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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

VIVER E MORRER


 Foto para ilustrar o texto. (Roberto Carlos no velório da apresentadora de televisão Hebe Camargo.
 
Atualmente, presenciamos um grande número de pessoas que procuram ultrapassar as leis naturais da vida. Pintam o cabelo, fazem plásticas, tentam imitar os jovens à custa de muito sacrifício, porém, o seu coração nem sempre aceita isso. Na realidade, sofrem intimamente e choram o tempo que lhes pertenceu e que não volta mais.

Quem até hoje não ouviu a frase saudosista das pessoas mais velhas: “Ah, no meu tempo!... No meu tempo era assim, assim, assim. Hoje é tudo estranho, está tudo muito pior.”

Quando ouvimos essa lamúria, essas queixas ou essa choradeira, acabamos por dar uma pequena volta ao nosso passado e chegamos até a concordar que, realmente, muita coisa está piorando. Todavia, esta questão merece uma reflexão:

Na medida em que o tempo vai ficando para trás, não podemos mais ignorar que antes as coisas, independentemente de serem piores ou melhores, eram muito diferentes. A sociedade era restrita. As pessoas viviam se imitando. Mudava-se muito pouco o cenário da vida. O que antes era um dia santo de festa religiosa é hoje um dia de labuta. Parece que o mundo vai, gradativamente, ficando sem sono, sem dormir e sem vontade de parar.
A vida com as suas regras e suas maravilhas vem se tornando, dia a dia, mais complicada para os idosos. Eis aí, portanto, o motivo maior do grande conflito de gerações que desencadeia entre as sociedades. As coisas se transformam da noite para o dia. O que há cem anos custava-se anos para se modificar, hoje, é feito em dias. O grande escritor Figueiredo Pimentel dizia que a vida não melhora e nem piora. O que acontece é, simplesmente, uma mudança de cada geração dentro dela.

Em 1960, eu ouvi do candeense, Mozart Sidney, que residia em São Paulo , que não fazia ideia do que seria São Paulo dali a dez anos. Dizia que aquela cidade teria um colapso em seu trânsito. E ao completar o tempo estipulado por Mozart, eu lá estava, na cidade de São Paulo, em 1970. Eu sentia como se houvesse chegado ao Jardim do Éden, pois, para mim, a minha vida se iniciaria ali. Era a era da Ditadura Militar, o tempo dos elevados e das grandes obras de infraestrutura da capital paulista. O país vivia conflitos constitucionais. A anarquia tomava conta das ruas e o povo cheio de esperança via grandes soluções serem tomadas, principalmente, na área do trânsito. Eu tinha vinte e poucos anos. Os dias eram pintados com cores fortes. E quando a gente falava das vantagens de morar na capital paulista, alguém sempre dizia: já foi muito melhor!


Na verdade, o mundo vem fazendo da vida um sacrifício maior para quem viveu no passado. Nem sempre, sabemos se é o mundo ou se somos nós que estamos, a cada dia, modificando mais apressadamente. Com isso, chega o momento de sentirmos saudade e é muito mais fácil sentir saudade do que acompanhar as novas gerações que inovam o mundo.

Quando jovem, a pessoa se integra no ambiente de maneira natural. Assim, sente que a vida lhe é satisfatória porque vive a vida do seu momento. A sua alegria interna transpira. Depois disso, o seu crescimento íntimo começa a se esmorecer e a sua evolução passa a bater de frente com o meio.

O mundo não piora para as pessoas. Ele piora para si. Uma geração jovem sente a mesma coisa que sentiu uma geração antiga. Amanhã a geração de hoje sentirá o mesmo desencanto que a de antes. Nesta sequência, bate a saudade que leva a dizer que, na sua época, as coisas eram melhores.

Portanto, concluo que é mais vantajoso aprender a ser velho e a substituir o prazer pela saudade. Devemos ajudar o coração a envelhecer com alegria. A nossa condição interior deve estar preparada para receber o sopro do vento que nos levará embora.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos









AMÉRICO BONACCORSI, UMA SAUDADE.


O grupo da foto é Abelino Salviano, Antonio Jacinto, Américo Bonaccorsi,José Delminda, Luizinho do Américo, João Virgílio e Dino Guimarães. O Dino ainda é vivo, os demais são todos já falecidos.
Ontem, dando uma remexida nas gavetas da minha memória, deparei-me com o “Jazz Tiro e Queda”, o histórico conjunto de Jazz do  maestro candeense Américo Bonaccorsi.
Uma das mais agradáveis lembranças que tenho guardadas, é deste grupo musical, genuinamente, candeense e que marcou época na história da nossa cidade.

Durante sua duração, a sua composição teve muitas variedades de músicos, entretanto, citarei, aqui, um grupo que formava o elenco mais constante nos eventos abrilhantados pelo Tiro e Queda:
Na parte de solo, apenas com instrumentos de sopro, estavam o Américo (saxofone), o João Virgílio (pistom), o Zinho Borges (trombone).

No acompanhamento, Luizinho Bonaccorsi (filho do Américo) na bateria, Zé Delminda, no banjo, o Pedrinho do Candola no cavaquinho, e eventuais auxiliares na maracá, no pandeiro e em outros instrumentos. O cantor era o Zé Vilela com o seu repertório romântico. Não existiam instrumentos elétricos.

Como santo de casa nunca faz milagre, os grandes bailes e os eventos importantes em datas especiais, eram abrilhantados pelo Conjunto Centenário de Formiga e pela Orquestra do Totó de Campo Belo. Outras orquestras passavam por Candeias, muitas das quais internacionais que viviam em turnê pelo país. Um exemplo é “O Cassino de Sevilha”, uma grande orquestra espanhola, com mais de duzentos anos de formação e que, até hoje, viaja pelo Brasil e por outros países. Esta famosa orquestra esteve em Candeias por mais de uma vez, nos bailes organizados pelo então Clube Recreativo Candeense.

Certo número de jovens criticava o conservadorismo do “Tiro e Queda”, pois, dificilmente, aparecia com uma música nova. Acontece que, naquele tempo, o sucesso não era coisa efêmera. Era duradouro. As condições técnicas eram precárias, afinal tratava-se de músicos que não viviam somente da música. Contudo, mesmo assim, a presença do Tiro e Queda era constante, principalmente, para o carnaval quando o conjunto ensaiava as músicas novas e era visto como muito bom para eventos carnavalescos. Durante anos e mais anos, o carnaval candeense foi animado pelo famoso “Jazz do Américo”.

Os bailes programados pelo então Clube Recreativo Candeense eram de alto nível e, mesmo quando apresentados pelo modesto Tiro e Queda, diante das críticas na comparação, os jovens se portavam de terno e gravata como se fossem para o altar e as moças, vestidas com afinco, como se estivessem indo ao encontro do noivo. Aliás, antigamente, um namorado tomava banho e se trocava de roupa para ir ao encontro da namorada que, por sua vez, o aguardava, também, preparada. Isso era muito bonito, muito romântico. Infelizmente, nos dias de hoje, essas coisas já não são tão levadas a sério.

Atualmente, não temos mais um conjunto musical sequer ao nível do popular “Jazz do Américo”. O mundo eletrônico nos roubou esse contato direto com a música. O cantor de hoje não vive mais a canção. O computador fabrica vozes e roubam o verdadeiro som do instrumento. As composições são vazias e troca, na maioria das vezes, o sexo pelo amor na hora da inspiração.

O Jazz do Américo tinha a voz fiel da música. O seu sax era ouvido de longe e ele amava a música como se amasse o seu próprio “eu”. Participou, durante anos, como membro da Banda Musical Nossa Senhora das Candeias e de todos foi sempre o grande amigo, o grande colega.

Américo Bonaccorsi nasceu no antigo Arraial de São Francisco de Paula, filho de Italianos da família Bonaccorsi que primeiro se aportou em São Francisco vindo, posteriormente, para Candeias. Américo Bonaccorsi é um orgulho para os italianos e para nós candeenses. Um candeense por adoção que amou Candeias tanto ou até mais quanto qualquer outro que tenha nascido em seu solo. Serviu Candeias, não somente com a graça de sua música, como também com os seus serviços como grande comerciante de aves e ovos que eram enviados para o Rio de Janeiro nos tempos em que não existiam essas numerosas granjas. Esse seu comercio trazia grandes divisas para a economia candeense como também a prestação de serviço oferecida pelo seu famoso “Candeense Hotel” conhecido em diversos pontos do Brasil. O nosso Maestro Américo Bonaccorsi era, também, tio-avô do famoso maestro de nome internacional, Silvio Barbato, que faleceu num acidente de avião numa viagem à França.

Casado com a senhora Alice Viglioni com a qual teve cinco filhos. Prole que sempre participou intensamente da sociedade candeense. Luiz Bonaccorsi Neto (Luizinho do Américo), Wander Bonaccorsi (Wandinho do Américo), Armida Bonaccorsi, Sônia Bonaccorsi e o caçula, Enio Bonaccorsi.

Américo Bonaccorsi era um homem de grandes amigos. A sua amizade com o meu pai, José Delminda, era como se fosse uma ligação de irmãos.

É muito difícil existir uma pessoa que não saiba ofender alguém. Pois, Américo Bonaccorsi não sabia. Era um homem inofensivo que fazia da música a sua verdadeira oração. O silêncio do seu instrumento musical entristece as lembranças de quem lhe conheceu. Sua morte foi como uma ribalta que se apagou para a musicalidade candeense entre todos que o conheceu.

Lembrar do músico Américo Bonaccorsi é lembrar de tempos áureos. Portanto, onde quer que esteja, meu querido amigo Américo Bonaccorsi, receba o meu abraço e a minha saudade ao som de “O abre-alas” e de “Jardineira”. E por que não dizer, também, ao som do Bolero de Ravel e da Aleluia de Mozart?”

ARMANDO MELO DE CASTRO
Candeias MG Casos e Acasos



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

AS MARCAS DO TEMPO.

Foto para ilustração do texto.
Um dia desses, eu me encontrava assentado em um banco da praça enquanto apreciava a sombra das árvores, os canarinhos amarelos (sumidos que voltaram), os tico-ticos, os bem-te-vis, os tizius, os pardais, os sanhaços e outros mais que, costumeiramente, enfeitam as praças de Candeias. Nesse deleite, pude, também, voltar a minha juventude, quando alardeado, eu me julgava um gato correndo atrás de uma gata. Era, então, a época da Jovem Guarda que foi a era da gíria. Pena que as gatas, daquele tempo, se tornaram borralheiras e os gatos, coitados, nem sequer sobem nos telhados.

 Passando pelo local, veio o Nélson, um velho amigo, que se mudou para a cidade de Formiga e estava em Candeias pela morte de um parente. Cabelo e bigode pretinhos como carvão com a raiz branca (essa coisa de quem quer tapear a si próprio). Quase não o conheci. Aparentando ser um pouco mais velho do que eu, o amigo ancião vinha ao meu encontro com seus passos de ganso além de mancar um pouco. Com certeza, se encontrava incomodado por algum cravo, calo, joanete, calcanhar- de-aquiles, gota, varizes, hemorróida, unha encravada ou sei lá o quê. Só sei que mancava com aquela manqueira de gente velha. É conhecido o mancar de velho porque este é associado a um semblante de cansaço. É o tal de passo a passo. E se tem uma subidinha,  é uma peleja.
 Aí, perguntei ao Nélson:

---Como vai, Nélson?

 --- Bem mal. respondeu. Eu sinto tudo quanto é dô no corpo.

---E você já foi ao médico? Perguntei.

 ---Fui sim, mas, não valeu nada e eu num vorto lá mais nunca.

 ---Mas, o que houve afinal?

---Um mardito de um exame de “prosta”. Só de lembrá, eu fico com vergonha de mim. E parece que o dotô achou “bão” a sacanage.

---Mas, Nélson, esse exame é necessário para nós homens. O câncer prostático é violento, disse.

--- Eu morro, mais, num faço isso mais. Nunca mais... Só de lembrá disso, perco toda a minha natureza. Eu fiquei mais de um “méis”, sem natureza. A minha mão de pilão vinha socando um pilãozinho novo, eu tive até que arrumá umas discurpa amarela até o mal passá.

---E o viagra?

---Nem viagra tava resorveno de tanta vergonha que eu sinti. Na hora do bem bão, eu lembrava do dedão e aí cê já viu ... Eu só sei dizê que ficá véio não é faci não, Armando. Esse negócio de prosta só de falá nisso eu arripio.

Nelson seguiu o seu caminho e eu fiquei lhe observando; parecia que pisava entre ovos ou entre espinhos.

Certa vez, eu fui comprar cerveja em uma adega próxima de minha casa. Um garotão robusto estreava naquele dia como balconista e me faz a seguinte pergunta:

---Qual a cerveja?

---Antarctica, respondi.

 E, numa segunda pergunta, ele quis saber:

---Por que todo velho gosta de cerveja Antarctica?

 Então, eu lhe disse:É porque o rótulo é mais bonito...

Outro dia, no Supermercado do Zé Cabeça, eu estava com uma abóbora madura na mão e na fila. Coisa de velho. Uma abóbora dessas, antigamente, dava-se para os porcos eis porque muitos, ainda, chamam-na de abóbora de porco. Duas mulheres, na minha frente, disseram:

---O senhor pode passar na nossa frente.

Eu passei. E ao sair, ouvi quando disseram:

---Coitado! Na fila, para comprar uma abóbora.

Apesar da gentileza daquelas moças, no fundo, no fundo, elas tiveram foi pena dos meus cabelos brancos.

Em outra ocasião, estive na loja de informática que fica ao lado do Cartório Viglioni e uma mocinha perguntou-me:

---O senhor mexe com computador?

E ao respondê-la, positivamente, com outra pergunta (o que não é bem delicado) mereci uma resposta vulgar:

---Sim, por quê?

--- É porque o senhor já é velho...”.

Na sede do Rotary, próximo da casa de minha mãe, existe um forró da terceira idade, todas as quartas-feiras. O meu amigo Mané é o chefe do evento. Após convidar-me, por diversas vezes, para uma visita, compareci, por duas vezes, apreciando a moçada cuja faixa etária variava de 60 a 90 anos. Ali, eu tive um grande conforto. Olhei para um lado e para o outro e me senti como um garoto da velhice. Paguei R$ 1,50 para entrar e ainda ganhei um saquinho de pipoca. Bebida lá nem água. Respeito absoluto e depois das 22 horas nem um minuto a mais.

Outra vez, voltei lá. Retumbava uma música apaixonada. João Catoco, com a sua viola na mão, estava acompanhado de outros músicos e cantores. Olhei para as damas e vi a Cilica do Quinho, sempre generosa e gentil comigo, junto da sua amiga Sílvia Patarrata. Dancei com a Cilica. Devagarzinho, é claro. Nossa! Como gostei. Há tantos anos, eu não dançava e, então, ela me pergunta: ---Você se esqueceu que eu pajeei você quando era um menininho? Seus pais eram meus vizinhos e eu gostava de te pegar. Eu tenho a lembrança do menininho bonito que você era no meu colo. 
E eu disse como esquecer esse carinho?! Eu bem que gostaria Cilica que você tivesse me pajeando até hoje!  


Eu gosto muito da Cilica por esse carinho antigo.

Saí dali bem confortável.  Parecia ser o primeiro dia da minha adolescência na velhice. E ao sair, eu vi dois jovens que pensavam em entrar e foram barrados visto que o ambiente é exclusivo para idosos. E um deles disse:

“Nossa! Que velharia! Faz até dó, está tudo na hora da morte!”

 Em pensamento, eu lhe disse: Eu só concordo com você porque um dia eu também fui jovem quando eu criticava os velhos. Hoje sou velho e critico os jovens.

 Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos


terça-feira, 9 de outubro de 2012

UM VOTO SEM LOUVOR


Esta foto retrata a lambança moral que se encontra a politica brasileira.
Juntos, Lula, Collor, Sarney, Fernando Henrique e Dilma... É o proletariado lambendo a elite... Quem diria hem Lula!...
 A cada anO que passa, a estratégica política vai, progressivamente, ficando mais atrevida, mais audaciosa, mais grosseira e sem civilidade. Estamos vendo, por aí, não somente em Candeias, mas, por todos os lugares, uma enorme falta de qualidade e despreparo dos candidatos, principalmente, a vereador. Percebe-se, claramente, que certos indivíduos pensam que ser vereador é assentar-se em uma cadeira, uma vez por semana, tecer alguns comentários sobre certos assuntos e ficar aguardando o gordo salário que sai do bolso minguado da população.

\Entretanto, quem pensa assim não está tão errado. Na realidade, pelo que acontece na prática, acaba sendo isso mesmo. O que um vereador faz para ganhar um salário tão alto? Não faz muito tempo que vereador nem tinha salário. Se a bocada não fosse tão boa, ninguém ia procurar ser um vereador. Afinal de contas, será que os vereadores de pequenas cidades merecem o benefício monetário que recebem pelo que fazem. A principal atividade de seu ofício é participar de uma reunião semanal da qual não sai quase nada. No mais, é ficar puxando o saco de deputado safado que apenas visita os municípios nas épocas das eleições. Vêm, prometem mundos e fundos e, depois, somem. E se fazem alguma coisa para a população ficam, posteriormente, batendo nessa tecla pelo resto da vida.

Os pedintes de votos são iguais aos mendigos. Em seus discursos constam sempre as promessas que jamais irão cumprir. Dessa maneira, compreendemos a frase popular que diz: “Engana-me que eu gosto”.

Por falar pedintes de votos que pedem como esmolas, eu tenho observado que os cabeças de chave têm usado, agora, de uma nova estratégia. Levam as pessoas humildes a se candidatarem. Pessoas sem a menor condição de assumir sequer a faxina da Câmara Municipal, pleiteando alguns votos a fim de serem somados à legenda. Isso é uma verdadeira vergonha.

Tenho visto, em minhas andanças pela vida, mendigos serem candidatos à função pública de vereador. Essas pessoas sabem muito bem o uso do vernáculo pedir.
Eu vejo nisso um grande desencontro técnico, uma imensa desarmonia ideológica, uma enorme divergência filosófica e, finalmente, uma aberrante discordância humana. Isso porque, para qualquer atividade, é necessário ao cidadão estar preparado. E, no entanto, para se candidatar a essa importante função pública, ou seja, para ser um agente público que terá o poder e a responsabilidade de legislar sobre as questões de relevância e interesse para o município basta saber rabiscar o nome e soletrar palavras. A prova maior disso está no legislativo federal, mais precisamente, na Câmara dos Deputados que é composta, atualmente, pelo deputado federal e “palhaço” Tiririca, representando o povo do estado de São Paulo. Quantos votos seus sobraram para fortalecer a sua legenda? O bom candidato nem sempre é eleito mesmo tendo muitos votos. O sistema político do Brasil fortalece os partidos. E é por isso que os partidos ficam colocando pessoas famosas como jogadores de futebol, artistas de televisão ou pessoas humildes que sabem e não se acanham em pedir votos na ilusão de que serão eleitos. Pura estratégia dos donos dos partidos. E o pior que vêm conseguindo seu intento. O povo precisa ser conscientizado. Todavia, qual o político que vai se preocupar com essa questão?

Eles, os políticos, não percebem, contudo, a gente, que está de fora, vê a agonia em que eles ficam por causa de um voto. Em cidades pequenas, onde todo mundo conhece todo mundo, mesmo eles sabendo que existem eleitores que já estão comprometidos com seus candidatos, aproximam-se e mendigam o seu voto, com falsas promessas. E são promessas falsas ou porque estiveram lá e nada fizeram ou nunca estiveram por lá e não sabem nada de nada.
A gente fala da desonestidade dos candidatos, fala da corrupção que os rodeiam, mas, é preciso ressaltar que existe eleitor safado, vergonhoso, indecoroso, duvidoso e desleal. Aquele que vende o seu voto ou aceita alguns benefícios em troca de voto é tão desonesto quanto o que compra. O voto deve ser dado livremente e não comercializado de forma banal como vemos dentro da nossa sociedade.

A diferença é que os eleitores são desonestos somente na época de eleição e o político durante o mandato, fazendo o seu caixa para as próximas eleições quando terá que estar provido de recursos para nova compra de votos.

É praticamente impossível alguém se eleger sem comprar votos. Só se não existisse eleitor safardana e mercenário.
\
São muitas as maneiras de comprar votos e muitas delas nem as leis conseguem acautelar. Ninguém sai por aí pedindo voto para alguém sem levar a sua bela vantagem. Eu conheço um cabo eleitoral que vive fazendo dívidas com promessas para a próxima eleição. Para mim, o indivíduo que leva vantagem em troca de voto é um imoral, infame e vil. Isso porque vendendo o seu voto ele estará fomentando a corrupção.

Certa vez, na cidade de Governador Valadares, eu acompanhei um cidadão que foi à presença de um deputado eleito para cobrar deste um quilômetro de asfalto. Tratava-se de um pequeno trecho que dava acesso a sua comunidade. E, friamente, na minha presença, esse deputado respondeu para o seu cabo eleitoral que lhe teria rendido quase mil votos: “Você está de brincadeira não é, turco?! Eu não lhe devo nada, rapaz! Os votos que você me arrumou já foram muito bem pagos”. Restou ao comerciante de voto enfiar o rabo no meio das suas pernas e sair calado. E, agora? Isso representa apenas uma amostra do povo levando...
Enfim, os eleitores desonestos são os grandes responsáveis pela corrupção dos políticos. Assim, uma parte menor corrompe os políticos e esses corrompem o povo todo.

Apesar de existirem leis que impedem esses benefícios da venda de voto, na prática, isso se torna impossível de ser evitado. Os chamados cabos eleitorais são os agenciadores dessa pouca vergonha entre candidatos e eleitores. Portanto, o jogo político consiste num mercado negro complicado de ser controlado. Não é difícil observar que, nos dias atuais, não existem mais as paixões partidárias. Hoje, são apenas interesses. E aquele que recebe ajuda do eleitor profissional pode esperar a facada. Quando vimos alguém falar que está trabalhando política é o mesmo que estar falando: estou ludibriando os idiotas para votarem em mim ou em meu candidato.

Sintetizando, vale a máxima de Maquiavel, presente em seu relativismo: “Os meios justificam os fins”.
Dentro das gavetas de minha memória, se encontra a história do Quilico, o grande candeense Aquiles Langsdoff, um exímio serralheiro da nossa cidade. Era um homem inteligente, descendente de pai alemão e construtor da grande cruz que se encontra no Bairro do Alto do Cruzeiro. À noite, estava sempre ali no Bar do Sebastião do Leonides, hoje, do seu filho Carlos.

Certa vez, um partido político insistiu tanto para que ele fosse candidato que ele se candidatou na marra. Achavam que por ser ele uma pessoa inteligente poderia ganhar muitos votos. Ao término da apuração, quando alguns eleitores estavam reunidos no referido bar, chega um cidadão com a lista dos candidatos e seus respectivos votos. Anunciara que Quilico recebera dois votos.

Ao saber disso, o serralheiro disse: “Vejam, aposto que estes dois votos foram do Sebastião Redondo e de sua esposa porque me disseram que votariam em mim devido a um favor que lhes fiz. Eu bem que insisti com eles para não desperdiçarem os seus votos. O pior que agora serei suplente sem querer.”
Isso é que se pode chamar do tempo em que se amarrava cachorro com a linguiça.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos




Candeias Casos e Acasos