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domingo, 4 de novembro de 2012

A CARTOMANTE.



Foto para ilustração do texto.
Eu fui, até por volta dos meus doze anos de idade, um menino bobo, calado e obedecia, inconscientemente, à lei da natureza que determina que Deus fez o homem com uma boca e dois ouvidos para que ouvisse mais e falasse menos. Pelas ruas, eu era sempre visto acompanhando ora o meu pai, ora o meu avô e, às vezes, a vizinha Dona Ester. Portanto, inspirada neste meu comportamento, minha mãe chamava-me de rabo do meu pai, tendo em vista estar eu sempre atrás dele.

Certa vez, fui com Dona Ester no Bairro da Gruta à procura de uma cartomante. Eu não sabia, até então, o que seria uma cartomante. Fui pego de surpresa, quando Dona Ester, de supetão, convidou-me a acompanhá-la até a casa de uma mulher lá pelos lados da fazenda do Juca do Nico.

Ao sair, eu a vi preparando algo que seria entregue à cartomante: um pouco de feijão, de arroz e farinha, uma latinha de massa de tomate da marca Peixe, concorrente, à época, da Cica e um pacote de macarrão da marca Pieroni. Este era um macarrão antigo, grosso e danado de azedo, porém, muito consumido haja vista o seu baixo custo. Era fabricado na cidade de Formiga, contudo, tão logo começou a surgir produto similar, de qualidade, nas mesmas condições de preço, o macarrão Pieroni foi para o beleléu.

Preparado o bornal, saímos. Eu ia todo contente. Afinal, iria conhecer uma cartomante e com isso estava fervendo de curiosidade. Dei um toque em Dona Ester sobre o que seria uma cartomante e ela me disse que se tratava de uma pessoa que adivinhava as coisas.

Chegamos a uma daquelas ruelas, lá dos fundos do Bairro da Gruta, onde existiam poucas casas e já nos encontrávamos submetidos aos olhares curiosos dos poucos moradores. Afinal, pertencíamos a uma outra tribo que usava tomar banho e andar calçado. Acho que se aquela gente visse um carro iria, naturalmente, pensar que se tratava de um bicho de outro mundo. Nessas alturas, quem falava era só Dona Ester. Eu, como um tatu de galocha, somente observava, em silêncio, o ambiente desconhecido e como os moradores dali eu só falava e respondia com os olhos.

Interessante que, antigamente, as pessoas viviam apenas no seu pedaço, no seu canto. Eu me lembro que a primeira vez que fui ao Bairro do Alto do Cruzeiro já era menino grande. E foi, já nesse tempo, que conheci o Bairro da Gruta que não ficava tão longe assim da Rua Coronel João Afonso, onde eu morava. 

De repente, me vi à porta de uma casa e Dona Ester gritando: Maria! Ôh, Maria! Quando a porta se abriu e fomos convidados a entrar.

No recinto da sala, os móveis se resumiam em um banco tosco de madeira e um porta chapéu velho. Assim, eu já recebi o metro para medir a pobreza do ambiente. Rumo à cozinha, observei o telhado todo preto pela fuligem do fogão à lenha o que dava um aspecto bem sinistro. Um caramanchão de maracujá, próximo à porta da cozinha, atropelava a passagem. Ali, se acomodava um cão de aspecto doente que nem se mexeu com a chegada das visitas. Tomamos assento em um banco da cozinha que servia, também, como suporte de um caixote onde os utensílios domésticos eram depositados. Na parede, uma lamparina, naturalmente, identificando que, por ali, não havia luz elétrica. Próxima da porta, uma pequena barrica d'água. No canto do fogão, um feixe de lenha e havia, ainda, uma pequena prateleira e um pilão.

A imagem da cartomante foi para mim uma grande decepção. Miúda e magra, trajando um vestido velho de riscado, cabelo crespo, meio gaforina, rosto e nariz vermelho de alcoólica, sobrancelhas estilo tala larga que lhe realçavam os olhos de peixe morto. Um quadro estarrecedor para quem ali chegara imaginando encontrar Atena, a deusa da sabedoria.

Mas, afinal, o que seria uma cartomante? O que ela iria adivinhar para Dona Ester? Eu estava curioso e, cá com os meus botões, pensara em lhe pedir para adivinhar algo para mim. Num resumo, Dona Ester havia me falado que a mulher adivinhava as coisas. Assim, eu imaginei encontrar algo totalmente diferente.

Dona Ester disse-lhe então o que teria ido fazer ali, porque os seus dias não estavam dos melhores. Entregou-lhe “os trens de comer”, o que lhe fez tão feliz como se tivesse ganho um prêmio do Baú do Sílvio Santos, e logo convidando Dona Ester para adentrar o quarto, a velha questionou:

----"E o minino, Ister, comé qui fais?".

---- "O Armando?! Ele pode intrá tadinho... Ele não fala nada não, ele é um menino bobinho".

Achei bom. A minha curiosidade nem me fez levar a mal o fato de ter sido chamado de bobo. E depois eu era bobo mesmo. Eu queria ver aquele ritual de adivinhação. Logo, no quarto, formou-se o cenário: A cartomante assentada na cabeceira da cama, com as pernas abertas e Dona Ester que não dava conta de abrir as pernas, deitada pelos pés e eu agachado num canto, completando aquele quadro de mística barata. A adivinhadora toma de um baralho, o embaralha e, por fim, o dá para partir, quando começa:

---- "Ocê tem andado meia chatiada com uma pessoa. Se ainda num tá, vai tá. Ela morre de inveja docê. Isso só purque ocê tem um home que cuida docê. E ela num tem ninguém purela".

----"Ocê vai iscutá no rádio seu uma nutícia triste. E do jeito que ocê é boa, vai te dá até vontade de chorá quessa nutícia".

----"Ocê é muié do coração bão! Gosta de dá as coisa pro zoto. E tem dó de quem passa dificurdade. Num tem fio, mais gosta de minino e tem um minino doido pur causa docê".

---"Apareceu aqui uma dama preta, isso num é bão não!! É sinal que uma pessoa preta deseja mal procê...".

Dona Ester ouvia atenta e confiante enquanto aquela imundície mental foi me causando uma gastura danada. Eu, do alto da minha ingenuidade, pude notar o quanto o ser humano é frágil. 

Alguém como Dona Ester que para mim era um foco de sabedoria, de bondade, de exemplo, vê-la submetida àquele plano ridículo daquela pessoa tão desprovida de como se comportar na vida. Uma pessoa que talvez não soubesse o que é a tristeza ou a alegria; a coragem ou o medo; o equilíbrio ou a desarmonia; o brilho ou o baço; o relacionamento ou a dificuldade; o amor e o desamor... 


Dona Ester estava ali, crente naquelas baboseiras ditas por alguém que nada mais fazia a não ser defender a sua boca carente de álcool ou da comida que lhe poupasse da morte. E fazia isso, com certeza, de uma forma irracional de sobrevivência como irracional é o cão que late e o gato que mia.


 Por que aquela mulher tão pobre, vivendo em plena miséria, não usaria os seus dotes de adivinhação para descobrir algo que pudesse, antes de ajudar a alguém, ajudasse a si mesmo? 


Eu não conseguia entender e nem acreditar que Dona Ester estivesse confiando naquela mulher a quem visitava de quando em quando. Durante anos, martelei na minha cabeça a ideia do porquê que Dona Ester buscava acreditar nas coisas que aquela mulher lhe falava olhando as cartas de um baralho.

O coração é um cofre que guarda os sentimentos mais íntimos do seu dono. Aquela mulher fora uma prostituta tal qual fora Dona Ester, todavia, não teve a mesma sorte. Naturalmente, agora, recebia não só a ajuda indireta de Dona Ester, como também, recebia um pouco de atenção como filha de Deus.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

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