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sábado, 20 de agosto de 2011

O MEU AMIGO CANDINHO.

                                            Esquina do Bar e Restaurante Esquina
         Eu tinha um problema que, felizmente, consegui dominá-lo. Eu não conseguia conversar com uma pessoa gaga. Eu não sei o porquê disso. Toda vez que eu via um gago conversar, a minha primeira reação era rir. Achava a coisa mais engraçada do mundo. Não estava em mim... Acho que não é só comigo que isso acontecia. Existem centenas de piadas sobre gagos e as pessoas, em geral, acham graça de ver um gago falar e, muito mais engraçado, ver um gago nervoso tentando explicar alguma coisa. Certa vez, ainda menino, eu e meu primo, Vicente, levamos uma carreira de um gago, meio perturbado, que morava nas imediações do Chico Viriço. Era um negão de todo tamanho que me fez ver a minha avó por uma greta.

Mas, por falar em gago, lembro-me, de um grande amigo meu, já falecido e que era gago. Cândido Roberto Teixeira, o Candinho do Vico.

Candinho sempre foi um empreendedor. Fez tudo para se prosperar em Candeias, mas, a sorte pouco o ajudou. Foi um vereador. Mexeu com bar, com caminhão de transporte, com estúdio fotográfico, com pesca profissional, oficina mecânica e outras coisas mais. Mas, o seu futuro foi mesmo em Belo Horizonte para onde levou a sua família. 

Ele fez de tudo para ficar por aqui, mas, Candeias não o fez ficar.
No local onde se encontra, hoje, o boteco do Wantuil Badaró, na esquina das Ruas Professor Portugal e Expedicionário Jorge, Candinho construiu a casa que se encontra do mesmo jeito de quando foi construída. Ali, montou o seu Bar e Restaurante Esquina. O nome foi dado ao estabelecimento tendo em vista que o mesmo ficava numa esquina onde uma grande placa, bem elaborada, foi colocada a fim de ser vista pelas duas ruas. “Bar e Restaurante Esquina”

O serviço de alto-falante existente nos parques de diversões em trânsito por Candeias fazia propaganda para o comércio local. Não existia televisão. Parques de diversões e circos eram mais frequentes, armados, na Praça Antônio Furtado, não muito longe do local no qual viria a ser montado. E esse restaurante era, sem dúvida, o maior propagandista. E, com certeza, foi a primeira vez na vida que eu ouvi tais palavras. Não só eu, mas, boa parte da população daquele canto da cidade. “a la carte”, enlatado, bife molho “de madeira”, bife isso bife disso e bife daquilo. Para a maioria dos ouvintes, era uma incógnita.
No dia da inauguração do restaurante, Candinho montou, na outra esquina, bem próximo, ou seja, de frente ao bar, uma grande tolda de dança, com o piso, provisoriamente, cimentado. Fez um grande palanque e contratou, o então famoso em toda região, Maestro Totó e sua orquestra da vizinha cidade de Campo Belo. Na época, foi pago um preço absurdo para esta orquestra.

O cinema de Candeias tinha um serviço de alto-falante volante que corria a cidade toda anunciando os filmes da semana. Sebastião Salviano era o locutor desse serviço de som. Candinho contratou esse carro e o colocou rodando na cidade o dia todo anunciando o grande baile com a grande orquestra do Maestro Totó. E não faltou gente para marcar presença na festa só que, lá dentro do restaurante, tinha uma meia dúzia de gente. E a rua estava lotada.

A orquestra começa a tocar e a porta da tolda foi liberada para quem quisesse dançar. Pouca gente entrava. Na verdade, ali estava um povo humilde, constrangido, sem dinheiro e curioso. Queriam era ver o Totó com a sua voz bonita, pois, ele era o locutor principal da Rádio Clube de Campo Belo. Única emissora que entrava em nossos rádios, durante o dia, naquele tempo, através de ondas médias. Não existiam as emissoras da onda FM. E quando o Totó falava a turma apreciava, pois, a maioria só o conhecia pela voz. Era como se estivesse em Candeias um grande ator de novelas dos dias atuais

E, nos intervalos, Totó, com aquela sua bela voz de locutor de rádio, exaltava o Bar e Restaurante Esquina, naquela hora, inaugurado:
Senhoras e Senhores: Candeias acaba de ganhar um bem montado bar e restaurante, através do espírito empreendedor do jovem empresário, Cândido Roberto Teixeira. O popular, Candinho. Bebidas nacionais e estrangeiras. Latarias, em geral. Pratos nacionais e internacionais. Completo serviço “a la carte”. E não deixem de experimentar o famoso bife “a parmegiana.” Preços módicos.

Muita gente questionava: “Mas, que ideia sonsa é essa do Candinho do Vico por um “trem” desses, num canto da cidade? Isso tinha que ser lá em cima, no Largo...”.

Dionísio Passatempo era uma pessoa bastante conhecida na cidade, principalmente, ali, naquele meio. Morava nas proximidades do Vicente Vilela. Ganhava a vida comprando e vendendo aves e ovos, cabrito e carneiro, leitão e vitela, etc. Naquele tempo, não existiam granjas nem de galinhas e nem de porcos. E Dionísio viajava pelas roças, a cavalo, comprando e vendendo coisas.
Quando bebia, falava alto e gastava o ouro por quem teria dado o couro. Empanado, em um terno branco e gravata preta. Zoava em meio àquela festa até, então, singular. E, com o carburador queimando álcool, Dionísio, para fazer bonito, ofereceu um litro de uísque para os músicos. Naturalmente, teria sido a melhor garrafa do estoque do Candinho. Com certeza, um “Jonhy Walker” e a sugestão, naturalmente, teria sido do Candinho porque Dionísio nada entenderia de uísque.

O presente causou uma reação no maestro da orquestra que, gentilmente, agradeceu o presente oferecendo-lhe uma série de baiões do repertório do famoso cantor, Luiz Gonzaga.
Candinho, para ver a coisa animada, quis usar a cabeça cheia de “mé” do Dionísio e recomendou ao Totó que convidasse o Dionísio para subir ao palanque.

Daí, há pouco, Totó para a música e anuncia:

---Senhoras e senhores.
Temos o prazer de receber, em nosso palco, a presença do nosso amigo candeense, Sr. Dionísio Passatempo, o qual nos dirigirá algumas palavras.

Sobe o Dionísio sob o olhar atento do Candinho e começa:

Ôh, gente! Eu vou falá procéis! Esse trem do Candinho tá muito bão, mas, eu tenho umas coisa que eu num tô intendendo nada. Até agora, eu só tô intendendo o batidão desse jazz do nosso amigo de Campo Belo. Mas, o trem do Candinho eu vô falá a verdade, num tô intendeno nada. Tem umas palavra no negócio dele que num dá pra intendê. Ele tá muito mitido com esses nome das cumida dele. Isso aqui pudia cê uma coisa mais pobre igual o povão qui tá aqui. Sirviço de alicate, bife da Dona Megiana, temperado com madeira. Lataria. Bife pra mim é bife. Agora, aqui, veio tudo do outo mundo. Num sei mais o quê, rolê. Eu sou mais um torresminho com feijão, ovo mixido na farinha ou, intão, uma pratada de macarrão Pieroni, daquele bem grosso com massa de tumate.
E resolve convocar o Candinho:

Vem cá, Candinho. Ixplica esse trem pra nóis sinão esse restorante seu num vai vingá não...

E Candinho atravessou a rua e entrou dentro do seu restaurante e a meninada atrás rindo. (Eu no meio)

E o Candinho, Puto da vida, falava sozinho: Fi-fi-da-da-da-pupuuuuuuuuuuuuu!

Posteriormente, eu e Candinho nos tornamos grandes amigos. Onde quer que esteja, meu amigo, receba o meu abraço.

Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

2 comentários:

mario moreira disse...

Muito boa história, eu me lembro bem do meu pai falar nesse Candinho mesmo...

Juliano disse...

Parabéns , muito boa a sua historia , o Tio Candinho era muito boa pessoa mesmo . Obrigado por ter lembrado de uma pessoa tao boa .