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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

UMA CARTA MEDIÚNICA



Foto Zineblogue bissexto)

Ao meu compadre Wanderley Alvarenga,
Onde quer que esteja:
      Com certeza, você está nos céus! Enquanto esteve por aqui, na terra, eu sei que andou brigando com Jesus Cristo, todavia, acredito que Ele já o perdoou. Afinal, Jesus é Jesus. 

Esta é uma carta espiritual que você vai lê-la à medida que a escrevo em estado mediunizado. Não é uma carta daquelas usadas nos nossos tempos, quando entregava ao correio e já começava a esperar a resposta demorada. Eram quinze, vinte, trinta dias depois e, às vezes, nem tinha resposta porque as extraviavam. Nossa! Que tempo era o nosso, hein!? Comunicação entre as pessoas era coisa difícil. Na maioria dos casos, era somente através de carta postal. Não existiam essas facilidades de hoje. Vamos, portanto, recordar um pouco do nosso tempo, enquanto lhe passo, também, as últimas notícias daqui, do andar de baixo, através desse contato mediúnico.



Lembra-se quando você esteve trabalhando em  Brasília e me escreveu aquela carta dramática? Aquela carta que você começou assim:
“Parece que a distância se compraz em judiar com a gente. Atravesso a avenida com o coração espedaçado pela angústia e pela saudade de minha querida terra, a minha amada Candeias!”


Lembro-me que fui correndo olhar no dicionário o que era a palavra compraz e ainda fiquei pensando: “O meu amigo Ley está ouvindo muito discurso da “deputância” lá em Brasília.


Você gostava de palavras diferentes, se lembra? Aconchegar, olvidar, marital, entre outras. Certa vez, o Zé Moreira falou que você vivia iscrafunchando a vida dos outros e você para lhe dar o troco disse:
“Não! Eu não “iscrafuncho”, eu escarafuncho.”
Por causa disso, a turma lhe tirava um sarro.

E quando nós trabalhamos no teatro? Você tinha uma memória privilegiada e decorava o seu e os nossos papéis. As palavras “difíceis” passavam a pertencer ao seu vocabulário. Outra coisa que eu me lembro sempre é de suas paixões. Aliás, você se apaixonava e desapaixonava com tanta facilidade, Ley! Na mesma hora que você estava naquele entusiasmo, fazendo poesias, fazendo frases para a garota, você já estava desgostoso. Lembro-me de uma moça chamada Antônia que você começou a namorar durante as festas de Nossa Senhora do Rosário. Enquanto você e ela se encontraram à noite, foi tudo muito bem. Muita poesia, muito beijinho, muita balinha de hortelã para apurar o hálito, muito carinho, muito amor. 
Entretanto, a partir do momento em que vocês se encontraram durante o dia, já não havia mais tanto interesse por sua parte. Lembra-se, dessa situação? Eu lhe perguntei: “Mas, o que houve?” e você disse prontamente:
“Sabe, Armando, não suporto mulher com o calcanhar rachado. Dá-me a impressão de que ela é toda rachada e descuidada.”

Semana passada, Ley, eu estive assentado num banco da praça, bem defronte ao cinema onde você tinha o barzinho. Naquele lugar que, por tantas vezes juntos, em uma época tão remota, mas, tão doce, tão presente em meu coração e em minha memória, acabei recordando-me de você e pude, inclusive, escutar a sua voz o que me fez até mesmo rir sozinho. Lembrei-me de quando, logo nos primeiros dias da inauguração do boteco, ouvi de você:
“Armando, as mulheres são muito interesseiras! Só por causa dessa meia dúzia de garrafas na prateleira, já estou cheio de pretendentes.”


Outra coisa que eu nunca me esqueci, foi o dia que o Ênio Bonaccorsi comeu todos os pedaços de doce que existiam em um prato na vitrina. Quando ele saiu, você deu com a língua nos dentes e disse para nós, os outros fregueses:
“O Ênio está se tranformando em um grande glutã.”
Eu, que nessas alturas do campeonato, já não era muito bobinho lhe disse: Não é glutã, Ley, é glutão! E como você tinha resposta para tudo, pois, quando perdia ainda conseguia arranjar um empate, e em sendo o Ênio filho de italiano, você saiu com essa:
“Eu sei. É porque eu falei em italiano.”
Foi quando a turma lhe tirou o pêlo, querendo saber em que escola você havia aprendido o idioma italiano.

Depois desse barzinho, você comprou o Bar do Tião Cassiano, no qual, posteriormente, você o repassou para o Lulu e, hoje, está com a Cidinha. Logo nos primeiros dias, ocorreu uma das maiores encrencas da sua vida. Você brigou com um freguês que comeu algo e não tinha como pagar. Queria atacá-lo com um taco de sinuca e ele colocou o cabo de uma arma de fogo para fora da camisa. A sinuca estava cheia. Todo mundo saiu de fininho, na hora. E quem ficou para te ajudar? Lembra-se? Eu e o Amarleno sanfoneiro. Fui levando você, no peito, para o seu quarto e o Amarleno, com aquela conversa macia, acalmou o cara.


 Aquele dia, meu amigo, eu vi o caldo entornado. Um cidadão mal encarado, estranho, forasteiro que ninguém sabia quem era e você o agravou com palavras muito ofensivas, ferindo-lhe os ouvidos. Naturalmente, estava pensando em lhe dar uma bala de chumbo para chupar. Ah! Compadre Ley! Quando você viu que o cara lhe encarou, eu não tenho dúvida que você achou muito bom eu ir levando você para o seu quarto. Ficou lá todo obediente. Mas, depois que o homem se foi e eu lhe chamei, você voltou com a prosa: “Se ele voltar aqui, eu o arrebentarei”. Sempre utilizando o seu linguajar caprichado. Por causa de um pão com mortadela, você quase se arrebenta. Recorda-se? O cara não era bobo. Antes de mostrar a arma mandou você chamar a polícia para ele. Malandro escolado. Disse que a polícia não o prenderia porque se encontrava em estado de necessidade e teria o apoio da lei. E aquilo quase lhe fez sofrer um ataque.

E aí, Ley? Você tem se encontrado com os nossos amigos? Tem visto o Gabriel Carlos, o João de Sousa, o Zinho Borges? E o Lulu? O Lulu deve estar mais calmo por aí, não é? E o Bebé da Mariazinha? O Miguel Pacheco, o Miguel Lara? Dá um abraço nessa turma, compadre! Diga ao Zezé, seu irmão, que o Pedro Pitanga, o dono da zona, já se foi. Pode ser que ele não tenha chegado ainda porque, naturalmente, teve que dar uma passada no purgatório. Se ainda não está aí, deve estar para chegar. E o seu pessoal? Dona Rosinha, suas tias, seus tios? Dê um forte abraço no Zé Mori. Agora, ficou por aqui somente a sua tia Adélia. Mas, ela disse que não vai tão cedo, pois, ainda tem muito que fazer por aqui. O seu irmão, Tovinho, saiu daqui meio às pressas. As más línguas estão dizendo que ele estava abusando do viagra. Mas, isso não se sabe ao certo. A gente daqui da terra fala demais! As fofocas daqui continuam do mesmo jeito. O povo é engraçado, você sabe como é: todos querem ir para o céu, mas, ninguém quer morrer. Fica em situação complicada e passam a ser tocados a remédio.



Os seus meninos estão muito bem! O nosso Cristian já é papai, por duas vezes. Patrícia, também. Agora, só falta o Rodrigo para lhe dar netos. Ah, por falar no Rodrigo, Ley! O Rodrigo é doutor. Doutor Rodrigo e tem um laboratório de análises clínicas de última geração. Eu estive no laboratório dele e fiquei lembrando de você quando cismou que estava com solitária, após uma conversa com o Dr. Zoroastro. Se fosse hoje, meu amigo, você teria o seu problema resolvido, na maior facilidade, com o Dr. Rodrigo, o seu Rodrigo! Por falar em solitária, lembra-se do Bastião das ervas, aquele curador bobão do Alto do Morro, de Campo Belo? Aquele com quem você brigou dizendo-lhe que não sabia nem onde lhe estava o nariz? Até hoje, quando me lembro daquilo, eu acho graça. Você se encontrava com a cabeça a mil. Colocou na cabeça que estava azarado porque não tinha o que fazer, não tinha dinheiro e as namoradas não queriam homem sem dinheiro. No mesmo tempo, dizia que supunha que estava com uma solitária de vários metros dentro de você e isso lhe tirava o sono. Você tomou tanto lombrigueiro que o Hamilton do Dr. Zoroastro chegou a lhe advertir que lombrigueiro, em excesso, mata. Então, nervoso você lhe perguntou: “Mata quem? Eu ou as lombrigas?”


Eram tantos os seus problemas que resolveu resumi-los em somente um e levá-los ao tal Bastião das ervas, aquele velho ignorante que tinha a casa cheia de gente, enquanto vendia garrafadas a três contos. Ele o chamou num quartinho e você se desabafou com ele. Deu o serviço. como dizia o Barnabé.



 Daí, na sala, na frente de todo mundo, a casa cheia de gente, ele lhe colocou assentado, em um banco, no meio da sala e solicitou que todos lhe rodeassem. Pediu-lhe para não mexer com o corpo, não piscar os olhos e não cruzar as pernas. A ordem era para manter-se imobilizado conforme uma estátua. Estava muito engraçado você naquela situação feito uma estátua. Todo mundo postando as mãos sobre a sua cabeça e começou o discurso disparatado:

“Meu bendito, Jesus Cristo: Esse fio de Deus qui tá sentado aqui, nesse banco, é um home bão e tá sofrendo muito. Ele vêio aqui pidi eu prá pidi pu Sinhor ajudá ele. Coitado! Ele tá azarado dimais da conta. Tudo pra ele dá errado. Num tem sirviço. Num firma cum ninhuma namorada. Num tem dinheiro pra nada. Ele me falou que gosta duma pinguinha, eu já falei pra ele largá disso. Pinga num presta. Ele acha qui foi uma antiga namorada que macumbô ele. Dispois desse namoro, nada vem dano certo. Até o povo dele tá brigano dimais quele. Ele acha tamém qui tá imlubrigado com uma solitária de porco. Já tomou tudo quanto é veneno e num mata o bicho. Mas, eu já receitei uma coisa qui vai ser um tiro na cabeça dessa solitária braba que tá dentro dele. Semente de abobra. Num tem coisa mió. Já receitei pra ele comê meio quilo de semente de abobra im jijum e dipois metê um purgante pu riba. As tripa vai fica tudo limpinha como se fosse para inchê lingüiça. Agora, eu vou tirá o diabo que tá causando mal para esse coitado.”



Recorda-se o berro que o homem deu, Ley?


“Sai, diabo! Vai embora daqui, mardito!”
E você, morto de vergonha, danado da vida, saiu feito um diabo xingando o curador de tudo quanto era nome e rematou:
“Faço-lhe uma confidência e você vem a público e a revela? Sabe o que você é seu Bastião das ervas? Um charlatão de primeiríssima!”
Aí, o velho respondeu para todo mundo ouvir, lembra?
“Coitado!Esse diabinho é difici de tirá... Ele é dos brabo!”



Belos tempos! Belos tempos!Pois é meu amigo, onde quer que esteja, receba o meu abraço,
Armando.

Armando Melo de Castro
Candeias mg casos e acasos
Candeias – Minas Gerais



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