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quarta-feira, 27 de julho de 2011

AS MÃOS DO DENTISTA


Nesta casa branca, que ficava num barranco, era o gabinete dentário do Sr. Boanerges Pacheco. No lugar da janela era a porta de entrada. Parte da clientela se enfileirava do lado de fora.
      
   Semana  passada, numa emergência dentária, tive que procurar um dentista e fui me ater no consultório da Dra. Luana, na Avenida 17 de dezembro, ao lado da Farmácia Nossa Senhora Aparecida. E como aconteceu em tantas outras vezes na minha vida, acabei dando o meu vexame de paciente traumático. Talvez, com isso, tenha deixado aquela jovem profissional admirada de ver um homem empanado nos seus cento e dez quilos, contando quase setenta anos de idade, detendo, em si, uma fragilidade medonha diante de uma profissional preparada sob extrema responsabilidade.

É de todo patente que o serviço odontológico do tempo do Brasil Colônia, se estendeu por muitos anos e fora restrito à extração de dentes. E esse trabalho era feito por pessoas ignorantes. Esses profissionais não viviam apenas disso. Eram barbeiros, curandeiros, enfermeiros e sangradores. O trabalho era feito sem nenhum cuidado contra as infecções e a falta de higiene era total. Tinham uma autorização governamental, mas, para isso, precisavam provar que já possuíam acima de dois anos de prática e essa prática eles conseguiam fazendo as maiores barbaridades. Num tempo em que ainda não existiam os medicamentos de hoje e nem os recursos disponíveis, às vezes, muitos pacientes morriam infeccionados.

Os médicos da época se negavam a fazer esse tipo de serviço. Eles alegavam que perderiam o tato das mãos leves para a hora de uma cirurgia mais frágil. Como as pessoas que faziam esse trabalho eram vistas como corajosos astuciosos e impassíveis, subentende-se que os médicos tinham era medo de exercer a odontologia.
Não havia instrumentos e nem anestesia. Acontecia, às vezes, de amarrarem o paciente numa cadeira para tratá-lo. Dentaduras eram feitas e vendidas avulsas. O paciente comprava a que melhor lhe adaptasse. Usava-se muito o provérbio: “fazer com os dentes para comer com as gengivas”.

Muitos anos mais tarde, quando já organizada a odontologia, os primeiros dentistas formados faziam um curso anexo às faculdades de medicina. Posteriormente, vieram as faculdades de odontologia independentes. Contudo, isso só veio acontecer por volta de 1935. Daí em diante, foi que a odontologia deu asas para a sua evolução porque, até então, as cidades pequenas, principalmente, não tinham um dentista formado numa faculdade. Eram, simplesmente, práticos e protéticos os que, ainda, exerceriam a profissão de dentista por um bom tempo. Uns iam ensinando aos outros que se estabeleciam em uma localidade sem, entretanto, terem conhecimento do que representavam para a saúde dos pacientes. É claro que existiam alguns mais cuidadosos, mas, tinham aqueles que eram totalmente desprovidos das necessidades básicas da higiene que deveria ter um dentista.

É impressionante o quanto a odontologia se evoluiu num espaço de pouco mais de cinquenta anos. Tempo em que eu pude presenciar.

A coisa era feia. Não só por culpa dos chamados práticos dentistas que atendiam a nossa população, mas, também, pela forma pouco evoluída que a odontologia se apresentava. Um gabinete dentário assemelhava-se à sala onde foi executado o famoso bandido americano, Karyl Chessman, na cadeira elétrica, em 1960. Dava medo. Os dentistas tinham os seus aventais sujos de sangue e pareciam magarefes descuidados. Outra coisa que me fazia arrepiar as canelas era o famoso ferrinho de dentista. Não existiam esses motorzinhos modernos de hoje (terríveis), mas, em compensação, tinha uma broca que girava movida através de um pedal e quando o dentista chegava aquilo no dente da gente era como se fosse um trator dentro da boca.

Mas, pensando bem, temos que ser justos. Não eram os dentistas os únicos responsáveis pelos problemas psicológicos que um tratamento de dente causava ao paciente. Era um tempo muito atrasado. Portanto, tratava-se, a bem da verdade, de uma questão cultural. Danosa era a pobreza. Um tratamento de dente nunca foi coisa barata e a maioria das pessoas não tinha dinheiro. Não haviam esses convênios de hoje. Os produtos que os dentistas usavam eram totalmente importados e caros o que fazia com que um tratamento preventivo se tornasse muito caro também. O ouro era um produto muito usado pelos dentistas.

Muitos arrancavam os seus dentes em casa, quando esses já se encontravam frouxos ou quando se tratava de dentes de crianças da primeira dentição. Eu, por exemplo, fui ao dentista, quando a segunda dentição já começava a dar sinais de perdas. Eu nunca fui a um dentista por causa de um dente de leite. Amarrava-se o dente com uma linha e dava-se-lhe um tranco. Comumente, era esperar o dente doer. Após, banhava-o com água de sal, tomava-se um comprimido de Cibazol (indicado para dores de dentes) e, se o dente fosse furado, infiltrava-se nele um algodão embebido em álcool ou ácido fênico, quando diziam que era para queimar a raiz do dente. Se isso não resolvesse, era então procurado o dentista que pouco mais tinha a fazer a não ser arrancar o dente envolvido em um tumor. As obturações, feitas no passado, eram muito ruins e caiam ficando uma perfuração maior do que a cárie que foi tratada. Daí, o recurso, quase sempre, era arrancar o dente.

Poucos faziam tratamento preventivo. Ia-se ao dentista quando já estava com o rosto inchado. Havia casos de supuração que perfurava o rosto do cristão. A prática era arrancar todos os dentes que no mundo de hoje seriam facilmente tratados e colocava-se uma dentadura. Ah! Ainda tinha mais: após a extração dos dentes, o paciente ficava com a boca murcha aguardando, até meses, para colocar a dentadura. Esse tempo, diziam os dentistas, seria para que a prótese não viesse a ficar frouxa e se soltando da boca.
Se existe um medo que eu não tenho acanhamento de tê-lo é o medo de dentista. Eu morro de medo deles. Já fui alvo de todo tipo de gozação, mas, não abro mão do meu medo. Só de pensar naquele barulho do motorzinho deles, lembrar do boticão, lembrar da broca movida a pedal, as minhas canelas arrepiam. E, quando canela arrepia, é sinal de trauma. E o que eu tenho é trauma com todas as letras: T.R.A.U.M.A. Eu sofro quando tenho que mexer nos dentes.

As primeiras vezes que fui a um dentista estão bem guardadas nos labirintos da minha memória. São cicatrizes psicológicas que jamais vão desaparecer de mim e que para elas dificilmente poderiam existir uma plástica mental.
Lembro-me de quando fui seguro na cadeira de dentista do Cristovão Teixeira, pelo meu pai e o Ximango, um negão de todo tamanho. Isso por estar inquieto com um dente tumoroso e o rosto todo inchado. Em outra vez, lembro-me, também, quando fui tocado com o "ferrinho" com todo descuido no nervo de um dente doente. Só de lembrar disso eu fico arrepiado.

Mesmo com a evolução da odontologia, longe daquele cheiro horrível dos produtos odontológicos, daquela cadeira de Chessman, daquela broca assassina e do boticão, então, ferramenta prioritária dos dentistas, essas lembranças ficaram tão bem entranhadas nos meus neurônios que a palavra dentista ainda me assusta.
Apesar do esforço que faço, durante anos, no sentido de me conscientizar sobre esta questão, posso garantir que, ao entrar num consultório odontológico, sinto que estou indo para um gabinete próprio para um suplício.

Felizmente eu encontrei em Lagoa da Prata, o Dr. Luiz Perilo, um cirurgião dentista competente e de larga experiência com clientes traumáticos. Muito tem me ajudado a superar um pouco dessa agressão emocional, da qual guardo profundas cicatrizes.
Atualmente, Candeias encontra-se bem provida de dentistas. Temos, aqui, ótimos cirurgiões todos diplomados e qualificados em uma faculdade para atender quaisquer tratamentos que uma boca merece. Hoje em dia esses profissionais são atentos e estão sempre reciclando os seus conhecimentos, no sentido de acompanhar a evolução da ciência odontológica.
O Primeiro cirurgião dentista a vir para Candeias foi o Dr. Luiz Carlos dos Santos, irmão do Sr. Waldemar, então, dono da Farmácia São José. Dr. Luiz tinha o seu consultório na loja ao lado da Farmácia São José tendo se transferido, mais tarde, para a Rua Pedro Vieira de Azevedo, onde reside até hoje. É um candeense por adoção. Natural de Barbacena veio juntar-se a nós na construção da história de Candeias.
Eu tinha dezesseis anos quando fiz o meu primeiro tratamento de dente. Até então, eu não tinha consciência do que seria isso. E para mim dentista era apenas para arrancar os dentes e colocar uma dentadura no lugar.

Para esse tratamento, eu procurei o Sr. Boanerges Pacheco. Um dentista prático que tinha grande clientela por ter um preço módico. Mas essa modicidade tinha um preço também. Usava-se produto de péssima qualidade. Como exemplo, os chamados pivôs, pino que interliga a raiz de um dente natural com um dente postiço; muitos dentistas usavam agulhas de vitrola, comuns naquele tempo. Isso, hoje,teria o nome de "gambiarra". 

Lembro-me que fui ao seu gabinete (os práticos davam aos consultórios o nome de gabinete) e fiz um orçamento para tratar três obturações. Isso demorou três semanas. Talvez, pelo meu estado apreensivo, Boanerges evitava mexer por muito tempo na minha boca. Era um zás-trás e pronto, já me mandava voltar em um outro dia. Como eu já fumava nesse tempo, o serviço incluía uma limpeza geral no final do tratamento com um produto para clarear os dentes.

Assim, no último dia, minutos antes desse processo de limpeza, Boanerges me pede licença e entrou num pequeno banheiro que tinha no seu gabinete. Cá de fora, eu pude receber os estrondos que os seus intestinos forneciam aos meus ouvidos. Depois de algum tempo, ele sai, lá de dentro, sem passar as mãos por qualquer torneira e as enfia dentro de minha boca a fim de isolar com algodão a pele dos dentes onde iria usar o tal branqueador. Foi quando eu senti um cheiro horrível de fezes.

Ao fazer a aplicação daquele medicamento, nos meus dentes, comentou tranquilo:
“O Vadinho da Sota me falou que esse remédio tem gosto de bosta”.
E eu, apesar de ser um menino acanhado, não tive como evitar o meu comentário sucinto:

Gosto eu não sei, Sô Boanerges, porque eu nunca comi bosta. Agora, cheiro tem e muito, mas, eu acho que é da mão do senhor.
Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos.

Um comentário:

Celle disse...

Armando, muito boa narrativa!
Poucos são os sessentões que não t~em medo de dentista, sempre devido traumas adiquiridos na infãncia, com os primeiros tratamentos, ainda na raça!É contagiante a forma como descreve os fatos que nos levam a visualizar a tal situação! Parabens!
celle