Total de visualizações de página

terça-feira, 21 de junho de 2011

ANTIGOS BARES CANDEENSES

                                  Bar do Bóvio na década de 50. Da esquerda para a direita: Zé Carlos, Antonio Macêdo, Zé Rui, o Iéié, Antonio Gomide, o Vup e Rubens de Assis.
                                                     
Olhando para o retrovisor da minha vida, busco a minha querida cidade de Candeias, da década de 50, quando me encontrava, no viço dos meus anos. Cerro os olhos e navego nas minhas mais venturosas lembranças. E, numa dessas excursões fantásticas, de essência real, faço uma visita aos melhores bares da cidade. Em um tempo em que eu, ainda, não tomava cerveja e nem aperitivos. Tomava, sim, um refrigerante qualquer ou me deliciava com um biscoito ou uma bala, quando acompanhado de meu pai.

Em Candeias, havia bons bares dos quais, hoje, restam apenas lembranças. No local onde está edificada a casa do Sr. Willian Viglioni, ao lado da Igreja do Senhor Bom Jesus, ficava o “Bar do Bóvio Riani”. Um bar completo: mesas de sinuca, bebidas nacionais e estrangeiras. Lembro-me dos funcionários: José Rui Ferreira, o Ieié, felizmente, ainda entre nós; O Antonio Gomide, o Vupo, residente em Brasília e o Joãozinho de Assis, o Grilo, já falecido.

Bóvio Riani foi mais um dos italianos que muito trabalhou na construção de nossa história. Era pai do professor, Aldo Riani; do fazendeiro, Elio Riani e da professora, Helda Riani.

“Bar do Leley” sucedeu o “Bar do Bóvio.” Era um bar de exagerado asseio. As garrafas eram espanadas, diariamente, e, semanalmente, eram limpas com pano seco para não destruir os rótulos. As vitrinas, rigorosamente, alimpadas, todos os dias, eram cheias de quitandas e confeites feitos por sua mãe, Dona Maria e filhas, Quinha e Iveta. Os funcionários, quando não estavam atendendo os fregueses, estavam com um pano ou um espanador nas mãos. Posteriormente, o “Bar do Leley” se transferiu para o sobrado do Levy e ocupava toda a área térrea, pois, passou a incluir os serviços de restaurante. Esta transferência preconizou o fim do “Bar do Bóvio”, pois, até então, muitos ainda o tratava por este nome.

Anos depois, Leley, por motivo de mudança para a cidade de São Sebastião do Paraíso, após vários anos com o seu bar, o vendeu para um jovem chamado Licinho, sem experiência, vindo da zona rural, e que acabou levando o bar a ser fechado.

Em São Sebastião do Paraíso, eu trabalhei como funcionário do Leley. Ele não era simplesmente um patrão. Era, e até hoje é, um grande amigo.

Leley reside em Brasília, mas, está sempre visitando a nossa terra, onde estão seus irmãos, Carmélio e Iveta.

Outro importante bar da cidade foi o “Bar do Lulu”. Este iniciou as suas atividades num ponto de comércio, junto à velha casa, na época do Sr. Torquato Viglioni, hoje, o Banco do Brasil. O ponto do bar era tradicional e, foi ali, que o Lulu começou a sua trajetória como dono de bar, por muitos e muitos anos. Posteriormente, Lulu ampliou o seu comércio para bar e restaurante. Era ele quem comandava o balcão e sua esposa, Terezinha, na cozinha. Época em que se mudou de ponto para o prédio, ao lado do cinema. Na oportunidade, foi mudado, também, o nome do seu estabelecimento para “Bar e Restaurante Bifão”, numa menção ao seu famoso bife, temperado com molho de vinho tinto.

Lulu, cujo nome era Luiz de Souza Andrade, foi atuante como dono de bar durante grande parte da sua vida. E, talvez, possa ser considerado o comerciante mais polêmico e o mais querido da cidade. Dono de um temperamento explosivo e coração boníssimo, Lulu brigava com os seus fregueses que o aborrecia, mas, no mesmo momento, chorava e pedia desculpas. Eu fui funcionário do Lulu e guardo comigo as mais divertidas histórias de fatos presenciados, nesse tempo. Quando ficava nervoso com algum freguês era motivo de riso, pois, ninguém via maldade em seus gestos. O rancor, jamais, encontrou guarida em seu coração.

Já cansado e aposentado, transferiu o negócio para o seu filho, Cláudio, o Tibau. Mas, Tibau, depois de algum tempo, desistiu de continuar e o “Bar e Restaurante Bifão”, fechou as suas portas, após muitos anos de relevantes serviços prestados.


Não faz muito tempo, Lulu faleceu deixando a sua legião de amigos pesarosa pela perda irreparável.


                                          Bar do Sebastião do Leonides, o único, daquele tempo, ainda existente, sob a direção de seu filho Carlos
                                  

No final da Avenida 17 de dezembro, encontra-se o “Bar do Sebastião do Leonides”. O único, daquela era, existente e que teve a continuidade do seu filho, Carlos. Este era um bar menor cuja atividade sempre se limitou a servir aperitivos, petiscos, cerveja e dar cobertura aos apreciadores do futebol. Sebastião sempre foi amante da arte do futebol. Era torcedor infalível do Atlético Mineiro e do Atlético Candeense. O seu bar sempre foi ponto de comemoração de vitórias e lamentos de derrotas. Nos bons tempos do Clube Atlético Candeense, a turma já descia vinda do Alto do Cruzeiro e o bar ficava lotado apenas com os adeptos do Atlético. Antes da existência da televisão, havia ali um grande rádio pelo qual os torcedores ouviam os jogos.

Interessante é que o filho do Sebastião continua até hoje com o bar, fazendo o mesmo trabalho do seu pai, torcendo do mesmo jeito. Todavia, com um desempenho diferente daquele que herdou: Carlos torce pelo time do Cruzeiro.

Gosto de me lembrar que foi ali, naquele bar, que tomei o meu primeiro gole de aguardente da marca Iracema, quando contava treze anos de idade. Servido pelo meu pai com a recomendação de que não deveria me acostumar.

Sebastião do Leonides faleceu deixando uma lacuna entre os torcedores do Clube Atlético Mineiro.

Na periferia, funcionava o “Bar do Miguel Simões”. Era um barzinho pequeno que ficava junto a sua residência situada na Praça Antonio Furtado. Miguel era gaúcho e atraía os seus fregueses com os seus temperos e seus pitéus de receitas gaúchas que agradavam os exigentes paladares como o de Bebé da Mariazinha, Miguel Pacheco, Miguel Lara e muitos outros jovens candeenses da época.

Com a morte de Miguel Simões, o pequeno bar foi transferido ao seu filho, Edmundo, que, depois de algum tempo, encerrou as atividades.

Ao lado da Farmácia São José situa-se, ainda, o “Bar Piloto”, já comentado, aqui, neste blog. Deste bar, resta apenas o nome. Nem a placa é a mesma. Aliás, manter o nome de “Bar Piloto” no estabelecimento de cuja ulterioridade não corresponde em nada, absolutamente, em nada do Bar Piloto chega a ser, em meu modesto entendimento, um ultraje à memória do seu fundador, o italiano que se tornou candeense por adoção, Mário Rigali, o Piloto. Os atuais proprietários deveriam arrumar outro nome porque, assim, as novas gerações poderiam conhecer aquela casa, outrora tão respeitada, através da história de nossa cidade. A meu ver, se querem manter o nome tradicional do comércio, deveriam ter o cuidado de manter, também, a correção moral, conforme os princípios do seu fundador, cujo nome mereceu todo o respeito do povo candeense. Respeito que a sua pessoa impunha e que teria sido transferido ao seu estabelecimento cujo decoro e aparência eram fatores primordiais.

Neste passeio mental, pelos bares da cidade, lembro-me de como era importante à existência de um rádio, nesses estabelecimentos. Um bar, bem montado, tinha, obrigatoriamente, que ter um aparelho desses. E as pessoas não paravam ali apenas para comprar ou para se servirem. Os bares eram pontos de encontro e, como naquele tempo não havia televisão, o rádio era o veículo que trazia as notícias e os sucessos musicais. Quando um artista fazia sucesso, a Revista do Rádio era, ansiosamente, esperada trazendo a sua figura. E esta revista era, comumente, vendida nos bares.

Sinto uma profunda e comovida lembrança desse tempo que se vai longe. E como é bom esse sentimento. Como me sinto feliz ao poder buscar, nas profundezas da minha mente, um tempo em que eu era um menino pobre, porém, muito rico de felicidade. Pena que eu não sabia disso.


Armando Melo de Castro

candeiasmg.blogspot.com (Casos e Acasos)
CANDEIAS –MINAS GERAIS

terça-feira, 14 de junho de 2011

UM PEDIDO DE EMPRÉSTIMO


Daqui, onde moro, para ir ao Supermercado Faria é um sacrifício. A Rua José Hilário da Silva tem uma subidinha terrível. E eu, já com os meus sessenta e oito anos, não tenho tanta disposição para ficar subindo ladeiras. Num passo lento, dá para ir bem. Mas, a passos largos, a gente chega ao ponto final da linha pondo a alma pela boca.

Dizem que, para se encontrar com o diabo, não precisa madrugar e isso é uma verdade. Ontem, por volta das 11 horas, minha mãe me pediu para comprar uma carne para o almoço com a recomendação de não demorar porque a moça que faz a comida “já ia colocar a panela no fogo” em uma forma bem familiar de dizer para não demorar. 

Às vezes, eu me encontro com um amigo e me pego no papo sempre deixando alguém a esperar. Evito fazer esse percurso de carro para sair um pouco do sedentarismo que a vida me impõe graças ao uso indiscriminado do controle remoto, do celular, do automóvel e outras facilidades advindas do modernismo.

De tanto a minha mãe falar para não demorar, acabei subindo o morro um pouco apressado o que me levou a chegar ao supermercado cansado.

Como subi apressado, era minha intenção descer, também, apressado. Mas, quando vou descendo, nas imediações da Praça da Fraternidade, vem subindo, por ali, aquela senhora amiga que sempre me azucrina, mas, que sempre me prende no papo. Uma verdadeira peça rara. Um tipo de gente que se dela for um amigo não há nenhuma necessidade de ter um inimigo. Sua vida é um drama que poderia se transformar em uma novela da Rede Globo.

Quando a vi pensei: “Ai, Meu Pai dos Céus, justamente agora!.” Já pude imaginar qual poderia ser o assunto... Uma pessoa que sempre está pondo mãos postas e lamentando a ausência dos seus filhos.

Há dias que me dá uma vontade de lhe perguntar por que não nasceu rica!? Poxa! A mulher só sabe reclamar da vida, da ausência dos filhos! Da chatice do marido! Meu Deus, como tem gente aborrecida, neste mundo!

-- Oi, Sô Armando, lá vai com pressa? O que que foi? Tem alguém morrendo?

--Não. É que eu fui comprar uma carne para o almoço e a panela já está no fogo...

--Ah! Tem dó, Sô Armando, onde já se viu isso... Põe a panela no fogo e sai pra rua. 
Homem é bicho burro mesmo.

---Quando disse que a panela está no fogo se trata de uma forma de  dizer que estou com pressa, mas, na verdade, não tem nenhuma panela no fogo.

--- Sô Armando, hoje eu ricibi um carta da minha fia. Ela falou bonito dimais na carta, Sô Armando! O senhor sabe que eu até chorei?

---Mas, o que houve que lhe causou lágrimas?

---A minha fia, Sô Armando, que ganhava dois salários, por mês, agora vai ganhar treis, Sô Armando! Treis salário, Sô Armando, e o senhor já pensou?

---Já! Já pensei. Agora, ela vai lhe mandar um de presente, não vai?

---Tá sorto, Sô Armando! Tá sorto! Quem me dera! Ela é assim: se ganha um, gasta dois; se ganha dois, gasta treis e se ganha treis, gasta quatro. Já está lá, comprando um celular novinho, coisa chique mesmo...

---Mas, você tem que ensiná-la a administrar o dinheiro. Isso é uma questão de ensinamento...

---Que mané ensinamento, Sô Armando! Parece que o senhor nunca criou um fio. Óia, eu ensino dum jeito, eles faz do outro? Eu só ensinei ela a ganhar, mas, ela só aprendeu a gastar... Foi embora e me deixou, aqui, dando a cara à tapa para as dívidas dela. Manicura, cabilerêra, prestação de rôpa. Um fregi de conta pra pagá em cima de mim. E ela num manda nada. E ainda vive pedindo.

---E você dá?

---Uai, mãe é mãe, né, Sô Armando!

---Mãe é boba, você deveria dizer!

---O senhor porque não é mãe.

---E o pai dela!?

--- Que nada. O pai dela num tá nem aí. Cobra dele e ele só fala: A hora que ela chegar aqui, eu mando ela ir lá... E, assim, ele vai enrolando tamém. E, lá em casa, só eu que tenho cara pra crescer, cara para ficar vermelha e cara para cair no chão. Eu já num to agüentando mais. Eu, tamém, tô tendo que enrolar. Eu num tenho como virar dinheiro. O trem é brabo...

---Olha, você me dá licença porque minha mãe está esperando a carne...

---Não, Sô Armando, espera só um pouquinho! Eu estou precisando falar com o senhor e é muito importante para mim.

---Então diga...

---Será que dá para o senhor me emprestar cem reais?

---Parece que nós temos um pequeno acerto antigo, não temos?

---Uai, de quê, Sô Armando?

---Você não se lembra?

---Uai, num lembro não...

---Bom. Então, deixa isso pra lá. Como você ia dizendo?...

---Então, tá bão! Eu queria ver se o senhor me empresta cem reais, por uns dias pouco.

---Eu conheço esse filme. Se eu lhe emprestar, quem vai pagar? Ela ou você?

---Bem, Sô Armando, é ela. Eu não tenho como. E, depois, como o senhor sabe, eu tenho recebido cobrança de dividas dela, desde que foi embora. A menina é discabiciada. Deixou unha, cabelo, farmácia, tudo pra eu pagar e já recebi outras cobranças...

---Olha, eu não tenho esse dinheiro, senão, eu lhe emprestava.

---O quê, Sô Armando?!!! O Sr. num tem cem conto? Engana eu que eu gosto. Deus vai castigar o senhor por falar uma mentira desse tamanho. Se o senhor num quer me emprestar eu até entendo, mas, dizer que num tem. Nossa, Meu Deus! Que pecado! Que coisa feia, Sô Armando, menti assim, tão descaradamente. Eu num vou ficar com raiva do senhor não, mas, tem gente que fica.

--- Olha, eu vou ser franco com você. A gente empresta quando sabe que vai receber. Do jeito que você está falando, eu não vou receber nem no dia de São Nunca.

---Bem, Sô Armando, já que o senhor não tem os cobres, ou num quer emprestar, bem que podia pedir a sua mãe para emprestar para mim...

---Eu! Pedir a minha mãe para emprestar para você?! Tenha a santa paciência.

---É, Sô Armando. O senhor é um amigo igual banheiro intupido: num pode usar quando pricisa. É uma torneira sem água, numa pia cheia de trem sujo. É uma cama sem colchão pra quem tá com sono. É fogão sem fogo pra quem quer conzinhar. Amizade, assim, num adianta, uai!

Pois, é. Comigo é assim: “Mula mancou, fiado acabou”

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

domingo, 5 de junho de 2011

UMA FERIDA CANDEENSE

                                            Serra do Senhor Bom Jesus
Candeias sempre teve dois pontos turísticos relevantes. Um deles é a Serra do Senhor Bom Jesus, devastada pela indústria da pedra, fazendo dela uma buraqueira desmedida e esburgando a sua beleza original. O que eu lamento é o fato das pessoas que deveriam e poderiam impedir essa destruição não o fizeram por falta de sensibilidade, falta de patriotismo, falta de cultura e compromisso para com o futuro.
O Município de Candeias tem pedreiras, por todos os lados. E foi destruído um ponto onde poderia ter sido reservado um parque ecológico bem próximo à zona urbana. E, no entanto, nada foi feito. Isso são as mazelas causadas pela chamada: santa ignorância.


Na Serra do Mingote, eram feitos, pelos jovens de outrora, os passeios dominicais, chamados piqueniques. Os namorados se juntavam num grupo, muitas vezes acompanhados pelos pais e levavam os lanches, na época, chamados de “merenda” ou, até mesmo, de uma refeição leve. Não existiam os rádios à pilha, portanto, para o barulho sonoro era levado um violão. E, debaixo de uma árvore, a turma se reunia, quase sempre, perto de uma grande pedra onde, muitas outras, serviam de mesa e de bancos.


O outro ponto turístico era uma cachoeira na qual foi instalada, no princípio do século passado, a usina hidroelétrica do Sr. Celestino Bonaccorsi.


Aos domingos, principalmente, carros e caminhões do tipo pau-de-arara, dirigiam-se para aquele local a fim de se banhar e pescar. E como tinha peixe! Lambaris, piabas, cascudos e muitas outras espécies eram pescados em meio aquelas pedras, pois, havia ali diversos tanques.


Lembro-me do Zequinha da Donate. Ele era ainda bem criança e nadava feito um peixe, mergulhava e saía sempre com um peixe na mão.


As pessoas assando churrasco, bebendo cerveja e tudo era uma alegria. Acontecia, de quando em vez, uma briguinha que não ia para frente porque a turma do “deixa-disso” logo dava um jeito.


O ambiente era saudável e não havia deturpação. Parece que, naquele tempo, as pessoas tinham mais compromisso com a cidadania, com a civilidade o que, infelizmente, tem faltado muito, nos dias atuais.


Pessoas idosas freqüentavam em comum àquele local, pessoas requintadas da nossa sociedade iam ali, se divertiam e voltavam satisfeitas.


Era interessante para as crianças quando ficavam conhecendo o local onde era gerada a energia elétrica que iluminava a cidade. Eu fiquei abismado quando vi, pela primeira vez, as máquinas que produziam a luz que iluminava as nossas casas. Lembro-me, ainda, do meu pai tentando me explicar como era feita esta transformação. À porta da usina, havia um grande passeio no qual os pescadores, em outros dias, à noite, estendiam os seus lençóis próximos de uma pequena fogueira, debaixo do pé de manga até hoje lá existente. Comiam, bebiam e dormiam. Meu pai era um desses pescadores e sempre se me fazia acompanhá-lo

Com o advento da Cemig para Candeias, a usina de propriedade do Sr. Celestino Bonaccorsi foi vendida para a Prefeitura.


Em muitas cidades, em que as prefeituras se tornaram proprietárias de usinas que antecederam a Cemig, os Prefeitos imbuídos de bom senso, de cultura e de preservação do patrimônio público, as tornaram num ponto turístico donde as novas gerações puderam conhecer parte de uma história.


Aqui, em Candeias, aquele local onde poderia estar à vista dos nossos jovens um local histórico, está os sinais da destruição desalmada. Da falta de sensibilidade daqueles que detinham o poder na época dessa transição. Nem o galpão, todo construído de pedra onde foi instalada a usina, mereceu ser preservado. Nada foi feito. Nada foi pensado. Nada foi conservado como herança para as novas gerações candeenses.


Às vezes, eu fico pensando: Meu Deus! Por que não surge, em nossa política, em nossa Câmara Municipal e em nossa Prefeitura, homens que se preocupam com a nossa história. Com o nosso patrimônio histórico tão destruído, tão abandonado, tão esquecido!...

É lamentável! Deveras lamentável.

Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

sábado, 4 de junho de 2011

O ESPÍRITA DOIDÃO


                   
Segundo o francês Alan Kardec, o codificador do Espiritismo, esta é uma doutrina revelada pelos Espíritos superiores através de médiuns, ou seja, de pessoas que recebem e transmitem mensagens dos espíritos. 

Dentro do conceito Kardecista, o Espiritismo é, também, uma ciência porque estuda, à luz da razão e dentro de critérios científicos, os fenômenos mediúnicos, isto é, fenômenos provocados pelos espíritos e que não passam de fatos naturais. Segundo eles, não existe o sobrenatural no Espiritismo. Todos os fenômenos, mesmo os mais estranhos, têm explicação científica. São, portanto, de ordem natural.

Outro ponto de vista é que o Espiritismo se trata de uma filosofia porque, a partir dos fenômenos espíritas, dá uma interpretação da vida respondendo questões como “ de onde você veio”, “ o que faz você no mundo” e “para onde você vai depois da morte”. Para os Kardecistas, toda doutrina que dá uma interpretação de vida ou uma concepção própria do mundo é uma filosofia.

Dizem, também, que o Espiritismo é uma religião porque ele tem, por fim, a transformação moral do homem retomando os ensinamentos de Jesus Cristo para que sejam aplicados na vida diária de cada pessoa. Revive o Cristianismo na sua verdadeira expressão de amor e caridade.

O Espiritismo não é uma religião organizada dentro de uma estrutura como as demais religiões. É muito diferente. Não tem sacerdotes, nem pastores, nem chefes religiosos. Não tem igrejas suntuosas. E não têm batismo e casamentos, etc. Não tem ornamentação para cultos, nem gesto de reverência, nem benzeduras e nem defumadores. Não tem nada do que é encontrado nas igrejas tradicionais.
O Espiritismo, segundo os seus adeptos, procura reviver os ensinamentos de Jesus, na sua simplicidade e sinceridade, sem pompas, sem grandezas, pois, como Ele recomendou, Deus deve ser adorado em espírito e verdade.

Os espíritas pregam a imortalidade da alma, a reencarnação e a comunicabilidade dos espíritos, uma fé raciocinada, a lei da evolução e a lei moral.

Sintetizando, entendo que o Espiritismo de Alan Kardec deve ser muito bem estudado para uma conclusão tendo em vista tratar-se de um tema profundamente teórico.
Segundo Kardec, o vocábulo “Espiritismo” cabe à sua doutrina e esta não deve ser confundida com o "Espiritualismo".

Paralelamente, existem outros conceitos religiosos que defendem a imortalidade da alma, porém, através de um comportamento diferenciado, o que leva as pessoas, menos esclarecidas, a uma grande confusão e interpretação equivocada da doutrina, em virtude de algumas semelhanças:

A Umbanda, por exemplo, nasceu no Rio de Janeiro, após a codificação Kardecista. Supostamente derivada da cabula baiana, se tranformou em um sincretismo religioso sendo fracionada em diversos conceitos religiosos como Umbanda Branca, Umbanda Angolana, Umbanda Negra e Quimbanda dedicada à feitiçaria, macumbas etc.

Ocorre que, por se tratar de um tema muito complexo, essas instituições, que são diferenciadas, se misturam na percepção de cada um. Uns entendem as diferenças. Outros entendem pouco. E muitos não entendem nada. E assim, a cultura brasileira permite-se tratar por todos esses conceitos o vocábulo designado por Kardec, "ESPIRITISMO", não reconhecendo a diferença do conceito de sua doutrina do ESPIRITUALISMO.

Candeias tem uma casa espírita. É o Centro Espírita Bezerra de Menezes, situado na Rua João Caetano de Faria. Trata-se de uma instituição séria e administrada por pessoas sérias que prestam relevantes serviços espirituais aos candeenses que lá freqüentam e seguem religiosamente a codificação kardecista.

Mas, falando em Espiritismo, encontro, neste momento, numa das gavetas da minha memória, um fato antigo acontecido há muitos anos aqui, em Candeias.

Na Rua Aimorés, nos fundos do Cemitério São Francisco, quase que defronte a Rua Nicodemos Salviano, havia ali um Centro Espírita cujo nome era “Centro Espírita Coração de Jesus”. Era um espiritismo conturbado, desses que fazem o chamado sincretismo religioso misturando doutrinas heterogêneas.

As instituições religiosas têm, nos seus hábitos, buscar a integração maior de seus seguidores e de pessoas que de uma hora para outra aderem aos seus princípios. Na Igreja Católica, por exemplo, vemos pessoas serem convidadas para ler texto dos rituais da missa. Nas igrejas evangélicas, sempre se vê pessoas dar testemunho de algo importante que lhe tenha acontecido proveniente da sua fé.

No Espiritismo, comumente, são vistos os seus adeptos dar a sua palavra de fé, de esperança e de caridade. Leigos, pessoas da assistência e que ali estão ou com a intenção de ajudar alguém ou vão em busca de algo que lhes ajude. Normalmente, se apresentam espontaneamente e são convidados pelo presidente do Centro a participar do ritual.

Oriundo de terras nordestinas, vindo em busca de trabalho, nas lavouras candeenses, eis que aporta, em Candeias, numa curta temporada, o senhor Amadeu. Pessoa simples, de porte humilde, trazendo consigo a fé inabalável, aquela que permeia todas as suas crenças, com o irmão em Cristo.
Certo dia, o senhor Amadeu solicitou, ao Presidente do Centro, a possibilidade de dirigir a palavra aos presentes no que foi prontamente atendido. Após se postar a frente de todos, começou:

Meus irmãos, aqui presentes.
Isso aqui é uma casa de Deus.
Pra mim isso aqui num é lugar de cunversa fiada.
E é lugar de silêncio.
Esse povo que fica aí na porta, só falano coisa que não deve, tá errado.
A Bíblia fala que Jesus vai vortá, aqui, um dia desse.
Agora, eu pergunto procêis:
Se Ele chega aqui, agora, cume qui nóis fica com essa farta de respeito?
Assim, o que eu quero aqui é pedir para esses irmão cala o bico porque se Jesus chega aqui, hoje, nóis tá vai tá tudo fudido.

Desde então, ficou sendo conhecido como o Espírita Doidão.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.