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sexta-feira, 1 de julho de 2011

UMA VIAGEM DE CARRO

Um ponto comercial muito antigo situado na Rua Professor Porgugal esquina com a Praça Antonio Furtado.

Um dos pontos comerciais mais antigos de Candeias fica na esquina da Rua Professor Portugal com a Praça Antonio Furtado onde, atualmente, se encontra a residência do Sr. Wanderley Andrade sendo que o ponto comercial reduziu-se a um pequeno depósito de pães. Lá, no correr dos tempos, foram estabelecidos diversos segmentos comerciais: bares, empórios, padarias, botequins, etc.

Guardado na minha mente, está o primeiro comércio que conheci ali, quando eu comecei a me entender por gente. Era o Bar do Sr. Otávio. Um bar fuçado, totalmente desorganizado. O piso era de um assoalhado já velho, cheio de buracos por onde, naturalmente, deveriam trafegar ratazanas de todas as ordens. Havia uma velha sorveteira que, quando ligada, fazia uma acústica com o assoalho provocando tanto barulho que a conversa entre os fregueses se tornava quase impraticável. E, na competição, com o ruído da máquina, os freqüentadores falavam tão alto que da rua se ouvia tudo. Parecia uma locomotiva dentro do bar cujo cômodo era grande e havia muito espaço vago. Os sorvetes e picolés, ali fabricados, não tinham nenhum requinte de higiene e aqueles copos próprios para sorvete de que os fregueses, quase sempre, os saboreiam, ao final da iguaria, eram, comumente, vistos com rastros de ratos. Além disso, a caixa da salmoura da máquina tinha ferrugens que vazavam e se juntavam ao congelado, fato que levava sempre o freguês a reclamar que o sorvete ou o picolé estava salgado.

As prateleiras com garrafas cheias e  vazias pareciam seguras pelas teias de aranha. As vitrinas eram forradas com papel manilha da cor rosa, de péssima qualidade, e que, às vezes, deixava o produto manchado. As cadeiras, tipo “balança mais não cai”, de quando em vez, levava um freguês ao chão. E, quando essas estavam todas ocupadas, os fregueses tomavam assento no balcão bastante amplo.

Havia água encanada no bar, mas, estava sempre em falta. Nas construções antigas, não se faziam caixas de depósito para água. Usava-se, normalmente, um tambor de duzentos litros sem tampa e comprado, de segunda mão, nos postos de gasolina. Este era preso em quatro forquilhas do lado de fora. Aquilo nunca era lavado e servia de bebedouro para gambás e aves que morriam ali, acidentalmente, e que só eram descobertas quando a água se tornava fétida.

Naquele tempo, a água encanada, principalmente nas ruas de baixo, comumente, faltava. Aí, então, a lambança dobrava. Tomava-se de uma gamela cheia dágua e, à medida que os copos eram usados, iam sendo jogados ali, e, quando necessários, apenas retirados e usados novamente. Não se usava lavar os copos com sabão. Apenas deixava-os mergulhados na mesma água usada, horas e horas.

Num dos cantos de dentro do balcão, havia um varal de bambu onde ficavam dependuradas lingüiças, salsichas e uma bexiga de mortadela, da pior qualidade, expostas às moscas que, naturalmente, davam, ali, o seu toque de imundície. E eu, quase sempre, estava beliscando um pedaço daquela iguaria. Os intestinos dos fregueses, inclusive os meus, já estavam tão providos de anticorpos que seria mais fácil morrerem os parasitos intestinais do que os consumidores.
Hoje, só de me lembrar disso, eu me arrepio.

Eu morava próximo dali, na Rua Coronel João Afonso, e acompanhava sempre o meu pai quando estava lá a chamado do proprietário, que era seu grande amigo e compadre, a fim de tocar violão para atrair os fregueses que gostavam de formar duplas sertanejas.

Eu era muito agarrado com o meu pai. Onde ele estava eu também estava por perto. Quando saia, sem me chamar, eu ia a sua procura e minha mãe sempre gritando: - lá vai o rabo. Por pouco, esse apelido de rabo não me pega. E os amigos do meu pai estavam sempre a me agradar com balas, doces, biscoitos ou um picolé. E eu me deliciava com aquelas lambanças. O meu estômago já estava tão afinado com as porcarias dali que o sentido do paladar nem se ofendia. E meu pai, também, por sua vez, não estava nem aí. Tomava a sua pinguinha e a sua cervejinha naqueles copos infectados, mal lavados e trincados como se estivesse bebendo numa taça usada na Santa Ceia.

Um dia, Otávio resolveu vender o seu bar. Cansado daquele trabalho, resolveu mudar de ramo. Negociou o estabelecimento na troca de um automóvel. O carro era um galipão antigo, quadrado, muito usado, na época, como carro de praça, hoje, chamado táxi. Otávio queria engrenar um de seus filhos na profissão de motorista de praça. Em Candeias não tinha, naquela época, esse conforto. Um carro de aluguel.

Realizado o negócio com um trambiqueiro de Campo Belo, Otávio quis, logo, fazer um pequeno passeio no carro. Como ele não sabia dirigir, arrumou logo um motorista e parou à porta de minha casa, quando teria ido chamar o meu pai para acompanhá-lo na sua viagem de estréia que seria até a usina do Bonaccorsi.

Um carro, por mais velho que fosse, naquele tempo, era um luxo. Eu nunca, sequer, havia entrado num carro e vivia imaginando este dia que chegara agora, naquele momento.

Ao ver o meu pai sendo convidado, me senti também convidado. E já me postei como tal, quando ouvi da impossibilidade de me levar. No que a defesa natural de uma criança foi desabada: o choro. Vendo-me chorar, Otávio insistiu para que eu fosse, também, incluído na lotação que já contava sete pessoas dentro do galipão. Parecia sardinha na lata, e eu todo feliz, parecia até fazer parte de uma comitiva do Papa.

Se cem anos de vida eu tivesse, durante cem anos eu lembraria dos cinco minutos vividos nesse dia. Eu, no colo do meu pai, enquanto o carro foi descendo, vagarosamente, passando pelos buracos da Rua Coronel João Afonso. Eu estava na maior felicidade do mundo. Alucinado, empolgado, encantado muito mais do que Gagarin, quando voou ao céu profundo com a sua Vostok. E mais ainda do que Colombo, quando buscava o Novo Mundo.

Após passar a ponte, ao começar a galgar o morro, ouviu-se um estalo. Um grande estalo, debaixo do carro. E, junto com o estalo, Otávio murmurou: - “ai ai ai! Deve ter quebrado.” E quebrou mesmo...

O Nestor Lamounier foi chamado e ficou confirmado que o motor do carro havia quebrado e que não teria recurso. Foi uma decepção para todos, mas, para mim, foi uma decepção maior. Era aquela a primeira viagem que eu fazia de carro. E apenas um estalo roubou-me toda aquela felicidade. Era um sonho meu entrar num carro. Dar uma volta de carro. Sentir o cheiro de um carro. E agora, após ter conseguido a realização desse intento, a custo de lágrimas, o destino vem me roubá-lo? Era muito azar. Se eu imaginasse quem seria o “pé frio” que estava ali naquele carro eu o teria apedrejado. Aliás, isso nem seria azar seria um castigo dos céus. Só pode...

Para rebocar o carro para a mecânica, a forma encontrada foram quatro juntas de bois que o arrastou, morro acima, aos gritos de um carreiro e o mecânico no volante. E eu, da porta de minha casa, vi passar aquela carreata fúnebre aos meus olhos cujo carro eu nunca mais pude ver novamente. Toda vez que vou até à antiga usina, eu não fico sem imaginar como teria sido aquela viagem que eu não fiz e que teria sido uma das alegrias da minha vida frustrando a minha pobre infância pelo resto de minha vida.

No transcorrer da minha vida, já tive diversos carros. Mas, nenhum deles, jamais, terá me causado tanta emoção como o galipão do Otávio Martins.

Dizem que o homem é um produto do meio, portanto, aí está: a pobreza transformada em lirismo é a presença de Deus. É como diz o poeta: a felicidade está sempre perto da gente. É pena que nós a procuramos longe de onde estamos.


Armando Melo de Castro

candeiasmg.blgspot.com
CANDEIAS –MINAS GERAIS



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