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terça-feira, 2 de agosto de 2011

UM CHUMBO NA ASA

                      Wanderley Alvarenga
 Ontem à noite, eu fui até a cozinha fazer um requentado com a sobra do almoço. Não sou muito chegado em comer à noite, agora que completei setenta anos e preciso ser um pouco mais precavido. Afinal, são muitos e muitos anos fazendo extravagância e é chegada a hora de maneirar nos hábitos.

À noite é sempre bom comer uma fruta ou tomar um lanche leve. Mas, a cultura herdada do meu pai permite um “revirado” nesta hora da noite. Não que eu queira vir a ser um velho centenário, não é isso que eu quero. Mas, pelo menos, ser um velho saudável. Não quero, também, ser um velho artificialmente rejuvenescido, longe disso, mas nunca é demais ser um velho jovial.

Certa vez, o Mozart Sidney me disse que existem duas coisas que não aceitam desaforo na vida: uma é o dinheiro e a outra é a saúde. Quem esbanja essas duas coisas sofre quando elas faltam. Eu acho que o Mozart tinha razão.

Mas como dizia, fui até à cozinha, aqui de casa, em Candeias, fazer um mexido, quando me deparei com uma sobra de feijão muito bonita e que me inspirou fazer um tutu. Afinal, eu havia feito uma bateria de exames clínicos e, como estavam bons, pensei cá comigo: Ah! Só hoje! Afinal, é um motivo de alegria quando se faz um “check-up” e dá tudo certo.

Fiz um tutuzinho pra mineiro nenhum botar defeito. Umas pequenas fatias de “bacon”. Respinguei um pouco de pinga, pois é de todo sabido que um pouquinho de pinga no tutu fá-lo mais saboroso. Olhei para o telhado e meditei: Obrigado, meu Bom Deus, por esta festa de que eu tanto gosto! “Chapei” a pinga e tomei de uma colherada do tutu, aquele tira-gosto, ou melhor, completa-gosto como diria o meu amigo Rômulo Nardi.

Estive sozinho na cozinha enquanto minha mãe assistia à novela. Se eu caio na bobagem de ser gentil com a minha mãezinha e ofereço-lhe uma prova do manjar, eu teria que escutar uma ladainha danada sobre o horário e o peso da comida, o que acabaria por mudar minha ideia ou então me frustrando o prazer de comer.

Assim sendo, fiquei ali sozinho degustando aquela delícia banhada no azeite de oliva e beliscando a pinguinha do João Cassiano, sem ninguém para me falar que aquilo não era hora de comer tutu.

Por pouco, eu não sentia um orgasmo alimentar à moda Gabi Jones, aquela americana que sentia um orgasmo quando comia os seus alimentos preferidos.  

E naquela sintonia entre o meu cérebro, a minha boca e o estômago, eu puxo a ponta de uma meada vinda de um estímulo neurônico me fornecendo uma frequência, o que me faz experimentar uma evocação virtual mediúnica, por um reflexo engastalhado no meu cérebro, mesclado de tutu de feijão.

 Nesse momento, veio à tona de minha memória um apreciador de tutu, o meu grande amigo Wanderley Alvarenga, mais conhecido por Lei Careta. Ele foi meu amigo por muitos anos, desde a juventude até à sua morte. Viveu brigando com a vida, mas agora estaria de bem com a morte, lá junto de Deus.

Tínhamos uma diferença de idade de dez anos. Portanto, fiz dele um professor na minha escola da vida. Não teria sido um bom professor se eu tivesse sido um aluno exemplar. Infelizmente, o Ley bebia muito e não se relacionava bem com a família. Tinha sérios problemas psicológicos e o final de sua vida foi dramático. Mas era um amigo que eu prezava.

Ele teria tentado de tudo na vida, mas não logrou êxito em nada. Foi alfaiate, comerciário, esteve trabalhando em Belo Horizonte, Brasília, mas, sempre voltava desmedrado dos seus objetivos. Enfim, foi trabalhar com bar. O seu primeiro barzinho ficava no prédio do cinema. Lá existia uma pequena loja que o cinema alugava para a instalação de uma lanchonete até que se transformou num boteco que veio a ser de sua propriedade. Posteriormente, se casou e pode contar, então, com a indispensável ajuda da esposa, minha comadre Aparecida.

No tempo do barzinho, quando ainda era solteiro, possuía um fogareiro alimentado a querosene, onde no final da noite, fazia o seu tutu, numa panela de ferro, para o seu tira-gosto particular. Nesse tempo, ele ainda bebia pouco. Depois é que se desandou a beber além da conta. Trazia de casa o feijão cozido e aquilo ia secando e ressecando lentamente. Tinha tanta coisa misturada e, às vezes, o que menos tinha era feijão. 

Estava sempre a justificar o gosto exótico do mexido. Sempre alegando tê-lo feito render para que todos os seus amigos do fim da noite pudessem provar uma colherinha do que ele chamava de Ungui do Ley. E eu sempre tomei dele uma colherada daquele tutu para beber uma cachaça. Aliás, entre mim e o Ley, houve sempre certa afinidade o que alimentava uma amizade pela qual ele convidou-me, posteriormente, para padrinho do seu filho Cristian. Éramos compadres. Ele gostava de falar ao pé da letra e dizia sempre: “Você, Armando! Um dia será o padrinho do meu primogênito”.

Mas, voltando ao meu manjar, não é difícil imaginar que, diante do clima em que me encontrava, a lembrança do amigo se explica porque o referido tutu a mim, outrora, oferecido teria ficado na história de nossa amizade. E, agora, dentro daquela simetria ideológica, bem sintonizada, eu percebia aquela ressonância como quê de alguém, aqui na terra, comendo tutu de feijão e reverenciando um amigo num outro mundo. E eu continuava a sentir aquela presença. Agora, parece que ouvia o Ley dizer que no meu tutu estava faltando couve picadinha, cebola picadinha, salsa picadinha, etc. Ele tinha uma mania de acrescentar coisas picadinhas no tutu que acabava, às vezes, se transformando numa mixórdia de sabores.

De repente, sinto-me tomado por um transe mediúnico e volto ao passado, bem no início da nossa amizade, quando eu entrava na adolescência e o Ley já era um rapaz adulto.

Eu um meninão inocente, muito mais bobo do que inocente. Época em que entrava para a escola do mundo e recebia algumas aulas do Ley.
Dou uma mexida no retrovisor da minha vida e vejo, lá atrás, eu e o meu amigo descendo a Avenida 17 de dezembro:

---Armando, amanhã eu vou a Campo Belo. Vamos?
---Você vai de quê?
---De carona no caminhão do Renato do Zico.
---Vai fazer o que lá, nessa poeirada? (Não tinha ainda estrada asfaltada para Campo Belo)
---Vou consultar.
---Consultar? Você está doente?
---Bem! Estou e não estou!
---Então, para que vai consultar?
---Eu estou com um pequeno problema.
---Se é pequeno, vai ao Posto daqui.
---Não, não posso. Eu tenho vergonha do Dr. Zoroastro.
---Vergonha de quê?
---É um negócio meio complicado.
---Complicado como?
---Eu peguei um negócio aí.
---Negócio? Que negócio?
---Olha, Armando, eu vou contar, mas não espalha tá?
---Tudo bem! Mas o que é?
---Tomei um chumbo na asa?
---Chumbo na asa?
---O que é isso?
---Doença!
---Você disse que não está doente!
---Bem quero dizer... Mais ou menos...
---Eu não estou entendendo. Você está ou não está doente?
---Estou com um incômodo. Bem, acaba sendo doença.
---Mas que diabo de doença é essa que é e não é?
---Doença de rua.
---Doença de rua!?
---E o que é doença de rua?
---Blenorragia.
---Nunca vi falar nisso?
---É o mesmo que gonorreia.
---E o que é isso?
---Doença de rua...
---E o que é doença de rua? Afinal onde dói em você?
---No pênis...
---O que é pênis?
---O Pinto.
---O quê? Você está com pinto doente? Nossa!
---E onde você arrumou isso?
---No Zé Bolinha.
---Quem é Zé Bolinha?
---O dono do cabaré.
---Cabaré?!... E ele te pegou a doença?

---Não!!! Foi uma das mulheres dele? Ah, Armando! Assim, não dá. Você é bobo demais!

Coitado do Ley. Ficou desorientado com o chumbo na asa. Afinal, pinto que leva chumbo na asa não consegue trepar no poleiro... Que Deus o tenha meu amigo!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos
Minas Gerais


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