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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

UM HERÓI CANDEENSE.














Sr. Leonidas Macedo Filho, diante do monumento em sua homenagem e de seus colegas ex-combatentes na Segunda Guerra Mundial.

 Neste dia de finados de 2013, que se aproxima, eu quero, numa deferência especial, lembrar um ­­­­ conterrâneo e amigo dos mais ilustres filhos do nosso município. Trata-se do ex-combatente, integrante da FEB - Força Expedicionária Brasileira - que atuou nos campos da Itália durante a Segunda Guerra Mundial: o Sr. Leônidas Macedo Filho que faleceu no último mês de janeiro, após 92 anos de uma vida digna, vitoriosa e que muito honra os anais da história de nossa cidade.

Dos 25.334 pracinhas brasileiros enviados pela FEB à Itália, treze eram de Candeias. Desses, 443 não voltaram sendo dois candeenses. Dos onze que voltaram a nossa terra, muitos deles trouxeram consigo as marcas de uma guerra que os olhos não vêem. Doença mental, traumas, depressão e dificuldade de ambientação. Não é difícil para ninguém imaginar que jovens humildes, nascidos no seio de famílias religiosas, se viram, de repente, no centro de uma grande guerra mundial com as suas terríveis conseqüências. Assim, essas pessoas que tiveram a maior recepção da história, durante o retorno para a casa, somam hoje em torno de 2000 mil pessoas, 2000 heróis. Em Candeias, por exemplo, resta apenas um. Trata-se do Sr. João Sidney de Sousa Filho, residente na cidade de Campos Altos, coincidentemente, primo do Sr. Leônidas.

Neste momento, em que lamento a partida de um herói candeense, Leônidas Macedo Filho, cumpre-me lamentar, também, a miopia da política social dos governantes de nossa cidade. Uma política sem calendário social, sem um pingo de preocupação com a história do município e, muito menos, com os seus vultos. E o pior que isso vem acontecendo é de pouco tempo para cá porque, no passado, demonstrava-se mais respeito, mais cuidado e mais atenção com a construção cívica da história do nosso município. Afinal, um povo sem memória é um povo sem futuro. O futuro, com certeza, será construído sobre o presente que tem por base o passado.

Os pracinhas que outrora desfilavam nas paradas do dia da cidade, eram chamados aos palanques, davam palestras para os estudantes, ainda em boa idade. Todavia, começaram a ser esquecidos pelos governantes candeenses mais recentes. O serviço social municipal de Candeias encontra-se cego para uma questão histórica tão relevante. Ressaltar o nome dos ex-combatentes da guerra seria um dever, entretanto, nenhuma homenagem, nenhuma informação, nenhum contato, nenhum respeito deram por merecer aos nossos pracinhas nos últimos anos. O que demonstra, sem dúvida, a grande falta de sensibilidade e o pior, de civismo de nossas autoridades municipais.

Abaixo, está parte do currículo do Sr. Leônidas Macedo Filho. Um homem que orgulha a cidade de Campos Altos, terra que lhe acolheu como filho e que lhe dispensou todas as honras merecidas. Afinal, Leônidas não era somente um nome candeense, mas sim um nome brasileiro com representação internacional.

Resumo de uma pequena parte da história de Leônidas Macedo Filho que me fora fornecida pelo seu filho, Sr. Marcelo Macedo.

Em 20/03/1921 nasceu em Candeias/MG; Filho de Leonidas Macedo e Dona Julita Lamounier Macedo. 
 Neto do Coronel João Afonso Lamounier, figura expressiva da história de Candeias.  Teve três irmãos, dos quais dois falecidos. Felizmente, entre nós o Sr. Antonio Macedo, seu irmão caçula.

Em 1933, com apenas 12 anos de idade, mudou-se para a cidade de Patrocínio e trabalhou como comerciário na Casa Moraes;

Em 1941, apresentou-se, voluntariamente, às Forças Armadas sendo admitido no 11° RI em São João Del Rey-MG;

Em 1942, assumiu o cargo de Sargento Contador da Tesouraria;

Em 16/06/1944, embarcou, voluntariamente, para guerra em solo italiano, no 1° Escalão de Tropas da FEB;

Em 07/1944, desembarcou no porto de Nápoles, Itália;

Em 08/1944, fez parte da comitiva que entregou ao Vaticano duzentas mil sacas de café doadas pelo governo brasileiro e participou de audiência na qual os pracinhas foram recebidos e abençoados pela Sua Santidade, o Papa Pio XII;

Em 12/1944, no auge da guerra, foi promovido, por merecimento, a 2° Sargento do Exército Brasileiro;

Em julho/1945, retornou ao Brasil a bordo do “USS General Meigs”;

Em julho/1945, foi licenciado do Serviço Militar sob os cumprimentos do Cel. Floriano de Lima Brynner;

Em 1946, foi eleito Secretário do Diretório da UDN em Candeias/MG;

Em abril/1946, foi condecorado pelo Governo Brasileiro com a Medalha de Campanha por haver participado de operações de guerra na Itália sem nenhuma nota desabonadora;

Em maio/1947, foi condecorado pelo Governo Brasileiro com a Medalha de Guerra de 1ª classe por haver colaborado no esforço de guerra do Brasil na gloriosa campanha da Itália;

Em 1949, mudou-se para a cidade de Campos Altos/MG, onde constituiu a empresa Auto Peças Camposaltense Ltda e se estabeleceu, pioneiramente, no comércio de Auto Peças e Serviços;

Em 1950, casou com Maria de Lourdes Resende Macedo;

Em 1951, foi eleito vice-presidente da UDN em Campos Altos/MG;

Em 1963, foi homenageado pela Prefeitura de Candeias/MG que erigiu monumento aos expedicionários da FEB candeenses na gloriosa campanha da Itália;

Em 1964, foi eleito presidente da UDN em Campos Altos;

Em 1966, foi eleito vereador e, em duas legislaturas, presidiu a Câmara Municipal em Campos Altos/MG;

Em 1969, foi o presidente fundador e o primeiro eleito do Rotary Club de Campos Altos;

Em 1970, foi eleito e exerceu o mandato reduzido de apenas dois anos de prefeito municipal de Campos Altos/MG;

Em 1980, foi fundador e eleito, por dois períodos, presidente do PDS em Campos Altos/MG;

Em 1980, já aposentado por tempo de serviço, adquiriu gleba de terra e iniciou nova atividade no cultivo de café;

Em 1988, afastou-se, definitivamente, da política e dedicou-se ao cultivo de café recebendo, nos últimos 30 anos, dezenas de homenagens e honrarias.
(cidadão benemérito e honorário de Campos Altos/MG, recebendo Medalha de Prata pelo cinqüentenário da cidade/ cidadão honorário de Montese, na Itália/ pelo Rotary Clube: sócio honorário, presidente de honra, Comenda “Paul Harris” e nome do segundo marco rotário/ pela Maçonaria: Comenda “Ordem da Águia”/
pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais: proposição do Desembargador José Afrânio Vilela homenagem da 2ª câmara civil pelo 90º aniversário)

Em 08/09/2011, foi objeto de palestra e homenagem da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra - Delegacias Araguari e Uberlândia;

Em 26/07/2012, foi reverenciado com toques de presença (clarim) e exórdio (banda de música) nas comemorações do 50º aniversário do 36º BI Mtz. Uberlândia-MG;

Em 06/01/2013, pouco antes de completar 92 anos de idade, faleceu sendo foi velado e homenageado nos salões nobres do Rotary Club e da Câmara Municipal de Campos Altos onde foi sepultado;

Em 04/07/2013, deu nome à cadeira do presidente e a comenda instituída pelo Rotary Club de Campos Altos para reconhecer anualmente autor de relevantes serviços prestados à cidade.

 Finalizando, eu tenho o dever de reiterar o quanto é lamentável o despreparo cívico dos políticos de Candeias ao deixarem de reconhecer pessoas da importância e da envergadura moral como o Sr. Leônidas Macedo Filho.

 Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos.

NB) A História completa do Sr. Leonidas Macedo Filho, encontra-se na internet sob os cuidados do Seu filho Sr. Marcelo Macedo.









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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O MENTIROSO.

Foto para ilustração do texto.

Bené do Cirino nasceu em algum lugar no Bairro da Gruta na cidade de Candeias. Foi considerado, em seu tempo, por seus amigos, o homem mais mentiroso do Brasil. Ninguém acreditava em uma só palavra do que ele dizia. As pessoas gostavam de conversar com o ele para ver a criatividade de sua mente que gerava mentiras recheadas de detalhes as quais levavam o ouvinte novato a se parecer com uma lebre de frente a um lobo faminto ou, melhor dizendo, fazendo-lhe vítima de uma crença perversa. 

De estatura mediana, forte, meio calvo, boca grande, dentuço e, quando ria, parecia que havia uma serra articulada na boca. Portanto, ao mastigar e articular sua boca, parecia uma tremonha que transformaria uma rapadura dura em pó. Era do tipo enrolado. Como diz o jargão popular: "Mais enrolado do que pau de fumo". Não parava em serviço algum. Foi servente de pedreiro, capinador, apanhador de café, ajudante de caminhão e mais uma série de serviços. O que aparecia na frente, ele fazia. Apesar de ser considerado um homem trabalhador, era sem persistência. Não sabia esquentar o lugar no qual estava. E, assim, acabou levado, por um de seus filhos, para a cidade de Ferraz de Vasconcelos no Estado de São Paulo. Por lá morreu e foi enterrado. Foi casado com uma parenta de Dona Candinha que era uma curandeira espiritualista em Candeias sendo que muitos a tinham por feiticeira.

Zé Barbeiro foi um barbeiro de meia tesoura, morador da Rua Coronel João Afonso. Seu salão ficava situado onde se encontra, atualmente, a residência da Marisa, filha do Milton Alves. Um solteirão desses que a gente não sabe o porquê de não ter se casado. Se, se foi por isso ou por aquilo, ou ainda, por não gostar “daquilo”. Um cidadão um tanto esquisito, desses que ao ser contrariado dá chiliques e usa e abusa de trejeitos. Possuía uma voz mole, bem preguiçosa. Cabelinho bem aparado, barbinha bem escanhoada, sapato bem engraxadinho, dentes bem escovadinhos, unhas bem cuidadinhas e um passo bastante balangado. A média de dias em que cortava o cabelo e fazia a barba não passava de dois. E ele ficava o dia todo empanado em um jaleco branco, todo alvejado, parecendo um enfermeiro de uma clínica de luxo. Gostava muito de prosear com a rapaziadinha. Para mim, particularmente, o Zé barbeiro era o Zezé daquela música carnavalesca:“Olha a cabeleira do Zezé”. Para ser mais claro, ele era um autêntico pederasta encuviado ou, melhor dizendo, encubado.

No natal de 1959, Zé Barbeiro ganhou um leitão do seu padrinho fazendeiro. Naturalmente, o porquinho lhe foi presenteado para ser comido assado durante as festas. Era um gesto comum, naquele tempo, o povo da roça dar um leitão ou um frango de presente para um amigo ou afilhado da cidade. Todavia, o barbeiro inventou de dar o porquinho à meia para ser engordado. Como regra, ele entregaria o animal a alguém para criá-lo e o criador, naturalmente, lhe devolveria metade do bicho por ocasião do abatimento. E para tal sociedade, Zé Barbeiro convidou o Bené do Cirino, a quem não se conhecia muito bem sem ter, consequentemente, conhecimento também de ser um especialista em mentiras, enrolado e grande militante na arte da enganação. Esse tipo de sociedade costumava dar em briga na hora da partilha, ou seja, um queria um determinado corte do porco que o outro, por sua vez, também o tinha como preferência. E o criador do porco sempre levava a vantagem na óptica do dono do animal.

Bené, que não enjeitava nada, aceitou de cara o que lhe seria um grande negócio. Naquela época, era normal as pessoas criarem porcos na cidade, em chiqueiros de seus quintais. Isso gerava muito problema porque o mau cheiro incomodava os vizinhos e muitos viviam em litígio por causa da criação de porcos neste estilo até que uma lei foi feita para acabar com essa prática. Contudo, até então, um chiqueiro em um quintal era coisa comum e sempre se encontrava de preferência um suíno caruncho ou piau sendo criado de forma bem doméstica. Era uma peleja criar um porquinho em casa, todavia, quando o matava era uma festa que começava com o choro do bicho de madrugada na hora da morte. A vizinhança que ajuntava à lavagem já ficava na expectativa da dimensão do pedaço que lhe caberia. E se o pedaço não fosse satisfatório, havia quem mudaria o rumo da lavagem para outro criador. (Lavagem, neste caso, trata-se de sobras de comida juntamente com a água da lavação dos utensílios de cozinha)

Imediatamente, foi preparado o chiqueiro no fundo do quintal e, logo, saiu-se procurando fornecedor de lavagem bem como farelo de arroz na máquina do Emídio Alves que seriam pagos com carne de porco. Foi, ainda, até à Mantegueira do Bonaccorsi para pedir alguns litros de soro que lhe seriam fornecidos diariamente. Os funcionários da Mantegueira, Chico e Expedito, foram também prometidos a ganhar um bom pedaço do suíno. Os casqueiros para o chiqueiro foram conseguidos, gratuitamente, na Serraria do Dé Cassiano que, também, recebeu a promessa de ganhar um pedaço do bicho. E assim, Bené em tudo prometia ou se comprometia com um pedaço do porco ou com uma lingüiça. No fim, prometia até chouriço, um tira-gosto de sarapatel e assim por diante. Enfim, o porco do Bené, ao que se via, quando morto não daria para saldar os compromissos. Parecia que ele teria adquirido uma manga de porcos.

O Leitãozinho foi trazido e colocado no chiqueiro. Porém, ele era tão pequeno que não foi fácil imaginar o que seria tratá-lo até vê-lo gordo ao ponto do abate. Com certeza, aquilo deu ao Bené um desânimo danado. Ele pensou que o leitão já seria de meia ceva e, de repente, aparecem com aquele filhote.

Algum tempo depois, foi chamado o Zé Capador que, ao examinar o animal, deu a triste notícia de que o bicho era roncolho e, assim, lhe foi dito que porco roncolho é de difícil engorda. Não tem serventia para cachaço, enfim, o melhor seria matá-lo ao invés de engordá-lo. Palavra de um especialista em porcos. 

O que fazer, então? Naturalmente, esta foi a pergunta que Bené fez a si mesmo diante da afirmação do capador. Entretanto, e os compromissos assumidos anteriormente? A situação ficou um tanto complicada. Demonstrou-se muito entusiasmo e de repente...

Numa noite, para piorar, o porco sumiu do chiqueiro do Bené. E agora? Mais essa! A verdade é que todo mundo foi ludibriado. Todavia, o Zé Barbeiro não aceitou o argumento de que o porquinho dele foi subtraído sem mais e sem menos.

Ele que era um cidadão comportado, mas, quando ficava nervoso quase saía do armário. E, naquele tempo, para sair do armário tinha que ser muito macho. Ao receber a notícia de que o animal havia sumido, imbuiu-se em todos os seus jeitos e trejeitos e começou:

---Oia Bené, ocê é um iscumunguento, sabia? Sumir com o meu leitãozinho querido, uai. Ganhado do meu padrinho de batismo. Tadinho! Tão bunitinho... Ia virar um lindo capado, se ocê tivesse tido cuidado, sô. Eu tô achano que ocê robô o meu leitãozinho, seu danado. Eu nunca vi falá que leitão saisse de chiqueiro sem ser visto e sem barulho.

---Oia, aqui, Izé. Eu num robei leitão ninhum, viu. Se ocê perdeu a parte do leitão, eu perdi a pensão que eu dei pra ele. Pensa o qui ocê quisé e tiau e bença. E dispois tem mais: o seu leitão tinha só um grão. Leitão de um grão só num produz porque é porco viado.

---Some daqui, Bené! Senão eu te matooooooooooooo.

Bené saiu dali. Era o que ele mais queria. Sair dali e dar o assunto por encerrado.

Dois dias depois, Bené com a cara cheia de pinga, no Bar do Acássio, onde, nos dias de hoje, funciona o Bar do Vicentinho, na Rua Professor Portugal, estava convidando todo mundo para ir na sua casa comer um pedaço de leitão que ele havia ganhado por ocasião de seu aniversário.

Armando Melo de Castro
Candeias casos e acasos MG