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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

UM PECADO CORRIQUEIRO



Até o início da década de 60, a vinda da Cemig para Candeias foi a maior aspiração do povo candeense. O conforto, então, oferecido pela eletricidade era mínimo tendo em vista a fragilidade da Empresa Força e Luz Candeense de propriedade do Sr. Celestino Bonaccorsi.

A Usina do Sr. Bonaccorsi foi instalada em Candeias na década de 30 e na época foi um enorme sucesso. Candeias ainda não era um município emancipado, praticamente sem indústrias, ressalvando-se apenas alguns consumidores com pequenas máquinas que beneficiavam os produtos agrícolas. Portanto, a capacidade de produção daquela empresa se destinava, na maior parte, para a iluminação pública e residencial.

Com o passar do tempo, a cidade foi emancipada e começaram a surgir pequenas indústrias. A população, em uma ordem natural, foi aumentando e a empresa candeense, geradora de eletricidade, não procedeu a qualquer investimento visando o aumento da sua produção. Outro fator considerável foi a depreciação do equipamento, à vista de sua vida útil.

Candeias, pouco a pouco, ia ficando no escuro, como nos tempos idos. Na época da seca, quando as águas diminuíam, a situação se tornava, realmente, precária. As lâmpadas pareciam um tomate maduro. O lampião, a lamparina e as velas voltaram a fazer parte do cotidiano do povo candeense. O cinema tinha o seu motor gerador próprio, como também, a Farmácia São José. Os mais aquinhoados tinham lampião a gás, um instrumento chique e caro naquele tempo.

Acontecia, portanto, da cidade ficar às escuras de uma hora para outra, mesmo porque, estava sempre com problemas de ordem técnica devido ao estado obsoleto da geradora. Quando isso acontecia, a energia não voltava mais no mesmo dia. Só no outro dia, às vezes semanas.

A população não conhecia, nesse tempo, já no princípio da década de 60, um chuveiro elétrico. Esse era um aparelho de consumo pesado e não funcionava. À medida que a situação foi ficando pior, a empresa estabeleceu um critério de medir o consumo máximo de 200 wats para cada consumidor que pagava o mínimo. Os maiores consumidores tinham os relógios medidores de consumo.

O sistema que media o máximo para cada consumidor, do mínimo, consistia em uma ligação em série que tomou o apelido de “Pica-Pau”. A passagem de energia era regulada por uma lâmpada grande que ficava anexa ao poste de madeira, quando acontecia desta bater, suavemente, no poste fazendo o barulho semelhante ao picar do referido passarinho.

O ferro elétrico de passar roupa também não existia. Lembro-me de ver, à porta das alfaiatarias, os alfaiates aquecendo os seus grandes ferros de passar roupa à brasa. Enfim, não adiantava ter esses produtos elétricos porque não tinha como fazê-los funcionar. Apenas os rádios se faziam presentes porque o consumo desses aparelhos era menor, apesar de precário. Nas horas de pico, o som era mais baixo. Para se ter uma ideia, um chuveiro, daquele tempo, necessitava de 6.000 wats para aquecer a água. Um ferro elétrico de 1.500 wats e um rádio de 40 wats. Não existiam os rádios à pilha.

Portanto, é considerável a ansiedade do povo candeense pela vinda da Cemig para Candeias, o que traria, sem dúvida, uma grande melhora na qualidade de vida do nosso povo.

Tão logo se instalou a Cemig, na década de 60, começaram a aparecer os chuveiros elétricos. Até então, tomava-se banho de diversas maneiras: De caneco, de bacia, de chuveiro frio ou o chuveiro de serpentina ligada, diretamente, ao fogão de lenha. A Cemig veio e trouxe consigo o chuveiro e o ferro elétrico de passar roupa. Esses, consequentemente, já contribuíram com a eliminação do fogão à lenha que veio a ser substituído pelo fogão a gás. Como esses exemplos, outros, também, surgiram como o liquidificador, aquecedores, ventiladores, etc. Com o fogão a gás, veio o forno a gás e a panela de pressão.

Itamar Freire foi o precursor na distribuição desses produtos. Portanto, a Loja Itamar Freire ocupa um digno espaço na história de Candeias.

Entretanto, mudando o rumo do assunto e falando da usina elétrica do Bonaccorsi, me veio à mente um fato antigo que se encontra guardado bem nos fundos das minhas memórias.

Em Candeias, nessa época, e acho que até hoje, existem encontros religiosos nas próprias casas. Terços, novenas e outros rituais que reunem a vizinhança de um quarteirão ou um bairro. Nessas rezas, sempre tinha um puxador de terço ou de novena. No meu meio, eram Donas Ester, Maria da Sinhana e Marica da Melada.

Dona Joana do Galdino era uma idosa carola, nossa vizinha da Rua Coronel João Afonso. Não perdia nada que fosse relacionado à igreja. Tinha o seu lugar cativo na igreja sendo que outras pessoas não ousavam ocupá-lo. Preparou um terço na sua residência e visitou toda a vizinhança fazendo o convite para o evento. Praticamente, todo mundo ia a esses encontros porque, caso contrário, os donos da casa ficavam melindrados com aquele que não aceitasse o seu convite.

Para puxar o terço, foi convidada a outra vizinha de frente, Marica, filha da Melada Barros. Marica era sobrinha do Sr. Erasto de Barros. Baixa, magra, de cabelos curtos, boca pequena e olhos fundos. Fala esperta e portava um jeito espevitada. Extremamente, nervosa. Dava chilique por qualquer coisinha e era cheia de manias. Mania de limpeza, mania de falar alto, mania de xingar. Estava sempre perdendo a estribeira. Tinha nojo de tudo. Muitas vezes dizia: “A coisa mais porca do ser humano são as mãos. Elas coçam todos os orifícios do corpo.” Era muito franca. Jamais, engolia uma contrariedade. Falava na cara de qualquer um aquilo que lhe contrariasse. Não mandava recados. Viesse o Papa! Seu marido, o Quincas Guimarães, cortava um doze com ela quando estava com o seu famoso mau humor. Contudo, era uma pessoa de bom coração e caridosa.

Era sexta feira às oito horas da noite, a hora marcada para a cerimônia. A vizinhança enchia a pequena sala da casa de Dona Joana, então, toda eufórica com aquele movimento em sua casa. Não havia nem televisão e nem novelas nessa época.
Começa a reza com um canto religioso. Marica puxa o terço. Lá pelo segundo mistério, alguém solta um pum. Daqueles sorrateiros que deixa uma pergunta no ar: “Quem será esse?” O ambiente se tornou insuportável dada à fetidez do flato.

Notava-se a inquietação da Marica, toda cheia de nojo. Entretanto, a reza continuava e a pergunta também. Talvez, na cabeça da Marica a interrogação fosse mais aguçada: “Quem será esse desgraçado!?”.
No quinto mistério, quando a poluição do ambiente foi aliviada, novamente o ambiente é detonado com uma bomba, talvez, mais poderosa do que a de antes e também sorrateira.

De repente, Marica levanta tremendo dos pés à cabeça e fala:

---Olha, aqui, gente! Se alguém saiu de casa para vir soltar gases aqui, por favor, controle-se. Aqui não é lugar disso! Não consigo puxar um terço com essa fedentina atrás de mim. Isso está parecendo um inferno! Soltar gases aqui é uma falta de respeito não só com a gente, mas, principalmente, com Nossa Senhora. Mas, dela ninguém esconde não! Se alguém fizer isso de novo, eu me retiro!

Nisso, o Bento, o netinho mais novo de Dona Joana, próximo a sua mãe Conceição, perguntou:

---Mãe, o que são gases?

Foi quando Conceição, filha de Dona Joana, cochichou o significado no ouvido do filho e ele exclama:

---Eu sei quem foi! Foi a vó. Ela já deu uma porção de peido, hoje!

Assustada, Dona Joana do Galdino se levanta, humildemente, e posta-se diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida e diz:

---“”Perdoa eu, minha Mãe Santíssima! Eu num fiz pur querer. Foi escapulido. Agora, o outro num fui eu não minha mãe! Eu juro pur essa luz que me alumia que num fui eu!””

Por incrível que pareça, nesse exato momento, a luz apaga e em meio a escuridão, Dona Joana grita:
Perdão, minha Santa! Eu não tenho certeza se eu dei só um não!

E o terço terminou tumultuado o que foi um castigo para Dona Joana. Já na rua, em meio à escuridão, Marica da Melada, como sempre agitada, dizia:
---Só me faltava essa! A Dona da casa peidando no terço. Faça-me o favor!!!

Armando Melo de Castro

Candeias MG Casos e Acasos




Um comentário:

Meire disse...

Adoro ler teus casos. Sinto muito meu pai nao estar vivo para poder ler para ele.
Abraços

Meire L Gomide