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sábado, 29 de setembro de 2012

A LINGUA DE DONA ESTER.

Foto para ilustrar o texto.
Certa vez, chegou a Candeias uma mudança oriunda da cidade de Itapecerica referente a uma família de classe média. O Pai era o Sr. Gabriel, contanto os seus quarenta anos, mais ou menos. Possuía cabelo crespo, era moreno, tinha a barba cerrada, o nariz pontudo, a boca grande e a cara bem trombuda. A mulher, por sua vez, tinha uma cor desmaiada, do “corpo cheio” (estilo mulher de Renoir --- o pintor francês), o cabelo quase louro e muito mal cuidado. Seu nome era Luzia. O casal tinha apenas uma filha, a Sueli, com, aproximadamente, uns quinze anos de idade. Era magra, feia, voz de taquara rachada e representava muito bem a miscigenação do pai com a mãe.

Essa família chegou, por aqui, de uma forma bem sorrateira. Não conhecia ninguém e não tinha qualquer referência com o povo da Rua Coronel João Afonso onde se estabeleceu morada, em um chalé de aluguel que existia no quarteirão entre as Ruas José Furtado e Professor Portugal.

A chegada desses novos vizinhos agitou a vizinha Dona Ester. Esta era a terceira vizinha acima da residência dos recém chegados. Do lado de baixo, residia Dona Maria do Zico Freire. Uma senhora quieta no seu canto que não interferia na vida de ninguém.

De frente ao referido chalé, residia o Vicente Cornélio, homem de estatura média, barba por fazer, cabelo liso, grisalho, com mais ou menos uns sessenta anos de idade. Sua mulher, Maria, tinha na faixa de uns cinqüenta anos. Era negra, magra e muito esquisita. Sempre vista com um lenço branco cobrindo os cabelos e se encontrava, constantemente, na janela de sua casa a observar o movimento da rua. Não possuía amigos, não dava bom dia, boa tarde e, muito menos, boa noite para alguém. O casal não tinha filhos e morava em uma grande casa que teria sido construída para ser uma Santa Casa, mas que, no final, não chegou a ser. Como diz o ditado popular: furou no lavrado. Fora idealizada pela família Furtado e que acabou, contudo, não se concretizando. Esta  santa casa teria sido montada onde, atualmente, se encontra edificada a casa de Donate de Sousa.

A bem da verdade, a família do Sr. Gabriel estava rodeada de bons vizinhos. Contudo, Dona Ester, a minha grande amiga Dona Ester, por uma questão peculiar à natureza humana, era como a embaixatriz da rua e, obviamente, se auto-incumbiu de fazer os primeiros contatos e, consequentemente, em dar as primeiras notícias do que se advinha do seio daquela família incognoscível. E, depois, sairia repartindo de casa em casa as informações.

Dona Ester era muito boa. Muito prestativa, contudo, entrava, demasiadamente, na vida da vizinhança. Ela era uma verdadeira paroleira, daquelas recomendadas na Bíblia por Timóteo (5.13). Assim, tão logo a nova família se estabeleceu, ela já planejou fazer uma visita de cortesia e oferecer os seus préstimos para os novos vizinhos. Dona Ester era aquela pessoa que sabia comer o mingau pelas beiradas. Ela não queimava a boca, todavia, levava os outros a se queimarem. Especialista em fofocas, colocava palavras na boca das pessoas e lhes puxava a língua. Dessa maneira, foi o que aconteceu logo que travou conhecimento com a família do Sr. Gabriel, especialmente, com Dona Luzia.

Dona Ester não tinha filhos, porém, gostava muito de crianças. Naquela época, eu com os meus oito ou nove anos, estava sempre na sua casa na boca de espera por seus doces de laranja da terra, de limão china, de figo, etc. Até hoje, eu aprecio muito esses doces que aprendi a saboreá-los com Dona Ester.

Um dia, ela me chamou em um canto e me disse: Armando, estou curiosa para conhecer e saber quem é esse povo que mudou para aqui perto. Vamos lá comigo? E eu, mais do que depressa, acompanhei Dona Ester até aquela residência. Logo que por lá chegamos, ela se apresentou, sorriu e, por fim, começou a dar asas a sua curiosidade:

---Sabe, Dona Luzia, eu tô muito feliz de ter ocêis de vizinho. Quarqué coisa, nóis tamo aí, viu! Vizinho é pra isso memo. Meu pai dizia que vizinho é o parente mais perto.

---Nossa, Dona Ester! Eu fico até imocionada com essa bondade da sinhora. Eu tava com um medo danado de chegá aqui e incontrá um povo difice.

--Aqui, conóis, a sinhora pode ficá sussegada, viu. Nóis aqui só entra na vida do zoto é só pra ajudá, pra atrapaiá não. Pergunta pro Armando...

E, de quando em vez e de vez em quando, ela falava: pergunta pro Armando e eu só dizia é... é .... é....
Desse modo, Dona Ester começou com a sua investigação:

---Seu marido mexe cum quê?

---Óia, Dona Ester. Ele ainda tá pensano o que qui ele vai fazê aqui, nas Candeia.

---Uai, mais ele veio sem sabê? Intão oceis deve ser forgado! Um home parado com os preço dos trem pra hora da morte...

---Não. Nóis num é forgado, mais nóis é rimidiado. Meu pai morreu e dexô um pedacinho de terra. Aí nóis vendeu e tamo com os cobre, pensano no que qui nóis vai fazê. O Bié ta pensando em abri um vendinha.

---Abri mais venda aqui, nas Candeia? Aqui já tá cheio de venda!...

---É que o Bié cansou de mexê cum roça. Roça, Dona Ester, num dá nada...

---É...Mais quem tá custumado com roça vai quere mexê cum venda? E o fiado!? Venda é um trem danado. Se num vende fiado, num vende nada. Se vende fiado, tá quebrado. E o seu marido sem prática... Será que ele dá conta?! E ôta coisa: inquanto oceis ficá pensano, os cobre vai acabano, né, Dona Luzia.

---É... Isso é. Mais...

---Mais oceis acha que aqui, nas Candeia, é mió do que lá in Tapecerica? Tapecerica é cidade maió. Aqui num tem nada. E o seu marido é rocêro. Ele divia ter ficado quéto lá no pedacinho dóceis. Vim pará aqui, sem sabe o qui vai faze, sei não... Sei não, Dona Luzia! Eu já vi muita vaca ir pu brejo quesse negócio de vendê terra e vim pra cidade.

---É, Dona Ester. Mais...

---Será que o seu marido num tinha argum rabo preso não, Dona Luzia? Ocêis tá aqui tem uma semana e ele já foi lá duas vêis!

---Bão! Isso eu num sei não, Dona Ester.... Eu acho qui não...

---Ocê acha. Mais esse negócio de acha é onde se perde. Home é tudo safado. Ninguém conhece home mais do que eu. Quando eu num era direita, a sinhora precisava de vê das coisa que eu fiquei sabeno. Tinha muito homem que falava que gostava mais de mim do que das muié deles.

---Quer dizer que a senhora já foi?...

---Eu tive uma vida muito difícil, Mais dei sorte de arranjá um véio que me acampô. Daí, agora, eu sou uma muié arespeitada. Casei na igreja e sô até irmã do Coração de Jesus.

---Bão, eu num sei nada do Bié, não... Até hoje, tem sido bão...

---Intão, toma cuidado! Aqui, tem umas muié... E eu vô te dá o nome de’as: Paricida Pitanga, Dita do Amaro, Fiinha do Xande, Maria dos Baião, ção Cazeca e mais umas aí que eu esqueci o nome. Essas muié tem fogo no....

Nisso, abre a porta do quarto e sai lá de dentro o dono da casa. O Gabriel estivera dormindo acordara e estava a escutar aquela prosa. Parecia o demônio cuspindo fogo. E já veio com tudo para cima de Dona Ester:

--Sai da minha casa sua cachorra sem dono. Sua égua véia. Isso aqui não é cabaré não. Aqui tem gente de bem. E ninguém pricisa de conseio de ramera não, sua mula. Eu tô, fais tempo, iscutando essa prosa nojenta! Some antes que te enfio a mão no fucinho.

Eu levei um grande susto e já fui colocando asas nas pernas. Entretanto, Dona Ester começou a tremer e a tossir. No tossir, a sua dentadura saiu da boca e foi ao chão. Ao tentar apanhá-la, desequilibrou-se e caiu e ao cair, soltou um baita pum e, diante disso, o homem, ainda doido de raiva, gritou:

---Vixe Maria! Essa vaca véia nem tem mais prega!...

Eu suponho que ele estava com umas pingas na cabeça. Após o episódio, quase morri de dó de Dona Ester. “Oh, tadinha”, diria minha mãe!


“Os lábios do insensato provocam brigas e sua boca pede uma surra”. (Provérbios 18.6)

Armando Melo de Castro
Candeias Casos e Acasos

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O FISCAL DA PREFEITURA.

                                                              Foto para ilustração do texto.
Uma das profissões mais difíceis das quais já pude observar, até hoje, é a de um fiscal de prefeitura do interior. Aquele que se dispor a ser um profissional dessa área terá, com toda a certeza, de colocar a sua cara à tapa. Ser fiscal de prefeitura, em pequenas cidades, é, sem dúvida, nadar contra a correnteza, é fazer chover num veranico, é lamber os próprios cotovelos, é beliscar azulejo ou, ainda, reciclar papel higiênico. O cidadão tem que enfrentar vereadores, secretários do prefeito, o prefeito e o pior: toda a população da cidade. Isso porque cada um está olhando somente para o seu lado e o fiscal terá que olhar o lado de todos.


Quanto menor for a cidade, maior será o número de eleitores exclusivistas. Se o eleitor faz parte daqueles que elegeram o prefeito, ele se acha com o direito a um atendimento vip. Se não for integrante desse reduto, todos os envolvidos na prefeitura, passam a ser, no seu entendimento, um bando de xepeiros. E os políticos, por sua vez, não querem desagradar os seus eleitores. Afinal, eleitor é sinônimo de voto e voto vale ouro para os candidatos. Aliás, o voto também pode ser um atestado de imoralidade tanto de quem vota como de quem é votado. Em uma cidade grande, essa febre política é mais bem administrada pelos políticos que alugam os seus cabos eleitorais.

Mas, voltando aos fiscais e remexendo em uma das gavetas de minhas lembranças, relembro um caso que houve entre o meu tio João Delminda e o fiscal da Prefeitura Municipal de Candeias na década de 50, João Alvarenga.

É de se saber que as pessoas da linhagem Alvarenga, aqui de Candeias, são pessoas, na sua maior parte, educadas, doutrinadas, pontificadas, lecionadas e gentis. E João Alvarenga era um legítimo Alvarenga: respeitoso, prestativo, atencioso, explicado e obsequioso. Parece até que teria sido escolhido a dedo para a função.

Magro, alto, pouca barba, chapéu e paletó de brim sempre tragando um cigarro de palha era visto rodando a cidade, buscando bicicletas, carroças de tração animal para serem emplacadas; chiqueiros de porcos e galinheiros fétidos; construções fora do alinhamento, todas essas eram algumas das atribuições do fiscal mais eficiente que eu conheci.

Os proprietários de bicicletas desse tempo pagavam o imposto de emplacamento. As bicicletas eram emplacadas pela prefeitura e lembro-me que o preço era Cr$ 30,00 (trinta cruzeiros) por ano, incluindo a placa que era afixada entre os raios de uma das rodas ou na ponta do pára-lama traseiro. A placa continha o ano, as iniciais da P.M.C (Prefeitura Municipal de Candeiais) e o número. Tinha o formato e o tamanho de uma tampa de apagador.

Meu tio tinha uma bicicleta, entretanto, sempre fugia do João Alvarenga para não pagar o imposto. Achava que pelo fato de usar a bicicleta apenas para andar pelas roças não precisava pagar o emplacamento. Quando o fiscal descobriu que ele fugia da raia da sua fiscalização, passou a freqüentar a sua selaria que existia na Rua Coronel João Afonso.

João Alvarenga chegava e, na maior educação, cumprimentava, ficava por ali um pouco aguardando o meu tio falar alguma coisa, mas, como ele não falava, João começava:

---Vamos emplacar a bichinha, hoje, Xará?
---Hoje, eu tô meio quebrado, João...
---Não tem importância não, Xará, eu passo aqui outra hora, então...0

Assim, ia embora e meu tio comentava:

---Eu nunca vi um cabôco mais preguento nesse mundo. Parece que é só eu que tem bicicreta aqui nas Candeia, uai!...

Passaram-se dois dias, vinha o João Alvarenga de novo!

---Oi, Xará, como é que vai? Tem trabalhado muito?
---Que nada, João, tem poco serviço. É por isso que ainda não puis placa na bicicreta.
--- Não, Xará! Não se preocupa, não! Uma hora vai dá certo. Depois, eu passo aqui de novo.



Assim que ele saía o comentário era fatal:

----Eu num guento esse João Alvarenga! Ele é macio dimais, sô! Manso dimais. Se ele ficasse brabo, ficava mais fáci pra mim... A bicicreta é pra eu ir pescá, pra quê que eu vô impracá?

Passaram-se mais dois dias e lá vem o fiscal de novo e, assim, foi um punhado de vezes até que um dia:

---Olá, Xará! Bom dia! Como andam as coisas? E, hoje, nós podemos emplacar a bichinha?
---Óia, aqui, João! Vou falá uma coisa procê. Eu resorvi vendê a bicicreta e, quando eu vendê, quem comprá paga o imposto. Eu tô ficando com vergonha docê, tendo essa trabaiêra de vim aqui quais que todo dia. E, dispois, não tem me sobrado cobre pra eu te pagá. E eu quase não ando nessa bicicreta, sô! E ocê sabe, né, trinta contos, nessa pindaíba que eu tenho andado, me faz muita farta.

---Xará, isso não vai acontecer de jeito algum. Onde já se viu isso: um amigo meu precisar vender a bicicleta para pagar o imposto. Olha, eu vou fazer uma coisa para você que eu nunca fiz para ninguém. Eu tenho visto que os seus serviços aumentaram. Então, vou emplacar a sua bicicleta e você me paga de três vezes, ou seja, Cr$ 10,00 (dez cruzeiros) por mês. Contudo, tem um problema, Xará! Eu vou ter que lhe dar uma placa que ninguém quer por causa do número.
--- E qualé o número, João?
--- É o 24, Xará...

Diante disso, meu tio enfiou a mão no bolso, pegou três notas de 10 e gritou, bem alto:

---Impraca essa merda dessa bicicreta, João! Impraca isso sem praca, mesmo. Só fartava agora ocê querê me infiá um número desse, tem dó, sô...

E João Alvarenga, todo vitorioso, tirou do bolso do paletó uma plaquinha e disse:

--- Veja, Xará! Eu encontrei, aqui no meu bolso, a placa de n° 32. Olha só que numerozinho, chique...

E saiu dizendo:

---Agora, é só o ano que vem, Xará...

E meu tio João, com a boca totalmente fora de sintonia com a mente, disse:

---Vá com Deus!

Mas a mente, com certeza, estava dizendo: --- Vá pro inferno, João! E vai correndo!

ARMANDO MELO DE CASTRO
CANDEIAS MG CASOS E ACASOS 



terça-feira, 11 de setembro de 2012

NESTOR LAMOUNIER

                                                            Nestor Lamonier e sua espôsa Matilde.                                      
Quando vejo esta movimentação para as próximas eleições municipais, acorda, em minha mente, a lembrança de ilustres candeenses que exerceram o poder sem quaisquer interesses próprios. Em época remota, os vereadores não eram remunerados e o que prefeito recebia não representava muita coisa. As verbas de representatividade, praticamente, não existiam. Os prefeitos usavam os seus próprios carros. Os visitantes políticos, como os deputados, por exemplo, hospedavam-se na residência do próprio prefeito quando aqui apareciam em visita. 

Ser o prefeito de um município trazia, na realidade, era um grande custo ao eleito. Não existiam bolsas disso e nem bolsas daquilo. Não existiam, também, as verbas estaduais como existem hoje e as federais eram escassas. Hoje, a política virou um rio de dinheiro.

Lembro-me que certa vez, um conceituado empresário candeense, comprador e exportador de café, o Sr. Emídio Alves teve sua empresa falida. Aliás, foi a primeira vez que ouvi falar naquele vocábulo “falência”. E por que ele quebrou? As pessoas perguntavam e a resposta era uníssona: Política! “Aquele que se envolve com política quebra”, dizia a “ vox populi”(Voz do Povo).

 E o Dr. Zoroastro! Por que é um médico pobre? Indagavam-se. E a resposta era sempre a mesma: política. O político tinha um forte ideal: prestar serviço a sua terra e entrar para a história. Contudo, se envolvesse além da conta, a sua situação financeira ia para o espaço. Política era, pelo menos em Candeias, sinônimo de ciência, conceito, doutrina e princípios. 

Nos dias de hoje, a política partidária veio a ser sinônimo de interesse próprio, de toma lá dá cá, de esperteza, logro, maquiavelismo, sagacidade, conchavos, assistencialismo, loteamento de cargos públicos, corrupção extrema, clientelismo.


O nome de um homem público é o rastro que um povo deixa registrado no tempo. Uma cidade sem homens representativos não será, com certeza, uma árvore cujo fruto é a civilização. Os políticos de hoje não estão mais preocupados com isso. Querem o poder e com o poder o enriquecimento ilícito. O político, nos dias atuais, é vigiado pela imprensa como um carcereiro que vigia um preso.


E no calor deste teorema que me envolve, profundamente, eu quero registrar aqui o nome de um ilustre político candeense que nem com a sua morte conseguiu livrar-se da minha amizade e de toda a minha admiração e respeito.


Nestor Lamounier!


O cuidado com que Nestor dedicava a sua terra, no exercício da política, deve ser decifrado pelos mais velhos para que possa ser cedido aos jovens que buscam um lugar no âmago deste exercício. A popularidade lhe cercou o nome não apenas por ser uma figura robusta e vigorosa, mas sim, por saber respeitar as diferenças de cada conterrâneo. Como inspetor escolar, sempre se fazia presente com as suas visitas às crianças. Era assíduo na recreação dos jovens e, em meio aos adultos, era indispensável.


Um homem que amava sua terra com todas as forças do seu coração. Sua morte deixou um vazio tão grande que jamais será preenchido. Por mais que apareça gente honesta e dedicada a sua terra, Nestor jamais será superado. Foi um prefeito zeloso e respeitado no âmbito político do Estado. Foi um prefeito que abriu mão do seu próprio salário para beneficiar o então Ginásio de Candeias ameaçado de ser fechado por falta de recursos.


Nestor Lamounier, portador de um esmerado espírito e um caráter eminente, era um dos mais caros amigos que encontrei no caminho da minha vida. Pude conhecê-lo quando ainda menino e já como amigo do meu pai e meu avô. Filho do Coronel João Afonso Lamounier cujo nome na história candeense registra uma tradição de lealdade. Observa-se, assim, que os descendentes de João Afonso Lamounier sempre foram fieis e leais com as suas origens candeenses.


Na sua atividade como prefeito de Candeias, Nestor Lamounier fez além das suas possibilidades. Todas as suas obras foram acompanhadas pelos seus olhos, todavia, sem os recursos disponíveis nos dias atuais.


Toda vez que visito o Cemitério São Francisco, eu não posso deixar de passar pelo túmulo do meu amigo. Nesse momento, eu cerro os olhos e o vejo de pé, a minha frente, dando o seu sorriso de amigo.


Onde quer que esteja, meu querido, Sô Nestor, que Deus o tenha aí como o teve aqui.

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

FESTA E TRAGÉDIA CANDEENSE.

Corpo do Capitão Aviador Leonidas Henrique Lannes na Sta.Casa de C.Belo (Foto Clarita)

Candeias, na década de 50, ficou marcada pelo dinamismo do jovem prefeito, Dr. José Pinto de Resende, que era filho de outro ex-prefeito, o sr. João Pinto de Miranda.

O Dr. José Pinto de Resende era inteligente, muito instruído e honesto, mudou, completamente, o perfil da nossa cidade. Abriu inúmeras ruas e fez terraplenagem em vias desconsertadas. Entre os seus feitos, três coisas importantes aconteceram na sua gestão:

1) Início das obras de calçamento da cidade;
2) Inauguração do Horto Florestal;
3) Inauguração do Campo de Aviação.

A cidade, até então, não tinha ruas calçadas. Quando os carros passavam, deixavam rastros de poeira que faziam as donas de casa sonharem com a possibilidade de um dia verem suas ruas calçadas. Outros logradouros eram emburacados que um veículo não conseguia circular. As casas da rua em que fui criado, ou seja, na Rua Coronel João Afonso Lamounier (saída para a cidade de Formiga) eram todas da cor da poeira.

O Dr. José Pinto de Resende foi quem deu início ao calçamento das ruas de Candeias. Daí para frente, todos os prefeitos participaram do processo de manutenção da cidade calçada. Sabe-se que a pavimentação, em forma de paralelepípedo, deixa a cidade menos aquecida em comparação às ruas asfaltadas. Com isso, aproveitou-se a grande reserva de pedras existente no município, o que pode proporcionar, também, uma boa demanda de mão de obra.

Outra importante realização do prefeito, José Pinto de Resende, foi trazer para Candeias um horto florestal. Uma área reservada para reproduzir espécimes florestais e que ficava situado no espaço que se destina, atualmente, ao Estádio do Rio Branco Esporte Clube e ao matadouro municipal. Mudas de árvores nativas eram ali distribuídas gratuitamente. A instituição era administrada por um engenheiro e um gerente que vieram de fora, todavia, empregou-se um grande grupo de funcionários candeenses. O Horto Florestal de Candeias foi, durante o seu tempo, um ponto turístico que recebia a visita constante de namorados e familiares.

A terceira obra importante do Dr. José Pinto de Resende foi o Campo de Aviação construído no Bairro da Parmalat e que ocupava um grande espaço no qual se encontra instalada, nos dias de hoje, uma indústria de tábua de granito bem como os eventos referentes às festas do tipo exposição agropecuária.

O campo de aviação e o horto florestal foram inaugurados no mesmo dia e, talvez, tenha sido a maior festa, até hoje, anotada nas lembranças do povo candeense. Na parte da manhã, foi a inauguração do campo com a presença de autoridades políticas locais e regionais. Um palanque foi montado e grande parte da população de Candeias estava presente aguardando a chegada da Esquadrilha da Fumaça. (Para o povo humilde de Candeias isso seria uma coisa do outro mundo)

À tarde, foi a vez da inauguração do horto florestal quando foi oferecido ao povo de Candeias um farto churrasco por um consórcio de fazendeiros. As pessoas comiam à vontade e, ainda, podiam levar para casa parte da iguaria. No interior do horto, foram abertas valas enormes em forma de churrasqueiras. Foi um dia de muita alegria e de muita fartura.

Todavia, um grave acontecimento havia deixado a nossa cidade triste. Uma grande frustração abalou o povo na parte da manhã. O que toda a população esperava e que seria, sem dúvida, um acontecimento inusitado não aconteceu: a presença da Esquadrilha da Fumaça em Candeias.
Momentos antes do acidente
O Dr. José Pinto de Rezende, homem viajado e de visão, concluiu que um campo de aviação seria muito benéfico à nossa cidade e região. Escolheu um ótimo lugar, construiu-o e, para sua inauguração, planejou-a com a participação da Esquadrilha da Fumaça. Uma ideia muito feliz para proporcionar ao nosso povo um espetáculo restrito às grandes cidades do país.

Antes de continuar essa narrativa, faço, neste momento, um necessário adendo. Em alto e bom som, gostaria de dizer que Candeias é o berço de um ilustre membro da Aeronáutica Brasileira, especialmente, da Esquadrilha da Fumaça. Trata-se do Coronel Aviador, Renato Paiva Lamounier, filho do Sr. Olinto Lamounier e da digníssima professora, Dona Eliza Paiva Lamounier. O Coronel Renato é neto do Coronel João Afonso Lamounier, mais uma personagem ilustre da nossa história. Primo de grandes candeenses, meus amigos, o Sr. Antonio Macedo e do Sr. João Batista Nestor. Descendente de famílias tradicionais, o Coronel Renato nunca esteve ausente de sua terra. Vem, regularmente, ver os seus amigos e familiares como, também, buscar os saborosos produtos da sua terra. Infelizmente, as nossas autoridades municipais, talvez, enfronhadas em uma miopia político-social não se preocupam com seus filhos que estão ausentes. Caso contrário, já teriam promovido uma homenagem a tão importante e conceituado candeense, que no seu vasto currículo, prestou relevantes serviços a nação brasileira, inclusive a  Presidência da República como comandante aviador do Presidente Enesto Geisel.

Entretanto, em uma das visitas a Candeias do cadete, Renato Lamounier, o prefeito, José Pinto, procurou saber dele como conseguir a vinda a Candeias da Esquadrilha da Fumaça, sendo informado da possibilidade, caso fosse ao Rio de Janeiro na presença do Comandante da Escola de Aeronáutica.

Entusiasmado com a ideia, o prefeito de Candeias, acompanhado do Deputado Federal, João Nogueira de Resende, dirigiu-se ao Rio de Janeiro, então a capital do país, na Escola de Aeronáutica em que era cadete o candeense, Renato Lamounier, e com a influência deste, conseguiu com o comandante daquela instituição enviar a Esquadrilha da Fumaça para a inauguração do referido Campo de Aviação que seria no dia 18 de julho de 1958.

Tão logo foi divulgada a notícia da vinda da Esquadrilha da Fumaça em Candeias, o comentário passou a ser geral. Quando alguém dizia que a cidade iria ver quatro aviões virando cambotas no ar, muitos não acreditavam e outros já temiam até um acidente. A Esquadrilha da Fumaça era, na época, uma grande novidade, pois, teria sido fundada apenas há seis anos e, quando se comentavam das acrobacias arriscadas, dos azes do ar, muitos não acreditavam. Contudo, para os pessimistas que previam o perigo de um acidente, os anjos disseram amém.
A Esquadrilha da Fumaça, tão esperada não só em Candeias como nas cidades da região, por supostos motivos teria, em Campo Belo, dado uma pequena demonstração do que seria feito em Candeias. Os aviões, a 400 quilômetros por hora, gastariam apenas três minutos para chegar a Candeias. Talvez, como forma de aquecimento, e nesta pequena demonstração na cidade de Campo Belo, quando um dos aviões pilotado pelo capitão-aviador, Leônidas Henrique Lannes, perdeu o controle e bateu de leve em uma igreja em construção, a Nova Matriz e caiu no terreno onde morava a família do Sr. Clóvis Rios, atual esquina da Rua Ana Jacinto Rios com a Rua Joaquim Murtinho. Morreram o piloto e duas crianças, filhos do Sr. Clóvis e de da. Tereza Trindade.

Esse acidente de repercussão nacional foi, por muitos anos, lembrado pelo povo de Candeias que se sentiu frustrado por não terem visto o espetáculo aguardado com tanta euforia.

Comandante da Esquadrilha, Capitão Aviador Lannes

Os outros três aviões, durante a festa de inauguração do campo, passaram timidamente pelos céus de Candeias sob os olhares tristonhos de seus habitantes. Mas, enquanto aqueles aparelhos sumiam nas nuvens, com certeza, estava havendo uma reciprocidade de sentimentos. Quando o nosso povo sentia a frustração da perda da festa, aqueles três aviadores voltavam as suas origens com os corações partidos por deixarem para trás o seu companheiro, homem tido como prudente e cauteloso que além de comandante da Esquadria era instrutor de vôo de cadetes do ar: O capitão-aviador, Leônidas Henrique Lannes. Morto quando propunha alegrar o nosso povo.

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. (Chaplin)

Armando Melo de Castro
Candeias MG Casos e Acasos