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quarta-feira, 28 de março de 2012

AI SE EU TE PEGO!


Foto para ilustração do texto.
Quando contava com os meus quinze anos, mais ou menos, chegou a Candeias um parque de diversões armado, como de costume, na Praça Antônio Furtado. Um parque a altura da nossa cidade, na década de 50. Chamava-se “Parque Teatro Zélia”. Contudo, não tinha nenhum teatro. Naquele tempo, esses itinerantes tinham um palanque no qual faziam um número teatral, ao final, para segurar os frequentadores. Porém, esse parque só tinha no nome a palavra teatro e Zélia era a filha do dono, um velhote pequeno e ágil, com a cabeleira alvoroçada e grisalha. No topo desta, acomodava um chapéu de palha diferente que dizia lhe ter sido fabricado por encomenda. Como exemplo dos demais parques que visitavam Candeias, o Parque Teatro Zélia era o protótipo da pobreza. Consistiam as suas diversões nos balanços venezianos cujas canoas sempre se encontravam caindo aos pedaços; tiro ao alvo, com tremenda falta de segurança, o que proporcionou um chumbo no nariz da minha irmã Maria Amélia; um sorteio, por meio de um coelhinho da Índia; cigarros na argola; uma sombrinha rodante para crianças; uma roleta de jogo de azar com 37 números e um cercado em que funcionava o jogo de víspora valendo dinheiro. Naquele tempo, o jogo em Candeias rolava solto. A víspora era exercida sem limite de idade. Meninos jogavam, livremente, sem qualquer intimidação. Os chamados delegados “calça-curta” raramente apareciam na delegacia. O destacamento policial, limitado a um cabo e a dois soldados, por algumas vezes, arbitrários e, por outras vezes, acomodados.

De posse de minguados cruzeiros (dinheiro da época), resolvi pôr uma fezinha no jogo de víspora. Eu não sei o que me deu naquele dia. Eu nunca fui de sorte com jogo, mas, nesse dia, parece que a sorte teria me abraçado. O cartão, que tomei, estava mesmo condicionado para mim. Ele tinha os números 16, 01 e 46. Exatamente 16 de janeiro de 1946, cuja data eu me aportei na Rua Coronel João Afonso.

Adolescente e com os bolsos cheios de dinheiro, juro que tive a sensação de ser o homem mais rico do mundo. Ao sair dali, entrei no boteco do Edmundo Simões que ficava ali próximo. Tomei meia garrafa de vinho Vênus, um vinho vagabundo pelo qual os jovens iniciavam-se na vida alcoólica. Assim, com a mente fermentada pelas coisas que o diabo inventou, saí dali e fui parar no Bar Piloto, um bar rico, de propriedade, na época, do Guido Bonaccorsi. Naquela hora, eu queria beber uísque e fumar os cigarros Columbia, produtos que não eram encontrados nos botecos da “rua-de-baixo”.

Como “cawboy” de faroeste americano, num “saloon”, adentrei o Bar Piloto, meio zonzo do vinho, levantei o pescoço, firmei o olhar, passei as mãos na cabeça como se acertasse o chapéu, afinal, parecia que o espírito de Roy Rogers teria encarnado em mim. Talvez até pudesse imaginar o “Trigger” amarrado do lado de fora. Com a voz firme pedi, aliás, mais mandando do que pedindo ao Guido como se estivesse comprando briga: “Eu quero um Uísque e um maço de cigarros Columbia”. Ora, o que teria pensado o Guido, naquele momento? Eu era um rapazola pobretão, estava acostumado a ser visto sem dinheiro, ganhava uma migalha para baixo e para cima com um balaio de pão da Padaria do Mozart Andrade. Então, o Guido, surpreso e sorridente, perguntou-me: “Uai, Armando, o que aconteceu? Você ganhou na loteria ou assaltou a carteira do seu pai?” Sem levar a mal a pergunta, lhe disse: ganhei na víspora. E enfiando a mão no bolso, mostrei-lhe o “toco” de dinheiro deixando-lhe, ainda, mais desconfiado com a minha justificativa.

Bebi aquele uísque sem dar conta do sabor. Pedi outra dose. Peguei o maço de cigarros, paguei a conta exaltando o “toco” de dinheiro e fui saindo. Já era tarde da noite. O Bar Piloto já se preparava para encerrar a tarefa do dia. A cidade quase que às escuras, as lâmpadas dos postes mais pareciam um tomate maduro, quando de súbito, passando pela rua, vejo uma mulata escura, cabelo crespo e repuxado para traz, boca pequena e dentes claros realçados por um sorriso em cadeia com os lábios vermelhos. Ao ganhar aquele sorriso da cabrocha, senti como quê recebendo uma fluidificação dos céus. A maliciosa olhada que me deu me fez sentir uma coisa diferente. Era como um calafrio. Um frio na espinha. Uma coisa gostosa de ser sentida. Parecia que fui atraído por um imã aos seus olhos. Eu nunca tinha sido olhado daquele jeito. Assim, saí seguindo aquela que eu não sabia se era ou não era donzela. Parecia que o meu coração andava e as pernas batiam. A mulata dava uma olhada para trás como quem dizia: anda mais rápido, meu bem, vamos para onde eu vou e eu quero você. Então, eu ali, atrás, pensando: ah, se eu pego essa nega! Parecia um pangaré querendo entrar na baia de uma potra quarto-de-milha no cio.

Ela desceu a rua que faz esquina com a loja do Carlinhos Giannasi e parou na outra esquina onde, hoje, se encontra o Posto de Gasolina do Itamar Freire. O clarão era de apenas uma penumbra do poste, quase apagado. Na esquina de frente, existia uma pequena fábrica de farinha de milho do Sr. Sebastião da Picidonha. Do lado de fora, um monte de palha de milho refugado pela fábrica. O escuro tomava conta do monte de palha. Pensei comigo: tá aí o diabo na casa do terço.

Contudo, havia um problema. É que eu era bobo demais, acanhado em demasia e um tanto encalistrado. A bem da verdade, eu era um tatu de galocha. Não sabia me apresentar a uma garota. Perdia a voz e, mesmo tendo tomado o vinho e o uísque, faltavam-me as palavras. Todavia, eu estava com dinheiro e como dinheiro faz coisas, eu me aproximei:

---Oi,
---Oi,
---Como você se chama?
---Isabel!
---Isabel?
---É...
---Para onde você vai?
---Pra minha casa, uai.
---Leva eu?
---Cê ficou doido?
---Não!Não fiquei não.
---Que é qui ocê qué cumigo?
---Nada!
---Nada?
---É
---Intão purquê tá me inrabichano?
---É porque eu gostei de você?
---Ocê gostou de mim sem isprementá?
---Gostei!
---Meu povo pensa que eu sô moça...
---E num é não?
---Mais ou meno!
---Mais ou menos? Como assim?
---É que ainda tem um resto...
---Resto! Que resto?
---Cumé qui ocê chama?
---Armando...
---Armando o quê?
---Nada!
---Nossa, mas ocê é meio bobo, né?

Diante disso, em um esforço muito grande, eu quis deixar de ser bobo e ataquei:

--- Quanto você cobra pra nós rolar naquele monte de palha?
---Déis conto!
---Dez cruzeiros? Tá feito!
Fomos parar no monte de palha de milho. E, já de cara, defrontamos com um cão que dormia ali, sossegadamente. A alcova improvisada tinha o cheiro de tudo, menos o perfume de mulher. Mas, eu tinha pensado em pegar, peguei e bem pego, em um tempo que eu só sabia pensar: “Ai, se eu te pego”. Todavia, não pegava nada. Mas, dessa vez, eu pensei e peguei. E custei a soltar!

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos






quarta-feira, 21 de março de 2012

O VINHO DO PAPA NO RESTAURANTE PINGUIM


Eu aprendi a falar palavrão na escola da vida. Em casa, minha mãe não deixava. Mas iniciei o meu curso de palavreado chulo quando trabalhei na tabacaria do Midinho, no princípio da década de 60. A Tabacaria ficava junto do seu salão de  barbeiro situado ao lado de onde atualmente está o Restaurante da Cidinha. Foi nesse tempo que eu comecei a colocar na minha boca os primeiros  palavrões. 

 Como todo mundo sabe, salão de barbeiro aparece tudo quanto é sacanagem: piadas pornográficas e aquele noticiário público da vida íntima das pessoas que vai segurando o freguês por horas e horas, enquanto o barbeiro vai, pouco a pouco e com o salão cheio, despelando a clientela. Entretanto, um dos meus maiores professores da linguística chamada de "nome feio" foi o Lulu, dono do antigo Bar e Restaurante Pinguim de quem eu fui empregado após ter deixado a tabacaria.

O Bar e Restaurante Pinguim situava-se numa velha casa verde onde se encontra, hoje, a loja de produtos agrícola do Zé Alencar Ribeiro. O patrão, o Lulu, apesar de ter os seus picos de bom humor, falava palavrão com a cara séria. Eu sugiro ao leitor: pense um palavrão daqueles bem crus e eu garanto que já o terei ouvido da boca do Lulu uma centena de vezes.

Lulu era um ser humano dos mais humanos que eu já conheci. Coração, extremamente, mole. Se ofendesse uma pessoa, no mesmo instante, ficava triste e até chorava. Contudo, na hora do seu desabafo, ele mandava até o Papa para os infernos. Se lhe pisasse no calo, era uma chuva de palavrões dos mais variados. A Dona Teresinha, sua esposa, que o diga. Ele falava o que vinha à boca e não falava baixo. Falava alto, muito alto. Ficava vermelho como um peru e, se o contestasse, era aí que a coisa ficava preta. Quando aparecia um freguês embriagado, vindo de outro bar, Lulu ficava uma fera e  sempre: “Vai catá a rudia onde você quebrou o pote seu filho da p...”

Um dia, o pároco da cidade, o padre João Maria, um holandês que falava tudo enrolado e que tomava as suas refeições no Restaurante Pinguim, disse-lhe:

---“Ó Lólu, eu querer comer comida mais sem sal. Comida sua tem muito sal. Muito sal faz mal, Lólu! Na minha teurá, eu comer comida pouco sal.”

Isso foi o bastante para o Lulu soltar os cachorros no padre.

---Até o sinhor, agora, vai incher o saco aqui, Padre? Por que não manda vir cumida da Holanda. Quem vem de lá, tem que acustumá com o rango daqui, ora. Océis lá, vive numa merda danada! Lá come sem sal porque não tem sal.

Depois de uma dessa, Lulu acalmava e ficava puxando conversa com a pessoa ofendida. Neste caso, beirou o Padre e lhe disse:

Olha, Sô Padre! Amanhã, o sinhor vai cumé uma cumidinha sem sal. Eu tava era brincando.

Lulu era um homem caridoso. Muito amoroso, era chorão e vivia pedindo desculpas quando ofendia alguém. Jamais se viu, em Candeias, um comerciante tratar os fregueses desta maneira. Mandava-lhes “tomar naquele lugar” sem que ninguém ficasse com raiva dele.

Zé Viroto era um alfaiate que abandonou a profissão por causa do uso extravagante do álcool. Vivia nos bares pedindo uma pinga para os fregueses que estavam à beira do balcão. Mas, o ponto em que ele mais ficava era no Bar Pinguim, onde eu trabalhava. Uma pessoa inofensiva, baixo, chapéu de pano, dentes mostrando os pinos dos pivôs quebrados, moreno, conversa mole e quase sem barba. Quando Lulu estava com a veia boa, tudo bem. Porém, se Lulu já tivesse, também, dado uma bochechada com a água que o gato não bebe, ele já começava a brigar com Zé Viroto e aí todo mundo parava para assistir aquela encrenca que mais parecia um debate:

---Zé Virôto! Sai fora daqui!

---Que é isso Lulu, eu num tô fazendo nada, uai!

---Tá inchendo o saco!

---Que é isso Lulu, que saco que eu tô incheno?

---Tá pedindo pinga para os fregueses.

--- Que é isso Lulu, isso é inche o saco?

---Olha, vai para o meio dos infernos!!!

---Que é isso Lulu, eu num sei como faz para ir lá não, uai!

--Então, vai para o diabo?

---Nossa Lulu, que é isso, ocê me manda ir para o diabo? Que mal eu te fiz?

---Não me goza, não, seu filho da pu...

---Que é isso Lulu, tadinha da minha mãe!

---Vai tomá no ... .

---Que é isso Lulu, se ainda fosse uma caracu!

---Toma aqui essa pinga e some!

--Que é isso Lulu, ocê tá numa nirvusia, hein! Fica carmo, sô!

---Vai pra PQP.

--- Que é isso, Lulu, que coisa feia! Eu sempre te respeitei!

---Já te falei para sumir, desgraçado!

---Nossa, Lulu, carma que eu já vô.

Zé Viroto vai saindo, como um cachorro escorraçado e com aquela cara de piedade. Quando já está no meio da rua, Lulu sai até à porta e grita:

---Vorta aqui, Zé!

Zé Viroto volta e Lulu pega uma garrafa, dois copos sendo um para ele e outro para o Zé e, com a voz ofegante, diz:

---Tome, beba que essa é da boa! Quer um tira-gosto?

---Não, Lulu, muito obrigado! Dá só uma caprichada na dose aí pra mim que eu já fico satisfeito.

Lulu bebe com ele e diz: 

----Essa pinga tá melhor do que o Vinho do Papa... 

----- Bota Papa nisso Lulu!

Zé Viroto sai passando a mão na boca e diz, feliz da vida.

---Até amanhã, Lulu, fica com Deus!

Lulu o acompanha, com os olhos lacrimejantes:

---Vai com Deus, tamém, Zé!

Depois, pensa alto:

---Tadinho do Zé! Eu tenho uma dó dele! Tamém, o filho da puta num deixa de beber, sô... Eu acho que ele não passa do ano de 1965...

E Zé Virôto morreu no ano de 1965.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.

quinta-feira, 8 de março de 2012

UM DIA DE CÃO

Foto apenas para ilustração
Quando se trata de emagrecer ou fazer dieta, o cérebro do cristão vira uma tempestade. Não existe coisa mais chata do que fazer regime alimentar e ficar à espera do emagrecimento. Toda vez que penso nisso, chega a ser quase que um martírio. A cabeça do ser humano é muito complicada. Quando eu contava com os meus dezoito anos, tinha uma grande vontade de ser gordo. Comia, comia e, quanto mais comia, mais magro ficava. Quando eu comecei a me entender com a minha magreza, entrei na onda de ser gordo. Agora, não posso ter preguiça de andar, preciso passar fome e, ainda, ser alvo de comentários aborrecíveis.

Na fábula, o lobo e o cão, Esopo conta:

---Amigo cão -- pergunta o lobo faminto e magro – que te fazes pra viver tão gordo?

---É a vida boa que eu levo, --- respondeu-lhe o cachorro. ---Eu sou o guardião da casa do meu senhor. Ele dá-me os ossos que sobram da sua mesa e os seus criados vigiam-me com cuidado para que eu possa dormir de dia e ficar acordado à noite.

---E que sinal é esse no teu pescoço, amigo cão?

---Isto é a marca da minha coleira. Eu fico preso na corrente para ser olhado com mais cuidado.

E o lobo, magro e faminto saiu dizendo que preferia ser magro e livre, a ser gordo e preso.

Estou fazendo dieta. O excesso de peso me incomoda. Ficar sem beber uma cerveja, um refrigerante, é um grande sacrifício. Deixar de comer a vontade o meu feijão com arroz, o meu bife mal passado, o meu churrasco dois pelos, é como que um castigo. Ficar andando sem destino! Eu não sei como existem pessoas que dizem gostar de fazer caminhada! Isso para mim é um tremendo... Bem, afinal eu tenho que me submeter a tudo isso. Enfim, é uma questão de razão. Eu devo fazer esse sacrifício.

Primeiro dia de caminhada. Ao passar em uma das ruas do meu mapa que fora cuidadosamente traçado, passo defronte à casa de um amigo meu assentado em um banco à sua porta. Como há tempos eu não o via, não me foi possível evitar uma parada. O Pedro mais parecia um Buda gigante, todo esparramado. Suponho que oitenta por cento do seu corpo foi tomado pela barriga que parecia um fole de ferraria. As pernas abertas. Camisa de fora das calças. Ponta da língua fora da boca e respiração ofegante. Contudo, sorridente como sempre.

---Olá Pedro, como vai?

---Bão e gordo!

---Você está gordinho mesmo!

---Gordinho não. Eu tô gordão! --- E riu gostoso.

---Você, então, gosta de ser gordo?

---Num é que eu gosto. É qui eu fico muito preso e preso come muito.

---Você já tentou fazer dieta?

---Num dô conta não. Nem penso nisso. Cumê é bão dimais, Armando!

---E você come muito? ---Perguntei.

---Uma latinha dessas de doce eu abro ela e logo, logo, meia vai imbora. Ovo é meia dúzia frito cum farinha. Pão de queijo uns cinco cum carne. Cedo é meio bolo. Carne eu gosto é bem mantegosa. Gosto de cumê até iscorrê mantega no canto da boca. Uma custela de boi assada e um pedaço de toicinho de barriga, ah, num tem coisa mió não. Frango tá teno qui sê dois. Um vai quais só pra mim. Agora, o que me ingorda é o arrôis. Esse é qui é danado. Eu como quais uma caçarola de arrôis duma veis. É o qui tá me engordano. Mais eu num dô conta de dexá de cumê não. Quero morrê de barriga cheia...

---E você não sente nada?

---Sinto umas parpitação. Eu até tô quereno ir no médico mais é que a gente chega lá e ele inventa tanto remédio que eu até vô dexano.

---Você não tem medo?

---Medo de quê? De cumê? (Riu satisfeito) Eu num tenho medo nem de morrê qui dirá de cumê? Um dia eu iscutei, num sei quem falá, qui a baleia só bebe água e come peixe e é gordona. Ah! Tamém quando eu morrê de todo jeito eu vou virá ossada memo. Tá bão! O maió disajeito é quando vô no banheiro. Aí a patroa tem que me ajudá!

---Ajudar? Como assim?

---Eu num dô conta de limpá não...

---Quer dizer que...

---É ela que me limpa!

---Ela que limpa você!?

E eu depois disso, saí assustado, andando feito um louco e naquela ânsia de emagrecer fui pensando sem parar. Pensava em aprender a passar fome, em ficar um ano sem comer. EU PRECISO!!! Preciso me acudir, enquanto há tempo. Perto do Pedro, eu estou magro! Afinal, eu quero é ser livre como um lobo e não quero ficar preso às minhas banhas, como preso fica o cão na corrente.

À frente, encontro-me com uma antiga vizinha sorridente e diz:

---Olá, Sr. Armando! Andando para se emagrecer? Isso é bobagem. Gente velha cansa as pernas e a barriga continua. Meu pai nunca andou, nunca fez nada. Viveu 96 anos. Vou falar para o senhor: andar para emagrecer é querer ir para o céu sem morrer. Eu tenho um primo que é carteiro. Ele anda o dia inteiro e está gordo feito um balão.

---Bem, só que eu faço dieta, também, Dona Lia!

---Poupando a boca, Sr. Armando? Não faça isso não! Cuidado com a anemia. O senhor gordo está bonito. Larga disso!

E nessa confusão mental, vem em mim a vontade de falar um nome bem feio, daqueles bem cabeludos, tipo pedra 90. Um palavrão que esvazia a gente por dentro de uma só vez. Porém, acabou ficando apenas na vontade. Só em pensar, eu devo ter perdido mais de mil calorias.

Gordo! Gordo! Saber que um dia eu fui magro e pensei que ser gordo era bom. O tempo é que era bom. Eu pensava e não sabia o que pensava.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.


Crônica relacionadas
http://candeiasmg.blogspot.com/2011/05/rainha-do-cochicho.html

quinta-feira, 1 de março de 2012

A PERUCA DO CAPADOR

                                                 Foto ilustrativa - HI-FI
Bicho complicado é o homem. Apesar de ser o único animal racional, ocupante do primeiro lugar na escala zoológica, faz cada barbaridade de deixar até os seus irmãos gelados, arrepiados e com os olhos arregalados. O homem é o maior depredador do mundo. Além disso, é sádico. Passa a faca no pescoço de uma galinha; dá uma paulada na cabeça de um coelho; joga uma rã em uma lata de água fervente; marreta a cabeça de um cavalo; estoca a espinha de um boi além de lhe malhar a cabeça com um marrão pesado; atira em uma ave e quase sente um orgasmo ao vê-la cair na boca de um cachorro; enfia uma fisga no traseiro do tatu e mete a faca no coração de um porco e por aí vão as mais diversas formas de matar um bicho. O que mais impressiona é a frieza das pessoas que fazem esse tipo de trabalho. Parece que sentem um imenso prazer nisso.

A gente fala, mas, fazer o quê? Ficar sem comer um pedacinho de carne não dá? E lá, entre os bichos, existe, também, a violência. A carne humana é um prato delicioso para muitos animais. Se se jogarmos um defunto em um chiqueiro, veremos logo o que acontece! Portanto, se a gente for pensar bem, estamos, mais ou menos, empatados. Agora, esta história de falar que o homem é racional é coisa de homem para homem, porque se os bichos tivessem algum discernimento, jamais diriam uma coisa dessas sobre nós. Queiramos ou não, somos todos animais violentos. É um comendo o outro. Os peixes, por exemplo, parecem ser os piores. É o maiorzinho comendo o menorzinho até chegar ao grande. Aí o homem vem e papa! É o bicho racional sempre levando vantagem na base da covardia.

Bem, deixemos isso para lá porque afinal esse assunto é mais apropriado para os vegetarianos que mais parecem mandarová comendo folhas. Na hora que estou de frente com um bife de boi mal passado ou de um espeto de churrasco dois pelos, eu mudo de idéia e vou achar que essa bicharada tem mesmo é que morrer. Afinal, eu sou um animal carnívoro e como quaisquer carnes. Ah, como gosto de carne!

Aqui, em Candeias, antigamente, no tempo em que não existia a lei que proíbe criar porco na cidade, diversas casas mantinham um chiqueiro de porcos em seus quintais. Alguns faziam chiqueiros bem feitos: cimentados com cocho de cimento e coberta para o animal. O lugar era lavado diariamente e, mesmo assim, ainda exalava o cheiro danado de desagradável. Agora, o pior era aquele que fazia um chiqueiro tosco, com casqueiro de madeira, ou seja, aquelas tábuas serradas em primeiro lugar e que vêm acompanhadas da casca da árvore. Sem cimentação, onde o animal fuçava provocando lama, com um cocho rústico de madeira ou, às vezes, em uma improvisação de pneu de caminhão. Isso aí era terrível! Essa lambança proporcionava uma criação de moscas e um odor fétido de tirar o apetite de qualquer glutão. Eram muitas reclamações, todavia, como não existiam leis ou, se existiam não se faziam cumprir, o vizinho que não gostasse desse tipo de coisa sofria. Acontecia de causar indisposição entre bons vizinhos que acabavam se tornando inimigos.
Havia um hábito de ajuntar lavagem para o fulano e, quando esse matava o porco, ganhava um pedaço do bicho. Caso o pedaço não fosse bom, o fornecedor de lavagem ficava tiririca da vida.

Outra forma de alimentar os porcos era com soro da fábrica de manteiga do Bonaccorsi, acrescentado de farelo de arroz. Como, nesse tempo, Candeias era auto-suficiente na produção de arroz, as máquinas que limpavam esse grão trabalhavam dia e noite. O porco das pessoas mais pobres quase não via milho. Acontecia muito de serem vistos porcos chorando de fome. Se alguém nunca viu um porco chorar de fome, não queira ver: é triste!

Muitos engordavam um capado em sociedade. Isso aí costumava dar uma ingresia na hora de partir o bicho. Aquele que o sediava se via no direito de algo a mais e costumava a “passar a perna” no sócio.

O porco precisa ser castrado quando ainda novo porque, ao engordar, a sua carne e, principalmente, a sua gordura ficam com um odor muito desagradável e um sabor bem prejudicado. A castração, em grande escala, é feita através da aplicação de hormônios que impede as funções das glândulas reprodutivas. Já em um porquinho aqui e em outro acolá é feita a castração escrotal. O método consiste em extirpar os testículos do animal que guincha desesperado, chamando atenção de todo mundo. A primeira vez que eu vi isso, eu fiquei tão horrorizado que senti que o corte era em mim.

Por falar nisso, eu me lembro, quando assisti uma operação dessas no quintal da casa de meu tio, João Delminda. Era um leitãozinho pequeno, da raça “Carunchinho” e para fazer aquela maldade foi chamado o Zé Capador. Diziam ser ele o mais famoso “capadô de porco das Candeia”

Se o leitão era roncolho, ninguém arriscava outro castrador porque operar um porco, com apenas um testículo, é muito difícil e Zé Capador era, realmente, o melhor. Nunca, até então, um animal teria morrido depois de sua castração.

Baixinho, cara redonda e orelhas de abano. Parecia um coelho. Tinha um mascado com a dentadura que dava a impressão de que estava procurando uma semente de goiaba no buraco do dente. Se se recebia um elogio, ria e se ria, dava pra ver a vermelhidão da sua úvula palatina em contraste com o céu da sua dentadura. Entretanto, o que mais chamava a atenção no seu porte, era o cabelo. Tinha uma calva que se estendia quase até a nuca. O maior atrativo para os pensamentos íntimos de quem o via, era a sua cabeleira. Esta agasalhava a careca de forma precária, contudo, deixando sobrar uma franja em um ridículo contraste com os cabelos naturais e grisalhos que rodeavam a cabeça. Era uma cabeleira caseira, talvez, feita por ele mesmo ou, então, aproveitada de algum boneco de manequim jogado fora. Suas roupas, apesar de simples, eram impecáveis. Em síntese, era um homem, extremamente, vaidoso. Chegava trazendo a sua faca que ele dizia ser especial e própria para o que chamava de “capamento”, um vidro de desinfetante, uma agulha e linha. Primeiro, contava uma historinha de sua vida de capador e, depois, se postava como o Dr. Zerbini em uma sala de cirurgia e, ainda, se esnobava:

--- Nunca matei um roncôio no “capamento”!

Certo dia, Zé Capador descia a Rua Coronel João Afonso e, ao passar debaixo de um pé de beijo que existia na porta da casa da Sra. Marica da Melada, não viu um galho pendente no qual a sua cabeleira ficou agarrada. Isso aconteceu às vistas de muitas pessoas. Todavia, ele continuou andando como se não tivesse acontecido nada. Eu, como sempre, vigilante assisti a ocorrência e gritei atrás dele:

O cabelo do sinhor ficou agarrado! E Zé Capador, com aquele olhar de ódio, contestando o óbvio, disse:

---Que isso minino?! Cê ficô doido!? Aquilo lá nunca foi  meu não!

É, mas acontece que, no outro domingo, eu fui à missa e o vi com uma cabeleira bem diferente e ela tinha os fios de cabelos meio loiros. Afinal, no caso dele, acredito que qualquer cabelo servia.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos