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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O MULHERENGO.


Foto apenas para ilustração do texto.
Toninho da Zuza era um viajante da cidade de Divinópolis que corria toda a região. Andava em um “Jeep” velho daqueles antigos, cheio de coisas miúdas: perfumes, agulhas, sabonetes, maquilagem e mais uma porção de coisas. Vendia para as lojas, vendia para quem quisesse. Jamais dizia para um freguês que não tinha uma mercadoria. Se alguém lhe perguntasse se ele tinha cabeça de bacalhau, ele diria na hora: “Eu não tenho, mas, eu arrumo para você.” Se o freguês quisesse um navio, ele dizia: “Eu não tenho, mas, eu arrumo para você. Certa vez, lá em Bambuí, o dono de uma loja para deixá-lo encabulado, lhe perguntou se ele sabia onde se vendia rã enlatada e ele no ato respondeu: “Eu não sei, mas, eu arrumo para você.” Se, por acaso, ouvisse alguém falar que estava procurando alguma coisa para comprar ele entrava na conversa na hora: Eu não tenho, mas, eu arrumo para você. Era sempre assim.

Toninho da Zuza era de bom corpo, magro, tinha bigode fino, cabelo duro, morenão, pescoço curto, bons dentes que exaltavam uma boca grande e beiçuda, além de um nariz próprio para cheirar um bom pedaço do mundo. Estava sempre cobrindo a meia-calva com um boné tipo italiano.

Era metido a conquistador, aliás, metido não.  Era, realmente, um grande conquistador porque sabia lidar com as mulheres, principalmente, com as prostitutas. Especialista na gigolotagem, não tomava dinheiro delas, contudo, ficava uma semana comendo e bebendo do bom e do melhor as suas custas. A mulherada safada o amava porque ele era um produto do meio.  Sempre quando chegava, dava um sabonete, ou um batom, para cada uma. Parecia ser muito asseado. Dormia em meio a elas e dizia que amava a todas. Além disso, elas sentiam nele um suporte, pois, era um consultor disponível para elas a qualquer momento, quando estava em Candeias. Assim, como em Candeias deveria ser o seu comportamento, também, em outras cidades. Era um bom vendedor e gostava de falar ao pé da letra. Tinha um carisma impressionante e não havia quem não gostasse dele. Dava-se muito bem com as prostitutas porque, segundo ele, nasceu naquele meio pelas bandas de Divinópolis. Dizia, abertamente, que a sua mãe fora uma prostituta de cabaré o que o fazia ainda mais querido pelas profissionais do sexo.

Em Candeias, Pedro Pitanga o detestava.  Dizia que ele era um gigolô barato e que explorava as mulheres. Pedro falava isso como se ele, também, não fosse um explorador de mulheres, coisa normal para todo dono de prostíbulo. Contudo a antipatia de Pedro era  devido o Toninho ser muito querido pelas mulheres que ele escravizava no seu conventilho, as quais Toninho sempre defendia.


 Certa vez lhe perguntaram: Afinal, quem é Zuza? E ele disse que Zuza era sua mãe. E acrescentou: minha mãe se chamava Maria, mas Zuza 69 era o seu nome de guerra. Esse 69 referia-se ao fato de ter sido ela a primeira mulher a lançar um jeito diferente de fazer amor no meio do mulheril de Divinópolis. (Durma-se com um barulho desses). E se alguém lhe perguntava pelo pai, ele respondia: “Sou híbrido.”

Um dia, uma dessas mulheres no alto de sua ignorância lhe ofereceu hospedagem para caso quisesse ele trazer o seu pai: Sô Híbrido. Foi quando ele disse: Eu nunca tive pai. Não é sô híbrido, é eu sou híbrido. Isso quer dizer que eu não sei quem foi meu pai. Eu nasci de uma noitada da mamãe.

Depois dessa resposta, após um minuto de silêncio, Dita do Amaro, uma meretriz decaída que vivia quase sempre sobre o efeito do álcool,  faz uma pergunta:

---Óia aqui, Tuninho! Ocê num qué me insiná a fazê esse trem chamado 69, não?

E ele, calmamente, medindo as palavras, disse:

---Olha, Dita! Eu posso lhe dar uma orientação, contudo, acredito que você não vai encontrar alguém disposto a fazer essa transa. Você com esse hálito fétido de bebida alcoólica, com o corpo transpirando odores indesejáveis, você, querida, quase não se banha... Acho que voce não tem perfil para prestar esse serviço. O seu desempenho profissional não dá para 69. Suponho que você deve se ater em outros atos menos exigentes.


Foi quando Dita respondeu:

---Ô Tuninho, fala direito sô, eu num intindi nada que ocê falô! Que trem cumpricado esse tal de 69, uai. Que coisa mais isquisita!

Quem ler isso pensa que é mentira, mas na vida tem de tudo... O que para muitos é uma coisa normal, para outros é o fim do mundo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos






segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A VENDEDORA DE FARINHA.

Foto apenas para ilustração do texto.
No passado, era um vira-e-mexe de gente chamando nas portas das casas a ponto de aborrecer ao extremo seus moradores. Como não havia campainha, o chamado era através de palmas, batendo na porta ou um grito “Oh, de casa!”. E, como naquele tempo, não existiam essas aposentadorias de hoje, era um pobre, atrás do outro, que aceitava qualquer coisa que lhe fosse dada. Esses, quando não aguentavam mais fazer a via-sacra da esmola eram levados para a Vila Vicentina.

Os mascates, também, em Candeias, existiam em demasia. Seus alforjes continham diversas miudezas. Esse tipo de vendedor andava, ainda, pelas roças a cata de fregueses que lhes davam cama e comida.

Aos sábados, a zoeira às portas aumentava porque vinham os sitiantes roceiros a vender os frangos conduzidos em manguara, cestas com queijos, sacos com farinha de mandioca ou de milho pilado. Havia doces, polvilho e rapadura. Não faltavam grãos, verduras e outras coisas mais produzidas na roça. A vida do roceiro não era tão fácil como nos dias atuais. Era muita dificuldade, pois, não existia qualquer assistência social e nem vínculo empregatício. As leis do trabalho não eram tão rígidas como agora. O pobre era um verdadeiro escravo do patrão que o entregava para a Vila Vicentina mais tarde, quando este já não aguentava mais o batente pela vida.

E por falar nisso, eu me lembro de duas irmãs que moravam na zona rural de Candeias e vinham aos sábados vender seus produtos na cidade. Lembro-me apenas o nome de uma delas: Dona Chiquinha. Era a irmã mais velha e vendia a farinha de milho mais gostosa do mundo. Era magra, alta, cabelo meio amarelo, um tanto esbranquiçado, com o rosto estragado pelo tempo e com o corpo pouco vigoroso. Estava sempre com o mesmo vestido de finas listras nas cores cinza e azul, como se aquele fosse o especial para vir à cidade. Dona Chiquinha chamava a atenção das pessoas devido ao seu enorme papo. Para quem não sabe, papo é assim chamado vulgarmente ao que se refere, na realidade, à doença denominada bócio, ou seja, o crescimento da tireóide, aumentando o volume do pescoço causado pela falta do sal mineral iodado. É mais comum nas mulheres.

Dona Chiquinha era muito educada. Tinha uma voz rouca entrecortada. Todos já a conhecia e ela nem chegava a perguntar se queria comprar a farinha. O fregues já ia falando quantos litros queria ou se não queria. Se não tivesse dinheiro, ela vendia fiado. Quando se tratava de um novo comprador, ela apenas dizia: “Ninguém nunca reclamou da minha farinha”. Era grande a sua freguesia do produto de milho pilado em monjolo, coisa rara nos dias de hoje. Dona Chiquinha e sua irmã herdaram de seus pais esse jeito de ganhar a vida. Além da farinha, vendiam, também, outras coisas, contudo, o forte no seu negócio era a farinha. As duas irmãs andavam com um saco dependurado nas costas. Uma trazia a farinha de mandioca e a outra a farinha de milho. E cada uma andava de um lado da rua, sempre à vista uma da outra para que ambas atendessem à freguesia ao mesmo tempo. Com o dinheiro recebido compravam aquilo que não produziam como sal, açúcar, remédio, tecido, etc. É bom saber que em Candeias ainda existe dessa farinha artesanal com produção limitada em uma comunidade rural.

Em tempo remoto, veio morar em Candeias um casal que instalou residência em uma casa na Rua do Cemitério, atualmente, Rua Expedicionário Jorge. Ele era um pedreiro de boa colher, fazia parte da equipe do construtor licenciado, Luiz do Miroque, procedente da cidade de Itapecerica. Era um cidadão alto, boa pinta, chapéu de palha, bigode do tipo “Cantinfras” e uma boca cheia de dentes claros. Depois do serviço, estava sempre tomando umas pingas na antiga vendinha que existia onde hoje está o barzinho do Wantuil Badaró. Tocava violão e cantava músicas românticas.

Sua mulher se chamava Lucia. Era uma mulher baixinha do tipo arrogante, dessas mulheres que vai à feira e para comprar um tomate passa a mão em todos que estão expostos. Quando comprava leite, faltava pouco querer saber a cor da vaca que o teria produzido. No açougue, tinha que perguntar se a carne era de porco ou de porca. Estava sempre dizendo que a carne de porca é fedorenta e rançosa e a de porco não. Morria de nojo desses produtos da roça. Dizia que tudo isso era fabricado sem conceito de higiene, que essas pessoas não possuíam água dentro de casa e que a falta de higiene dessa gente era grande, pois tomavam banho apenas aos sábados. Dizia ainda que, constantemente, após coçarem as partes, pegavam nos produtos sem levarem as mãos.

Era muito religiosa. Aliás, ser muito religioso pode ser o mal de um grande pecador. Era sempre vista na igreja debulhando o seu missal. Vivia varrendo o terreiro da rua e, quando um cachorro escolhia o seu terreiro para fazer as necessidades, o coitado do animal era escaramuçado a pedradas cujas pedras já ficavam reservadas no canto da janela para esse fim.

Diziam os mais próximos que se tratava de uma pessoa extremamente nojenta, o que nos dias de hoje seria uma pessoa com “Mania de Limpeza”.

Certo dia, Dona Chiquinha bate à porta de Lúcia pela primeira vez para lhe oferecer farinha:

---A sinhora qué comprá farinha?

---Não! Eu não como coisas da roça...

---Ah, intão tá bão... Inté mais...

Assim que Dona Chiquinha vai saindo, Lucia a interroga:

----Isso que a senhora tem no pescoço é papo?

----É sim...

----E me conta aqui. Isso não tem cura, não?

---Eu num sei não sinhora.

---É horrível isso, né!? Como que a sinhora dá conta disso?

---Deus me ajuda...

---Isso dói?

---Incomoda...

---E os fregueses da sinhora compra farinha da sinhora com essa doença... Isso deve pegar, não!?

E a mansa, a pouca prosa, a fala baixo, a educada vendedora de farinha foi saindo calada. Quando estava no meio da rua, resolveu voltar, bateu à porta de Lúcia e tão logo esta apareceu, quase que aos gritos, com a sua voz sufocada, Dona Chiquinha disse:

---Vai pá puta que te pariu sua porca fedorenta!

E Lúcia desesperada e muito irritada respondeu:

---Posso ser qualquer bicho, menos porca fedorenta!


Eu sempre tive cuidado com as pessoas mansas porque no fundo elas são mais bravas.


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.











terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A GABIROBA

 
Foto para ilustração do texto.

A gabiroba é um fruto nativo do cerrado brasileiro. Das vinte e cinco espécies existentes, quinze são do Brasil. Vem sendo disseminada para outros países da América do Sul e já pode ser encontrada no Uruguai, na Argentina, Paraguai, Bolívia, etc. No Brasil, a espécie é bastante encontrada em Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, no norte do Paraná e no Rio Grande do Sul.

Dentre os diversos tipos do fruto, há algumas variações no tamanho e na coloração. Pode ser consumida ao natural, em doces, sorvetes e sucos. O licor da gabiroba é, também, muito apreciado. Existem, ainda, suas qualidades medicinais, especialmente para o tratamento de doenças estomacais como na cura da diarréia. É muito eficiente no tratamento da cistite, uretrite e de outros problemas no aparelho urinário. É o alimento preferido dos pássaros, dentre eles, as maritacas. Os répteis, como a cobra e os lagartos, a apreciam bastante. Faz-se destaque para o lagarto-teiú um dos maiores dissiminadores da fruta. Trata-se de um fruto da família das mirtáceas, ou seja, é parente da goiaba.

Em Candeias, ainda existe a gabiroba, porém,  não mais como outrora. No tempo que que os fazendeiros não roçavam os pastos a miúde, a gabiroba era encontrada em abundância. Hoje, o ciclo de produção é impedido porque a gabirobeira é levada na foice quando no preparo das pastagens do gado. Portanto, a gabiroba vai se tornando uma fruta de pomares e quintais, tendo em vista que não existe o cultivo comercial da planta. A gabiroba é, sobretudo, uma planta melífera.

Não havia essas formações de pastos de hoje e, com isso, a “brachiaria” vai tomando conta do cerrado extinguindo grande parte das nossas plantas nativas como esta delícia que é a gabiroba.

Em tempos idos, a população candeense tinha a temporada certa da gabiroba. Naquela época, princípio do mês de dezembro, o pessoal se deslocava nas carrocerias de caminhões que levava o povo aos matos para apreciar a saborosa fruta. Em se tratando de um encontro com o mesmo objetivo, eram comum as paqueras. E como na cidade a coisa era muito observada, nas catas de gabiroba fervilhava os boatos de que fulano catou gabiroba com fulana. Essa excursão era feita, normalmente, em um dia de domingo e, na segunda-feira, os referidos boatos rolavam à toda.


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

UM BANHO DE PEDRA HUME

Imagem apenas para ilustrar o texto.
Candinha era uma senhora que estava mais pra lá do que pra cá. Morava no Bairro do Cruzeiro, nas proximidades do local em que se encontra fincado o símbolo maior da redenção cristã. Tinha o rosto cheio de rugas trançadas em uma pele amarelada. Cabelo liso, comprido e escasso, preto como carvão que mostrava as raízes brancas denunciando a mentira que a pintura propunha. Gostava de um vestido preto e tinha uma voz cheia de fanha. Uma boca pequena e um sorriso precário que parecia esconder algo. Havia quem dissesse que no seu negócio o diabo fazia parte, mas, ao contrário, ela dizia ser uma privilegiada de Deus como fosse de dentro da sala de jantar da Santa Ceia de Jesus Cristo, do haras de São Jorge e do terreiro de São Cipriano.

Naquele tempo, eu era um garotão e trabalhava em um emprego desses que deixa a roupa suja de óleo. Às vezes, o patrão me cedia para a sua mulher algumas horas por dia para ir à padaria comprar pães, limpar o chiqueiro do caruncho, dar uma pajeada no herdeiro e, ainda, sangrar o filho do galo.

Certa vez, a patroa brigou com o marido e a coisa esteve feia. E como ele não puxava conversa, a insegurança feminina foi lhe enchendo a cabeça de cismas. Nesse ponto da história, foi que fiquei conhecendo Dona Candinha quando, a mando da patroa, fui procurá-la a fim de fazer um trabalho espiritual para que a paz se restabelecesse entre o casal. E Dona Candinha mandou de volta um recado de que o trabalho era garantido e que dentro de três dias a alcova ia amanhecer desarrumada.

Acontece que o patrão, que não era nada bobo, ficou desconfiado e me apertou e eu, inexperiente, espirrei com a verdade. Diante disso, ele que aguardava um motivo, fez dar início a uma discussão que acabou em beijos e abraços e, com certeza, em outras coisas mais a serem feitas lá na hora de dormir... É como diz o ditado: em briga de marido e mulher não se mete a colher. Portanto, tudo aconteceu antes das rezas de Dona Candinha. Esta, todavia, vangloriou-se de ter feito um trabalho eficiente e fazendo ainda com que a patroa acreditasse com mais firmeza naquelas patacoadas.

Se Dona Candinha tivesse, realmente, poderes sobrenaturais para resolver problemas de casais, as suas forças teriam poupado o seu filho Tião de uma grande chifrada dos cornos do destino, ou melhor, do guarda-chave da ferrovia.

Tião da Candinha tinha uma estatura mediana, cabelo liso e mal aparado, barba cerrada que cobria o rosto exaltando um bigode cheio. Parecia cansado de viver. Tinha um semblante de fastio com a peleja. Andava arrastando uns chinelos velhos parecendo estar peado e possuía uma aparência mórbida. Em síntese, era desses que vivem medindo o dinheiro que ganha com as despesas da casa. Aquele semblante de quem não pagou a conta de luz e de água, cara de quem não tem o que receber só tem o que pagar, o que já não paga com conversa. Contudo, o tamanho da sua prole poderia lhe render o status de homem vigoroso e extremamente fecundo. A tarefa celestial, em conjunto com sua esposa, no sentido de trazer filhos ao mundo, lhes permitiam um filho no bucho e outro no saco.

Carpinteiro de meio formão, ele trabalhava em casa com pequenas tarefas o que mal lhe rendia o suficiente para tratar da ninhada de filhos que pusera no mundo.

Certa vez, quando ele morava na Praça da Bandeira, em uma velha casa existente no local em que hoje se encontra o Supermercado Teixeira, Tião foi surpreendido com uma informação anônima de que um determinado Guarda-chave da ferrovia estava tendo um caso amoroso com a sua mulher. Dizia o malvado bilhete, de algum inimigo talvez, que o Guarda-chave estava matando o apetite com a sua bóia e que a ele nada mais estava sobrando do que um pouco da sopa. Diante dessa notícia desastrosa, o traído que, aparentemente, portava no íntimo um sentimento pintado de jactância, tomou-se de uma enxó e ficou de plantão à porta de sua casa aguardando a passagem do seu desafeto.

Daí, colocou a boca no mundo. E à medida que ia ajuntando gente, ele expunha com mais ênfase o acontecimento dramático de que um deturpador de família visto como um nanico invasor de terreiros ou um depravado conquistador barato, havia desonrado o seu lar lançando como lama a infâmia do adultério. E diante desse estouvamento, de quem pensa pouco, foi, por ali, formando um grupo de curiosos, empanados da vontade de ver a casa cair. Pessoas que reagiam com os mesmos estímulos, ou seja, ver o uso da enxó na tampa da cabeça do Guarda-chave, conforme prometia, em uma linguagem empolada e de forma bombástica, o macho traído.

De repente, como quem não sabe de nada, o zangão sem colméia se aproxima como que querendo se juntar ao grupo que o esperava, quando, Tião, em altos brados, se atira sobre ele armado pela enxó, com a qual foi lançando golpes no ar como se estivesse desbastando o vazio, sem a intenção de acertar o crânio do garanhão. Até que duas pessoas, com grande facilidade, fizeram-no dominado pela falsa fúria quando, calmamente, recebeu um copo d´água de alguém que lhe propunha se acalmar, no que ele disse com voz chorosa:

---Bobo que eu era... Como fui pensar que o banho de pedra hume era só pra mim!



E a vida continuou: “Um no saco e outro no bucho, ou melhor, um no bucho e outro no saco”.


Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos





terça-feira, 27 de novembro de 2012

COM O PERDÃO DA PALAVRA.

Foto para ilustração do texto.
O progresso é uma coisa maravilhosa! Vivemos a era da informática. É inegável que essa integração social que o computador, o celular, a televisão e outros meios de comunicação nos propõem é uma maravilha. A saudade hoje já não dói como antigamente. Ninguém está completamente ausente diante desses produtos vindos da inteligência do homem e ao alcance de qualquer um. A doença era mais dolorida no passado. As pessoas viviam à míngua. A fome, na atualidade, não corrói tanto o estômago. Antes era muito diferente. Automóvel, telefone, rádio, televisão, geladeira, roupa sem remendo, carne todo dia, uma cervejinha gelada e tantas outras coisas eram coisas exclusivas dos ricos e olhe lá! O pobre era, essencialmente, pobre.

Ervas ruderais como a serralha, a marianica, o picão e a beldroega; frutos do mato como o do gravatá, o broto de bambu, de samambaia, de guariroba e umbigo de banana; alguns cereais como a canjiquinha de arroz, quirela de milho, paçoca de rolinha e muitas outras coisas mais que faziam parte da dieta do pobre hoje, praticamente, estão desconhecidas porque não existe mais pobre miserável como antes. O pobre de hoje vive melhor do que o rico do passado. O pobre vivia, como diziam, na “Graça de Deus”. Câncer era doença ruim ou então era chamada de “úlcera no estômago”. A fome e a miséria andavam de mãos dadas. O ladrão de galinha tornou-se tão corriqueiro que passou a ser sinônimo de ladrão barato. Roubava-se para matar a fome. Não havia aposentadorias. O rico era rico e o pobre era pobre. Era muito usado o termo “menos favorecidos pela sorte”. Quantas e quantas pessoas trabalhavam a vida toda e terminavam os seus dias de porta em porta pedindo esmola. E, na maioria das vezes, a esmola era um pouquinho de arroz ou um pouquinho de feijão. As diferenças sociais eram alarmantes.

Às vezes, eu observo as pessoas se queixarem. Contudo, entendo que a queixa é inerente ao ser humano. Não estar conformado com o que tem faz parte da Obra da Criação. Progredir é uma determinação celestial. Porém, no momento em que vejo alguém dizer que o mundo está ruim, eu dou uma olhadinha no retrovisor da minha vida e me encontro na Vila Vicentina, quando, por lá, dei a minha colaboração ao senhor Alvino Ferreira que era, na época, o presidente daquela instituição. Aquilo sim que era pobreza. Aquilo sim que era um mundo ruim. Entretanto, quem, como eu, que conviveu neste passado é que pode testemunhar o quanto melhorou a dignidade do pobre. As pessoas chegavam doentes por falta de alimentação. Comiam aquela comida pobre, simples e, instantaneamente, melhoravam. A Vila Vicentina vivia de esmola, seus representantes pediam esmola para atender os miseráveis e famintos que ali paravam.

Em época mais remota, poucas eram as pessoas que saiam de Candeias em busca de novos horizontes. Ir para Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou São Paulo era um verdadeiro ato de coragem e aventura. Um trem demorava dias para chegar ao Rio ou a São Paulo. A viagem para Belo Horizonte de trem era bastante complicada e, por isso, se tornava muito mais distante. Aquele que ia, dificilmente, voltava. Quantas pessoas partiram de Candeias e nunca mais voltaram...

A partir da melhoria no transporte e diante da falta de emprego, iniciou-se o período de êxodo entre os candeenses na busca por uma melhoria de vida. Famílias numerosas partiram para os grandes centros. Muitos ficavam por lá pelo resto da vida. Outros voltavam porque haviam deixado pais e mães e queriam, depois que se estabeleceram nas grandes cidades, levá-los juntos. Alguns, nem por esse motivo, voltavam mais considerando as mortes de seus entes o que fez, em virtude disso, com que muitas famílias perdessem completamente a referência com a sua terra natal. Parece que muitos iam levando consigo uma grande mágoa.

De outra forma, não se pode omitir que o nosso país melhorou, mesmo sendo roubado, mal administrado, ultrajado, todavia, melhorou. A saúde e a educação já estiveram bem piores.

E neste contexto, surge, em minha memória, a figura do Pica-pau.
Pica-pau era um cidadão de altura regular, de rosto comprido, de um moreno embaçado, com barba rala, de pescoço fino, nariz e boca pequenos e um cabelo liso sarapintado de uma mistura entre o castanho e o branco. Devia ter uns cinqüenta e poucos anos. Quando alguém lhe perguntava pelo nome, ele respondia: --- “Meu nome é José, mas, o senhor pode me tratar por Pica-pau”.

Era viúvo, tinha três filhos, sendo um deles deficiente físico já contando com mais de vinte anos. Os outros dois foram para Divinópolis trabalhar na então Rede Mineira de Viação graças à recomendação do Dr. Zoroastro Marques da Silva. Aliás, naquele tempo, ninguém conseguia um emprego em uma empresa do Governo se não tivesse uma carta de recomendação de um político. Assim que os seus filhos se acomodaram no emprego, vieram buscar o pai e o irmão doente.

No local em que se encontra, atualmente, o Bar do Vicentinho Vilela, na Rua Professor Portugal, existia o Bar do Paulo Vilela. Certo dia estava, em seu bar, depois de um bom tempo, o Pica-pau assentado ao lado de uma garrafa de cerveja, já meio alcoolizado, empanado de roupas novas e parolando sobre a cidade de Divinópolis. Parece que teria voltado a Candeias para desabafar a mágoa de ter vivido a miséria que viveu na sua terra-mãe e, entre os que por ali estavam em um pequeno reservado que existia no bar, encontrava-se a Dita do Amaro, uma conhecida prostituta que vivia embriagada pedindo bebida de bar em bar e também atenta ao que dizia o Pica-pau:

---Océis tem qui vê o qué qui é uma cidade boa iguar a Divinópes. É cheia de imprego. Meus fio tá ficano é rico. O mais véio já tá pensando em fazê inté um barraco. O lote ele já comprou. O otro é casado, tá mais apertado, mais já tem uma bicicreta nova, já tem um rádio e mora nu’a casa que tem inté chuvero quente. Ele já jugou a bacia fora. Eu tamém tenho chuvero. É frio, mais eu tenho. Já arrumei um siviço de guarda noturno e num faço nada. Nadinha. Só num posso durmi. Se eu durmi, o bicho pega. Mas, de veiz inquando, eu dô um cuchilãozim purque, com perdão da palavra, lá pus cu da madrugada tem dia que o sono aperta, sô. Aqui, nesta bosta das Candeia, com perdão da palavra,  se a gente num fô isperto, morre é de fome més. Divirti só se tivé com os cobre no borço. Fora disso nem pensá. O povo daqui é muito mitido. As muié tem nariz impinado, oia pra gente como se fosse um leproso. As nega lá do Zé Bulinha (cabaré) pensa que tem um rei na barriga. Durante o tempo que eu morei aqui, eu passei “inguela”. Num achei nem uma muié que me desse pelo meno um bom dia.

Nisso a Dita do Amaro, intromete:

--- Mas, é purqué o sinhor num me pidiu, purque sinão eu tinha dado pu sinhor.

---É! Mais ocê Dita, é meia disarrumada quessa pingaiada sua, né! Mais, cumo eu tava falano, sirviço num tinha. Eu vim da roça pra miorá e fiquei foi pió. Com um fio duente, tinha gente que dava as coisa pra ele e aí eu ia era na rebarba. Num pudia nem bebê uma pinguinha. Agora, não! Tô aqui bebeno o meu golo e num devo nada, cum perdão da palavra, pra f.d.p. ninhum. Eu infarei disso aqui. Isso aqui num dá camisa pá ninguém. Camisa, não! Qué sabê, num dá nem cirôla. Eu aqui usava cirôla de saco, agora óia aqui, oh!

E desceu as calças para mostrar a ceroula que não passava de uma cueca samba-canção. Nesse momento, a turma da confraria do gole ficou esperta com os olhos. E como a cueca samba-canção tem uma braguilha sem fecho ecler, num relance foi exposto o seu “pepino”. E, nesse momento, a Dita do Amaro assustada disse:

---Pera aí, sô Pica-pau! Dexa eu vê esse trem direito, sô!

E o pica-pau, com a cabeça cheia de mel e entusiasmado pelo pedido da meretriz, fez uma rápida demonstração do seu potencial masculino no que a Dita do Amaro expressou surpresa:

Nossa mãe! Que trem doido! Eu nunca vi uma “pica-pau” igual não!...

E o Pica-pau se sentiu na moral!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


                                                    

domingo, 18 de novembro de 2012

DESEJO DE MULHER GRÁVIDA.



Nada tenho contra as diferenças culturais na alimentação. Já experimentei, e até 
gostei, da carne de alguns animais exóticos como cobra, rã, gambá, tatu, etc. Contudo, certa vez, um amigo meu que esteve na África contou-me que, quando esteve por lá a serviço de uma empreiteira brasileira, conviveu com princípios culturais extraordinários. E na alimentação, por exemplo, ele chegou até a experimentar o sabor de insetos temperados, desidratados e hidratados, formigões, grilos, gafanhotos e outros ortópteros. E quando me disse que o povo de lá come o bicho de pau podre com melhor boca do mundo, eu quase me desventrei de tanto nojo.

Certa vez, por muito pouco, eu não morri de asco ao ver o Zeca Camargo do Fantástico da Rede Globo, que deu uma volta ao mundo para fazer reportagens sobre essas diferenças, tentando experimentar um ovo de galinha choco nas Filipinas, país no qual se faz feijoada com açúcar.

É sabido, também, que na China comem tudo o que para nós é porcaria. Brincam até que, por lá, se come tudo aquilo que se mexe. Assim, comem filhotes de ratos vivos retirados dos ninhos e afogados no molho de massa de tomate quente à medida que são servidos. Outra iguaria, pela Ásia, é a carne de cachorro que por aqui, entre nós, é um bicho praticamente sagrado. É cada coisa que aparece que nos deixa morrendo de nojo ao invés de morrermos de fome. Entretanto, nada disso me surpreende tanto quando ouço falar nos desejos das mulheres grávidas, tão estudados pela ciência e sem qualquer resposta positiva, definitiva e concreta. Sabe-se que, entre esses desejos incomuns, encontra-se o desejo de mulheres em experimentar cacos de prato de barro, giz, bunda de tanajura e sola de sapato. Isso é uma situação tão estranha que deixa qualquer um com a cabeça oca.

Eu era ainda menino e morava na Rua Coronel João Afonso, quando tínhamos, como vizinha de frente, a Dona Marica. Marica da Melada como era chamada. Tinha um grande quintal e o seu grande hobby era uma plantação de rosas que ocupava grande parte do seu quintal. No tempo em que os defuntos eram preparados em casa, assim que morria alguém logo chegava Dona Marica com as suas rosas. Além disso, fornecia, também, flores para as jarras da igreja. Certa vez, alguém lhe pediu algumas rosas para produzir licor e recebeu um sonoro “não”, bem no meio da cara. Ela disse ao pedinte que suas rosas eram sagradas e que jamais seriam misturadas ao álcool que seria coisa do diabo.

Dona Marica tinha um pé de laranja da terra em seu quintal cujas frutas eram por demais amargas usadas, constantemente, para a produção de doces, contudo, sem qualquer preferência para ser chupada.

A casa da esquina em que reside, atualmente, o Sr. Carminho Machado, encontrava-se sempre com um novo morador. Eram constantes as mudanças. Diante deste fato, veio morar, naquele imóvel, um jovem casal. Ele com os seus vinte e poucos anos, com cara de nortista, corpo franzino, amorenado, pescoço fino, imberbe, cabelo duro e bem aparado, um tipo ingênuo e meio calado. Era visto somente aos fins de semana e se chamava Alberto.

A mulher era o seu contraste. Falava muito alto, tinha a voz pouco fanhosa, tendo o aspecto de um alto-falante enguiçado. Estilo bem briguenta, gordinha, com pescoço grosso e curto, cabelo tipo masculino e um buço quase comparado ao bigode do marido. Chamava-se Tininha, estava grávida e como era baixinha e estava grávida, ficou muito redonda e, caso levasse um tombo, sairia rolando rua a fora. Vivia zoando nas casas dos vizinhos exceto na casa de Dona Marica, haja vista a ocorrência, entre as duas, de uma briga motivada pelas travessuras do gato Mimi pertencente à Maria das Graças, filha de Dona Marica.

O gato era um inferno, dizia Tininha. Não se podia esquecer uma panela destampada que o desgraçado fazia valer a sua gordura. E quem falasse mal do gato, por pouco que fosse, comprava uma briga cara e foi isso que aconteceu. Dona Marica dizia que aquela fulana teria se engravidado não se sabe como porque ela tinha cara de homem. Ademais, o seu marido tinha um tipinho de “franga” para o seu gosto. Tininha dizia que Dona Marica era uma gata velha, borralheira e vovó do tal Mimi, considerando que sua filha tratava o bichano por filhinho. E assim as duas viviam trocando desaforos.

Certo dia, os moradores do quarteirão acordaram de madrugada com um falatório danado. Acontece que a Tininha, por estar grávida, desejou chupar, às duas horas da manhã, uma laranja da terra do pé existente no quintal de Dona Marica. De nada valeu a argumentação de seu marido diante da impossibilidade de se conseguir a fruta naquela hora. Além disso, de onde sairia à fruta! Parece até que o desejo da grávida aumentava diante da dificuldade fazendo com que a mulher quase entrasse em desespero total o que levou o marido a resolver pular o quintal alheio e se apoderar da fruta para satisfazer o desejo descontrolado da mulher.

Acontece que, dias antes, havia chegado a lua nova de julho, fase lunar bastante esperada, durante o ano, por Dona Marica que pretendia podar as suas rosas. Com isso, teria acumulado, à beira do muro, um grande monte de galhos de rosas espinhentos. Na ação de Alberto, em transpor o muro para chegar ao pé de laranja, ele cai deitado sobre o monte de espinhos das roseiras podadas. E o pobre rapaz, quanto mais se mexia, mais se tornava fisgado pelos espinhos em meio à escuridão da noite enquanto sua mulher, que ficara aguardando do outro lado do muro, compreendendo o que teria acontecido ao marido, gritou por socorro, acordando vários vizinhos que correram a acudir o acidentado.

Dona Marica vestida de camisolão, com um lampião na mão, ouvia o infeliz dizer:

---Óia, Dona Marica! A sinhora me discurpa. Eu num quiria qui o meu fio nascesse com a boca aberta, Sá.

E Dona Marica, com um sorriso sorrateiro, responde:

---Tudo bem! Agora, pode apanhar a laranja. Apanha logo uma dúzia pra entulhar ela de uma vez! --- Engraçado! Quando eu estive grávida da Maria das Graças eu nunca tive esses enjoamentos e nunca amolei o Quinca...

Quinca era o seu marido.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos





domingo, 4 de novembro de 2012

A CARTOMANTE.



Foto para ilustração do texto.
Eu fui, até por volta dos meus doze anos de idade, um menino bobo, calado e obedecia, inconscientemente, à lei da natureza que determina que Deus fez o homem com uma boca e dois ouvidos para que ouvisse mais e falasse menos. Pelas ruas, eu era sempre visto acompanhando ora o meu pai, ora o meu avô e, às vezes, a vizinha Dona Ester. Portanto, inspirada neste meu comportamento, minha mãe chamava-me de rabo do meu pai, tendo em vista estar eu sempre atrás dele.

Certa vez, fui com Dona Ester no Bairro da Gruta à procura de uma cartomante. Eu não sabia, até então, o que seria uma cartomante. Fui pego de surpresa, quando Dona Ester, de supetão, convidou-me a acompanhá-la até a casa de uma mulher lá pelos lados da fazenda do Juca do Nico.

Ao sair, eu a vi preparando algo que seria entregue à cartomante: um pouco de feijão, de arroz e farinha, uma latinha de massa de tomate da marca Peixe, concorrente, à época, da Cica e um pacote de macarrão da marca Pieroni. Este era um macarrão antigo, grosso e danado de azedo, porém, muito consumido haja vista o seu baixo custo. Era fabricado na cidade de Formiga, contudo, tão logo começou a surgir produto similar, de qualidade, nas mesmas condições de preço, o macarrão Pieroni foi para o beleléu.

Preparado o bornal, saímos. Eu ia todo contente. Afinal, iria conhecer uma cartomante e com isso estava fervendo de curiosidade. Dei um toque em Dona Ester sobre o que seria uma cartomante e ela me disse que se tratava de uma pessoa que adivinhava as coisas.

Chegamos a uma daquelas ruelas, lá dos fundos do Bairro da Gruta, onde existiam poucas casas e já nos encontrávamos submetidos aos olhares curiosos dos poucos moradores. Afinal, pertencíamos a uma outra tribo que usava tomar banho e andar calçado. Acho que se aquela gente visse um carro iria, naturalmente, pensar que se tratava de um bicho de outro mundo. Nessas alturas, quem falava era só Dona Ester. Eu, como um tatu de galocha, somente observava, em silêncio, o ambiente desconhecido e como os moradores dali eu só falava e respondia com os olhos.

Interessante que, antigamente, as pessoas viviam apenas no seu pedaço, no seu canto. Eu me lembro que a primeira vez que fui ao Bairro do Alto do Cruzeiro já era menino grande. E foi, já nesse tempo, que conheci o Bairro da Gruta que não ficava tão longe assim da Rua Coronel João Afonso, onde eu morava. 

De repente, me vi à porta de uma casa e Dona Ester gritando: Maria! Ôh, Maria! Quando a porta se abriu e fomos convidados a entrar.

No recinto da sala, os móveis se resumiam em um banco tosco de madeira e um porta chapéu velho. Assim, eu já recebi o metro para medir a pobreza do ambiente. Rumo à cozinha, observei o telhado todo preto pela fuligem do fogão à lenha o que dava um aspecto bem sinistro. Um caramanchão de maracujá, próximo à porta da cozinha, atropelava a passagem. Ali, se acomodava um cão de aspecto doente que nem se mexeu com a chegada das visitas. Tomamos assento em um banco da cozinha que servia, também, como suporte de um caixote onde os utensílios domésticos eram depositados. Na parede, uma lamparina, naturalmente, identificando que, por ali, não havia luz elétrica. Próxima da porta, uma pequena barrica d'água. No canto do fogão, um feixe de lenha e havia, ainda, uma pequena prateleira e um pilão.

A imagem da cartomante foi para mim uma grande decepção. Miúda e magra, trajando um vestido velho de riscado, cabelo crespo, meio gaforina, rosto e nariz vermelho de alcoólica, sobrancelhas estilo tala larga que lhe realçavam os olhos de peixe morto. Um quadro estarrecedor para quem ali chegara imaginando encontrar Atena, a deusa da sabedoria.

Mas, afinal, o que seria uma cartomante? O que ela iria adivinhar para Dona Ester? Eu estava curioso e, cá com os meus botões, pensara em lhe pedir para adivinhar algo para mim. Num resumo, Dona Ester havia me falado que a mulher adivinhava as coisas. Assim, eu imaginei encontrar algo totalmente diferente.

Dona Ester disse-lhe então o que teria ido fazer ali, porque os seus dias não estavam dos melhores. Entregou-lhe “os trens de comer”, o que lhe fez tão feliz como se tivesse ganho um prêmio do Baú do Sílvio Santos, e logo convidando Dona Ester para adentrar o quarto, a velha questionou:

----"E o minino, Ister, comé qui fais?".

---- "O Armando?! Ele pode intrá tadinho... Ele não fala nada não, ele é um menino bobinho".

Achei bom. A minha curiosidade nem me fez levar a mal o fato de ter sido chamado de bobo. E depois eu era bobo mesmo. Eu queria ver aquele ritual de adivinhação. Logo, no quarto, formou-se o cenário: A cartomante assentada na cabeceira da cama, com as pernas abertas e Dona Ester que não dava conta de abrir as pernas, deitada pelos pés e eu agachado num canto, completando aquele quadro de mística barata. A adivinhadora toma de um baralho, o embaralha e, por fim, o dá para partir, quando começa:

---- "Ocê tem andado meia chatiada com uma pessoa. Se ainda num tá, vai tá. Ela morre de inveja docê. Isso só purque ocê tem um home que cuida docê. E ela num tem ninguém purela".

----"Ocê vai iscutá no rádio seu uma nutícia triste. E do jeito que ocê é boa, vai te dá até vontade de chorá quessa nutícia".

----"Ocê é muié do coração bão! Gosta de dá as coisa pro zoto. E tem dó de quem passa dificurdade. Num tem fio, mais gosta de minino e tem um minino doido pur causa docê".

---"Apareceu aqui uma dama preta, isso num é bão não!! É sinal que uma pessoa preta deseja mal procê...".

Dona Ester ouvia atenta e confiante enquanto aquela imundície mental foi me causando uma gastura danada. Eu, do alto da minha ingenuidade, pude notar o quanto o ser humano é frágil. 

Alguém como Dona Ester que para mim era um foco de sabedoria, de bondade, de exemplo, vê-la submetida àquele plano ridículo daquela pessoa tão desprovida de como se comportar na vida. Uma pessoa que talvez não soubesse o que é a tristeza ou a alegria; a coragem ou o medo; o equilíbrio ou a desarmonia; o brilho ou o baço; o relacionamento ou a dificuldade; o amor e o desamor... 


Dona Ester estava ali, crente naquelas baboseiras ditas por alguém que nada mais fazia a não ser defender a sua boca carente de álcool ou da comida que lhe poupasse da morte. E fazia isso, com certeza, de uma forma irracional de sobrevivência como irracional é o cão que late e o gato que mia.


 Por que aquela mulher tão pobre, vivendo em plena miséria, não usaria os seus dotes de adivinhação para descobrir algo que pudesse, antes de ajudar a alguém, ajudasse a si mesmo? 


Eu não conseguia entender e nem acreditar que Dona Ester estivesse confiando naquela mulher a quem visitava de quando em quando. Durante anos, martelei na minha cabeça a ideia do porquê que Dona Ester buscava acreditar nas coisas que aquela mulher lhe falava olhando as cartas de um baralho.

O coração é um cofre que guarda os sentimentos mais íntimos do seu dono. Aquela mulher fora uma prostituta tal qual fora Dona Ester, todavia, não teve a mesma sorte. Naturalmente, agora, recebia não só a ajuda indireta de Dona Ester, como também, recebia um pouco de atenção como filha de Deus.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

VIVER E MORRER


 Foto para ilustrar o texto. (Roberto Carlos no velório da apresentadora de televisão Hebe Camargo.
 
Atualmente, presenciamos um grande número de pessoas que procuram ultrapassar as leis naturais da vida. Pintam o cabelo, fazem plásticas, tentam imitar os jovens à custa de muito sacrifício, porém, o seu coração nem sempre aceita isso. Na realidade, sofrem intimamente e choram o tempo que lhes pertenceu e que não volta mais.

Quem até hoje não ouviu a frase saudosista das pessoas mais velhas: “Ah, no meu tempo!... No meu tempo era assim, assim, assim. Hoje é tudo estranho, está tudo muito pior.”

Quando ouvimos essa lamúria, essas queixas ou essa choradeira, acabamos por dar uma pequena volta ao nosso passado e chegamos até a concordar que, realmente, muita coisa está piorando. Todavia, esta questão merece uma reflexão:

Na medida em que o tempo vai ficando para trás, não podemos mais ignorar que antes as coisas, independentemente de serem piores ou melhores, eram muito diferentes. A sociedade era restrita. As pessoas viviam se imitando. Mudava-se muito pouco o cenário da vida. O que antes era um dia santo de festa religiosa é hoje um dia de labuta. Parece que o mundo vai, gradativamente, ficando sem sono, sem dormir e sem vontade de parar.
A vida com as suas regras e suas maravilhas vem se tornando, dia a dia, mais complicada para os idosos. Eis aí, portanto, o motivo maior do grande conflito de gerações que desencadeia entre as sociedades. As coisas se transformam da noite para o dia. O que há cem anos custava-se anos para se modificar, hoje, é feito em dias. O grande escritor Figueiredo Pimentel dizia que a vida não melhora e nem piora. O que acontece é, simplesmente, uma mudança de cada geração dentro dela.

Em 1960, eu ouvi do candeense, Mozart Sidney, que residia em São Paulo , que não fazia ideia do que seria São Paulo dali a dez anos. Dizia que aquela cidade teria um colapso em seu trânsito. E ao completar o tempo estipulado por Mozart, eu lá estava, na cidade de São Paulo, em 1970. Eu sentia como se houvesse chegado ao Jardim do Éden, pois, para mim, a minha vida se iniciaria ali. Era a era da Ditadura Militar, o tempo dos elevados e das grandes obras de infraestrutura da capital paulista. O país vivia conflitos constitucionais. A anarquia tomava conta das ruas e o povo cheio de esperança via grandes soluções serem tomadas, principalmente, na área do trânsito. Eu tinha vinte e poucos anos. Os dias eram pintados com cores fortes. E quando a gente falava das vantagens de morar na capital paulista, alguém sempre dizia: já foi muito melhor!


Na verdade, o mundo vem fazendo da vida um sacrifício maior para quem viveu no passado. Nem sempre, sabemos se é o mundo ou se somos nós que estamos, a cada dia, modificando mais apressadamente. Com isso, chega o momento de sentirmos saudade e é muito mais fácil sentir saudade do que acompanhar as novas gerações que inovam o mundo.

Quando jovem, a pessoa se integra no ambiente de maneira natural. Assim, sente que a vida lhe é satisfatória porque vive a vida do seu momento. A sua alegria interna transpira. Depois disso, o seu crescimento íntimo começa a se esmorecer e a sua evolução passa a bater de frente com o meio.

O mundo não piora para as pessoas. Ele piora para si. Uma geração jovem sente a mesma coisa que sentiu uma geração antiga. Amanhã a geração de hoje sentirá o mesmo desencanto que a de antes. Nesta sequência, bate a saudade que leva a dizer que, na sua época, as coisas eram melhores.

Portanto, concluo que é mais vantajoso aprender a ser velho e a substituir o prazer pela saudade. Devemos ajudar o coração a envelhecer com alegria. A nossa condição interior deve estar preparada para receber o sopro do vento que nos levará embora.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos