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sábado, 14 de janeiro de 2012

O PEQUI E O VIAGRA

Semana passada, eu vinha da cidade de Formiga para Candeias, quando vi parado, à beira da estrada, um micro ônibus cujo motorista me fez um sinal para parar. Como havia mulheres e crianças ao redor do veículo, resolvi parar imaginando que estariam precisando de algum socorro. Logo, tomei conhecimento de ser o veículo da cidade do Rio de Janeiro e sua lotação era de uma irmandade crente, em uma excursão por aqui, pelo interior de Minas (suponho que estavam indo prestigiar um casamento gay em algum lugar). Eram todos cariocas, pois pareciam ter um “x” na ponta da língua que chiava mais do que bico de chaleira.

A primeira a me abordar foi uma mulher morena, estatura mediana e cabelos pintados de roxo. Parecia estar coberta com um jaleco comprido cor-de-rosa. Braços e pescoço, excessivamente, ornamentados, com brincos argolados e um sorriso agradável. Enfim, a ex-donzela tinha uma estampa genuína de perua. Bem diferente do padrão dos crentes daqui das nossas bandas. Veio com um punhado de pequi nas mãos e me perguntou:

---Moço, essasx frutinhasx são osx famososx pequisxx? 

Apesar de saber que o tratamento de moço seria uma força de expressão, respondi, contentemente, como um velho rejuvenescido:

---Sim! Isso aí é pequi, sim! 

Pensei, cá comigo: Que bicho frouxo é carioca. Parar um carro para saber se isso é pequi. Todavia, como já que eu tinha parado, resolvi ser um mineiro hospitaleiro e dar asas à curiosidade daquela gente. Tornei-me, portanto, voluntariamente, em um guia turístico.

Verifiquei que aquela confraria de crentes cariocas não conhecia o pequi e estava próximo de uma grande árvore carregada da fruta. Todavia, diante de uma incógnita, pois conheciam a fruta apenas pelo nome. Alguns já teriam consultado a internet. Afinal, estavam bastante curiosos sobre como consumir aquele produto do cerrado que vem sendo tão difundido nos últimos tempos e que muito se comenta sobre os espinhos de sua castanha.

A faixa etária do grupo variava de dez a cinquenta anos. Cada qual mais curioso. Um queria saber como fazer licor, entretanto, foi logo contestado por um irmão mais conservador que lhe disse: 

---“Crente não bebe álcool e licor tem isso”. 

Já queriam saber como fazer pequi com arroz, com galinha, com isso e com aquilo. Queriam saber, também, como se livrar dos espinhos. Acho até que eles pensaram que eu era algum mestre cuca do pequi, haja vista me perguntarem como fazer o doce de pequi, no que respondi: "Doce de pequi eu nunca comi. Se existe eu não conheço."

Da janela do ônibus, uma mulher de uns cinquenta anos, mais ou menos, apenas ouvia as conversas e não falava nada. Entreanto, quando eu fui saindo, ela resolve fazer a última pergunta:

---Olha, aqui, meu senhor! Essa frutinha é, realmente, afrodisíaca como dizem? Falaram para o meu marido que é melhor que viagra! Será verdade? Se for, eu vou voltar para o Rio levando um saco para o meu marido."

A turma caiu toda na risada. Afinal, carioca é um povo muito bem humorado.
Supondo uma maliciosa intenção para a pergunta, já fui respondendo:

--- Dizem que é (falei com ar de brincadeira). Inclusive, por aqui, os meses que mais nascem crianças são setembro e outubro, ou seja, nove meses após a safra do pequi. (lenda é claro).

Dois gays comiam uma maçã encostados no ônibus, em silêncio, e apenas observando o movimento. Não estavam nem aí para o assunto de pequi. Assim que eu respondi a pergunta da mulher, eles riram e, com ar de gozação, vieram para cima do mineiro a fim de tirar um sarro e comentaram:

---Nossa! Que exagero! Então, é por isso que mineiro tem a cara de pequi, assim, meio amarelaaaaaaada???

Aí, eu mandei a minha resposta com voz forte e severa:

---Não, seu moço! Nós, em Minas, temos cara é de picadura de cobra! E fui saindo, quando um deles exclamou:
---Nossa!Assim eu gamo! Que mineiro violento!

Eu dei uma olhada para trás e, se ele entendeu o meu olhar tipo número 5 de Lee Marvim, naturalmente, deu para entender o que eu quis dizer. Afinal há olhares que dizem mais do que a boca, principalmente, numa situação dessas. Ainda ouvi, quando o outro disse:

---Ai! Afrodisíaco para mim é esse sotaque de mineiro! Ai, Ai, Minasxx Geraisxx. Meus Deusx, isso aqui é uma locuuuura!

Dessa maneira, aquela bulha de crentes ficou rindo e se divertindo às minhas custas e olha que eram crentes, hein! Imagine se fossem favelados

Armando Melo de Castro

Candeiasmg casos e acasos

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