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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O ÉBRIO E O ABSTÊMIO


Hoje de manhã, a minha filha Bruna, que nunca havia comido caqui, me perguntou qual o gosto da fruta. Eu lhe disse que o caqui, quando bem maduro, tem o gosto doce da saudade. A minha resposta, um tanto abstrata, tem muito a ver com a saudade que guardo dentro de mim desde a minha infância quando comi, pela primeira vez, um caqui. Foi um presente do Sr. Erasto de Barros, nosso vizinho na Rua Coronel João Afonso. Ele tinha, no quintal de sua casa, um pomar com várias árvores frutíferas e, entre elas, estava um caquizeiro. Talvez, o único da cidade naquele tempo. Naquela época, muita gente tomou conhecimento da existência desta fruta através da gentileza do Sr. Erasto de Barros que gostava de presentear os amigos com aquela fruta incomum nos pomares candeenses. Acredito que é por esse motivo que, toda vez que vejo ou me falam do caqui, vem, à tona de minha memória, a imagem simpática do amigo Erasto de Barros.

       Eu estive fazendo uma pesquisa sobre essa fruta e colhi alguns dados interessantes: 1º) existem diversas variedades, todavia, os mais conhecidos e consumidos no Brasil são: caqui-chocolate e caqui rama forte. É um fruto de cor vermelha e de consistência macia e fibrosa. A casca do caqui-chocolate possui cor alaranjada. Possui um sabor, quando maduro, muito doce. É típico de regiões de clima tropical e subtropical. Cerca de 70 a 80% do caqui é composto por água. É uma fruta rica em proteínas, cálcio, ferro e licopeno. Em média, cada 100 gramas de caqui possui 75 calorias. Em termos de vitaminas, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2. A China é o país de origem deste fruto. Um caqui de tamanho grande e maduro pesa, aproximadamente, 100 gramas. Às vezes, pode ser confundido com um tipo de tomate.


Como dizia, o caqui bordeja na minha memória a imagem marcante do senhor Erasto de Barros. Não só como porteiro da Escola Estadual Padre Américo, onde estudei, como também na sua vida rotineira. Um homem que tinha um coração que mal cabia dentro de si. Chorava por qualquer coisa. Era um excelente pai de família. Tratava com dignidade a sua esposa Maria e com total esmero os seus filhos, Cidinha, Ademir, Ademar e Mauro. Um homem nervoso. O seu palavreado, às vezes vulgar, não condizia com o seu real comportamento. Homem honesto, trabalhador, correto em todos os sentidos. Mas, o seu temperamento era explosivo. Quando lhe pisavam no calo, não deixava para depois o que poderia falar na hora.


As pessoas o incitavam porque ele se tornava uma pessoa engraçada, bastante engraçada quando respondia por um insulto ou uma brincadeira de mau gosto. Oportunamente, era uma criança sem maldade. Acreditava fácil em boatos fáceis. Boatos feitos, propositalmente, para vê-lo responder irritado. Era, demasiadamente, apavorado e quando ia viajar, o que raramente acontecia (quase sempre a Campo Belo), da janela do ônibus se despedia de quem ficava: “Olha, boa viagem pro cê, viu, vai com Deus!” E era ele quem estava indo. Quando um de seus filhos fazia alguma coisa errada, ele vinha com aquele seu rompante de trovão e dizia: “Eu vou te matá!” – Tirava o seu sinto, mas, as lambadas iam para o ar, pois, nenhuma acertava o filho arteiro. Ele tentava apenas assustá-lo, enquanto o menino caia na risada de não ser atingido pelo cinto. Se algum de seus filhos ia para rua e demorava a voltar, ele saía, em busca de encontrá-lo, gesticulando com as mãos e falando sozinho: “Hoje, eu esfrego ele no chão.”


Na época em que seus filhos saíram de casa para ganhar a vida em outra cidade, Sô Erasto quase morria. Eu me lembro quando fui para São Paulo e estive morando em uma república com o seu filho, Ademir. Quando eu vinha a Candeias, tinha que contar tudo, nos mínimos detalhes, de como vivia o Ademir, em São Paulo. Para tranqüilizá-lo, era preciso reproduzir tim-tim- por tim-tim como era a vida de seu filho. Os problemas rotineiros enfrentados por um jovem que saía de casa, eu não poderia contar porque isso poderia levá-lo às lágrimas.


Na época de eleição, Sô Erasto ficava, constantemente, agitado. Tudo que lhe dizia ele acreditava. As pessoas que conheciam o seu jeito de ser e o seu linguajar rude incitavam-no para vê-lo hilariante.
   O seu ponto predileto era o Bar Piloto, antiga parada de ônibus, quando ainda não existia em Candeias o terminal rodoviário. O ônibus que fazia a linha de São Paulo era como que fosse seu amigo porque levava e trazia o seu filho, Ademir. Quando vinha a Candeias, toda a cidade já tomava conhecimento pela felicidade em que ficava Sô Erasto. Entretanto, quando Ademir voltava era notório o seu semblante de tristeza. Ninguém se ofendia com o jeitão rústico dele. A sua imagem emitia uma pureza de alma e uma espontaneidade tão grande que as pessoas o respeitavam muito, até mesmo diante de uma tirada ofensiva em um dos seus momentos de explosão.


Certa vez, quando ele estava descendo a Avenida 17 de Dezembro, nas imediações do cinema, pisou de cheio num monte de excremento de cachorro. Num raio de duzentos metros, todo mundo viu que havia acontecido algo com o Sô Erasto e procuravam saber do que se tratava. Então, veio chegando “Maré”. Maré era pedreiro. Homem forte, alto, rosto cheio, cabelo bem aparado, olhar fundo e sorridente. Era natural de Campo Belo e teria vindo para Candeias na época em que iniciou o calçamento da cidade e a construção das praças. Fazia parte de um grupo de campobelenses, entre eles o Nelson Gomes, Zé Gomes e o Carneiro, felizmente, até hoje entre nós.
  Assim que saía do serviço, Maré já passava pelo bar do Tião Cassiano, ao lado do cinema, e só saía de lá completamente “mamado”. Enquanto não ficava naquele “fogaréu”, não tomava o rumo de casa. Ele era, realmente, muito engraçado. Naquele tempo, a cachaça de Candeias mais conhecida era a do João Marques. Logo que ele bebia a primeira pinga, já dizia: “Agora, quem bebe é o Maré. Daqui a pouco quem fala é o João Marques.”
    
 Sô Erasto estava muito nervoso devido o acidente entre o seu pé e a sujeira do cachorro. Falava alto, xingava e mostrava o pé sujo, dizendo que aquilo era porque os fiscais não prestavam. Dizia: "Quando fui fiscal, eu tratava desse bicho era na “bola.” Naquele clima, vinha chegando o Maré já com uma voz pastosa de bêbado, quase engolindo a língua. Então, começa:


---O que ta aconteceno aqui, Sô Erasto. Pra quê essa brabeza?
---Eu pisei em uma merda de cachorro!
---E cadê o cachorro?Ele mordeu no sinhor?
---Sei lá, rapaz!
---Uai! O sinhor num piso nele?
---Eu pisei foi na merda dum cachorro rapaz!
---Péra aí: o sinhor pisô na merda e no cachorro? O sinhor tem que explicá direito, uai! Pisô na bosta de cachorro ou pisô numa merda dum cachorro?Tem diferença, né, Sô Erasto?
---Ah! Vá à merda rapaz!
---Num vô não. Eu num sô lumbriga! Rá rá rá!
---Então, vá pus quinto!
--Vô! Só se fô pus quinto de pinga do João Marque. Rá rá rá!
---Vai pro diabo!Cachaceiro!
---Num vô tamém, não! Eu num gosto do diabo! Rá rá rá!
---Então, vá para o inferno!
---Piorou! Pra lá que eu num vô mesmo! Rá rá rá!
---Olha aqui, rapaz: vai tomá...
---Num vô, não! O sinhor tá apelano dimais, Sô Erasto. Eu venho aqui ajudá o sinhor aí, todo cagado de cachorro. Cunversano aqui, na maió iducação. Quereno ajudá. Só purque o sinhor pisou numa bustinha de cachorro! Tá doido, uai. O sinhor manda eu ir pra merda, só purque o sinhor tá nela? Quer me dá uma passage pu inferno! Ainda vem com esse negócio de rabo aí... Assim ficou feio dimais, né, Sô Erasto! Eu vim aqui ajudá, na maió boa vontade. Tá doido, uai...Aí, eu fico triste. Desse jeito, eu perdi até a vontade de ajudá uai...


Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos
CANDEIAS - MINAS

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