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quinta-feira, 28 de março de 2013

DORMINDO E SONHANDO

Foto para Ilustração
Existem pessoas que dormem pouco e outras que dormem muito. Geralmente, desconsiderando as exceções, quanto mais velho uma pessoa vai ficando, menos ela dorme. A cama é um móvel muito apreciado por aqueles que gostam de dormir. Além de dormir, a cama serve para descansar, para se amar, transar, parir e sonhar. Com certeza, as pessoas só não gostam de lembrar que a cama é também um lugar de partida para a eternidade.

Há pessoas que só de verem uma cama quase sentem um orgasmo, não para o prazer carnal, mas, para dormir um belo sono e sonhar com um mundo que não lhe pertence.

Minha primeira sogra acordava pela manhã e gastava, mais ou menos, uma hora contando todos os seus sonhos. Tem gente assim: gosta de contar, em detalhes, os sonhos que teve durante o sono. Existem pessoas que escolhem com o que sonhar e, às vezes, sonham até com o futuro de alguém.

O sonho está associado ao sono. O sonho acordado não tem nada a ver com o sonho de quem dorme. Aqui, em Candeias, havia um rapaz, chamado Dimas. Era viciado em jogo do bicho. Dormia mais cedo para sonhar com os bichos e, assim, no outro dia, ter um belo palpite para arriscar a sorte. Quando perdia o sono, ficava chateado, pois estaria perdendo tempo em não sonhar.

No meu tempo de bancário, eu tive um colega e amigo, o Torres. Ele possuía o hábito de sonhar com atrizes famosas em situações eróticas. A coisa foi ficando tão séria que ele chegou a se casar com a Sonia Braga com direito a uma prazerosa lua de mel. A Vera Fischer, quando ainda nova e famosa, era o seu cacho. Vivia contando, na maior tranquilidade, como se real fosse, as suas noitadas. Certa vez, o exagero foi tanto que, durante um desses sonhos, ele começou a sussurrar, em alto som, como se estivesse sentindo alguma dor fazendo com que o sono de sua esposa fosse interrompido. Diante desta situação, ela, já acordada, lhe perguntou: “O que é que foi, Toninho? O que é que você está sentindo? Onde está doendo?" E ele, acordando assustado, disse: "Não é nada, não, mulher". Quando, então, ela o interpelou, como um aviso: "Olha lá, hein, Toninho! Olha lá, seu safado."

Outras pessoas fazem as mais estrombóticas análises dos seus sonhos. Dona Ester, minha antiga vizinha da Rua Coronel João Afonso, ficava toda feliz quando sonhava com merda. Dizia que o sonho é o contrário da realidade. Para completar a sua convicção sobre esse tema, espalhou para a cidade inteira que sonhara com o Monsenhor Castro, as vésperas de sua morte causada por um câncer, de que o mesmo estaria vendendo saúde e que teria se curado do câncer.

O marido de Dona Ester, Joãozinho de Paiva, não usava cuecas curtas. Preferia as ceroulas. Gostava de ter as partes bem protegidas. Certo dia, Dona Ester sonhou que ele teria se borrado todo e enchido a ceroula. Como para ela merda no sono significava sorte e dinheiro, jogou no grupo, na dezena e na centena do porco. Acertou tudo para desespero do banqueiro, Antonio Guimarães. Agora, o pior foi ela contar para a cidade inteira como teria tido um palpite tão certeiro graças à incontinência fecal do marido. Coitado do Joãozinho! Todo mundo ficou sabendo que ele havia cagado nas calças.

Existem, ainda, outras opiniões. O meu pai, Zé Delminda, por exemplo, achava que quem dormisse muito engordaria demasiadamente. Vivia dizendo que o porco é um bicho que come e dorme e é, por isso, que, quanto mais dorme, mais fica perto da morte.

Portanto, suponho que o dorminhoco vive em dois mundos. O mundo real e um mundo fictício. Contudo, não vamos exagerar. Viver o que sonhamos é sempre um susto quando acordamos.

Mas, de todos os casos, o mais pitoresco de todos aconteceu com o Chico Sinhana. Chico Sinhana era irmão do Joanico, pai do Barroso. E como ele dormia... Dormia, dormia e dormia. Certa vez, a sua casa ficou fechada por três dias e, em uma cidade pequena, aquela situação acabou chamando a atenção das pessoas. A casa, então, foi arrombada e, ao acordarem o dorminhoco, ouviram dele a seguinte bronca:

PUXA! QUE COISA, SÔ! SERÁ QUE A GENTE NÃO PODE NEM TIRAR UM COCHILO SOSSEGADO!?

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

segunda-feira, 18 de março de 2013

A ESCADA ROLANTE.

Foto para ilustração do texto.
Semana passada, quando eu circulava pelo interior de um grande shopping em Belo Horizonte, borbulhou, em minha mente, a primeira vez que fui a nossa capital. Eu devia estar com, mais ou menos, dezessete anos. Em meio àquela selva de pedra, eu me senti muito pequeno e, com isso, cheguei a ter medo, sem exageros, de um prédio daqueles cair sobre a minha cabeça.

Eu, como já disse, era um garoto muito bobo. Naquele tempo, não havia essa locomoção de hoje. Não existiam os ônibus. Aqui, em Candeias, passava uma pequena jardineira que demorava um dia para ir de Campo Belo a Formiga e permanecia, por lá, poucas horas. Era uma pequena estrada de terra que vinha pela comunidade dos Arrudas, atravessava a cidade, indo rumo à usina velha, depois os Baiões e, finalmente, Formiga. Essa jardineira que conduzia apenas vinte e cinco passageiros, quase sempre, transportava meia carga. Era de propriedade dos irmãos Antônio e Brás que eram irmãos, também, do Euridinho da Lucy.

O outro meio de transporte da época era o trem de ferro. Existia o misto (carga e passageiro) e, ainda, o noturno que transitava, obviamente, à noite. Nesse tipo de trem havia leitos e um restaurante. O trecho, sem conexão para os candeenses, era de Ribeirão Vermelho a Garças onde se faziam conexões com muitas locomotivas para outras bandas. Era esse o caminho que nos levava até Belo Horizonte que consumia, ao final, um dia de viagem.

Mas, voltando ao início, minha primeira ida a Belo Horizonte foi a viagem mais emocionante que eu fiz na minha vida. Além de Candeias, eu conhecia poucas cidades, como Formiga e Campo Belo. Conhecer Belo Horizonte seria um feito dos mais importantes para satisfazer a minha vontade de conhecer outras terras. E conhecer a capital, então?! Nossa! Esse dia sempre foi esperado por mim como uma bomba a explodir dentro do meu peito.

Em Candeias, havia somente um táxi. Aliás, antigamente, não se falava táxi. Era carro de praça e o motorista era chofer de praça. Esse táxi era do Edson Cordeiro, pai do Ailton Cordeiro. Edson era filho único. Seu pai, bem aquinhoado, teria lhe ajudado a se dar o luxo de dispensar o seu emprego na ferrovia, onde era o mais competente de todos os telegrafistas, pelo fato de ter sido transferido para a cidade de Lavras. Edson comprou um automóvel da marca norte-americana Ford e o colocou na praça. Ter um carro, naquele tempo, era um verdadeiro luxo. Logo, em Candeias, existia apenas um carro de praça que era coisa raríssima nas pequenas cidades.

Edson Cordeiro gostava muito de mim. Apesar de ser uma pessoa extremamente sistemática, eu não sei o porquê, mas, os nossos anjos da guarda se deram muito bem. Assim, em uma viagem que ele contratou para Belo Horizonte, quando foi levar um técnico que teria vindo a Candeias a fim de arrumar o transmissor de radio que existia na Igreja Matriz, ele me levou como caroneiro para lhe servir de companhia.

Esse convite foi o maior presente que eu poderia ter recebido de um amigo. Tomei um banho com sabonete Gessi, usei desodorante até no sovaco das pernas, lambuzei os cabelos de brilhantina Glostora e ensopei o pescoço com perfume Lancaster.

Na hora que entrei no carro, foi um cheiro só e já comecei a bancar o meu mico porque não sabia usar nem Glostora e nem Lancaster. Todavia, como o Edson e o passageiro não possuíam alergia, foram sentindo aquele cheiro misturado que não era nem de brilhantina e nem de perfume.

Eu nunca havia visto asfalto. Quando eu vi aquela rodovia asfaltada, eu já expressei a minha grande admiração como que podia existir uma estrada cimentada. Como se houvesse cimento! E quando eu admirava alguma coisa, eles riam e achavam bom. E eu pensava que estava abafando! Que ingenuidade!

Mais à frente, nós estacionamos em uma parada, à beira da estrada, para tomarmos um café. Em um canto do restaurante, havia uma mulher fritando pastel e todo mundo dando preferência aos seus pasteis quentinhos que estavam sendo feitos na hora. Eu acho que eu nunca havia comido um pastel quente porque quando dei a primeira dentada aquele vapor me fez queimar a boca deixando-me de sentir o gosto de qualquer coisa que viesse a comer posteriormente.

Chegamos a Belo Horizonte. Eu parecia um frango de granja em um galinheiro de galinha índia. Tudo para mim era novidade. Como estava assustado! Após deixar o passageiro no seu destino, o Edson estacionou o carro, no centro da cidade, e fomos até a Galeria do Ouvidor. Aí, então, foi o meu martírio. Depois que desci do carro, em meio aquele movimento todo, eu fiquei transtornado. Na hora de atravessar a rua, o Edson ficava de olho em mim até que entramos na tal Galeria do Ouvidor e paramos em frente a uma escada rolante. Então, ele me disse: você vai à frente porque pode ser perigoso. E eu, meio tonto, consegui agarrar no corre mão. Afinal, eu estava mais assustado do que antes. Ver uma escada subir!? Isso seria coisa de outro mundo! Onde eu poderia ter visto ou, simplesmente, ter pensado nisso antes. Aquilo seria assunto para um mês quando eu voltasse para Candeias. Um corre mão onde a mão não corre. Um degrau que sobe ao invés das pernas. Nem meus pais teriam visto uma coisa tão estranha.

Lá em cima, rodamos as lojas e, logo, voltamos. Na hora de descer a escada, como na subida, teria sido bem sucedida. Como não houve, por parte do Edson, a preocupação em me proteger eu fui afoito, querendo aparecer. Meti o pé entre os dois degraus, dei uma derrapada pela escada abaixo, no que fui socorrido pelos demais usuários que, após verem que nada me tinha acontecido de grave (exceto umas pancadas), riram. Acharam graça do caipira que, depois disso, saiu escalavrado. E essa viagem, que seria um assunto amplo na minha volta, foi silenciosa. Graças a Deus, o Edson nunca contou para ninguém e, até pouco antes de sua morte, eu comentava. “Como eu era bobo, hein, Edson?!”– E ele rindo, dizia: “Toda primeira vez tem um desajeito, Armando.” E eu, cá comigo, pensava:

Ainda bem que eu tenho outras primeiras vezes que ninguém viu.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

domingo, 3 de março de 2013

UM CANDEENSE MALOGRADO.


Vista parcial de Candeias - Minha terra querida.
É lamentável que existam pessoas que não saibam assumir os seus problemas, os seus defeitos, as suas fragilidades ou, ainda, as suas incompetências. Essas pessoas acham que é mais fácil culpar alguém, até mesmo a sociedade, omitindo, assim, os seus erros quando seria muito mais elegante, comprovando maturidade, elas admitirem as suas responsabilidades diante dos seus fracassos. É sinal crasso de imaturidade buscar subterfúgios na ânsia em se defender do indefensável. Um exemplo emblemático disso, encontramos naquela conhecida alegação de quem diz que não melhorou de vida porque nunca soube puxar o saco de ninguém. As vítimas dessas perturbações morais causadas por indignação, aversão, por vezes, até repulsa se tornam pessoas chatas e pedantes diante do seu egocentrismo. Neste contexto, temos que admitir que se tratam, na realidade, de vítimas de um conflito social.

Há alguns dias, quando eu estacionava o carro na praça, defronte ao Banco do Brasil, encontrei-me com um conterrâneo e amigo meu que há muito não o via. Fazia tanto tempo que a gente não se encontrava que já éramos quase que desconhecidos, tendo em vista as alterações que o tempo promoveu em nossos físicos. Desconfiados, nós nos identificamos e nos vimos abraçados depois de uns quarenta anos, mais ou menos. Após alguns minutos, próximos da Igreja do Bom Jesus, a igreja na qual frequentamos as aulas de catecismo, nós trouxemos, à tona, a nossa infância e a nossa juventude. Dado ao desenrolar da sua história eu não direi o seu nome e o tratarei aqui apenas por meu amigo.

 Meu amigo que tem a idade caminhando junto a minha, dizia, em uma constante exaltação, que hoje se encontra, financeiramente, muito bem de vida. Todavia, em crescente lamúria, ressalvava que para isso não devia nada a “esta terra”, na qual passou até fome, nunca tendo lhe acolhido como um filho. Parece que me escolhera para um desabafo ao denegrir, desnudar e desmoralizar o local no qual nasceu. Trazendo, no fundo da sua alma, insistente mágoa de quem um dia foi ludibriado pela sorte diante de uma vida que ofereceu muito a uns e quase nada para outros.

 Eu, ao contrário dele, amo a minha terra. Se Deus me colocou aqui, não foi por acaso. E se tive de sair para ganhar a vida fora, isso jamais foi e será motivo para que eu venha a desnudar, denegrir ou desfazer daquilo que o Criador me deu o direito de falar: MINHA TERRA. É como dizia o meu amigo, Rômulo Nardi: “A palavra minha é uma grita ao olho.”. Entendo que devemos florescer o lugar em que Deus tenha nos colocado, mesmo que venha a ser sobre uma pedra, um rochedo. Quantas pessoas nasceram ricas aqui em Candeias e hoje estão pobres? E, contrariamente, quantos nasceram pobres e que agora estão ricos? Se fizermos a nossa parte, não precisaremos ficar em um autêntico vale de lágrimas para justificarmos aquilo que não conseguimos fazer. Aquele que planta, colhe. Falar mal do lugar em que nascemos é repudiar aquilo que Deus nos determinou. É, também, desconhecer os critérios lógicos da Obra da Criação de Deus. Eu sempre vivi e ainda vivo fora de Candeias. Entretanto, estou sempre aqui comungando a mesma hóstia com a minha mãe em seus oitenta e cinco anos de idade.

 Dizia, o meu amigo, de uma forma pouco elegante, que aqui é terra de um povo atrasado, de cabeça fechada e que só estaria aqui em visita a um amigo doente que lhe teria matado a fome, algumas vezes, durante a sua infância. Exaltava que é uma cidade que não favorece ninguém, que não há emprego, é sem cultura, enfim, sem nada.

 Diante daquela postura, que, sob os meus olhos de bairrista, já me deixava um tanto desconfortável, eu fiz questão de ouvi-lo, atentamente, para depois me manifestar, emitindo minha opinião e fazendo meus comentários. E , assim, ele continuava: “Eu nunca entrei naquele clube ali (indicando o atual Fórum, sede do antigo Clube Recreativo Candeense). Emprego aqui para mim só foi de servente de pedreiro ou de ajudante de caminhão. Hoje, eu tenho um apartamento muito bom em São Paulo. Tenho duas casas de aluguel na Vila Sabrina e ainda tenho uma mercearia que me dá uma renda muito boa e serviço para os meus dois enteados. Minha mulher é enfermeira aposentada e ganha uma nota. Eu não sou ainda aposentado porque o tempo que eu fiquei aqui, nesta merda, eu o perdi.”

 Com essa última informação, eu pude sentir que o meu interlocutor papudo começava a declinar perante os meus ouvidos aquilo que me fazia compreendê-lo. Entre mim e ele, a diferença de idade é muito pequena e, então, porque ele ainda não teria se aposentado? Ele foi para São Paulo na mesma época em que eu fui. Lembro-me, enquanto tínhamos contado, sei que fora cobrador de ônibus em São Paulo. Entretanto, eu já me encontro aposentado há dezessete anos!...

 E como já se encontrava um tanto cansado de esnobar os seus méritos, culpando Candeias por seus fracassos, resolveu, num estalo, demonstrar a sua capacidade financeira quando me convida para ir com ele até ao Bar Piloto para tomarmos Uísque. Eu notara que ele já havia ingerido bebida alcoólica, dado ao forte cheiro que exalava sobre o meu rosto enquanto falava. Dispensei o convite e, neste comenos, eu me preparava para me despedir, contudo, ele teria dado um nó em minha garganta que necessitava de ser desatado. E, assim, comecei:

 A vida é assim, meu amigo:

 Às vezes, as pessoas se revoltam com a vida, com o meio em que nasceu, todavia, sem maiores motivos. Mas, isso é compreensível. Procure colocar a sua cabeça no lugar. Você cobra de Candeias o fato de ser filho de um conflito. Parece que está aqui para se vingar. Porém, enfim, o que você fez por Candeias? Parece que você nunca amou a sua terra, nem mesmo quando criança. Você já falou de uma porção de gente, inclusive alguns mortos e que a meu ver eram boas pessoas.

 Lembra-se quando fomos colegas de escola? Você era muito revoltado e um dia que a professora pediu o nome de seus pais você disse que era filho de uma puta. A turma fez um olé e você saiu rogando praga em todo mundo.

 Você era criado por sua avó. Certa vez, deu de querer saber quem era o seu pai e, como a sua avó não sabia nem do paradeiro de sua mãe, você ameaçou a pobre velha com um disparate de palavrões.

 Você se lembra do engenheiro espanhol que construiu a praça central de Candeias, o Dr. Juan Fabra Romero? Eu e você éramos serventes de pedreiro na construção da praça central. Você, por muitas vezes, faltava do serviço sem mais e sem menos. O engenheiro lhe dispensou dos serviços e você o mandou tomar não sei aonde, na frente de todo mundo!?

 Lembra-se, também, daquela vez que você roubou umas garrafas vazias e as vendeu para comprar cigarros. E, por falar em cigarros, você ainda menino fumava. Você deve ainda se lembrar de quando enfiou um cigarro aceso no braço do Marcio da Quinha do Dedé, somente porque ele comentou que você estava fumando no banheiro da escola? Nossa! Aquela, talvez, seja a pior de todas as suas...

 Olha, meu amigo, eu me recordo muito bem de você. Fomos, no mesmo tempo, meninos e também colegas. Você não era flor que se cheirasse. Chamava as professoras de puta. Era levado, quase sempre, ao gabinete da diretora e, só não foi expulso da escola, porque o sistema daquela época era muito contemplativo, em termos de expulsão. Entretanto, como naquele tempo permitia-se às professoras baterem nos alunos, você vivia debaixo de vara.

 Eu sei que você melhorou de vida porque herdou da sua mulher, em São Paulo, uma pequena mercearia. Mas, quem manda por lá é ela e os filhos de seu primeiro casamento, os seus enteados. Sei que você não tem filhos. Eu conheço a sua história porque assim me disse o seu primo, Toninho. Você teve a sorte de se casar com uma mulher afortunada. Dessa maneira, o patrimônio que você diz lhe pertencer não foi resultado de seu trabalho. O seu parente que você maldiz me disse que você ganhou na loteria ao ter casado com uma viúva e que você a obedece por se tratar da sua galinha dos ovos de ouro. Causa-me, contudo, estranheza o fato de você não ter, ainda, se aposentado.

 Eu quero lhe dizer, meu amigo, que as pedras que nos atiram pela vida a fora merecem uma reflexão se a merecemos ou não. Uma autocrítica, de quando em vez, nos faz bem. No meu modesto entendimento, essas dores que dormem dentro de você, durante tantos anos, são dores de uma doença que só você pode curar. Você não perdoa nem a sua mãe que foi uma sofredora. O que ela fez hoje é comum. Foi uma mãe solteira que acreditou em um rapaz sem fibra e que sumiu e a abandonou na rua da amargura. Seu avô, muito ignorante, como a época em que vivia, a expulsou de casa. Tão logo ela deu a luz a você, ela sumiu e, também, nunca mais foi vista por aqui. Você sabe disso porque já lhe foi contado. Esse ódio que você transporta dentro de seu peito e de sua alma, o faz pobre, muito pobre. O torna mais pobre do que quando saiu daqui porque agora você é um homem maduro e tem o dever de pensar melhor...

 E, com um sorriso amarelo, me disse:

“É, Armando! Você não sabe o que está falando!”

 Desencantados, um com o outro, despedimo-nos. Eu entrei no Banco do Brasil e ele seguiu para o Bar Piloto.

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida (Vinícius de Morais).

 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Ac