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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

UM PECADO CORRIQUEIRO



Até o início da década de 60, a vinda da Cemig para Candeias foi a maior aspiração do povo candeense. O conforto, então, oferecido pela eletricidade era mínimo tendo em vista a fragilidade da Empresa Força e Luz Candeense de propriedade do Sr. Celestino Bonaccorsi.

A Usina do Sr. Bonaccorsi foi instalada em Candeias na década de 30 e na época foi um enorme sucesso. Candeias ainda não era um município emancipado, praticamente sem indústrias, ressalvando-se apenas alguns consumidores com pequenas máquinas que beneficiavam os produtos agrícolas. Portanto, a capacidade de produção daquela empresa se destinava, na maior parte, para a iluminação pública e residencial.

Com o passar do tempo, a cidade foi emancipada e começaram a surgir pequenas indústrias. A população, em uma ordem natural, foi aumentando e a empresa candeense, geradora de eletricidade, não procedeu a qualquer investimento visando o aumento da sua produção. Outro fator considerável foi a depreciação do equipamento, à vista de sua vida útil.

Candeias, pouco a pouco, ia ficando no escuro, como nos tempos idos. Na época da seca, quando as águas diminuíam, a situação se tornava, realmente, precária. As lâmpadas pareciam um tomate maduro. O lampião, a lamparina e as velas voltaram a fazer parte do cotidiano do povo candeense. O cinema tinha o seu motor gerador próprio, como também, a Farmácia São José. Os mais aquinhoados tinham lampião a gás, um instrumento chique e caro naquele tempo.

Acontecia, portanto, da cidade ficar às escuras de uma hora para outra, mesmo porque, estava sempre com problemas de ordem técnica devido ao estado obsoleto da geradora. Quando isso acontecia, a energia não voltava mais no mesmo dia. Só no outro dia, às vezes semanas.

A população não conhecia, nesse tempo, já no princípio da década de 60, um chuveiro elétrico. Esse era um aparelho de consumo pesado e não funcionava. À medida que a situação foi ficando pior, a empresa estabeleceu um critério de medir o consumo máximo de 200 wats para cada consumidor que pagava o mínimo. Os maiores consumidores tinham os relógios medidores de consumo.

O sistema que media o máximo para cada consumidor, do mínimo, consistia em uma ligação em série que tomou o apelido de “Pica-Pau”. A passagem de energia era regulada por uma lâmpada grande que ficava anexa ao poste de madeira, quando acontecia desta bater, suavemente, no poste fazendo o barulho semelhante ao picar do referido passarinho.

O ferro elétrico de passar roupa também não existia. Lembro-me de ver, à porta das alfaiatarias, os alfaiates aquecendo os seus grandes ferros de passar roupa à brasa. Enfim, não adiantava ter esses produtos elétricos porque não tinha como fazê-los funcionar. Apenas os rádios se faziam presentes porque o consumo desses aparelhos era menor, apesar de precário. Nas horas de pico, o som era mais baixo. Para se ter uma ideia, um chuveiro, daquele tempo, necessitava de 6.000 wats para aquecer a água. Um ferro elétrico de 1.500 wats e um rádio de 40 wats. Não existiam os rádios à pilha.

Portanto, é considerável a ansiedade do povo candeense pela vinda da Cemig para Candeias, o que traria, sem dúvida, uma grande melhora na qualidade de vida do nosso povo.

Tão logo se instalou a Cemig, na década de 60, começaram a aparecer os chuveiros elétricos. Até então, tomava-se banho de diversas maneiras: De caneco, de bacia, de chuveiro frio ou o chuveiro de serpentina ligada, diretamente, ao fogão de lenha. A Cemig veio e trouxe consigo o chuveiro e o ferro elétrico de passar roupa. Esses, consequentemente, já contribuíram com a eliminação do fogão à lenha que veio a ser substituído pelo fogão a gás. Como esses exemplos, outros, também, surgiram como o liquidificador, aquecedores, ventiladores, etc. Com o fogão a gás, veio o forno a gás e a panela de pressão.

Itamar Freire foi o precursor na distribuição desses produtos. Portanto, a Loja Itamar Freire ocupa um digno espaço na história de Candeias.

Entretanto, mudando o rumo do assunto e falando da usina elétrica do Bonaccorsi, me veio à mente um fato antigo que se encontra guardado bem nos fundos das minhas memórias.

Em Candeias, nessa época, e acho que até hoje, existem encontros religiosos nas próprias casas. Terços, novenas e outros rituais que reunem a vizinhança de um quarteirão ou um bairro. Nessas rezas, sempre tinha um puxador de terço ou de novena. No meu meio, eram Donas Ester, Maria da Sinhana e Marica da Melada.

Dona Joana do Galdino era uma idosa carola, nossa vizinha da Rua Coronel João Afonso. Não perdia nada que fosse relacionado à igreja. Tinha o seu lugar cativo na igreja sendo que outras pessoas não ousavam ocupá-lo. Preparou um terço na sua residência e visitou toda a vizinhança fazendo o convite para o evento. Praticamente, todo mundo ia a esses encontros porque, caso contrário, os donos da casa ficavam melindrados com aquele que não aceitasse o seu convite.

Para puxar o terço, foi convidada a outra vizinha de frente, Marica, filha da Melada Barros. Marica era sobrinha do Sr. Erasto de Barros. Baixa, magra, de cabelos curtos, boca pequena e olhos fundos. Fala esperta e portava um jeito espevitada. Extremamente, nervosa. Dava chilique por qualquer coisinha e era cheia de manias. Mania de limpeza, mania de falar alto, mania de xingar. Estava sempre perdendo a estribeira. Tinha nojo de tudo. Muitas vezes dizia: “A coisa mais porca do ser humano são as mãos. Elas coçam todos os orifícios do corpo.” Era muito franca. Jamais, engolia uma contrariedade. Falava na cara de qualquer um aquilo que lhe contrariasse. Não mandava recados. Viesse o Papa! Seu marido, o Quincas Guimarães, cortava um doze com ela quando estava com o seu famoso mau humor. Contudo, era uma pessoa de bom coração e caridosa.

Era sexta feira às oito horas da noite, a hora marcada para a cerimônia. A vizinhança enchia a pequena sala da casa de Dona Joana, então, toda eufórica com aquele movimento em sua casa. Não havia nem televisão e nem novelas nessa época.
Começa a reza com um canto religioso. Marica puxa o terço. Lá pelo segundo mistério, alguém solta um pum. Daqueles sorrateiros que deixa uma pergunta no ar: “Quem será esse?” O ambiente se tornou insuportável dada à fetidez do flato.

Notava-se a inquietação da Marica, toda cheia de nojo. Entretanto, a reza continuava e a pergunta também. Talvez, na cabeça da Marica a interrogação fosse mais aguçada: “Quem será esse desgraçado!?”.
No quinto mistério, quando a poluição do ambiente foi aliviada, novamente o ambiente é detonado com uma bomba, talvez, mais poderosa do que a de antes e também sorrateira.

De repente, Marica levanta tremendo dos pés à cabeça e fala:

---Olha, aqui, gente! Se alguém saiu de casa para vir soltar gases aqui, por favor, controle-se. Aqui não é lugar disso! Não consigo puxar um terço com essa fedentina atrás de mim. Isso está parecendo um inferno! Soltar gases aqui é uma falta de respeito não só com a gente, mas, principalmente, com Nossa Senhora. Mas, dela ninguém esconde não! Se alguém fizer isso de novo, eu me retiro!

Nisso, o Bento, o netinho mais novo de Dona Joana, próximo a sua mãe Conceição, perguntou:

---Mãe, o que são gases?

Foi quando Conceição, filha de Dona Joana, cochichou o significado no ouvido do filho e ele exclama:

---Eu sei quem foi! Foi a vó. Ela já deu uma porção de peido, hoje!

Assustada, Dona Joana do Galdino se levanta, humildemente, e posta-se diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida e diz:

---“”Perdoa eu, minha Mãe Santíssima! Eu num fiz pur querer. Foi escapulido. Agora, o outro num fui eu não minha mãe! Eu juro pur essa luz que me alumia que num fui eu!””

Por incrível que pareça, nesse exato momento, a luz apaga e em meio a escuridão, Dona Joana grita:
Perdão, minha Santa! Eu não tenho certeza se eu dei só um não!

E o terço terminou tumultuado o que foi um castigo para Dona Joana. Já na rua, em meio à escuridão, Marica da Melada, como sempre agitada, dizia:
---Só me faltava essa! A Dona da casa peidando no terço. Faça-me o favor!!!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos




quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NO MEIO DOS POBRES.

                                         Jardineira Chevrolet ano 1954


Por volta do ano de 1963, eu fui cobrador de uma jardineira que fazia a linha Candeias / Oliveira. O veículo era da marca Chevrolet, de fabricação estrangeira, do ano de 1954, e já se encontrava ultrapassado e vencido pelo tempo. Teria sido colocado a correr naquela linha em condições precárias, cheio de problemas, mesmo porque, não havia a fiscalização governamental como existe nos dias de hoje. Trazíamos, no seu interior, um cacho de banana verde para esfregar nos buracos do radiador a fim de evitar o vazamento de água. Levávamos, também, uma lata vazia, sendo que era necessário parar, em quase todos os córregos do itinerário, para completar a água do radiador. Essas duas coisas ficavam expostas ao lado do motorista. Não tinha como esconder isso dos passageiros. O veículo possuía apenas um pequeno porta-malas em cima do seu teto. Ali ficava amarrada uma enxada encavada para os atoleiros nos dias de chuva.

Eu era o cobrador e o Jésus do Vico Teixeira falecido, recentemente, em Formiga, era o motorista. A jardineira era uma fotografia desbotada e em preto e branco da pobreza e do desleixo. Aliás, naquele tempo, a pobreza rondava Candeias em quase todos os sentidos. Suponho que os pobres de hoje tenham uma vida muito mais confortável do que os ricos daquele tempo. A lotação era de apenas 25 passageiros. Saía do seu ponto às seis horas da manhã, na Avenida 17 de Dezembro, da porta do antigo Bar Rodoviário do Raimundo do Antero que ficava em uma velha casa na qual existe, atualmente, um lote vago nas imediações do Cartório da Marília Viglioni.
Do seu ponto inicial, subia pelo Alto do Cruzeiro e tomava a estrada de chão passando pela fazenda do Sr. João Pinto de Miranda, na comunidade do Retiro, na Cidade de São Francisco de Paula e, finalmente, Oliveira.
Até São Francisco de Paula quase não havia passageiros. Dali para frente, a velha jardineira ia lotada e apertada tal qual uma lata de sardinha. Havia dias que o veículo de 25 passageiros transportava nada menos de 40 pessoas o que causava um tremendo desconforto entre todos os passageiros. Era uma situação difícil: se existissem 100 passageiros, todos queriam viajar assim mesmo. Não havia como reter a lotação, pois ajuntavam todos à porta do veículo e era um transtorno total, haja vista a formação daquela aglomeração. Uns querendo passar por cima; outros querendo entrar ao mesmo tempo. Todavia, todos com um só pensamento diante de uma aleatoriedade sobre direitos, capacidade de lotação, necessidade de viajar e mais um monte de motivos, principalmente, em dias de chuva.
A volta era o mesmo transtorno. Portanto, a viagem de Candeias a São Francisco de Paula era tranqüila e vice e versa. De Candeias a Oliveira quase não apareciam viajantes. Dificilmente, aparecia um.

Juca da Virgínia era um cidadão muito requintado. Descendente de duas famílias íntegras e tradicionais da sociedade candeense: Alves e Alvarenga. Era um homem bem informado e falava ao pé da letra. Naquele tempo, era o único leitor, em Candeias, da Revista: “O Cruzeiro” e do Jornal “O Correio da Manhã”, dois dos mais conceituados veículos de comunicação do Brasil. Juca era, portanto, muito esclarecido, bem falante e bem afeiçoado. Enfim, uma pessoa interessante e extremamente vaidosa.

Certo dia, aparece para viajar de Candeias a Oliveira o Sr. Juca da Virgínia. Estava todo banhado, cheiroso, bem vestido e satisfeito por estar indo fazer um passeio à casa de amigos na cidade vizinha. Ao vê-lo, o motorista já cochichou nos meus ouvidos: “Hoje tem”.

Notava-se, durante a viagem, o mal-estar do Sr. Juca dada à poeira da estrada penetrando dentro da jardineira e criando um ambiente bastante desagradável. Contudo, Juca não poderia imaginar o que o esperaria na cidade de São Francisco de Paula.

Era chegada a hora, naquela cidade, da superlotação. Veio tomar assento, junto ao Juca, em uma poltrona sem divisória, uma senhora gorda que mal cabia sozinha na poltrona deixando-o duplamente desconfortável. A situação era muito difícil que eu, apesar de ser, então, bem magro, não tinha como me locomover dentro do carro para cobrar as passagens e para isso era preciso, sempre, parar a jardineira antes da chegada à cidade de Oliveira para acertar com os passageiros. Mesmo porque, o percurso de São Francisco de Paula a Oliveira é de apenas 17quilômetros.

Nesse dia, aconteceu um fato inusitado. A passageira assentada ao lado do Juca, em pleno estado de necessidade, soltou os intestinos causando um tremendo desconforto a todos os passageiros e, principalmente, ao seu colega de poltrona que já vinha horrorizado com a viagem. A situação daquela senhora foi tão triste e fica até complicado descrevê-la dado o excesso dos dejetos lançados. Ao vê-la descer do carro, logo na entrada da cidade, os passageiros sentiram um misto de nojo e pena daquela pobre mulher tão humilhada diante daquelas circunstâncias.

Pouco à frente, nas proximidades da fábrica de balas Santa Rita, todos os passageiros desceram, exceto o Sr. Juca que terminaria a sua viagem na Rodoviária que já se encontrava próxima. Descendo da lotação, postou-se com um ar de revolta, com nojo, cheirando as suas vestes, protegendo o nariz com um lenço branco quando trajava um belo terno de casimira azul e fazendo, finalmente, o seu pequeno discurso para o qual não lhe faltava o dom da eloquência:

---Olhem, meus amigos Jésus e Armando: Jamais me verão, de novo, dentro dessa jardineira. Não existe cruz maior do que viajar dentro de um veículo fétido, totalmente desconfortável, empoeirado e em meio a passageiros sem requintes de higiene. Parece-me que fui premiado nesta viagem desastrosa. Isso para mim é um espírito malfazejo colocando-me como colega de viagem junto a uma senhora sem válvulas intestinais, defecando-se ao meu lado o tempo todo. Estou, simplesmente, horrorizado. O odor permanecerá por dias em meu nariz. Viva eu cem anos, lembrarei sempre dessa viagem mais parecida com um comboio de animais borrados. Voltarei para Candeias por outro meio. Talvez a pé, mas, longe de vocês. Desculpem-me a franqueza!

Eu, um garotão que não sabia ainda o que significava as palavras: fétida, requinte, malfazejo, defecar, odor, comboio, ao chegar a minha casa fui correndo olhar nos dicionários o significado dessas palavras até então estranhas no meu vocabulário.

Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos

sábado, 14 de janeiro de 2012

O PEQUI E O VIAGRA

Semana passada, eu vinha da cidade de Formiga para Candeias, quando vi parado, à beira da estrada, um micro ônibus cujo motorista me fez um sinal para parar. Como havia mulheres e crianças ao redor do veículo, resolvi parar imaginando que estariam precisando de algum socorro. Logo, tomei conhecimento de ser o veículo da cidade do Rio de Janeiro e sua lotação era de uma irmandade crente, em uma excursão por aqui, pelo interior de Minas (suponho que estavam indo prestigiar um casamento gay em algum lugar). Eram todos cariocas, pois pareciam ter um “x” na ponta da língua que chiava mais do que bico de chaleira.

A primeira a me abordar foi uma mulher morena, estatura mediana e cabelos pintados de roxo. Parecia estar coberta com um jaleco comprido cor-de-rosa. Braços e pescoço, excessivamente, ornamentados, com brincos argolados e um sorriso agradável. Enfim, a ex-donzela tinha uma estampa genuína de perua. Bem diferente do padrão dos crentes daqui das nossas bandas. Veio com um punhado de pequi nas mãos e me perguntou:

---Moço, essasx frutinhasx são osx famososx pequisxx? 

Apesar de saber que o tratamento de moço seria uma força de expressão, respondi, contentemente, como um velho rejuvenescido:

---Sim! Isso aí é pequi, sim! 

Pensei, cá comigo: Que bicho frouxo é carioca. Parar um carro para saber se isso é pequi. Todavia, como já que eu tinha parado, resolvi ser um mineiro hospitaleiro e dar asas à curiosidade daquela gente. Tornei-me, portanto, voluntariamente, em um guia turístico.

Verifiquei que aquela confraria de crentes cariocas não conhecia o pequi e estava próximo de uma grande árvore carregada da fruta. Todavia, diante de uma incógnita, pois conheciam a fruta apenas pelo nome. Alguns já teriam consultado a internet. Afinal, estavam bastante curiosos sobre como consumir aquele produto do cerrado que vem sendo tão difundido nos últimos tempos e que muito se comenta sobre os espinhos de sua castanha.

A faixa etária do grupo variava de dez a cinquenta anos. Cada qual mais curioso. Um queria saber como fazer licor, entretanto, foi logo contestado por um irmão mais conservador que lhe disse: 

---“Crente não bebe álcool e licor tem isso”. 

Já queriam saber como fazer pequi com arroz, com galinha, com isso e com aquilo. Queriam saber, também, como se livrar dos espinhos. Acho até que eles pensaram que eu era algum mestre cuca do pequi, haja vista me perguntarem como fazer o doce de pequi, no que respondi: "Doce de pequi eu nunca comi. Se existe eu não conheço."

Da janela do ônibus, uma mulher de uns cinquenta anos, mais ou menos, apenas ouvia as conversas e não falava nada. Entreanto, quando eu fui saindo, ela resolve fazer a última pergunta:

---Olha, aqui, meu senhor! Essa frutinha é, realmente, afrodisíaca como dizem? Falaram para o meu marido que é melhor que viagra! Será verdade? Se for, eu vou voltar para o Rio levando um saco para o meu marido."

A turma caiu toda na risada. Afinal, carioca é um povo muito bem humorado.
Supondo uma maliciosa intenção para a pergunta, já fui respondendo:

--- Dizem que é (falei com ar de brincadeira). Inclusive, por aqui, os meses que mais nascem crianças são setembro e outubro, ou seja, nove meses após a safra do pequi. (lenda é claro).

Dois gays comiam uma maçã encostados no ônibus, em silêncio, e apenas observando o movimento. Não estavam nem aí para o assunto de pequi. Assim que eu respondi a pergunta da mulher, eles riram e, com ar de gozação, vieram para cima do mineiro a fim de tirar um sarro e comentaram:

---Nossa! Que exagero! Então, é por isso que mineiro tem a cara de pequi, assim, meio amarelaaaaaaada???

Aí, eu mandei a minha resposta com voz forte e severa:

---Não, seu moço! Nós, em Minas, temos cara é de picadura de cobra! E fui saindo, quando um deles exclamou:
---Nossa!Assim eu gamo! Que mineiro violento!

Eu dei uma olhada para trás e, se ele entendeu o meu olhar tipo número 5 de Lee Marvim, naturalmente, deu para entender o que eu quis dizer. Afinal há olhares que dizem mais do que a boca, principalmente, numa situação dessas. Ainda ouvi, quando o outro disse:

---Ai! Afrodisíaco para mim é esse sotaque de mineiro! Ai, Ai, Minasxx Geraisxx. Meus Deusx, isso aqui é uma locuuuura!

Dessa maneira, aquela bulha de crentes ficou rindo e se divertindo às minhas custas e olha que eram crentes, hein! Imagine se fossem favelados

Armando Melo de Castro

Candeiasmg casos e acasos

sábado, 7 de janeiro de 2012

MORTO E SAFADO



O velório, apesar de ainda existir, vem, aos poucos, deixando de ser na residência do morto. Hoje, a exemplo das grandes cidades, existem os locais destinados a esses rituais, onde o finado é velado em um ambiente apropriado em que os veladores possam estar mais confortados para passar uma noite junto ao defunto.

Aqui, em Candeias, era comum o velório ser na própria residência. Quanto mais estimado fosse o falecido, maior dificuldade enfrentava a família para dar acesso aos amigos visitantes.

Atualmente, com o advento das funerárias nas pequenas cidades tendo instalações apropriadas, as coisas estão melhoradas. Inclusive, já se falam em velório virtual, pela internet, quando parentes podem acompanhar a cerimônia à distância, através da instalação de câmeras no local do funeral.

Quando essas inumações eram preparadas nas residências, dava-se um banho no defunto e lhe colocava a melhor roupa, normalmente, que era poupada para esse momento. No homem, comumente, vestia-se um terno com gravata e na mulher costumava-se preparar uma mortalha. Quase toda pessoa tinha uma muda de roupa usada apenas para ir à missa e ser enterrada. Às vezes, acontecia do morto ou a morta ficar meio exprimido dentro da roupa, talvez, por ter engordado ou inchado com a morte. Nesse caso, abriam-se, por detrás, as vestes que serviam de mortalha. Sempre se dava um jeitinho. Não havia flores sobre o defunto. As flores de velório eram apenas duas jarras que ficavam próximas aos castiçais na cabeceira do finado. Muitos enterravam os seus mortos com sapatos e roupas novas e eram comuns as histórias de cadáveres assaltados pelos coveiros. Esses lhes roubavam as roupas, os calçados e a dentadura com dentes de ouro. Isso pode parecer absurdo, contudo, era a pura verdade, principalmente, nas grandes cidades.

Nos tempos em que Candeias não tinha uma funerária, eu auxiliei, por muitas vezes, o Alvino Ferreira, nessas tarefas de preparar defuntos para as quais ele se oferecia. Éramos voluntários da Vila Vicentina. Os caixões eram simples e resumidos em um engradamento coberto com pano roxo e noventa por cento das pessoas eram enterradas no chão. Havia gente que ficava impressionada com a fragilidade do caixão e imaginando o momento em que a terra batesse em cima daquilo! Coisas de pessoas de mente fértil com relação à morte.

Havia grande diferença entre um velório de pobre e um velório de rico. O rico, normalmente, tinha um banheiro dentro de casa, uma sala ampla e se dava um café reforçado para os presentes, sucos, refrigerantes, etc. Na saída do enterro, era a hora de fechar o caixão, os enlutados colocavam óculos escuros para esconder as lágrimas e choravam em silêncio. As providências, obviamente, eram tomadas por familiares.

Já o velório de pobre era diferente. A casa nem sempre cabia todo mundo. Fazia-se uma fogueira no terreiro e providenciava um garrafão de pinga quando a vizinhança se incumbia do tira-gosto. A noite varava e, quase sempre, alguém ficava embriagado. As pessoas ficavam contando piadas e rindo. No local onde estava exposto o morto, cada qual comentava os seus problemas. De hora em hora, era rezado um terço e, na maioria das vezes, comentava-se, entre os participantes, o estado degenerativo do falecido. Alguns chegavam a beirar o caixão e observar se havia algo de errado, se o cheiro do defunto estava normal. Isso porque não existiam os cuidados existentes nos dias atuais. Ali, todo mundo dava palpite e a casa do morto virava uma "casa da sogra". Na hora de fechar o caixão, a gente via de tudo: gente desmaiando, outros não querendo deixar fechá-lo e havia quem aos gritos dizia: ---“Num vai, não, meu pai!” ou “Num vai, não, minha mãe!” --- Meu Deus! O que será de mim com essa fiarada!? O quê qui o sinhor fez cumigo, meu Deus do Céu!? Outros já berravam em cima do caixão: Eu quero morrer, tamém! Exclamações das mais variadas e não só choravam os familiares como, também, os vizinhos e os parentes diante de tamanho drama. Todavia, hoje as coisas estão modificadas para melhor.
Certa vez, trouxeram, das bandas dos Vieiras, um homem para ser enterrado. Veio trazido, em uma padiola, tipo de uma escada rústica. Teria sido emprestada à família do morto, uma casa que ficava no quarteirão da minha residência, na Rua José Furtado. A casa era de roceiros que a usava apenas nas ocasiões de festas. Era uma casa velha com uma pequena sala onde o morto foi depositado. O enterro foi marcado para o dia seguinte, às 8 horas da manhã. Não se fazia enterro à noite e, durante o dia, as providências não foram suficientes para que o sepultamento se desse antes.
A vizinhança se mobilizou para o velório. Dona Ester já deu as suas voltas convocando a confraria. Ela e Maria da Sinhana já se apresentaram como puxadoras do terço. Maria do Ônor buscou flores entre os vizinhos e Alvino Ferreira estava pronto para dar banho e fazer a barba, etc. A confraria do bairro se fazia presente, cada um querendo prestar algum tipo de serviço. Naturalmente, todos tinham débitos com Deus e não queriam perder a oportunidade de fazer um resgate.

Minha família morava ali perto e eu acompanhei o meu pai pela noite inteira, nesse cumprimento do dever com a divindade. Aliás, eu acho que aprendi a beber cachaça foi em velórios. Meu pai sempre me permitia um golinho para tirar a friagem.
Lá pelas tantas, para um cavalo à porta da casa, apeia dele uma mulher magra, cabelos compridos e lisos, mal vestida e feia, com uma lanterna na mão, sem cumprimentar ninguém, iluminou a cara do defunto e já começou com o seu discurso de bêbada:

--- Pois é, seu safado! Cê morreu de repente pra me dexá na mão. Agora, quem vai tratá de mim? Isso era hora docê imbora pus inferno? Pois é, seu cachorro! Eu te dei por mais de dez ano e ocê acabou num me dano nada. Safado, cê só quiria o bem bão. Só quiria cumê a fruta! Na hora de apruveitá de mim ocê apruveitô de todo jeito. Agora tá aí todo gostosão, parece até qui lá vai pruma festa. Seu trem! Trem ruim. Agora, nem Deus vai querê me ajudá!

Nesse momento, entra em cena a dona do defunto, ou seja, a viúva:

---O quê que é isso? Onde já se viu isso? Ocê tá doida? O que ocê tá falano, Cumá Mariquinha? O Joaquim andava co'cê? Eu num acridito, num pode ser, meu Deus! Acho que eu morri e tô no inferno. Num pode! Isso num pode. Ocê andava com ele, Cumá Mariquinha!?
E a outra respondeu:
---Não Cumá Tiana, ele qui andava cumigo. Ele qui vivia inrrabichado ni mim e tem mais: se ocê qué sabe, meus dois minino é fio dele.

Logo, saiu resmungando, montou novamente no cavalo e saiu.
Nesse instante, a viúva olhou para o caixão e disse:

---“Era ela a sua canseira, né, disgraçado! Ah! Se ocê num tivesse murrido! Ocê ia chegá no inferno era vivo, mardito”.

Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos