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sábado, 31 de janeiro de 2015

BAR DO MARMITA.



Foto: Professor Milton Moreira e o Marmita.


O asseio é fundamental na vida das pessoas. Aquele que não toma banho regularmente preservando a limpeza do corpo; não tem higiene no preparo dos alimentos, enfim, não se preocupa com os princípios da higiene; além de se tornar numa pessoa alvo de escrúpulos e ante social, pode, também, contrair doenças com mui to mais facilidade. O que existe de gente porca por ai, não está no gibi.


Existem pessoas tão extremas com a falta de higiene que chegam a ficar cheirando mal ao ponto de se tornarem insuportáveis. O hábito da higiene depende do meio e do aprendizado. A natureza parece não ter caprichado muito com o ser humano em termos de higiene. Portanto, é preciso cuidado e atenção. Afinal, é muito triste, mais triste do que feio, é nojento uma pessoa sem asseio.
Eu sou muito exigente na hora de escolher um bar, uma lanchonete, ou um restaurante para comer ou tomar alguma coisa.
Às vezes vemos um estabelecimento com vitrines limpas, e bem lavado, bem espanado, bem clareado, mas, enfim, dentro de todo aquele conceito de higiene, de repente, você observa um fragmento de catarro no bigode do proprietário.
Outras vezes o balconista é surpreendido enfiando o dedo no nariz e ainda dando aquela rodopiada como se a narina fosse o mancal de um rolamento. Pior ainda é quando o cara enfia a mão dentro da braguilha e dá aquela coçada no roxo...
E numa outra variável o cidadão tem uma mão desinquieta que passeia por todos os buracos do corpo e para arrematar usa uma camiseta “subacão”. E, de quando em vez, dá aquela esfregada no sovaco peludo e suado naturalmente, como se estivesse coçando a testa; dai pega o copo pelo lugar onde o freguês vai por a boca.
Viver não é fácil. E não é raro a gente receber convite de amigo para ir num lugar desses e o amigo ainda fala como se aquilo ali fosse o lugar mais agradável do mundo. E quando a gente chega lá!? Logo se dá com as apresentações e normalmente sai um lá do banheiro imundo, sem lavatório sem nada, vem e lhe dá a mão toda infectada de senhoras bactérias e senhores ácaros de residência fixa naquele condomínio denominado saco escrotal, que raramente vê água a não ser aquela que o seu canal reprodutor inverte. Isso é brabo meus amigos????!!!!
Portanto, nesta oportunidade, eu quero recomendar aos meus amigos aqui em Candeias, o Bar do Marmita. Aqui tem tira-gosto de todo jeito e bem feito com asseio num ambiente limpinho. Limpinho tal qual a cozinha de São Benedito. Como já disse o Marmita não cobra pelo preço da bebida, ele cobra apenas a lavação, o uso dos copos e a embalagem. O sorriso e a gentileza é um brinde distribuído a todos os fregueses. É sempre bom lembrar que o Bar do Marmita apesar de ser de sua propriedade quem dá as cartas é a sua esposa, Dona Maria Martins, ela risca e ele corta, porque conforme o bordão da casa “ A fome aperta e o povo grita: QUEREMOS MARMITA”.
Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos

Foto: Professor Milton Moreira e o Marmita.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

UM FRANGUINHO AO MOLHO, ANGU E QUIABO.



Adorar é um tratamento dado aos deuses, mas é a melhor forma que eu encontro para dizer como gosto de um frango ao molho, bem entendido, um franguinho caipira, caipirinha mesmo, ao molho pardo ou de qualquer outro jeito de molho. Eu adoro! Que me perdoem os deuses! Mas eu adoro um franguinho caipira! Quando eu vou até a cidade de Luz, terra da minha mulher, eu tenho o prazer de saborear por lá, um cabidela feito por minha sogra que é especialista no assunto.

Em Candeias, minha mãe sempre encomenda ao João do Taxi um desses para que eu possa matar esse gosto parecido com o de mulher grávida. O frango caipira ao molho, com quiabo e angu, é um prato incomparável para mim, pois me leva aos distantes anos da minha infância.

Infelizmente, quem mora em apartamento e em cidade grande, como no meu caso, esse luxo torna-se difícil e só acontece em raras oportunidades.

Eu já criei muita galinha em fundo de quintal; mato e preparo um frango em 40 minutos em condições apropriadas. Piso com o pé direito nos pés da ave e com o esquerdo nas asas. Com a mão esquerda, pego a cabeça, e com uma faca bem afiada, com a mão direita raspo o pescoço, dou uma batidinha para o sangue subir, dou um corte certeiro, e vejo o sangue cair sobre um prato e o bicho esmorecer. Eu sinto um pouco de pena, mas já que o frango existe com o objetivo apenas de alimentar o homem, isso faz com que me sinta perdoado. O meu corte é tão preciso que parece até corte de médico numa cirurgia.

Esta semana eu fui até à feira e vi lá uma gaiola cheia de frangos caipiras, bastante apetitosos. Nesse caso resolvi fazer uma proeza. Pensei: Vou experimentar ajeitar um bicho desses lá no apartamento. Comprei um frango que foi colocado dentro de um saco e vim para casa, satisfeito da vida, porque era o frango no saco e os planos na cabeça. Vou comer primeiro o sangue, depois o fígado, depois a moela, depois as costelas tomando uma cervejinha etc. e tal.  Toda essa empolgação, com a minha mulher, do lado, feito ave agourenta, tentando me tirar de cabeça. “Olha que isso não vai dar certo! Compra um de granja!” --- O negócio é que eu não gosto de molho de frango de granja e ela não gosta de frango caipira.

Assim que cheguei a casa preparei o ambiente para sangrar o bicho, escaldar, depenar, sapecar, lavar com sabão e limão, abrir, destrinchar, colocar na panela, esperar e começar a saborear.

Só que deu tudo errado. O diabo do frango quando eu pensei que estava morto saiu feito um danado pelo apartamento afora, espalhando sangue para todos os lados, Assim que o tive nas mãos, era hora de enfia-lo numa panela cheia de água fervente e ai foi outra tragédia. O danado do frango ainda não tinha morrido direito e deu aquela rabanada.

Foi uma lambança total e o pior: ter que ouvir a minha mulher o tempo todo dizendo: “Eu falei que isso não ia dar certo! Eu bem que falei... Mas você é teimoso! Podia ter comprado um frango de granja era muito mais fácil...”

Mulher fique quieta!!! Se eu gostasse de coisa fácil eu não teria me casado com você!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos








segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

NA FILA DO SUPERMERCADO.



Uma coisa eu devo admitir: no meu time de aposentados tem “nego” manso. Essas filas prioritárias, às vezes, me leva a pensar que não foram criadas porque o idoso não aguenta ficar muito tempo de pé numa fila, mas sim, porque quando ele chega ao caixa do supermercado, ou do Banco, numa bilheteria ou em qualquer outro lugar onde tenha uma fila, ele não olha para trás e como aposentado, está sempre procurando uma chance de puxar conversa, especular, interrogar, bisbilhotar, tendo em vista a sua disponibilidade de tempo; ai ele está sempre congestionando as filas.

Ontem eu estava na fila prioritária do supermercado e havia três idosos na minha frente que monopolizaram o processo em mais ou menos meia hora. O primeiro queria saber o nome da funcionária do caixa, de quem  ela era filha, se era solteira ou se casada. Depois tirou um cartão fornecido pelo próprio supermercado e não se lembrava do número da senha e ai foi um custo. E eu ali, com uma cesta na mão --- atrás de mim um velho não muito velho, resmungava: But that fucking!

Veio o segundo e já começou perguntando à moça se era parenta do Clemente funcionário do antigo Credireal. Estava lhe achando parecida com uma filha de um amigo seu. Ainda lhe perguntou se era casada ou tinha filhos. Pagou um pacotinho de caixas de fósforos com uma nota de 100 e ficou o tempo todo justificando porque não teria trazido o dinheiro mais miúdo. E eu ali com uma cesta na mão, ficando, cada vez, mais pesada e o cara atrás de mim resmungando: But that fucking!

Depois veio o terceiro. Esse então deixou o saco bem cheio, principalmente pelo fato de estar na minha frente. Primeiro, ele reclamou de estar muito tempo na fila. Alegava que o supermercado não tinha consideração com os velhos; tinha que por mais caixas; tinha que ter mais respeito com os idosos... E eu ali com uma cesta na mão, agora resolvo coloca-la no chão... E atrás de mim o chato resmungando: More that fucking! E o cidadão da minha frente continuava dizendo que o custo de vida está muito caro, que o dinheiro dele só a farmácia come a metade... Dai elogiou os dentes da moça, dizendo que ela tem um sorriso muito bonito... Não contente, falou do calor e da falta de chuva... E eu ali com a cesta no chão e o  chato atrás de mim, resmungando: But that fucking. O velho, para ser mais chato, ainda queria, porque queria ter informações técnicas sobre um produto, e a moça do caixa mais perdida do que cego em tiroteio... E eu ali, com o saco cheio, a cesta no chão e um chato atrás de mim coçando a minha língua dizendo: But that fucking! E para finalizar o velho arrumou um banzé sobre esta questão dos “99”. Dizia que os supermercados inventam esses preços de 99 centavos, mas nunca lhes devolvem esse danado desse 1 centavo. Isso é propaganda enganosa dizia ele. Depois saiu.

Agora era a minha vez...  A moça do caixa com uma cara de quem estava indo para um cadafalso, naturalmente, também, com a capanga cheia, pediu licença e chamou uma coordenadora  e saiu apressada. E eu ali, com o saco cheio, a cesta no chão e um chato atrás de mim coçando a minha língua dizendo: But that fucking!

A coordenadora vem, pede um minutinho e alega que a moça volta já.  Mas, voltou num minutinho? Deve ter descarregado toda a sua produção de excremento do mês inteiro. Veio de lá com uma cara de quem fez um cocô muito duro, ou então muito mole. Felizmente agora era de novo a minha vez... Olhei para trás e disse para o cara, vou ser prático... E ele com uma cara de merda diz: But that fucking... Essa frase, também, já estava  enchendo o saco, quando uma senhora com perfil de curiosa, atrás dele, perguntou: “ o senhor esta falando se tivesse uma faca?” O cara riu, se divertiu à custa da pobre velha e se negou a traduzir.

A moça do caixa parecia ter tido uma baixa de pressão de tão mole, um rosto meio desbotado de mulher que vai ser mãe. Na sua camiseta estava escrito nas costas: “Funcionária em Treinamento.”

Fui rápido e em silêncio fui atendido.


Agora era a vez do cidadão que vinha atrás, quando a moça do caixa de novo, pediu licença e chamou a coordenadora que veio e pediu mais um minutinho... Ai o cara avermelhou-se e alto e em bom som, traduziu a frase:  “MAS QUE PORRA!”

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

LEVANDO A VIDA COMO ELA QUER.


Hoje, 16 de janeiro, completo 69 pés de couve na horta da vida. Não tem mais espaço para velas no meu bolo. Diante disso eu agradeço a Deus por já estar vivendo de sobra. Afinal, humanos ao passar dos 65 anos, já estarão nadando contra a correnteza em obediência a ordem natural da vida.

Queira ou não, os contemporâneos têm que aceitar essa realidade, vez que a sociedade está sempre do lado do tempo. Não adianta passar tinta no cabelo; tomar viagra; fazer plástica; fazer aplicações faciais, nada disso vai esconder a mala de anos que o idoso carrega nas suas costas, fazendo  com que o seu corpo vai arqueando com o passar do tempo. O rosto vai enrugando, o cabelo branqueando e o sorriso se modificando. Não dá nem para dizer ex-jovem.

A partir dos 65 anos de vida, o jovem de outrora passa ter uma nova nomenclatura: idoso, ancião, anoso, longevo, maduro, experimentado. Até ai tudo bem, mas e quando passa para, velho, caduco, antigo, esclerosado, quadrado, carunchoso, matusalém, antiquado, gagá, e por aí afora?...  ---Não faltará um sinônimo pejorativo para classificar uma pessoa que carrega nas costas um punhado de anos...

Feliz do idoso que têm uma família consciente e que sabe reconhecer o seu idoso no seu âmago.

Os idosos, do nosso país, infelizmente, apesar do Estatuto do Idoso, são tratados como sucata humana. Os reajustes salariais já não são feitos sobre a pressão da força do trabalho. A saúde que o Estado lhes oferece chega a ser humilhante. E apesar de viver uma ociosidade com dignidade, o aposentado é visto pelos governantes como um peso no orçamento da nação, a qual foi sustentada durante anos com a força dos seus braços.

Os idosos são os viajantes da parte mais perigosa da estrada da vida, cujo ponto de chegada está a cargo do destino.

Hoje, 16 de janeiro, é dia dos meus anos. Não sei se mereço os parabéns por ser tão insistente com a vida, mas naturalmente alguém me dirá feliz aniversário Armando! Que esta data se repita por muitos e muitos anos!... “Se Deus quiser e ele há de querer” assim direi! 

Mesmo sentindo a sutileza na frase junto à ironia da realidade eu direi que quero viver mais. Mesmo cônscio de que sou um idoso vivendo sem previsão de futuro, permito-me ser egoísta... E quero viver mais! Mesmo sabendo que os idosos são as grandes vitimas do tempo, esse fenômeno impiedoso que mede o espaço entre a vida e a morte; que massacra e corrói feito ácido a  carne, ferindo frontalmente a beleza e a saúde que alimenta a vida! Mesmo assim, eu quero viver mais, muito mais!

Quero ainda enfrentar esse tempo que mata virtudes, ironiza os destinos e transforma a matéria deixando-a sem futuro! Eu quero sim, eu quero viver mais, quero os “muitos e muitos anos” que alguém me desejar porque sei que sou parte da Obra da Criação de Deus, e em sendo assim, serei útil simplesmente existindo e persistindo com a vida, graças a vontade de viver!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A PERERECA DA VIZINHA.


Eu como devoto de Santo Antônio, já pela terceira vez na minha vida, nessas minhas mudanças de domicílio, sou levado a morar perto de uma igreja do meu querido Santo Toinzinho, a quem me refiro com muito carinho. Agora, estou morando próximo da sua catedral aqui em Juiz de Fora, onde ele é o padroeiro.

Na Rua Santo Antônio, que passa pelo fundo da catedral tem um barzinho onde eu costumo ir encontrar com uma pequena confraria de amigos da mesma faixa de idade, onde discutimos o futebol antigo, as músicas antigas, os costumes antigos, enfim tudo antigo como nós somos. A maioria da turma come é banha de porco, ovos caipira, gosta de cachaça, pé de porco, não pensa em se separar da mulher e quem ainda tem pai ou mãe, tios ou padrinhos, tomam a bênção. Não vou contar o que eles falam do viagra porque senão fica feio. Mas nas trocas de ideias cada um acaba sendo representante de uma doencinha. Contudo, estão ali reunidos e tomando uma cervejinha, uma pinguinha e comendo um rebatizinho. Parece que as coisas no sufixo diminuitivo “inho” ficam mais leves.

Para chegar nesse local eu tenho que passar pelo adro da Catedral, que representa uma grande área onde existem um estacionamento para automóveis, dois velários onde os fieis colocam velas para queimar; uma gruta de orações e um tipo de chafariz de cimento onde as pessoas lavam as mãos; moradores de rua fazem uso para encher as suas garrafas etc. Enfim, trata-se de uma área que fica bem movimentada com a chegada da noite, com pessoas transitando e visitando a catedral.

Ontem, ao anoitecer eu passava de volta pelo local e deparei-me com um quadro inusitado. E como meus olhos não são cercados, eu dei uma paradinha para apreciar a tranquilidade de uma pequena família que se banhava naquela bica. Um homem, uma mulher e uma criança de uns oito ou dez anos, com características de nordestinos recentemente chegados à cidade. O pai da família de média estatura, contando uns trinta anos mais ou menos, cabelo e barba bem aparados, camisa azul claro e calça jeans. A mulher com uma bermuda azul; blusa amarela, cabelos curtos, corpo chamativo e olhar reservado. A menina com aparência de ter sido modelada na mãe; bastante parecidas. --- Que Deus me perdoe, mas quando vi aquilo eu fiquei parado a uma média distância para observar a tranquilidade humana.

O homem com uma marmita vazia colhia a água na bica do chafariz e no corpo sem camisa se banhava como se banham os passarinhos. Via-se que a sua preocupação maior era com os sovacos peludos; fazia isso enquanto era aguardado pela mulher e a filha. Depois abaixou as calças e com um pano molhado o fez passear por dentro de uma cueca tipo ceroulas. Terminado o seu banho foi a vez da criança. A mãe veio com um pano molhado enfiava por dentro do vestido da menina atingindo todas as partes. --- Finalmente chegou a vez da mulher. Ai foi a melhor parte, porque a assistência teria aumentado, já não era só eu, e eles não estavam nem um pouco preocupados. Estavam como atores numa filmagem muito séria.

A mulher esticando o cós da bermuda enquanto o marido vinha com a marmita cheia de água e jogava nas suas partes íntimas e assim ela as esfregava como se estivesse passando por uma coceira. Parece que a genitália da patroa estava carente de asseio. Logo ela tirou a blusa e ficou só de sutiã e por dentro deste, passava a mão molhada.
Finalmente os três banhados, rostos lavados, roupas molhadas, cabelos molhados e penteados, fresquinhos, colocaram a marmita no saco e desceram tranquilamente a via dentro do adro da catedral, como se estivessem saído da piscina de um hotel 5 estrelas, quando se ouvia o homem dizer: “Agorinha mesmo nois tá tudo inxutinho”.

--- Nisso, dois rapazes que haviam presenciado tudo de dentro de um carro estacionado pouco acima, cantarolavam numa alusão a música de carnaval de Dercy Gonçalves:
"A perereca da vizinha agora ficou lavadinha, bem lavadinha, bem lavadinha"!

E eu descia a via e refletia: Viver é uma arte!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos

domingo, 11 de janeiro de 2015

DA JANELA DO MEU APARTAMENTO.


A minha morada está instalada num apartamento padrão, sendo uma suíte, dois quartos, salas de jantar e estar, cozinha, área de serviço e dispensa. Somos uma família de tempos diferentes, eu, a mulher e a filha temos naturalmente um conflito de gerações porque contamos 21, 52 e 69 anos. Contudo isso vem a ser bem administrado; cada um tem o seu computador, a sua televisão e o seu lugar preferido dentro da residência. Eu fico maior parte do tempo na sala de estar onde posso ouvir os meus boleros, navegar na internet e me concentrar numa leitura.  A minha filha, chegada num sertanejo universitário, ouve as suas músicas lá no seu quarto na área dos fundos. E a mulher corre todos os pontos sem ter preferência.  

Quando debruço em minha janela sinto-me acomodar num camarote de um grande teatro de um extenso palco onde se desenrola grandes variedades da vida real.  É como se eu estivesse num ponto privilegiado e o proscênio estivesse abrindo os meus olhos... Um ponto onde eu poderia contar até os focos das lâmpadas da ribalta.

Um aposentado como eu aproxima-se a toda hora da janela. Principalmente quando ouve um barulho qualquer. Eu que moro no terceiro andar dou notícia de tudo que se passa a duzentos metros para baixo, duzentos para cima na rua e particularmente aqui no meu caso que tenho de frente um arranha céu, fico sabendo de muita coisa que se passa olhando para cima.

A cidade aos domingos amanhece morta em comparação com os dias da semana. Hoje, de manhã bem cedo, após uma noite de calor infernal, levanto-me e depois de esquentar os meus ovos e tirar o meu jejum, é hora de abrir a janela e bispar a rua apenas para conferir o “paradeiro”.
 Atendendo a curiosidade dos meus olhos, após dar uma olhada saudosista lá pelo apartamento da vizinha que morreu recentemente e deixou as suas  plantinhas órfãs,  surpreendo-me vendo uma mulher caída ou deitada, debaixo de uma quaresmeira que existe de frente com a minha janela, na margem oposta da rua. E mexendo com a mulher no chão estão duas outras mulheres tentando reanima-la.

Sabe-se que aposentado quando vê uma coisa dessas sai correndo com a intenção de se sentir útil. Imediatamente me livrei do pijama, já tomei de um copo de água com açúcar, desci as escadas quase correndo e cheguei ao lugar onde a mulher estava deitada. Eu que a imaginara morta vejo agora que está viva, pois respira ofegantemente. Estaria desmaiada ou extremamente bêbada. Tentei reanima-la com a ajuda das duas outras pessoas e mais outros que se aproximaram, mas nada. A mulher não conseguia sair daquela síncope da qual a gente não sabia se era um colapso, uma embriaguez, um ataque epilético etc. Alguém já tentava ligar para o SAMU, e apesar da hora começava a juntar gente. 

E eu ali, um aposentado imbuído no espírito de escoteiro, se sentindo inteiramente útil ao próximo, presidindo e administrando, comandando e interferindo, com a vida daquela mulher de uns quarenta e poucos anos, mulata, meio gorda de cabelos crespos amarelados, batom vermelho e vestido curto listrado. 

E quando ela deu uma balbuciada, eu, carinhosamente, fui tentar faze-la tomar água com açúcar, e foi quando, para a minha surpresa e dos demais presentes, essa mulher com uma voz pastosa de bêbada, usando do seu rompante um tanto rouco e grosseiro, diz com todas as letras:
 “Sai de mim viado e me deixa em paz”!

Enfiei o rabo no meio das pernas e com um sorriso sem graça para os presentes, saí... Sai calado, caladinho da silva, brigando comigo mesmo: Quem mandou você mexer com quem estava quieto seu viado!? Não é assim que se diz? Vê se aprende seu aposentado de merda a não sair mais do seu  camarote, da sua janela, e vir dar uma de ator da vida real. Quem entra sem ser chamado vira viado! Bem feito!!!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ERA UMA VEZ UMA VIZINHA QUE GOSTAVA DE FLORES!


Sou um aposentado fiel ao meu aposento. Eu não durmo com as galinhas como dizem, ou seja, eu não durmo cedo. Vejo todos os dias o relógio marcar meia noite ou mais. Mas, mesmo assim, me levanto cedo. Logo que me desperto com o clarão da aurora, já fico de pé, não dou conta de ficar na cama. Cama para mim é só para dormir. Posso me deitar a qualquer hora, mas não compenso o “deitar” com o “levantar”. De manhã tenho o meu ritual: Levanto-me vou ao banheiro faço ali o necessário e logo vou para a cozinha; ponho três ovos para esquentar e quentes os coloco num copo, adiciono canela, sal e um pouco de azeite. Este é o meu tira jejum, bom para a vista, para o estômago e evita o diabetes. Café eu tomo logo que a minha mulher se levanta, ela é mais chegada numa cama.

Dai abro a janela da sala que dá para a rua. Dou uma espiada para baixo e outra para cima. Vejo os carros que dormiram na rua, e dou uma olhada para os céus e fiscalizo o prédio do Itamar, um arranha céu de dezoito andares. Um edifício de gente aquinhoada, e se é chamado de prédio do Itamar é porque na sua cobertura morava o ex-presidente Itamar Franco.

No outro prédio que circula a vizinhança, quase de frente com o modesto prédio onde eu moro, tem uma vizinha que se levanta antes de mim. Logo que abro a minha janela, lá está ela já de pé, e ainda sob o clarão da lâmpada cuidando de uns pequenos vasos de folhagens na sacada de seu apartamento. Ela olha para cá e eu olho para lá. Nunca conversamos e não nos conhecemos pessoalmente; comunicamo-nos apenas com os olhos. Eu aprovo as suas plantas e ela me agradece. É uma senhora idosa, de porte elegante, parece que sofre de insônia e está sempre envolvida num chambre vermelho.  E as suas plantinhas são tratadas com tanto carinho, com tanto esmero que me vem o desejo de ter uma também.

Viajei durante o natal, e na minha volta não vi mais aquela senhora. Procurei sabe-la e a notícia foi cruel. Ela faleceu em plena véspera de natal. Problemas de pneumonia levaram-na para cuidar dos jardins de Deus. Agora daqui sob a vigilância dos meus olhos estão às plantinhas solitárias; parece que estão esquecidas, órfãs sem água, sem adubo, sem o carinho da protetora. E eu de cá, num silêncio mudo, embora não soubesse sequer o nome daquela senhora, posso sentir o vazio que ela deixou; e nesse sentimento faço a minha reflexão buscando entender os mistérios da vida. Que Deus a tenha, minha ilustre desconhecida!

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos



sábado, 3 de janeiro de 2015

TEM GENTE QUE AINDA SENTE SAUDADE E POR QUÊ? RESPONDA!


Nos dias atuais os pais conscientes de suas posses já não enchem a casa de filhos como era comum no passado. Parece que os pais de antigamente não tinham muita consciência disso e se deixavam levar pelas circunstâncias. Afinal, ou não sabiam o que era a pílula ante concepcional ou ela não existia. Não sabiam o que era uma camisinha ou esta também não existia. Coito interrompido nem pensar. A mente não combinava com isso, principalmente a do homem. 

Além disso, a igreja batia muito nessa tecla de que evitar filho era pecado. Na maioria das famílias era um filho no saco e outro no bucho, como assim diziam.  A mulher não trabalhava fora, e a sua missão era praticamente criar a família. Não havia renda per capita na família e se houvesse seria pela a ajuda da mulher lavando roupa para fora, fazendo doces e quitandas para ser vendidos nos bares e ou pelos filhos de porta em porta.

 De outra forma não existiam tantos produtos industrializados com existem hoje. Os empórios, então existentes, vendiam os produtos a granel, ou seja, embalados na hora. Isso favorecia porque a pessoa podia comprar um produto de acordo com o dinheiro que tivesse no bolso, suficiente para fazer apenas um almoço ou jantar. 

Não existiam aposentadorias como existem hoje. A pessoa envelhecia ou adoecia, saia de porta em porta pedindo esmola. Pedir esmola era como via sacra.  No fim da vida o trabalhador ia para a Vila Vicentina. Ali era sinônimo de pobreza, de miséria e falta de recursos. Eu sei disso, já que ajudei lá desde a minha infância. 

Hoje, nem as leis permitiriam um estabelecimento tão desarrumado daquele jeito. Não tinha sequer um banheiro decente e aquele lugar que marcava o fim da estrada da vida... Vida cuja pessoa passou o tempo todo lutando por ela e de seus filhos, agora se encontrava ali, abandonado aguardando a hora da morte. 

Eu vi pai e mãe chorar por não ter notícias de filho que partiu e nunca mais voltou, e nunca mais deu notícia. Não existia televisão e rádio era raro. O correio era precário, telefone nem pensar. Transporte difícil. Muitas pessoas nasciam e morriam no seu pequeno município sem nunca ter conhecido outra cidade. Ir para são Paulo ou Rio de Janeiro era ato de bravura. 

Aqueles que voltavam o faziam num espaço de anos. E quando vinham, melhorados de vida, levavam os seus pais e esta era a ultima viagem. E aqueles que insistiam em morar em Candeias pagavam caro por esse amor ao seu quinhão natal. Mesmo porque o pobre de hoje vive uma vida superior a que viviam os ricos daquele tempo.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos