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sábado, 1 de outubro de 2011

OS GATOS DO TELHADO (Segunda Parte)


Certa vez, chegou para ser armado, na Praça Antonio Furtado, um parquinho desses bem fuleiro. Chamava-se “Parque Estrela do Sul”. O proprietário era um mulato alto, cabeleira cheia, sem bigode, rosto muito bem barbeado. Dentes brancos como leite, Pescoço grosso e cara boa como se estivesse satisfeito com aquela vida miserável de viver de cidade em cidade. Morava em uma barraca junto ao parque. Falava baixo e mansamente como se fosse um padre aconselhando uma ovelha. Usava camisas coloridas e soltas pra fora das calças da marca Lee, quando o jeans começou a aparecer aqui, em Candeias. Botinas de pelica tipo “Beatles”. Fumante charmoso. Naquele tempo, não havia cigarros de filtro. Ele usava sempre uma boquilha na qual colocava um pequeno chumaço de algodão. Dizia ser para amenizar o malefício do fumo. Chamava-se André, mas, gostava de ser chamado de Dezinho. Dizia ser natural da cidade mineira de Juiz de Fora.
Sua esposa era uma mulher bonita do tipo “perua”. Não se sabe se eram casados ou amancebados. Tinha um sorriso atraente e desembaraçado. Cabelos longos, castanhos bem claros. Brincos argolados, bem grandes. Bem maquiada. Não era gorda e nem magra. Era um meio termo que dava para ver carne e toucinho. Comunicativa ao extremo. Conversava e brincava com todo mundo. Eram pessoas bem afeiçoadas e bem vestidas para quem pertencia a um parque daquele padrão. Naquele tempo, em que as mulheres, praticamente, não usavam calças compridas ela desfilava meio ao parque salientando as suas nádegas volumosas e que chamava a atenção da meninada, da rapaziada e dos velhos. E ainda causava despeito nas mulheres que sempre comentavam:
---Essa mulher! Num sei não. Esse trem num deve que presta!
---Será que ela respeita aquele homem?
---Mulher de calça comprida e ainda vermelha... Sei lá!
A meninada, também, não ficava alheia. O João Índio, o sapeca da turma, andou comentando:
---Logo, na hora de deitá, eu vou rezá e pedir a Deus pra mim sonhá com aquela muié do jeitinho que eu tô pensando. De vagarzinho, sem pressa. Começando pela boca e indo desenvolvendo.
Vicente Fumeiro, um acanhado da turma, ousou falar:
---Eu sou um pobre coitado, mas, tô aqui só pensando!
Dos homens, os comentários eram outros:
---Que trenhão, hein, sô? Ela tem cara de quem dá...
---Será? Uai, se ela quisesse uns milinho eu até que dava...
---Dificil é cantá ela. Com aquele baita negão por perto...
---Eu vi ela dando bola pro Zé Caria.
---Cê ta brincano! Será que ele vai cacifar a banca? Num acridito!


Zacarias, cujo nome se transformou em Zé Caria, era o gostosão da paróquia. Parecia um artista de circo de touradas. Não tinha um palmo de terra, mas era metido a fazendeiro. Comprava uma vaquinha aqui outra ali, Ora vendia para açougueiros, outras vezes matava em sua própria casa, salgava e ia vendendo na sua porta aquela lambança robusta. Vendia galinha, carneiro, cabrito, que ficavam presos num cercado, ao lado de sua casa e que causava um tremendo mau cheiro. A vizinhança vivia reclamando. Às vezes, eu penso que o povo antigo tinha mais anticorpos.


Zé Caria era um bobo alegre. Todo circo, parque e barraca de cigano que chegava à cidade ele já arranjava um jeito de chegar e fazer amizade. Nos circos, era para entrar de graça. Com os ciganos, era para trocar cavalos e nos parques, era para aparecer. Ele achava chique ter amizade com os donos desses itinerantes. Às vezes, até arrumava um jeito de trabalhar numa barraca.


Era barganhista. Vivia trocando cavalo velho por outro mais novo ou vice-versa. Quando tinha cigano na cidade, ele ficava junto a eles o tempo todo. Na hora de examinar o animal, arreganhava a boca do bicho e olhava dente por dente para saber a idade. Estatura média, bunda caída, um bigode chinês e os dentes amarelados pelo fumo. Gostava de contar vantagens. A mulher que olhasse para ele já saia falando que a fulana tava lhe querendo. Vivia sempre com um chapéu de lebre de abas, bem largas. Um lenço no pescoço. Botas de sola branca e camisas estampadas. Às vezes, dava para pensar que gostava de se calcar em uma imagem de algum “cawboy” americano. Postava-se como John Waine, montava feito Allan Ladd e fumava no estilo Antony Steffen. Mas, coitado! Estava muito longe disso. Enfim, era uma figura ridícula, principalmente, quando se falava em mulheres. Seus comentários se tornavam risíveis.


Começou a espalhar, por ali, um boato de que Zé Caria estaria fornicando a dona do parque. E, se alguém fizesse com ele o comentário, sustentava que sim. E ainda acrescia de que o marido dela ficava preso no estúdio, no serviço de alto-falante e era, nesses momentos, que aproveitava e dava uma entradinha, às escondidas, na barraca e lhe atracava com beijos e abraços. Zé Caria era considerado o homem mais bobo e atrevido pelas mulheres. Havia quem dissesse que um dia morreria vítima de uma bala de chumbo ou por uma faca afiada. Corria, a boca livre, o boato de que aquela safadeza poderia ter um desfecho dramático, cedo ou tarde.

Passado alguns dias, o dono do parque, o Dezinho, saiu falando que ia fazer uma viagem a Formiga para comprar discos. A viagem, nesse tempo, demorava um dia. Era feita de trem que passava em Candeias às 11 horas da manhã e voltava às seis da tarde.


Zé Caria ficou afoito. Com certeza, deve ter passado pela sua mente safada, muitos pensamentos bizarros. Por exemplo, de que iria comer um sanduíche de calça vermelha. Naturalmente, iria comer a maçã da Isabel com a sua banana maçã a exemplo de Adão e Eva. A cabeça do Zé Caria estava mais assanhada do que urubu aguardando o seu rei para furar o couro.


Três horas da tarde, Zé Caria entra na barraca onde estaria a alcova alheia. Lá dentro o amor gritava alto sem nem um pingo de preocupação com que se alguém passasse por perto. A porta da barraca estava fechada e o casal agia como dois gatos no telhado. Nessas alturas do campeonato, João Índio, o sapeca, e Ratinho, o bom de bola, com certeza, já estariam atrás da barraca escutando toda aquela farra o que lhes fez sair contando para Deus e o mundo:
---Eu quero 20 mil!
---Cê ficou doida?
---Doida não! É 20 mil!
---Cê ficou louca?
---Louca não, é vinte mil.
---Cê ficou biruta?
---Biruta não, é 20 mil.
---Eu não tenho isso!
---Azá seu, é 20 mil.
---Mas tá muito caro!
---Por que não perguntou o preço?É 20 mil...
---Eu pensei que era na base do amor!
---Agora você é que ficou doido!
---Uai, eu num sabia que ocê cobrava não!
---Ah! Você pensou que eu era uma santa ou uma boba?
---Sem o dinheiro você não sai daqui.
---E ocê sua doida me vai prendê aqui? E se o cabrito chegá?
---Deixa chegá!
---O quê? Cê ficou doida?
---Você é que vai ficar doido.
Naquela mexida, o tempo passa e o Dezinho chega. Bate na porta da barraca e o Zé Caria quase sujando as calças diz:
---Sô Dezinho! Foi ela qui me chamou aqui. Eu num tenho curpa de nada. Eu até num quiria vim não, mas ela qui insistiu...
--- Foi ocê qui chamou o Sô Zé Caria aqui Isabel?
--- Fui eu sim.
--- E ele brincou de gatinho?.
---Brincou e ainda queria mais.
---Pagou?
--- Não. Não quer me pagar. Eu quero 20 mil...
--- Fica carma muié. Ele vai pagá... Num vai Sô Zé?
E, naquele desespero, Zé Caria pergunta:
---Num dá pra fazê um diferencinha não, Sô Dezinho?É muito dinheiro.
---Dá meu bem, seu fofo, se ocê for camarada comigo cai pra 10...
---O quê?O sinhor é disso Sô Dezinho? Eu num acredio! Não! Eu pago os vinte. Do sinhor eu num dou conta, não.

O boato correu na cidade. Zé Caria vendeu suas coisas e pagou os vigaristas. Sumiu de Candeias e nunca mais foi visto.

Esse negócio de brincar de gatinho em alcova alheia!... Sei não!...


Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias - Minas

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