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sábado, 10 de outubro de 2009

JOSÉ PRIMEIRO VILELA


                                Casa Vilela - Fundada por Vicente Vilela  --  Foto Carlos Melo

A desorganização da povoação do tempo colonial fez perdidas, em Candeias, as origens de muitas famílias.

Uma coisa que muito contribuiu e ainda contribui para a dificuldade na elaboração de uma árvore genealógica, por exemplo, é o registro civil no Brasil ter sido criado somente no ano de 1874 e vir a ser exercido após o ano de 1875. Além disso, a lei era cumprida apenas nos grandes municípios; vindo somente a ser obrigatório o registro civil a partir do ano de 1888.

Apesar da obrigatoriedade da lei, esta não era levada bem a sério, haja vista, que até hoje, existem pessoas sem registro por negligência dos pais.
Portanto, a única fonte de informação civil era fornecida oficialmente pela Igreja Católica, a partir do chamado batistério, o qual comprovava a passagem do cristão pela pia batismal.

O nosso Blog vem procurando resgatar e preservar nomes de pessoas que, num passado distante ou mais recente, tenham contribuído com o desenvolvimento de Candeias, porque a falta de registros e o pouco interesse nesta questão fizeram com que muitos ilustres candeenses natos ou por adoção e que fazem parte da história de nossa cidade estejam, hoje, ausentes de seus anais, pouco lembradas ou quase esquecidas. Para tanto, não temos medido esforços, mesmo porque a falta de registros nas épocas específicas dificulta o nosso trabalho, mas, nunca é tarde para procurar um nome perdido ou esquecido... Um nome de alguém que um dia trabalhou na construção da nossa história.

A família Vilela, como poucas, tem o privilégio de ter uma história acompanhada desde a sua origem em Portugal.

Originária da freguesia de Santa Maria das Palmeiras, nos arredores de Braga-Portugal, a família foi e ainda tem sido estudada.

Vilela é uma palavra supostamente relacionada com uma vila donde Custódio de Vilela teria tido alguma referência que lhe deu esse nome.

Custódio de Vilela e Felícia de Cerqueira, casal tronco da família “Vilela”, se casaram aos 05 de junho de 1707, na mencionada freguesia de Santa Maria das Palmeiras. Seus descendentes vieram quase todos para o Brasil. E a maior parte se estabeleceu em Minas Gerais, especialmente na nossa Região.

A família Vilela, apesar de ser de origem portuguesa, não tem grande conotação em Portugal, pois as ramificações da família em Portugal são muito envolvidas com a vida dos Vilelas do Brasil. Lá fazem suas árvores genealógicas consultando seus parentes no Brasil. Pesquisas comprovaram que todos os membros da família Vilela têm a mesma consanguinidade, ou seja, são todos parentes. Inclusive, houve época, em que só se casavam entre eles...

Hoje, vamos homenagear o ilustre candeense, um dos patriarcas da numerosa família Vilela em Candeias:

José Primeiro Vilela, nasceu na comunidade do Chapadão, município de Candeias, no dia 1º de Março de 1859, filho de José Alves Vilela e Ana Ferreira Vilela, tendo como único irmão, o Sr. José Segundo Vilela. Seus pais se aportaram em Candeias, ainda, nos tempos das sesmarias e se tornaram proprietários de grande partida de terras.

José Primeiro Vilela se casou em primeiras núpcias, em 1876, com a Dona Florisbela Terra, no lugar denominado Curral da Pimenta, hoje cidade de Pimenta. Desta união, nasceram onze filhos. São eles, abaixo relacionados, na ordem cronológica de nascimento:

José Alves Vilela (Nome do avô)
Maria Augusta Vilela
Ana Ferreira Vilela
Francisco Alves Vilela
Joaquim Alves Vilela
Augusto Alves Vilela
Francisco Alves Vilela Segundo (Chichico)
Cândido Alves Vilela, (Candola)
Rita do Rosário Vilela
Sabina Alves Vilela e
Sebastiana Alves Vilela.

Em segundas núpcias, José Primeiro Vilela casou-se com Dona Otonestina Vilela, no ano de 1890, de cuja união nasceram dez filhos, são eles:

Geraldo Alves Vilela
Áurea Alves Vilela
Joaquim Alves Vilela
José Ferreira Vilela
Vicente Alves Vilela
Bernadete Alves Vilela
Aurélio Alves Vilela
Maria do Carmo Vilela e
Paulo Vilela, o caçula, nascido quando o pai contava já setenta anos de idade.

--José Primeiro Vilela com a sua segunda familia: No seu colo está, José Vilela. Sua esposa Ottonestina, gravida do Vicente Vilela. Ao lado, Geraldo Vilela, o filho mais velho, Aurea, Joaquim e Bernadete. Foto do arquivo da família.
De seus filhos  entre nós, encontra-se apenas o Sr. Aurélio Vilela, aos noventa anos de idade cheio de saúde e vigor. Casado com a Dona Natália, pais do Dr. Marcos, conceituado fisioterapeuta em nossa cidade.

José Primeiro Vilela era um homem culto e inteligente. No seu tempo, estudar no Colégio do Caraça era motivo de orgulho para a família. No Caraça, ele fez os seus estudos básicos, o que lhe proporcionou ser um homem esclarecido nos negócios, na sociedade e para com a família.

Era detentor da patente de alferes da Guarda Nacional (o equivalente ao posto de Tenente).

Muito colaborou com as nossas autoridades civis, eclesiásticas e militares, pois foi um militante ativo de todos os problemas que afligiam o nosso município.

Homem caridoso. Foi um dos fundadores da Sociedade São Vicente de Paula e um de seus mantenedores.

José Primeiro Vilela era um homem determinado na administração de seus negócios. Foi um fazendeiro dedicado e preocupado com a produção de alimentos. Plantava grandes lavouras de cana de açúcar para a fabricação de rapadura, açúcar mascavo e aguardente. Cultivava o café, e outros cereais em geral. Criação de gado bovino e suíno. Grande parte da sua produção era levada para fora, o que proporcionava divisas financeiras para o nosso município.

Após uma vida de muita luta e sacrifícios, José Primeiro Vilela faleceu no dia 26 de fevereiro de 1930, aos setenta e um anos de idade. e foi enterrado no Cemitério São Francisco, em Candeias.

José Primeiro Vilela nasceu, viveu e morreu em Candeias. Esteve fora apenas durante os seus estudos no Colégio do Caraça, ainda no princípio da sua adolescência. Afora isso, sempre esteve ao lado do trabalho, da sua família e dos problemas do nosso município.

José Primeiro Vilela era um homem simples. Sua grande ambição era os seus filhos. Filhos que ficaram para continuar a construção de nossa história.

Parabéns, Alferes José Primeiro Vilela e muito obrigado por sua participação ativa na construção da nossa história.

O Blog Candeias MG Casos e Acasos ao lhe homenagear, nesta data, quer, também, dedicar um voto de louvor a todos os seus descendentes, cidadãos dedicados e honrados que continuam, como você, construindo a história de nossa terra.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos 








sexta-feira, 2 de outubro de 2009

MARIA DO FIRMINO

Praça Antonio Furtado (Foto Carlos Melo)
Atualmente, eu não seria capaz de descrever um dia de domingo em Candeias. Tudo foi mudado em comparação ao meu tempo de criança. Agora, a cidade cresceu e com ela a população. Mesmo, ainda, sendo uma cidade de pequeno porte, já perdeu aquelas características de vila. Hoje, se encontra com as ruas, praticamente, todas pavimentadas. Possui outros recursos como hospital, diversas farmácias, produção de granito, pequenas indústrias, um comércio mais amplo, e, também, uma zona rural mais desenvolvida com mais mão-de-obra e produção de alimentos, educação, etc. Tudo isso afora aquilo de que não tenho informação.


É inegável, portanto, que a cidade melhorou muito. Embora o seu progresso seja prejudicado pelas cidades de Campo Belo e Formiga, tendo em vista que é muito facilitado o meio de transporte que liga a essas duas cidades. Isso tudo, com certeza, faz com que o território da nossa paróquia fique parecendo uma periferia, principalmente, na visão dos candeenses mais bairristas, assim como eu, que sempre faço do coração um cofre para guardar as minhas lembranças.

Dizem que Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Mas, em Candeias, antigamente, era o contrário. O sétimo dia era dia de labuta para Deus e todos os santos. O Padre, durante a semana, celebrava uma missa rápida de manhã para uma meia dúzia de fiéis e depois ia descansar o resto do dia. Mas, aos domingos,*o seu batente era pesado.

Começava com a primeira missa às seis horas, depois a das oito para as crianças e, logo, a missa das dez. À tarde ia pelas roças e à noite a bênção do santíssimo. Todas essas missas tinham a freguesia certa. Eu sempre ia pela última, juntamente com o meu pai. Não gostava de ir à missa das crianças porque esta era administrada pelas professoras e, aos domingos, eu queria me livrar delas. E depois, a companhia do meu pai me era muito agradável.

Após a missa, comumente, passávamos na venda do Inácio Pacheco Lopes, situada ali, onde, atualmente, encontra-se um escritório de contabilidade, no sobrado que foi do Levy da Farmácia. O comércio do Inácio era uma mistura de armazém com bar. Tinha lá um violão que o Alceu, seu filho, gostava de pontear e que o meu pai, por vezes, após ter tomado algumas biritas e esquentado as turbinas, tomava do instrumento e mostrava algumas do seu repertório como: Cabocla Bonita, A Moda da Mula Preta, Noite de Reis, etc.

Havia um varal, num canto do estabelecimento, no qual permaneciam, constantemente, aquelas linguiças mistas tratadas de salsichões, normalmente, feitas de subproduto bovino e suíno. Era comum essa iguaria naquele tempo. Um tipo de embutido, pré-cozido, ficava exposto à ação do tempo e das moscas. E a freguesia, recém saída da missa, queria benzer o santo, bebia cachaça e comia aquele tira-gosto insalubre.

Eu que ainda não degustava a bebida alcoólica, de posse de uma pequena garrafa de guaraná, da marca MONTESE que, popularmente, era chamado de "água de rapadura" tomava de um bom pedaço daquela linguiça e dava uma festa para os ascarídeos que, com certeza, habitavam os meus intestinos. Devo confessar que havia uma sintonia tão grande de minha boca com os meus intestinos que aquilo nunca me fez mal. Até hoje, eu gosto daquela carniça como se fosse uma excelente iguaria, apesar de que, atualmente, são fabricados com maior esmero.

Dali, íamos para casa, onde, normalmente, nesse dia, um franguinho nos esperava, devidamente distribuído de acordo com a fórmula estipulada, ou seja, cada um com o seu pedaço especificado.

Logo após o almoço, era a vez do catecismo. A minha catequista era a Maria Brasileira, filha do João do Padre e neta do Padre Américo. Terminado o catecismo, era distribuído o chamado "bom ponto" uma espécie de senha que proporcionava à criançada pagar meio ingresso na matinê do cinema.

O resto do dia não tinha mais o que fazer. À noite, voltava à igreja para rezar mais. Não havia televisão. Era então hora de ouvir as histórias da carochinha contadas por meu pai e depois ir para a cama.

De quando em vez, aparecia na cidade um circo de tourada e ou de cavalinhos, como era chamado, e, também, alguns parques de diversões. Essas atrações eram verdadeiros atestados de pobreza, mesmo porque, a cidade não comportava uma companhia requintada. Mas, aquilo para a meninada era uma verdadeira alegria. O local designado para a armação desses itinerantes era a Praça Antônio Furtado.

Lembro-me que, certa vez, um circo ficou abandonado por falta de artistas. A companhia abandonou o dono do circo, por falta de pagamento, e a prefeitura foi quem teve de transportá-lo para a cidade de seu proprietário. Era, realmente, um tempo de vacas magras. Mas, por falar em circos e parques de diversões, remexo no fundo do baú das minhas recordações e encontro à tarde de um domingo quando vi, pela primeira vez, uma cena obscena e isso se dera em um momento que chegava à praça um parque desses bem mixos.

Maria do Firmino foi uma pessoa que eu considero ser das reminiscências mais marcantes das minhas curiosidades de menino e, talvez, ainda possa estar vivendo, com o mesmo aspecto na memória, também, dos meus colegas daquela época.

Figura corpulenta, barriga um pouco crescida, seios enormes, cabelos crespos, rosto isento de dotes femininos. Enfim, uma estatura longe de ser desejada para um afago.
Sofria das faculdades mentais e andava a cidade toda a passos largos. Era sempre vista falando em voz alta pela rua afora. Às vezes, rindo e, às vezes, xingando. Era aquela loucura zanzando para baixo e para cima. Apesar de ser ainda uma criança eu tinha muita pena daquela senhora.

Quando vinha se aproximando, a meninada já lhe provocava dirigindo-lhe uma pilheria ou emitindo assovios a sua passagem.

Em uma tarde, quando a meninada estava reunida aguardando a hora do funcionamento do parque que ficava perto de minha casa vem se aproximando a Maria do Firmino falando e gesticulando, como sempre fazia.

De repente, um dos meninos, em um gesto de incitação, grita: "Maria, mostra o pastelão!" e foi, nesse momento, que a pobre infeliz suspende o seu vestido, acima da cintura, e mostra aos presentes toda a sua intimidade. Não havia nada por baixo. Mostrou detalhadamente e ainda falando alto: "mostro, mas não dou". Virou-se e deu uma tapa nas suas nádegas volumosas e bradou: "Não dou! E não dou. Nem isso, aqui"!...

E eu encalistrado e totalmente bloqueado, vendo aquele baita órgão vulvuterino envolvido num chumaço de pelos crespos e aquele traseiro disparatado parecendo um holofote causando uma tremenda tempestade eufórica na turma, deixando-me totalmente atordoado, em uma completa desordem emocional. Naquele momento, eu acabava de doar ao mundo uma dose da ingenuidade e ilusão da minha infância, ainda sem pecados...



Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos