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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A COBRA SUCURI


 Wanderley Carvalho, o Leley, é um dos meus grandes amigos que reside, hoje, em Brasília. De vez em quando, aparece aqui, na terrinha, com a intenção de matar a saudade e rever seus irmãos, Carmélio e Iveta, além de seu sobrinho, Aírton Cordeiro. Durante o tempo em que morou em Candeias, dedicou-se ao ramo comercial de bares. Era o tempo dos bons bares em Candeias. Foi proprietário do antigo Bar do Bóvio e, depois, foi para o sobrado do Levy. Dali, mudou-se para a cidade de São Sebastião do Paraíso, localizada no sul de Minas, próxima a Passos, onde adquiriu um bar/restaurante muito bem montado.

Eu era bem jovem e fui trabalhar com o Leley, nessa cidade, em que fiquei durante todo o ano de 1962. Foi um tempo bom. Sabe-se que um balcão é uma verdadeira escola. Como eu flutuava nesse tempo em busca de conhecimento da vida, acabei aprendendo muita coisa naquele ofício.
Éramos dois funcionários. Um atendia o balcão e o outro atendia o salão. O meu colega era o Caiana, meu grande amigo e que se tornou, posteriormente, motorista de caminhão vindo a falecer, em um trágico acidente, nas imediações da cidade de Arcos. Era filho do Gérson, funcionário da Ferrovia.

Para o serviço de carregação, Leley levou o Tiguinho, também, falecido. Indivíduo apalermado, extremamente simplório. Do tipo cabaceiro que busca e leva a cabaça dágua para o trabalhador rural. Aliás, Alcino do João Sidney, irmão do Mozar Sidney que era cafeicultor em Campos Altos havia levado o Tiguinho para esse tipo de trabalho e, por uma questão ínfima, ele abandonou o serviço, colocando o pé na estrada sem dizer nada para ninguém. Voltou para Candeias, seguindo a estrada de ferro e foram vários os dias nessa viagem, dormindo à beira do caminho e pedindo comida nas casas das turmas. Leley que acabou sabendo dessa sua viagem extravagante trazia Tiguinho sempre às vistas.

O Bar do Leley situava-se na entrada da cidade de São Sebastião do Paraíso, bem afastado do centro. Contudo, era o ponto predileto dos artistas que visitavam a cidade e da sociedade bem remunerada tendo em vista as boas instalações e a qualidade da comida feita com esmero pelas suas irmãs, Quinha e Iveta, com a participação de sua mãem Dona Maria. Conceituadas prendas na arte culinária.

As atribuições do Tiguinho seria transportar um engradado de bebida, buscar ou levar alguma coisa e fazer a faxina no final do expediente. No mais ficava por ali. Tornou-se conhecido dos fregueses e dado ao seu porte um tanto tolo, passou a fazer o papel de bobo da corte e tudo que lhe falava ele tinha apenas uma resposta: Ouáááááááááááá!!!!
O tempo cuidou-se de nos devolver a nossa amada Candeias. O contrato de aluguel entre o Leley e o dono do ponto terminou e este não quis renová-lo.
Novamente, em nossa terra, continuamos amigos e Caiana resolveu cumprir uma velha promessa então feita ao Tiguinho, por diversas vezes, durante a convivência em São Sebastião do Paraíso. Seria levá-lo à zona do meretrício e lhe proporcionar a companhia de uma mulher para que pudesse, então, deixar de ser donzelo, pois afinal, ele já tinha trinta e oito anos e ainda não havia lhe acontecido nada, sexualmente falando. Estava ainda na estaca zero. Foi tudo muito bem combinado. A mulher era uma mulata alta, alentada, mais para gorda. Cabelo enrolado. Rosto cumprido, lábios vermelhos, trajando um vestido esverdeado meio curto, mostrando umas pernas grossas, das quais Tiguinho não tirava os olhos. A ex-donzela, antes de seguir para a sua tarefa, pediu um trago de rabo-de-galo (pinga com vermute). Traçou aquilo, sem fazer careta, juntou Tiguinho pelo pescoço e seguiram para o quarto, após ter sido previamente informada, sobre a inexperiência sexual do imaculado, daquele a quem lhe incumbiria tirar-lhe a virgindade.

Ali, naquele comércio de prostituição, havia muitas pessoas e como o Tiguinho foi sempre muito conhecido pelo seu jeito de ser, a sua presença despertou, para os presentes, bastante atenção. Caiana, com aquele seu jeitão, dizia: eu trouxe o Tiguinho aqui para sangrar a “curuja” e eu, como fazia parte da comissão incumbida daquela desfloração, fiquei apostos para ver o resultado.

Tendo decorrido uns dez minutos, ouve-se um grito da mulher. Daí a pouco a porta se abre! E a mulher assustada diz:
---Isso é homem ou é uma sucuri?! Esse cara é aleijado, Caiana!!!
Corremos ao seu encontro e o pegamos tremendo, feito uma vara verde, dizendo:
---- Uai! Eu só comecei e ela já deu um grito!

Pois é, Tiguinho! Nós bem que tentamos ajudar você, mas, uma cobra sucuri mata só de susto.

Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos
Candeias –Minas Gerais

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O ÉBRIO E O ABSTÊMIO


Hoje de manhã, a minha filha Bruna, que nunca havia comido caqui, me perguntou qual o gosto da fruta. Eu lhe disse que o caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

UMA CARTA MEDIÚNICA



Foto Zineblogue bissexto)

Ao meu compadre Wanderley Alvarenga,
Onde quer que esteja:
      Com certeza, você está nos céus! Enquanto esteve por aqui, na terra, eu sei que andou brigando com Jesus Cristo, todavia, acredito que Ele já o perdoou. Afinal, Jesus é Jesus. 

Esta é uma carta espiritual que você vai lê-la à medida que a escrevo em estado mediunizado. Não é uma carta daquelas usadas nos nossos tempos, quando entregava ao correio e já começava a esperar a resposta demorada. Eram quinze, vinte, trinta dias depois e, às vezes, nem tinha resposta porque as extraviavam. Nossa! Que tempo era o nosso, hein!? Comunicação entre as pessoas era coisa difícil. Na maioria dos casos, era somente através de carta postal. Não existiam essas facilidades de hoje. Vamos, portanto, recordar um pouco do nosso tempo, enquanto lhe passo, também, as últimas notícias daqui, do andar de baixo, através desse contato mediúnico.



Lembra-se quando você esteve trabalhando em  Brasília e me escreveu aquela carta dramática? Aquela carta que você começou assim:
“Parece que a distância se compraz em judiar com a gente. Atravesso a avenida com o coração espedaçado pela angústia e pela saudade de minha querida terra, a minha amada Candeias!”


Lembro-me que fui correndo olhar no dicionário o que era a palavra compraz e ainda fiquei pensando: “O meu amigo Ley está ouvindo muito discurso da “deputância” lá em Brasília.


Você gostava de palavras diferentes, se lembra? Aconchegar, olvidar, marital, entre outras. Certa vez, o Zé Moreira falou que você vivia iscrafunchando a vida dos outros e você para lhe dar o troco disse:
“Não! Eu não “iscrafuncho”, eu escarafuncho.”
Por causa disso, a turma lhe tirava um sarro.

E quando nós trabalhamos no teatro? Você tinha uma memória privilegiada e decorava o seu e os nossos papéis. As palavras “difíceis” passavam a pertencer ao seu vocabulário. Outra coisa que eu me lembro sempre é de suas paixões. Aliás, você se apaixonava e desapaixonava com tanta facilidade, Ley! Na mesma hora que você estava naquele entusiasmo, fazendo poesias, fazendo frases para a garota, você já estava desgostoso. Lembro-me de uma moça chamada Antônia que você começou a namorar durante as festas de Nossa Senhora do Rosário. Enquanto você e ela se encontraram à noite, foi tudo muito bem. Muita poesia, muito beijinho, muita balinha de hortelã para apurar o hálito, muito carinho, muito amor. 
Entretanto, a partir do momento em que vocês se encontraram durante o dia, já não havia mais tanto interesse por sua parte. Lembra-se, dessa situação? Eu lhe perguntei: “Mas, o que houve?” e você disse prontamente:
“Sabe, Armando, não suporto mulher com o calcanhar rachado. Dá-me a impressão de que ela é toda rachada e descuidada.”

Semana passada, Ley, eu estive assentado num banco da praça, bem defronte ao cinema onde você tinha o barzinho. Naquele lugar que, por tantas vezes juntos, em uma época tão remota, mas, tão doce, tão presente em meu coração e em minha memória, acabei recordando-me de você e pude, inclusive, escutar a sua voz o que me fez até mesmo rir sozinho. Lembrei-me de quando, logo nos primeiros dias da inauguração do boteco, ouvi de você:
“Armando, as mulheres são muito interesseiras! Só por causa dessa meia dúzia de garrafas na prateleira, já estou cheio de pretendentes.”


Outra coisa que eu nunca me esqueci, foi o dia que o Ênio Bonaccorsi comeu todos os pedaços de doce que existiam em um prato na vitrina. Quando ele saiu, você deu com a língua nos dentes e disse para nós, os outros fregueses:
“O Ênio está se tranformando em um grande glutã.”
Eu, que nessas alturas do campeonato, já não era muito bobinho lhe disse: Não é glutã, Ley, é glutão! E como você tinha resposta para tudo, pois, quando perdia ainda conseguia arranjar um empate, e em sendo o Ênio filho de italiano, você saiu com essa:
“Eu sei. É porque eu falei em italiano.”
Foi quando a turma lhe tirou o pêlo, querendo saber em que escola você havia aprendido o idioma italiano.

Depois desse barzinho, você comprou o Bar do Tião Cassiano, no qual, posteriormente, você o repassou para o Lulu e, hoje, está com a Cidinha. Logo nos primeiros dias, ocorreu uma das maiores encrencas da sua vida. Você brigou com um freguês que comeu algo e não tinha como pagar. Queria atacá-lo com um taco de sinuca e ele colocou o cabo de uma arma de fogo para fora da camisa. A sinuca estava cheia. Todo mundo saiu de fininho, na hora. E quem ficou para te ajudar? Lembra-se? Eu e o Amarleno sanfoneiro. Fui levando você, no peito, para o seu quarto e o Amarleno, com aquela conversa macia, acalmou o cara.


 Aquele dia, meu amigo, eu vi o caldo entornado. Um cidadão mal encarado, estranho, forasteiro que ninguém sabia quem era e você o agravou com palavras muito ofensivas, ferindo-lhe os ouvidos. Naturalmente, estava pensando em lhe dar uma bala de chumbo para chupar. Ah! Compadre Ley! Quando você viu que o cara lhe encarou, eu não tenho dúvida que você achou muito bom eu ir levando você para o seu quarto. Ficou lá todo obediente. Mas, depois que o homem se foi e eu lhe chamei, você voltou com a prosa: “Se ele voltar aqui, eu o arrebentarei”. Sempre utilizando o seu linguajar caprichado. Por causa de um pão com mortadela, você quase se arrebenta. Recorda-se? O cara não era bobo. Antes de mostrar a arma mandou você chamar a polícia para ele. Malandro escolado. Disse que a polícia não o prenderia porque se encontrava em estado de necessidade e teria o apoio da lei. E aquilo quase lhe fez sofrer um ataque.

E aí, Ley? Você tem se encontrado com os nossos amigos? Tem visto o Gabriel Carlos, o João de Sousa, o Zinho Borges? E o Lulu? O Lulu deve estar mais calmo por aí, não é? E o Bebé da Mariazinha? O Miguel Pacheco, o Miguel Lara? Dá um abraço nessa turma, compadre! Diga ao Zezé, seu irmão, que o Pedro Pitanga, o dono da zona, já se foi. Pode ser que ele não tenha chegado ainda porque, naturalmente, teve que dar uma passada no purgatório. Se ainda não está aí, deve estar para chegar. E o seu pessoal? Dona Rosinha, suas tias, seus tios? Dê um forte abraço no Zé Mori. Agora, ficou por aqui somente a sua tia Adélia. Mas, ela disse que não vai tão cedo, pois, ainda tem muito que fazer por aqui. O seu irmão, Tovinho, saiu daqui meio às pressas. As más línguas estão dizendo que ele estava abusando do viagra. Mas, isso não se sabe ao certo. A gente daqui da terra fala demais! As fofocas daqui continuam do mesmo jeito. O povo é engraçado, você sabe como é: todos querem ir para o céu, mas, ninguém quer morrer. Fica em situação complicada e passam a ser tocados a remédio.



Os seus meninos estão muito bem! O nosso Cristian já é papai, por duas vezes. Patrícia, também. Agora, só falta o Rodrigo para lhe dar netos. Ah, por falar no Rodrigo, Ley! O Rodrigo é doutor. Doutor Rodrigo e tem um laboratório de análises clínicas de última geração. Eu estive no laboratório dele e fiquei lembrando de você quando cismou que estava com solitária, após uma conversa com o Dr. Zoroastro. Se fosse hoje, meu amigo, você teria o seu problema resolvido, na maior facilidade, com o Dr. Rodrigo, o seu Rodrigo! Por falar em solitária, lembra-se do Bastião das ervas, aquele curador bobão do Alto do Morro, de Campo Belo? Aquele com quem você brigou dizendo-lhe que não sabia nem onde lhe estava o nariz? Até hoje, quando me lembro daquilo, eu acho graça. Você se encontrava com a cabeça a mil. Colocou na cabeça que estava azarado porque não tinha o que fazer, não tinha dinheiro e as namoradas não queriam homem sem dinheiro. No mesmo tempo, dizia que supunha que estava com uma solitária de vários metros dentro de você e isso lhe tirava o sono. Você tomou tanto lombrigueiro que o Hamilton do Dr. Zoroastro chegou a lhe advertir que lombrigueiro, em excesso, mata. Então, nervoso você lhe perguntou: “Mata quem? Eu ou as lombrigas?”


Eram tantos os seus problemas que resolveu resumi-los em somente um e levá-los ao tal Bastião das ervas, aquele velho ignorante que tinha a casa cheia de gente, enquanto vendia garrafadas a três contos. Ele o chamou num quartinho e você se desabafou com ele. Deu o serviço. como dizia o Barnabé.



 Daí, na sala, na frente de todo mundo, a casa cheia de gente, ele lhe colocou assentado, em um banco, no meio da sala e solicitou que todos lhe rodeassem. Pediu-lhe para não mexer com o corpo, não piscar os olhos e não cruzar as pernas. A ordem era para manter-se imobilizado conforme uma estátua. Estava muito engraçado você naquela situação feito uma estátua. Todo mundo postando as mãos sobre a sua cabeça e começou o discurso disparatado:

“Meu bendito, Jesus Cristo: Esse fio de Deus qui tá sentado aqui, nesse banco, é um home bão e tá sofrendo muito. Ele vêio aqui pidi eu prá pidi pu Sinhor ajudá ele. Coitado! Ele tá azarado dimais da conta. Tudo pra ele dá errado. Num tem sirviço. Num firma cum ninhuma namorada. Num tem dinheiro pra nada. Ele me falou que gosta duma pinguinha, eu já falei pra ele largá disso. Pinga num presta. Ele acha qui foi uma antiga namorada que macumbô ele. Dispois desse namoro, nada vem dano certo. Até o povo dele tá brigano dimais quele. Ele acha tamém qui tá imlubrigado com uma solitária de porco. Já tomou tudo quanto é veneno e num mata o bicho. Mas, eu já receitei uma coisa qui vai ser um tiro na cabeça dessa solitária braba que tá dentro dele. Semente de abobra. Num tem coisa mió. Já receitei pra ele comê meio quilo de semente de abobra im jijum e dipois metê um purgante pu riba. As tripa vai fica tudo limpinha como se fosse para inchê lingüiça. Agora, eu vou tirá o diabo que tá causando mal para esse coitado.”



Recorda-se o berro que o homem deu, Ley?


“Sai, diabo! Vai embora daqui, mardito!”
E você, morto de vergonha, danado da vida, saiu feito um diabo xingando o curador de tudo quanto era nome e rematou:
“Faço-lhe uma confidência e você vem a público e a revela? Sabe o que você é seu Bastião das ervas? Um charlatão de primeiríssima!”
Aí, o velho respondeu para todo mundo ouvir, lembra?
“Coitado!Esse diabinho é difici de tirá... Ele é dos brabo!”



Belos tempos! Belos tempos!Pois é meu amigo, onde quer que esteja, receba o meu abraço,
Armando.

Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos
Candeias – Minas Gerais



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sábado, 1 de outubro de 2011

OS GATOS DO TELHADO (Segunda Parte)


Certa vez, chegou para ser armado, na Praça Antonio Furtado, um parquinho desses bem fuleiro. Chamava-se “Parque Estrela do Sul”. O proprietário era um mulato alto, cabeleira cheia, sem bigode, rosto muito bem barbeado. Dentes brancos como leite, Pescoço grosso e cara boa como se estivesse satisfeito com aquela vida miserável de viver de cidade em cidade. Morava em uma barraca junto ao parque. Falava baixo e mansamente como se fosse um padre aconselhando uma ovelha. Usava camisas coloridas e soltas pra fora das calças da marca Lee, quando o jeans começou a aparecer aqui, em Candeias. Botinas de pelica tipo “Beatles”. Fumante charmoso. Naquele tempo, não havia cigarros de filtro. Ele usava sempre uma boquilha na qual colocava um pequeno chumaço de algodão. Dizia ser para amenizar o malefício do fumo. Chamava-se André, mas, gostava de ser chamado de Dezinho. Dizia ser natural da cidade mineira de Juiz de Fora.
Sua esposa era uma mulher bonita do tipo “perua”. Não se sabe se eram casados ou amancebados. Tinha um sorriso atraente e desembaraçado. Cabelos longos, castanhos bem claros. Brincos argolados, bem grandes. Bem maquiada. Não era gorda e nem magra. Era um meio termo que dava para ver carne e toucinho. Comunicativa ao extremo. Conversava e brincava com todo mundo. Eram pessoas bem afeiçoadas e bem vestidas para quem pertencia a um parque daquele padrão. Naquele tempo, em que as mulheres, praticamente, não usavam calças compridas ela desfilava meio ao parque salientando as suas nádegas volumosas e que chamava a atenção da meninada, da rapaziada e dos velhos. E ainda causava despeito nas mulheres que sempre comentavam:
---Essa mulher! Num sei não. Esse trem num deve que presta!
---Será que ela respeita aquele homem?
---Mulher de calça comprida e ainda vermelha... Sei lá!
A meninada, também, não ficava alheia. O João Índio, o sapeca da turma, andou comentando:
---Logo, na hora de deitá, eu vou rezá e pedir a Deus pra mim sonhá com aquela muié do jeitinho que eu tô pensando. De vagarzinho, sem pressa. Começando pela boca e indo desenvolvendo.
Vicente Fumeiro, um acanhado da turma, ousou falar:
---Eu sou um pobre coitado, mas, tô aqui só pensando!
Dos homens, os comentários eram outros:
---Que trenhão, hein, sô? Ela tem cara de quem dá...
---Será? Uai, se ela quisesse uns milinho eu até que dava...
---Dificil é cantá ela. Com aquele baita negão por perto...
---Eu vi ela dando bola pro Zé Caria.
---Cê ta brincano! Será que ele vai cacifar a banca? Num acridito!


Zacarias, cujo nome se transformou em Zé Caria, era o gostosão da paróquia. Parecia um artista de circo de touradas. Não tinha um palmo de terra, mas era metido a fazendeiro. Comprava uma vaquinha aqui outra ali, Ora vendia para açougueiros, outras vezes matava em sua própria casa, salgava e ia vendendo na sua porta aquela lambança robusta. Vendia galinha, carneiro, cabrito, que ficavam presos num cercado, ao lado de sua casa e que causava um tremendo mau cheiro. A vizinhança vivia reclamando. Às vezes, eu penso que o povo antigo tinha mais anticorpos.


Zé Caria era um bobo alegre. Todo circo, parque e barraca de cigano que chegava à cidade ele já arranjava um jeito de chegar e fazer amizade. Nos circos, era para entrar de graça. Com os ciganos, era para trocar cavalos e nos parques, era para aparecer. Ele achava chique ter amizade com os donos desses itinerantes. Às vezes, até arrumava um jeito de trabalhar numa barraca.


Era barganhista. Vivia trocando cavalo velho por outro mais novo ou vice-versa. Quando tinha cigano na cidade, ele ficava junto a eles o tempo todo. Na hora de examinar o animal, arreganhava a boca do bicho e olhava dente por dente para saber a idade. Estatura média, bunda caída, um bigode chinês e os dentes amarelados pelo fumo. Gostava de contar vantagens. A mulher que olhasse para ele já saia falando que a fulana tava lhe querendo. Vivia sempre com um chapéu de lebre de abas, bem largas. Um lenço no pescoço. Botas de sola branca e camisas estampadas. Às vezes, dava para pensar que gostava de se calcar em uma imagem de algum “cawboy” americano. Postava-se como John Waine, montava feito Allan Ladd e fumava no estilo Antony Steffen. Mas, coitado! Estava muito longe disso. Enfim, era uma figura ridícula, principalmente, quando se falava em mulheres. Seus comentários se tornavam risíveis.


Começou a espalhar, por ali, um boato de que Zé Caria estaria fornicando a dona do parque. E, se alguém fizesse com ele o comentário, sustentava que sim. E ainda acrescia de que o marido dela ficava preso no estúdio, no serviço de alto-falante e era, nesses momentos, que aproveitava e dava uma entradinha, às escondidas, na barraca e lhe atracava com beijos e abraços. Zé Caria era considerado o homem mais bobo e atrevido pelas mulheres. Havia quem dissesse que um dia morreria vítima de uma bala de chumbo ou por uma faca afiada. Corria, a boca livre, o boato de que aquela safadeza poderia ter um desfecho dramático, cedo ou tarde.

Passado alguns dias, o dono do parque, o Dezinho, saiu falando que ia fazer uma viagem a Formiga para comprar discos. A viagem, nesse tempo, demorava um dia. Era feita de trem que passava em Candeias às 11 horas da manhã e voltava às seis da tarde.


Zé Caria ficou afoito. Com certeza, deve ter passado pela sua mente safada, muitos pensamentos bizarros. Por exemplo, de que iria comer um sanduíche de calça vermelha. Naturalmente, iria comer a maçã da Isabel com a sua banana maçã a exemplo de Adão e Eva. A cabeça do Zé Caria estava mais assanhada do que urubu aguardando o seu rei para furar o couro.


Três horas da tarde, Zé Caria entra na barraca onde estaria a alcova alheia. Lá dentro o amor gritava alto sem nem um pingo de preocupação com que se alguém passasse por perto. A porta da barraca estava fechada e o casal agia como dois gatos no telhado. Nessas alturas do campeonato, João Índio, o sapeca, e Ratinho, o bom de bola, com certeza, já estariam atrás da barraca escutando toda aquela farra o que lhes fez sair contando para Deus e o mundo:
---Eu quero 20 mil!
---Cê ficou doida?
---Doida não! É 20 mil!
---Cê ficou louca?
---Louca não, é vinte mil.
---Cê ficou biruta?
---Biruta não, é 20 mil.
---Eu não tenho isso!
---Azá seu, é 20 mil.
---Mas tá muito caro!
---Por que não perguntou o preço?É 20 mil...
---Eu pensei que era na base do amor!
---Agora você é que ficou doido!
---Uai, eu num sabia que ocê cobrava não!
---Ah! Você pensou que eu era uma santa ou uma boba?
---Sem o dinheiro você não sai daqui.
---E ocê sua doida me vai prendê aqui? E se o cabrito chegá?
---Deixa chegá!
---O quê? Cê ficou doida?
---Você é que vai ficar doido.
Naquela mexida, o tempo passa e o Dezinho chega. Bate na porta da barraca e o Zé Caria quase sujando as calças diz:
---Sô Dezinho! Foi ela qui me chamou aqui. Eu num tenho curpa de nada. Eu até num quiria vim não, mas ela qui insistiu...
--- Foi ocê qui chamou o Sô Zé Caria aqui Isabel?
--- Fui eu sim.
--- E ele brincou de gatinho?.
---Brincou e ainda queria mais.
---Pagou?
--- Não. Não quer me pagar. Eu quero 20 mil...
--- Fica carma muié. Ele vai pagá... Num vai Sô Zé?
E, naquele desespero, Zé Caria pergunta:
---Num dá pra fazê um diferencinha não, Sô Dezinho?É muito dinheiro.
---Dá meu bem, seu fofo, se ocê for camarada comigo cai pra 10...
---O quê?O sinhor é disso Sô Dezinho? Eu num acredio! Não! Eu pago os vinte. Do sinhor eu num dou conta, não.

O boato correu na cidade. Zé Caria vendeu suas coisas e pagou os vigaristas. Sumiu de Candeias e nunca mais foi visto.

Esse negócio de brincar de gatinho em alcova alheia!... Sei não!...


Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias - Minas

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