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terça-feira, 23 de agosto de 2011

BRINCANDO DE FAZER QUEIJO

Queijo Minas
Às vezes, eu não tenho o que fazer e começo a inventar coisas. Afinal, é bem cansativa esta vida de aposentado, o dia todo no aposento. Eu sempre digo: aposentadoria é tal qual o cachorro que corre atrás de um carro e quando o pega não sabe bem o que fazer com ele. Eu fiquei a vida toda aguardando a minha aposentadoria, agora que sou aposentado, tenho que ficar enrolando o tempo.

E, assim, de quando em vez, vou para a cozinha. Estando em Candeias, sou fiscalizado pela minha mãe e, se estou em Juiz de Fora, sou vigiado pela minha mulher. Com certeza, eu vou sujando a louça porque não tenho nenhuma vocação para lavar “trens”. Daí, as mulheres ficam implicadas comigo quando me veem na cozinha.

Improvisei um defumador de latas usadas de vinte litros e produzi uns defumados que ficaram deliciosos. Bacon, lombinho de porco, linguiça e outros produtos. Eu sempre gostei da arte culinária. Na área de forno e fogão, já fiz muitas coisas entre doces, pães, assados e cozidos, etc. Tudo sempre elogiado pelo sabor e asseio. Contudo, sempre criticado pelo fato de deixar os utensílios expostos e fora de seus lugares.

Num dia desses, me deu na cabeça a ideia de fazer um queijo. Imaginei eu comendo um queijo feito por mim. Parece até fantasia de menino, mas, um velho aposentado fica mesmo cheio de fantasias. E, com essa ideia fincada na mente, fui estudar e pesquisar a fim de entender a arte do laticínio.

Perguntei para a vizinha, procurei na internet, li um livro sobre o assunto e concluí que já estaria apto para fazer o meu queijo-de-minas. Fiquei até imaginando com qual o doce eu iria saborear aquele manjar especial fabricado pelas minhas mãos. Já teria pensado em pedir umas laranjas-da-terra para a vizinha, Dona Maria do Antero, e fazer um doce caldeado. Eu gosto muito de queijo fresco com doce de laranja-da-terra. Enfim, eu sempre fui um consumidor de queijo e, para mim, sempre foi uma incógnita o jeito de fazê-lo. Eu cá, com a minha intimidade, fiquei exaltando a minha ideia. Fazer o queijo e o doce de laranja-da-terra e, depois, saboreá-los à moda dos abades.

Tendo já tomado os conhecimentos teóricos, foi chegado o momento de por a mão na massa. A primeira providência foi comprar a forma e o coagulador, ou seja, o coalho vendido em qualquer supermercado.

Era hora de buscar o leite puro, direto da fazenda, o produto principal para a execução do meu projeto. Peguei um balde e fui até à residência do senhor João Cassiano a fim de comprar cinco litros de leite. Eu faria um queijo pequeno, como experiência, no sentido de fazer outro maior depois.

Com o balde de leite nas mãos, eu mais parecia um menino. Dos meus sessenta e sete anos de idade, eu voltei para dez. Sentia-me tal qual uma criança que teria esperado o Papai Noel e, agora, seria a hora de estrear o brinquedo.

Logo que saio no portão da casa do João Cassiano e atravesso a rua, ali na esquina do Nelio Gianasi, encontro-me com aquela senhora, a minha velha amiga, que tem uma língua que mal cabe dentro da boca. Quando ela conversa, a impressão que se tem é que a língua está empurrando a dentadura para fora.

Apresentava-se com um visual diferente e meio desencontrado com o seu perfil. Um lenço estampado de preto e vermelho cobrindo apenas o topo da cabeça. Acho que estava tentando esconder a raiz dos pelos descorados. Calçava um tênis desinteirado para pés femininos. Quando bati o olho naquilo, quase adivinhei tratar-se de um aproveitamento masculino, talvez, herdado de algum sobrinho. Mas, como eu não entendo bem dessas coisas, preferi o benefício da dúvida. E, naquele encontro, meio fora de hora para mim, ela, como sempre, já veio fazendo o seu questionamento indiscreto:

---Uai, Sô Armando! Vai nadá no leite? Parece que comprou o leite tudo?

---Não. Só comprei cinco litros. Ainda, tem muito leite lá!!

---Eu vou comprar dois litro. Será que senhor deixou pra mim?
---Claro que deixei! Parece que você bebe bastante leite!. Na sua casa é muita gente para tomar leite?

---É, mais eu fervo e refervo. Boto na geladeira, gela e regela e nóis vai bebeno com café. Às veis, eu faço um bolinho de fubá.

---Eu adoro um bolo de fubá.

---Bolo de fubá engorda. Purisso qui o sinhor tá com essa barrigona. E o que o sinhor vai fazê cum tanto leite, Sô Armando?

---Vou tentar fazer um queijo.

---Queijo!? O sinhor fazeno queijo!? Kákakaka, só fartava isso pro sinhor inventá né, Sô Armando? O sinhor deve é bebê um litro duma vez pá inchê essa barrigona!...

---Eu quase não tomo leite. Mas, vou sim. Vou experimentar fazer um queijo.

---Sô Armando, o sinhor tem umas idéia meia doida, num tem?

---Idéia doida? Por que doida?!

---Uma vez, eu vi o sinhor falano, lá no Zé Cabeça, que sabe fazê pinga na panela de pressão. Eu contei pro meu marido e ele falou que esses Derminda é tudo meio doido.

---Eu não me considero doido não! Eu fiz um litro de pinga de rapadura na panela de pressão e ela ficou muito boa.

---Meu marido falou que o avô do senhor, João Delminda, inventou, uma vez, uma espingardinha de cano de guarda-chuva e, quando foi dá um tiro, vuô pedaço de espingarda pra todo lado. Isso é verdade, Sô Armando?

---Isso é conversa do povo. Meu avô era um homem muito inteligente.

---O sinhor me discurpa, Sô Armando! Mais uma pessoa que sai falano que fabrica pinga, na panela de pressão, num tá muito bão da cabeça não, Sô Armando!

---Você dizendo que eu não estou bem da cabeça?!Engraçado!!!

---Aonde já se viu isso, Sô Armando!? Fazê pinga na panela de pressão?Panela de pressão serve pra cuzinhá os trem. E cumé que vai fazê pinga cuzida?

--- É por que você não entende do mecanismo e como ele funciona. Se entendesse, veria que a fabricação de pinga é simples e não iria ficar tão admirada.

--- Intão, me explica isso, Sô Armando! Esse trem pra mim tá muito esquisito! O sinhor cuzinha a rapadura e ela vira pinga?E pinga num é feita de garapa?

--- Ah meu pai do céu!!!!! A pinga em si é o vapor que sai da panela com a fervura do mosto. Mosto é a água de rapadura ou a garapa fermentada que passa por um processo de resfriamento, através de uma serpentina. Esse se liquidifica transformando-se em pinga. Chama-se pinga porque o vapor que se liquifaz e sai aos pingos. Os primeiros e os últimos 15% da pinga extraída não servem para ser consumidos, apenas os 70% entre o princípio e o fim. O aparelho de fazer pinga se chama alambique e o que eu faço é apenas uma adaptação transformando a panela de pressão num pequeno destilador.

---Eu num intendi nada, Sô Armando! É mió dexá isso pra lá. Se eu ficar aqui, conversando com o sinhor, eu vô acabá ficano doida igual o sinhor. Eu vou pegá o meu leite, senão ele acaba.

Saiu. E, logo que dou uns vinte passos, olha a mulher, atrás de mim:

---Sô Armando! Espera aí.

---O que foi?

---O leite cabô. Fiquei conversano com o sinhor inquanto eles vendeu o resto do leite.Tamém, o sinhorme prendeu na cunversa, né, Sô Armando! Agora, eu fiquei na mão.

--Fui eu que prendi você?! Fazer o quê, agora?

---O sinhor bem que podia me imprestá do seu leite e, amanhã, eu compro otro e pago o sinhor.

---E o meu queijo?!

---Mais qui mané queijo, Sô Armando! O sinhor num sabe fazê queijo coisa ninhuma. Dêxa essa duidurade hoje pra otro dia, sô! E me impresta logo esse leite.

E o menino de sessenta e sete anos teve que esperar por mais um dia para poder brincar de fazer queijo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e acasos.



2 comentários:

FELTRO POR MIM disse...

Armando, agora até eu fiquei com vontade de provar desse queijo. E quando for lá na vó Maria do Antero (se for por esses dias é mais seguro) não precisa pedir as laranjas não, já tem doce de laranja pronto, pena não ser em calda, mas em barra é garantido! Leva uma barra de doce prá sua casa e deixa uma "talha" de queijo rsrsrs

Celle disse...

Armando é uma delícia ler suas 'doidices"!
sua escrita, simples e fácil, flui como em cascata, molemente...
Gosto de suas estórias e causos!
Sempre que posso venho por aqui!
Aproveite o tempo disponível e continue a nos brindar com contos e crônicas que fazem nossa alegria!
obrigada
Celle