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sexta-feira, 1 de julho de 2011

UMA VIAGEM DE CARRO


Um carro, por mais velho que fosse, na década de 50, era um luxo. Eu nunca, sequer, havia entrado num carro e vivia imaginando este dia que chegara  naquele momento, quando um compadre do meu pai, Sr. Otávio Martins o convidou para ir numa viagem à usina velha de Candeias, ---- naquele tempo em pleno funcionamento ----- não existia ainda a Cemig. ---- Meu pai não estava querendo me levar, mas eu aprontei uma choradeira e logo fui liberado para entrar naquele  carro velho.  Eu acho que nem Yuri Gagarin se emocionou tanto quando entrou no seu foguete, rumo ao espaço.

Ao ver o meu pai sendo convidado, me senti também convidado. E já me postei como tal, quando ouvi da impossibilidade de me levar. No que a defesa natural de uma criança foi desabada: o choro. Vendo-me chorar, Otávio insistiu para que eu fosse, também, incluído na lotação que já contava sete pessoas dentro do galipão. Parecia sardinha na lata, e eu todo feliz, parecia até fazer parte de uma comitiva do Papa.

Se cem anos de vida eu tivesse, durante cem anos eu lembraria dos cinco minutos vividos nesse dia. Eu, no colo do meu pai, enquanto o carro foi descendo, vagarosamente, passando pelos buracos da Rua Coronel João Afonso. Eu estava na maior felicidade do mundo. Alucinado, empolgado, encantado muito mais do que Gagarin, quando voou ao céu profundo com a sua Vostok. E mais ainda do que Colombo, quando buscava o Novo Mundo.

Após passar a ponte, ao começar a galgar o morro, ouviu-se um estalo. Um grande estalo, debaixo do carro. E, junto com o estalo, Otávio murmurou: - “ai ai ai! Deve ter quebrado.” E quebrou mesmo...

O Nestor Lamounier foi chamado e ficou confirmado que o motor do carro havia quebrado e que não teria recurso. Foi uma decepção para todos, mas, para mim, foi uma decepção maior. Era aquela a primeira viagem que eu fazia de carro. E apenas um estalo roubou-me toda aquela felicidade. Era um sonho meu entrar num carro. Dar uma volta de carro. Sentir o cheiro de um carro. E agora, após ter conseguido a realização desse intento, a custo de lágrimas, o destino vem me roubá-lo? Era muito azar. Se eu imaginasse quem seria o “pé frio” que estava ali naquele carro eu o teria apedrejado. Aliás, isso nem seria azar seria um castigo dos céus. Só pode...

Para rebocar o carro para a mecânica, a forma encontrada foram quatro juntas de bois que o arrastou, morro acima, aos gritos de um carreiro e o mecânico no volante. E eu, da porta de minha casa, vi passar aquela carreata fúnebre aos meus olhos cujo carro eu nunca mais pude ver novamente. Toda vez que vou até à antiga usina, eu não fico sem imaginar como teria sido aquela viagem que eu não fiz e que teria sido uma das alegrias da minha vida frustrando a minha pobre infância pelo resto de minha vida.

No transcorrer da minha vida, já tive diversos carros. Mas, nenhum deles, jamais, terá me causado tanta emoção como o galipão do Otávio Martins.

Dizem que o homem é um produto do meio, portanto, aí está: a pobreza transformada em lirismo é a presença de Deus. É como diz o poeta: a felicidade está sempre perto da gente. É pena que nós a procuramos longe de onde estamos.

 Armando Melo de Castro
candeiasmg.blgspot.com

CANDEIAS –MINAS GERAIS





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