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quarta-feira, 10 de maio de 2017

JUCA RICARTE, UM AMIGO DOS POBRES.

                                                         Juca Ricarte com uma de suas netas.

Hoje o nosso Blog estará homenageando um grande candeense. Um homem caridoso, afetuoso, que durante a sua vida teve sempre uma atenção especial para os pobres, para os menos favorecidos. Estaremos falando de José Gomide da Anunciação. O popular Juca Ricarte.

José Gomide da Anunciação era filho de José Ricardo Gomide e de Dona Bárbara Emereciana de Oliveira.

Nasceu no dia 25 de março de 1907, numa casa situada no antigo Beco do Botafogo, hoje Rua André Pulhez.

Eram sete irmãos, sendo quatro mulheres e três homens: Emília, Cecília, Olinda e Maria; João, Jozino e José.

O nome de seu pai, José Ricardo, foi transformado popularmente em José Ricarte. Como José Gomide tinha o mesmo nome do pai, passou a ser chamado de Juca. E de Juca do Zé Ricarte, acabou ficando com o apelido de Juca Ricarte.

Casou-se ainda muito jovem com Guilhermina Luiza Gomide, a popular Guilé. Dessa união nasceram seis filhos, sendo eles, Irene, Aparecida, Walter e Marlene. Os outros dois faleceram ainda quando crianças.

Juca Ricarte não frequentou escolas. Estudou com o seu pai e teve apenas um aprendizado básico.

Homem extremamente correto. Amava muito a sua família e por querer os seus filhos no caminho certo do bem e da honradez, muitas das vezes, chegava ao exagero na sua forma de educar. Não aceitava nenhum tipo de indisciplina entre os seus filhos. E era bastante rígido.

Nunca faltou com os seus deveres de pai de família e de trabalhador. Lutou pela vida com muitas dificuldades. Mas sempre saudou os seus compromissos rigorosamente nos prazos predeterminados.

No curso da sua vida, trabalhou nas mais diversas profissões. Foi lavrador, usineiro da antiga usina do Sr. Celestino Bonaccorsi; pedreiro, carpinteiro e funileiro ou latoeiro, até que aos quarenta e cinco anos, conseguiu com a ajuda do Dr. Zoroastro Marques da Silva, um emprego público na área da saúde.

Juca que era pedreiro quando foi nomeado para um cargo pelo qual não tinha nenhum conhecimento, teve um choque psicológico muito grande no inicio de sua carreira;  ao vir a  ser enfermeiro lotado no Posto de Saúde, dirigido pelo médico, Dr. Zoroastro.

Após receber os primeiros ensinamentos, chegou quase ao desmaio quando aplicou a primeira injeção. Diante dessa ocorrência chegou a pensar em desistir do emprego. Contudo, a sua esposa Guilé, os colegas de trabalho e o Dr. Zoroastro impediram-no de fazer isso.

Um pedreiro ser nomeado pelo Estado para ser um enfermeiro pode ser curioso à vista de alguns. Mas, Dr. Zoroastro um homem do povo, conhecia bem os méritos e as aptidões de Juca Ricarte;  assim não teve dúvidas em indicá-lo para ser um de seus auxiliares.
E o tempo se incumbiu de transformá-lo num grande profissional que muito bem serviu a área de saúde de nossa cidade, numa era de poucos recursos.

No início, o salário era baixo e não dava para manter a família. E para ter um complemento salarial, Juca trabalhava num barraco no quintal de sua casa como latoeiro. Seu trabalho consistia na fabricação de vasilhas domésticas, num tipo de reciclagem de latas vazias de óleo que conseguia nos postos de gasolina. Não havia, nesse tempo, os produtos plásticos existentes nos dias atuais.

No Posto de Saúde, Juca não tinha horário certo. Trabalhava de acordo com as necessidades. Comumente era visto pelas ruas vestido com o seu jaleco branco, transportando seringas e outros instrumentos a fim de atender pacientes nos diversos cantos da cidade.

Foram seus colegas de trabalho no Posto de Saúde comandado pelo Dr. Zoroastro: Amilton Marques, João de Souza Filho, Quintino, Zoroastro Filho, Dr. Luiz (dentista).

Os árabes dizem que o homem culto não é bem aquele que frequenta escolas e sim aquele que busca conhecer a si mesmo. Juca Ricarte nunca freqüentou escolas... Nunca recebeu um diploma... Mas conhecia a si próprio porque sabia que a vida é uma mistura de sentimentos... Uma mistura, principalmente, de dor, alegria e amor. Portanto, sofreu com as suas dores... Sorriu com as suas alegrias... E amou tudo que Deus lhe deu.

Caridoso e muito querido pelos menos favorecidos pela sorte. Felizmente, existem pessoas que se interessam com seriedade pelos problemas dos mais pobres e Juca era uma dessas pessoas.

Na sua trajetória de vida, fez muitos e muitos amigos. Era constantemente convidado a apadrinhar os filhos de seus amigos. Entre os seus afilhados de casamento, batizado, crismas, etc. chegou a contar mais de duzentos.

Prestou relevantes serviços à Sociedade de São Vicente de Paulo. Foi seu presidente por diversos anos durante o tempo que as coisas eram muito difíceis. Vivia humildemente, pedindo ajuda para os seus amigos no sentido de acudir um pobre aqui outro acolá.

Entre o seu rol de amigos estava o Coronel Renato Lamounier, da Aeronáutica, filho de Dona Elisa Paiva. Renato doava roupas usadas vinda da Aeronáutica e estas eram entregues para o Juca que, criteriosamente fazia a distribuição entre os pobres.
Certa feita, Juca agradou de uma blusa, e fez o pedido para a mãe do Coronel que sorrindo lhe disse: ‘’Você não precisa pedir Juca, pois é você que as distribui!” Mas Juca era assim extremamente correto.

Prestou durante muito tempo, serviço voluntário ao SOS, e, ao entregar o cargo, fez questão de fechar um balanço bem detalhado, sem quaisquer sombras de dúvidas.
Juca Ricarte gostava das coisas bem explicadas e não admitia erros com facilidade.

Numa época em que Candeias não tinha um pároco, e a paróquia era atendida precariamente pelos padres de Campo Belo; num tempo que não existiam os ministros da eucaristia, Juca Ricarte deu a sua grande contribuição para a Igreja. Não só no fato de promover festas, mas também, de fazer alguns trabalhos clericais, assistir enterros, bênçãos, etc.

Juca Ricarte sempre se preocupou com o natal dos pobres. Não pedia nada para si. Mas para os pobres era um pedinte.

Faleceu aos 79 anos, vitima de um infarto do miocárdio, no dia 04 de junho de 1986.

Enquanto o mundo aportar homens como você Juca Ricarte, com certeza,  o mundo será bom! Parabéns meu bom amigo e receba o abraço daqueles que lhe serão eternamente agradecidos. Parabéns, porque a caridade é um dom de Deus e você sempre a teve junto de você, como forma de uma orientação de Cristo.

Obrigado, Juca Ricarte! Muito obrigado!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

domingo, 23 de abril de 2017

SANTA IGNORÂNCIA!


Eu não estou aqui propositadamente fazendo a apologia do álcool, mas acho uma hipocrisia; uma ignorância generalizada, aqueles que por motivos religiosos, sejam de qual religião for, ficarem condenando o álcool e as pessoas que bebem. ---- Para eles parece que o álcool é uma invenção do demônio. Condenam e criticam àqueles que bebem como se fossem pecadores e tivessem extrapolando os princípios celestiais.

Ser abstêmio é uma questão de direito de cada um, agora querer fazer proselitismo sobre a bebida é uma coisa muito diferente, é assinar um atestado de ignorância e faltar com o respeito ao próximo. Afinal Deus nos deu o livre arbítrio; e conselho é uma coisa subjetiva; pode ser muito bom na concepção de quem o dá.

À bem da verdade nem a Bíblia Sagrada condena o álcool; pelo contrário, ela estimula o seu uso, como pode ser visto a recomendação de Paulo a Timóteo em 5,23: 

Não continues a beber somente água; usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades”.

E qual o cristão que não conhece o primeiro milagre de Jesus Cristo, ---- "As Bodas de Caná". -----  quando numa festa de casamento o vinho acabou e Ele que estava presente como convidado para a festa, atendendo ao pedido de sua mãe, transformou água em vinho? E com a turma “chumbada” Ele fez 600 litros de vinho da melhor qualidade. “João 2.1.11”  

Será que tem alguém ainda com a coragem de dizer que era vinho sem álcool? E como se explica a bebedeira naquela festa de casamento? Jesus, sua mãe e seus discípulos estavam lá. Quem contesta isso? Ai seria o registro do atestado de ignorância, porque não existe vinho sem álcool. Afinal, vinho é sinônimo de álcool e se sem álcool toma-se outro nome, ou seja, suco ou refrigerante.

Portanto, a pessoa que não gosta; não faz uso de bebida alcoólica, ou se esta lhe faz mal à sua saúde, lembre-se que nem tudo que é ruim para um é ruim para todos. E com certeza, no fundo do seu intento, gostaria de beber, mas não o faz porque é doente; não sabe beber; não confia em si; ou é levado pela conversa dos outros. Seria a esses moralistas muito mais elegante dizer que não gosta de bebidas alcoólicas ou elas lhes fazem mal.

É de todo patente que a Bíblia condena o excesso, mas não só o de bebida alcoólica, e sim de tudo. Todo excesso é prejudicial, principalmente com relação àquilo que ingerimos. Até a água com excesso poderá nos levar à morte.

Quando eu ouço alguém dizer: “Graças a Deus eu não bebo nada”, vem à minha mente o rifão de Galileu Galilei: “O sábio dúvida, o sensato reflete, e o ignorante afirma”. Trata-se de um ignorante que não sabe refletir e se mete a fazer a apologia do desconhecido e ser juiz de uma causa que não lhe pertence.

Como todo excesso, o álcool é um malefício para a saúde como são os medicamentos que ingerimos em busca da cura de doenças; tanto quanto os alimentos envenenados à venda nas feiras livres; os refrigerantes, os conservantes que acompanham os alimentos industrializados e até água, tomada com exagero, é capaz de matar; e tudo mais que nos entra pela boca, desde que seja usado inadequadamente, poderá nos fazer mal.

O álcool consumido de forma moderada, pelo contrário, é um verdadeiro remédio.  Mas o que é moderado? A ciência releva até 25 gramas, o que quer dizer, duas latinhas de cerveja, dois copos de vinho, ou duas doses de bebidas. Fora disso, você pode ser considerado que bebe pouco ou muito. Portanto, é de se saber que o álcool apesar dos seus malefícios comuns, apresenta, também, o seu lado benéfico à saúde humana, e não é um demônio, como os prosélitos gostam de pregar.

Evidentemente o organismo de cada um responde de forma diferente, até mesmo a uma gota. Assim como certas doenças tal qual a doença celíaca faz com o consumidor de glúten que não pode sequer ver produtos de farinha de trigo, cevada ou centeio. No entanto ao tomar uma cerveja contrai uma baita dor de barriga e já diz que a cerveja tal não presta que lhe fez mal. Mas o que lhe fez mal foi o glúten, presente em toda cerveja. ------ Se come um produto de farinha de trigo e sente que os intestinos vão lhe sair pela boca, já acusa o macarrão ou a pizza que lhe serviram no restaurante e que estavam perdidos; isso porque não sabe o que é glúten.  

Hoje, quando estive no açougue aqui em Juiz de Fora, o Sr. Waldomiro, dono do açougue, mostrou-me um belo pedaço de carne de boi, exaltando os dois pelos para a delícia de um churrasco. E eu logo lhe disse: Levá-lo-ei e vou degustá-lo com uma boa dose de João Cassiano!...

---- Mas o que é João Cassiano Sô Armando?
-----É uma pinga da boa, lá da minha terra...
-----Tô fora sô Armando... Tô fora... Não bebo desse veneno... Na minha casa somos crentes, e crente não mexe com isso, não bebe graças a Deus!

Pensei: Eu também sou crente em Deus, sou católico! Ou o Deus dos outros crentes é diferente?  Será meu Santo Deus!?

Que Deus os abençoe... SANTA IGNORÂNCIA!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 29 de março de 2017

ÉRAMOS VINTE E CINCO...


 No dia 08 de dezembro de 1958, em Candeias MG, nós, alunos da quarta série primária do Grupo Escolar Padre Américo, participamos de uma grande festa no Cine Circulo Operário São José, às 20 horas, quando se deu a entrega do certificado de conclusão do curso primário.

Naquele dia, a turma abaixo mencionada se separava após uma longa temporada se encontrando e convivendo todos os dias.

Foi uma festa para ninguém botar defeito. Presentes os corpos docente e discente, o Prefeito Municipal, Dr. José Pinto de Resende, um deputado que nos paraninfou; autoridades e personalidades do município. Como autoridade eclesiástica estava presente o Monsenhor Castro com o seu discurso maravilhoso sempre na ponta da língua.

Você, meu amigo, se deparando com a relação de formandos abaixo mencionada e porventura tenha algum dos relacionados que lhe disser respeito, ou seja, parente, amigo ou conhecido, eu ficaria imensamente agradecido se me fosse enviada notícias desses amigos de infância e condiscípulos.

No ano que vem esse evento completará sessenta anos e há muitos colegas dessa turma que os vi pela ultima vez naquela noite, desde então não tive mais notícias.  No entanto, são imagens vivas que moram dentro de mim, inclusive daqueles já falecidos.

QUARTA SÉRIE, ANO 1958 NO GRUPO ESCOLAR PADRE AMÉRICO EM CANDEIAS MG.

Professora: Maria do Carmo Bonaccorsi.
Diretora:     Maria do Carmo Alvarenga.

Antônia Aparecida Vilela
Antônio Ítalo Freire
Armando Melo de Castro *
Clarice Alvarenga
Hélio Melo da Silva
Jadir Melo da Silva
Jesus Alves Resende
João Faria
José Gonçalves
Márcio Miguel Teixeira
Marlene Aparecida Martins
Marli dos Reis Alves .............................(Falecido)
Nelli Manda Ramos Melo
Neri Ferreira Barbosa
Odete Lopes da Trindade
Raimundo Ferreira de Oliveira
René Ferreira de Oliveira
Sebastiana dos Santos
Sebastião Alves Resende ...................(Falecido)
Silvio José Rodrigues ........................(Falecido)
Silvio Lopes da Silva .........................(Falecido)
Teresinha Luiza Alves
Teresinha Mori ...............................(Falecida)
Zélia Alves Alvarenga...............     (Falecida)
Zilene Vilela Alvarenga

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.

terça-feira, 21 de março de 2017

OH! QUE SAUDADES QUE TENHO!


 Hoje eu quero falar de lembranças que vivem bem guardadas nos cofres da minha memória. E diante dessa saudade, relembro a velha estação ferroviária de Candeias, há muitos anos, quando eu ainda era criança... Tempo em que Candeias representava todo o meu mundo e minha imaginação me conservava ali, pensando que seria como uma fruta que cai de madura sobre as sombras e raízes do seu pé. Todavia, o destino mudou a minha rota, mas eu guardo comigo as lembranças para hoje eu possa sentir uma saudade feliz. – Saudade! Um sentimento ainda estranho para mim quando ainda criança...

Vejo-me, portanto, entrando pela primeira vez na estação ferroviária de Candeias O meu coração batendo forte, de tal forma, que se não fosse eu um menino, talvez, esse teria saído pela boca...

A estação de Candeias era bastante movimentada. Quase nada entrava na cidade ou saia a não ser via trem de ferro. O meio de transporte rodoviário era então, muito atrasado. Os ônibus se limitavam em pequenas jardineiras e era um transporte caro. E os caminhões em número reduzido. Comumente ouvia-se dizer que viajar de trem é melhor, mais confortável e mais barato.

Aquela aglomeração me assustava! Pessoas falando alto... Outros contando histórias... E alguém dizendo: o trem está atrasado... E eu desesperado perguntando ao meu pai: Pai por que o trem está atrasado? --- Meu pai respondendo que aquilo era normal...

Começa a fermentar no meu cérebro todas as historias de trens que eu já teria ouvido Enquanto meu pai conversava com um amigo a minha imaginação estava a todo vapor. Ouvira dizer que dentro dos trens havia restaurante com cozinha e tudo; camas para dormir e até uma privada... Ouvira dizer, também, que o combustível da máquina era água e fogo... E essa se locomovia com vapor. Aquelas ideias me deixavam atordoado... Pelo fato de morar do outro lado da cidade, eu nunca teria visto um trem de perto. Estava acostumado a ouvir o apito muito familiar das marias-fumaça que trafegavam dia e noite levando e buscando gente e mercadorias...

Meu cérebro continuava fermentando: Daí a pouco eu iria conhecer esse trem... Ia ver uma cozinha fora de casa... Um restaurante... Um quarto de dormir... Uma privada... E como seria essa privada dentro do trem!? Quanto mais o trem demorava, mais o meu cérebro fermentava. Nesse tempo eu nunca havia visto uma privada dentro de casa... Na minha casa não existia.

Finalmente chega aquele monstro negro jogando fumaça e vapor por todos os lados Os passageiros se agitam... Entram, falam, despedem-se. Ouve-se o soar de um sino. Trata-se do sinal para a partida do trem. Eu não ouvira ainda, um sino bater fora da igreja... Acho aquilo interessante... Ouve-se um apito. Aquele apito familiar da maria-fumaça já conhecido à distância, agora ali perto de mim.

O trem vai saindo vagarosamente me levando cheio de uma felicidade indescritível... Vejo pessoas estranhas; vou olhando para todos os lados; procuro com os olhos cheios de curiosidade a cozinha... ------- E as camas? Onde estariam as camas? E a privada? Onde seria essa privada!?

Perguntei ao meu pai: Onde estão as coisas que o senhor me falou? E meu pai sorrindo responde: Aqui só tem a privada. As outras coisas só no trem da noite e que se chama noturno. Este trem é do dia e é chamado de misto. Com essa resposta a minha felicidade tomou um empurro... Mas não me abati. A curiosidade, agora, se concentrava no desejo de conhecer a tal privada... Desejei, para isso, a vontade de fazer xixi. Poder fazer xixi!... Cocô dentro do trem?! Como seria isso?!

De repente alguém próximo disse para a sua companheira: vou até à latrina. E eu no auge da minha curiosidade pergunto ao pai: o que é latrina? Fico sabendo tratar-se da privada. Sinto inveja daquele rapaz que se dirige até a uma portinha num canto do vagão e entra. A minha curiosidade foi tanta que meu pai se propôs levar-me a conhecer aquele gabinete.

Nesse dia eu fui conhecer a cidade de Formiga, numa visita que meu pai fez a um compadre seu. E eu torcendo para que a viagem de volta pudesse vir a ser de noite... Mas não foi. Portanto, não foi naquela vez que pude ver algo além da privada. Acredito ter sido um dos dias mais felizes de minha vida... Pois não bastaram as emoções de conhecer o trem, viria, também, a emoção de conhecer uma cidade grande, bem maior do que Candeias.

Parece que o povo daquele tempo não tinha muita pressa para chegar ao destino... Era um povo mais calmo e não se irritava com os atrasos constantes dos trens. Não criticavam com veemência, as deficiências da ferrovia... E as viagens, mesmo de negócios, eram transformadas em passeios... ---- Estarei certo ou fortuitamente enganado? Ou quem sabe a ingenuidade de criança ainda perdura em mim?
A chegada do trem de passageiros na estação dava um clima de festa A estação era ponto turístico onde até casais de namorados iam ver o trem chegar e sair. Os carroceiros apostos, entre eles, Juca Cordeiro, Arlindo Barrilinho, Serafim e outros, se movimentavam para pegar as mercadorias que chegavam. Os carregadores de malas abordavam os passageiros e principalmente os caixeiros-viajantes, cujas gorjetas eram polpudas. Logo após, a Rua Coronel Marques, ou melhor, a Rua da Estação, aliás, a primeira Rua de Candeias a receber calçamento; parecia uma maratona... Pessoas que desciam e depois subiam para ganhar o centro da cidade.

Subindo o morro ia o Joaquim Estafeta com aquele baita saco cheio de cartas sendo levado para a agencia do correio.

Posteriormente as marias-fumaça foram substituídas pelas grandes locomotivas movidas a óleo diesel; e os comboios agora maiores ficaram restritos em seus horários. Pois apenas uma locomotiva levava a carga de três marias-fumaça...

Há um tempo passado, eu estive na estação desativada de Candeias remoendo esses quadros de minha infância. ---- Vendo aquele local deserto, sem uma pessoa, ali, naquele momento, senti uma saudade danada daquele dia em que fiz a minha primeira viagem de trem e estive tão feliz naquela plataforma cheia de gente e agora completamente vazia.

Seria inútil tentar arrancar de mim essas lembranças doloridas. Elas entraram pelo cérebro, desceram ao meu coração e lá se acomodaram pelo resto de minha vida.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.