quer expô-las.

Acho que defender o celibato, nestas alturas do campeonato, seria um tanto arriscado para qualquer padre. Mas, como o Padre Fábio de Melo teve essa coragem, resta-me entender que ele não teria outras palavras para tal. Aliás, nenhum padre teria. Isso porque se trata de um pensamento muito particular. A começar que o celibato não tem amparo bíblico. E se não tem amparo bíblico e perdura por tanto tempo, podemos imaginar que a escolha, por ser padre, tem sido uma conveniência isolada onde, por si, é encontrada a solução de um problema pessoal.

Bastaria a conscientização do candidato a padre sobre a necessidade de ser solteiro ou não. E para quê celibato? Portanto, está mais do que provado de que as justificativas oriundas dos defensores do celibato são vazias e sem cerne. Um homem que não alimenta o desejo de ter um filho, de ter uma esposa é, no mínimo, um conselheiro teórico e a teoria não acoplada à prática não tem consistência.

O celibato esta relacionado com o homossexualismo, com a pedofilia e até com a prostituição. A prova maior disso são os casos de padres pedófilos, homossexuais e deturpadores de famílias que povoam a Igreja Católica e que a mídia divulga, constantemente, e nem o Papa encontra uma solução para moralizar isso.

 O celibato encobre, também, questões internas da Igreja Católica, portanto, sob a minha humilde forma de ver, como católico apostólico e romano, tudo que o Padre Fábio de Melo disse, nessa sua resposta aos fieis que desejam ver os padres casados, são palavras vagas, muito pouco convincentes e demasiadamente conservadoras diante de uma sociedade moderna.

Um padre renunciar a uma família para se dedicar à evangelização?! Como se explica, então, o fato dos apóstolos de Cristo, exceto João, terem sido casados? Os médicos, com o seu Juramento de Hipócrates, pela  tarefa de defender a vida humana em todos os momentos de suas vidas. Juramento que, inclusive, faz prevenção sobre as concepções religiosas. Mais ainda: e essa ociosidade visível dos padres, dentro da Igrejas?

O Crime do Padre Amaro, história de Eça de Queiroz, encontra-se em evidência nos dias atuais. O celibato fez, faz e continuará fazendo as suas vítimas: filhos órfãos de pai, pedofilia e prostituição.

Entendo que, se a verdade para os religiosos está na Bíblia Sagrada, o Padre que defender o celibato ou que desejar estar só, está indo de encontro aos ensinamentos bíblicos em Gênesis:

2.18: “Não é bom que o homem esteja só, vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.”.
2.22: “Deus fez uma mulher e levou-a para junto do homem”.
2.24 “Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para unir-se a sua mulher”
1-27: “Deus criou o homem a sua imagem. Criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: Frutificai e multiplicai-vos”.

Parece-me que o Padre Fábio de Melo não gosta de falar em casamento. Acha que casamento não conserta o mundo e isso não são palavras, a meu ver, próprias para estarem na boca de um padre.

Como sendo um dos fieis da Igreja Católica, acho que o Padre Fábio perdeu uma grande oportunidade de ficar em silêncio e meditar melhor. Mas, como se trata de um produto da mídia, acho difícil que ele venha a ser um religioso, na essência da palavra. A sua maneira de evangelizar é cara, pois custa de 100 a 200 mil reais um show, cujo montante sai do bolso de pessoas humildes e pobres.

Desculpe-me Padre, mas, é o que eu penso de você pela resposta, pouco elegante, que você deu aos fiéis que acham que os padres devem se casar.

Armando Melo de Castro
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