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terça-feira, 21 de junho de 2011

ANTIGOS BARES CANDEENSES

                                  Bar do Bóvio na década de 50. Da esquerda para a direita: Zé Carlos, Antonio Macêdo, Zé Rui, o Iéié, Antonio Gomide, o Vup e Rubens de Assis.
                                                     
Olhando para o retrovisor da minha vida, busco a minha querida cidade de Candeias, da década de 50, quando me encontrava, no viço dos meus anos. Cerro os olhos e navego nas minhas mais venturosas lembranças. E, numa dessas excursões fantásticas, de essência real, faço uma visita aos melhores bares da cidade. Em um tempo em que eu, ainda, não tomava cerveja e nem aperitivos. Tomava, sim, um refrigerante qualquer ou me deliciava com um biscoito ou uma bala, quando acompanhado de meu pai.

Em Candeias, havia bons bares dos quais, hoje, restam apenas lembranças. No local onde está edificada a casa do Sr. Willian Viglioni, ao lado da Igreja do Senhor Bom Jesus, ficava o “Bar do Bóvio Riani”. Um bar completo: mesas de sinuca, bebidas nacionais e estrangeiras. Lembro-me dos funcionários: José Rui Ferreira, o Ieié, felizmente, ainda entre nós; O Antonio Gomide, o Vupo, residente em Brasília e o Joãozinho de Assis, o Grilo, já falecido.

Bóvio Riani foi mais um dos italianos que muito trabalhou na construção de nossa história. Era pai do professor, Aldo Riani; do fazendeiro, Elio Riani e da professora, Helda Riani.

“Bar do Leley” sucedeu o “Bar do Bóvio.” Era um bar de exagerado asseio. As garrafas eram espanadas, diariamente, e, semanalmente, eram limpas com pano seco para não destruir os rótulos. As vitrinas, rigorosamente, alimpadas, todos os dias, eram cheias de quitandas e confeites feitos por sua mãe, Dona Maria e filhas, Quinha e Iveta. Os funcionários, quando não estavam atendendo os fregueses, estavam com um pano ou um espanador nas mãos. Posteriormente, o “Bar do Leley” se transferiu para o sobrado do Levy e ocupava toda a área térrea, pois, passou a incluir os serviços de restaurante. Esta transferência preconizou o fim do “Bar do Bóvio”, pois, até então, muitos ainda o tratava por este nome.

Anos depois, Leley, por motivo de mudança para a cidade de São Sebastião do Paraíso, após vários anos com o seu bar, o vendeu para um jovem chamado Licinho, sem experiência, vindo da zona rural, e que acabou levando o bar a ser fechado.

Em São Sebastião do Paraíso, eu trabalhei como funcionário do Leley. Ele não era simplesmente um patrão. Era, e até hoje é, um grande amigo.

Leley reside em Brasília, mas, está sempre visitando a nossa terra, onde estão seus irmãos, Carmélio e Iveta.

Outro importante bar da cidade foi o “Bar do Lulu”. Este iniciou as suas atividades num ponto de comércio, junto à velha casa, na época do Sr. Torquato Viglioni, hoje, o Banco do Brasil. O ponto do bar era tradicional e, foi ali, que o Lulu começou a sua trajetória como dono de bar, por muitos e muitos anos. Posteriormente, Lulu ampliou o seu comércio para bar e restaurante. Era ele quem comandava o balcão e sua esposa, Terezinha, na cozinha. Época em que se mudou de ponto para o prédio, ao lado do cinema. Na oportunidade, foi mudado, também, o nome do seu estabelecimento para “Bar e Restaurante Bifão”, numa menção ao seu famoso bife, temperado com molho de vinho tinto.

Lulu, cujo nome era Luiz de Souza Andrade, foi atuante como dono de bar durante grande parte da sua vida. E, talvez, possa ser considerado o comerciante mais polêmico e o mais querido da cidade. Dono de um temperamento explosivo e coração boníssimo, Lulu brigava com os seus fregueses que o aborrecia, mas, no mesmo momento, chorava e pedia desculpas. Eu fui funcionário do Lulu e guardo comigo as mais divertidas histórias de fatos presenciados, nesse tempo. Quando ficava nervoso com algum freguês era motivo de riso, pois, ninguém via maldade em seus gestos. O rancor, jamais, encontrou guarida em seu coração.

Já cansado e aposentado, transferiu o negócio para o seu filho, Cláudio, o Tibau. Mas, Tibau, depois de algum tempo, desistiu de continuar e o “Bar e Restaurante Bifão”, fechou as suas portas, após muitos anos de relevantes serviços prestados.


Não faz muito tempo, Lulu faleceu deixando a sua legião de amigos pesarosa pela perda irreparável.


                                          Bar do Sebastião do Leonides, o único, daquele tempo, ainda existente, sob a direção de seu filho Carlos
                                  

No final da Avenida 17 de dezembro, encontra-se o “Bar do Sebastião do Leonides”. O único, daquela era, existente e que teve a continuidade do seu filho, Carlos. Este era um bar menor cuja atividade sempre se limitou a servir aperitivos, petiscos, cerveja e dar cobertura aos apreciadores do futebol. Sebastião sempre foi amante da arte do futebol. Era torcedor infalível do Atlético Mineiro e do Atlético Candeense. O seu bar sempre foi ponto de comemoração de vitórias e lamentos de derrotas. Nos bons tempos do Clube Atlético Candeense, a turma já descia vinda do Alto do Cruzeiro e o bar ficava lotado apenas com os adeptos do Atlético. Antes da existência da televisão, havia ali um grande rádio pelo qual os torcedores ouviam os jogos.

Interessante é que o filho do Sebastião continua até hoje com o bar, fazendo o mesmo trabalho do seu pai, torcendo do mesmo jeito. Todavia, com um desempenho diferente daquele que herdou: Carlos torce pelo time do Cruzeiro.

Gosto de me lembrar que foi ali, naquele bar, que tomei o meu primeiro gole de aguardente da marca Iracema, quando contava treze anos de idade. Servido pelo meu pai com a recomendação de que não deveria me acostumar.

Sebastião do Leonides faleceu deixando uma lacuna entre os torcedores do Clube Atlético Mineiro.

Na periferia, funcionava o “Bar do Miguel Simões”. Era um barzinho pequeno que ficava junto a sua residência situada na Praça Antonio Furtado. Miguel era gaúcho e atraía os seus fregueses com os seus temperos e seus pitéus de receitas gaúchas que agradavam os exigentes paladares como o de Bebé da Mariazinha, Miguel Pacheco, Miguel Lara e muitos outros jovens candeenses da época.

Com a morte de Miguel Simões, o pequeno bar foi transferido ao seu filho, Edmundo, que, depois de algum tempo, encerrou as atividades.

Ao lado da Farmácia São José situa-se, ainda, o “Bar Piloto”, já comentado, aqui, neste blog. Deste bar, resta apenas o nome. Nem a placa é a mesma. Aliás, manter o nome de “Bar Piloto” no estabelecimento de cuja ulterioridade não corresponde em nada, absolutamente, em nada do Bar Piloto chega a ser, em meu modesto entendimento, um ultraje à memória do seu fundador, o italiano que se tornou candeense por adoção, Mário Rigali, o Piloto. Os atuais proprietários deveriam arrumar outro nome porque, assim, as novas gerações poderiam conhecer aquela casa, outrora tão respeitada, através da história de nossa cidade. A meu ver, se querem manter o nome tradicional do comércio, deveriam ter o cuidado de manter, também, a correção moral, conforme os princípios do seu fundador, cujo nome mereceu todo o respeito do povo candeense. Respeito que a sua pessoa impunha e que teria sido transferido ao seu estabelecimento cujo decoro e aparência eram fatores primordiais.

Neste passeio mental, pelos bares da cidade, lembro-me de como era importante à existência de um rádio, nesses estabelecimentos. Um bar, bem montado, tinha, obrigatoriamente, que ter um aparelho desses. E as pessoas não paravam ali apenas para comprar ou para se servirem. Os bares eram pontos de encontro e, como naquele tempo não havia televisão, o rádio era o veículo que trazia as notícias e os sucessos musicais. Quando um artista fazia sucesso, a Revista do Rádio era, ansiosamente, esperada trazendo a sua figura. E esta revista era, comumente, vendida nos bares.

Sinto uma profunda e comovida lembrança desse tempo que se vai longe. E como é bom esse sentimento. Como me sinto feliz ao poder buscar, nas profundezas da minha mente, um tempo em que eu era um menino pobre, porém, muito rico de felicidade. Pena que eu não sabia disso.


Armando Melo de Castro

candeiasmg.blogspot.com (Casos e Acasos)
CANDEIAS –MINAS GERAIS

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