Total de visualizações de página

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O MERCENARISMO RELIGIOSO

No princípio da década de 50, apareceu aqui, em Candeias, um cidadão protestante pregando o evangelho, nas proximidades do chafariz, que fica localizado nos jardins que fronteiam a Igreja do Senhor Bom Jesus.
Não havia, nesse tempo, em Candeias, praças e nem calçamentos. A Avenida 17 de Dezembro era chamada de Largo. E os três chafarizes que ainda existem (hoje inoperantes), eram pontos de referências para esse tipo de coisa: encontro de namorados, camelôs, pose para fotos, etc.

Um pregador protestante, naquele tempo, era visto pelos católicos como se fosse o diabo. E ao iniciar, a sua pregação, ajuntaram-se, ao seu redor, algumas pessoas, talvez, por curiosidade.

Logo que correu a notícia de que alguém de outra religião pregava na cidade, o pároco mandou badalar os sinos e convocou os fieis através do microfone para uma procissão de desagravo. A bem da verdade, esta procissão seria para dar início ao processo de expulsão daquele estranho no ninho.

De forma muito humilhante, o cidadão foi escorraçado da cidade por um grupo de pessoas, incitado, pelo padre, que pretendia expulsar o intruso do seu território religioso.
Os manifestantes agrediram o pobre homem com cusparadas no rosto, chutes, pernadas e, por fim, ao se darem conta de um monte de pedras, nos fundos da Igreja do Senhor Bom Jesus, a criatura indefesa passou a ser ameaçada de ser apedrejada.

Não fosse a iniciativa do Sr. Willian Viglioni, que num gesto de afoiteza, tomou-se de uma faca de cortar salame no bar que existia junto à sua residência, acredito que a situação teria tomado proporções dramáticas diante da fúria do povo católico.
Auxiliado pelo seu amigo, Edgar do Conde, Willian amparou o pregador e o levou até o antigo Hotel do Bitu que ficava localizado onde hoje esta situada a Loja dos Colchões. Dali, o homem seguiu para a estação ferroviária, de onde partiu levando consigo as mais contristadoras lembranças de nossa terra.

Sem dúvida, esse comportamento fanático deixou-nos uma mácula para a história de Candeias. Teria sido como a vergonha da inquisição presente aqui na nossa pacata cidade.Jiddu Krishnamurti, o grande pensador indiano, dizia que o falatório e a estrutura das religiões organizadas tendem a separar os homens. Eis que aí está.
As religiões estão se tornando, a cada dia, mais organizadas, mais cheias de falatórios e mais estrategistas nessa tomada de espaço por parte dessas igrejas que se intitulam evangélicas ou crentes. A bem da verdade, não se trata de evangélicos e nem crentes. Vivem buscando seus estratagemas no Velho Testamento e o verdadeiro Deus de sua crença é o dízimo. Crentes ou evangélicos são titularidades criadas apenas para confundir pessoas humildes, sofridas, passando por dificuldades, carentes de atenção e de amor. Pensam que com isso podem passar uma imagem de que são mais puros e mais privilegiados perante Deus. Como se fossem diferentes. Dizem que são religiões, mas, na verdade, são seitas desprovidas de senso moral e que abusam vergonhosamente da fragilidade humana. Não precedem de nenhuma ramificação cristã, pois não se definem como oriundas do catolicismo e nem do protestantismo.
Talvez, os engambelados seguidores dessas igrejas que pagam caro por ser delas um fiel, sejam, verdadeiramente crentes. E como a fé remove montanhas, os “donos” dessas “igrejas” roubam-lhes até a fé.
Igrejas que não têm filosofia própria e o tema de suas pregações é uma paçoca teológica de luteranismo, calvinismo, anglicanismo, bramanismo, catolicismo, pentecostalismo, kardecismo, umbandismo, e o principal: o “dizimismo”.

Crente é todo aquele que crê em algo. Pode ser crente em Deus, nos santos, na ciência, nas assombrações, nas promessas dos políticos e até no diabo. Enfim, todo seguidor de uma religião qualquer, consequentemente, pode ser um crente.
Portanto, ser um crente não significa propriamente ser evangélico. Evangélico é aquele que se orienta através do Novo Testamento. Os católicos, os pentecostais, etc. Os verdadeiros evangélicos não se confundem com o velho testamento. Tomam do seu conhecimento apenas para se orientarem. O verdadeiro cristão está inserido no Novo Testamento, ou seja, no Evangelho de Jesus Cristo. Portanto, quem cobra dízimo, em percentuais, não é evangélico.
Estamos vendo, por aí, titulares dessas igrejas nadando em dinheiro em detrimento da pobreza de seus seguidores. Prometendo milagres com hora marcada e abusando da fragilidade de pessoas moralmente debilitadas. Postam-se como inimigos do diabo e privilegiados de Deus. E nesse paradoxo, vão fazendo dos seus adeptos um enleado pronto para ser escravo. Executam um curandeirismo sem o propósito ideal como propaganda da venda de milagres. Criam-se meios astuciosos e fazem de suas denominações religiosas, verdadeiros partidos políticos e usam os seus altares como comitês para se elegerem. Haja vista que, dentro do poder constituído, o conceito político é sempre ressaltado: “Bancada Evangélica”.
Nada impede um religioso de se candidatar a um cargo eletivo, mas, por que bancada “evangélica”!? Isso avilta ainda mais a política brasileira.

Igrejas que cobram 10% de dízimo de seus fieis e se dizem evangélicas são verdadeiras empresas que só visam o lucro e o materialismo.

A Igreja Católica, detentora da maior fatia do poder religioso, aqui no Brasil, parece-me um tanto perdida nesta guerra com os “evangélicos”. E com isso, vai tomando rumos bem parecidos. Não somente no púlpito, mas, no meio político-partidário, no meio social e em meio aos veículos de comunicação que são objetos favoráveis para a busca de condições no sentido de atingir o alvo dominante. E isso faz com que os católicos usem das mesmas armas para defenderem o seu território. Apropriam-se de estações de rádio e televisão tendo padres em suas direções. Padres artistas cobrando altos cachês pelas suas apresentações, em espetáculos pouco atinentes à verdadeira objetividade de uma igreja.
Estão se transformando com o firme propósito de assegurar o espaço que vem sendo tomado por essas empresas denominadas “Igrejas Evangélicas”. Mas, o faz de maneira opaca. Criam-se tantos estorvos, tantas exigências que vão, cada vez mais, perdendo os fieis para os seus concorrentes (Infelizmente este é o termo certo: concorrentes)Os padres vão se tornando, a cada dia, quase que uma figura simbólica dentro da Igreja Católica. Os fieis vem tomando conta da maioria das tarefas, de forma pouco orientada. Comumente, se vê pessoas da comunidade fazendo até casamentos. A organização católica tem ministros tanto quanto o Governo Lula. Ministro disso, ministro daquilo e os padres pouco aparecem. Talvez, intimidados por esse tsunami interminável de pedofilia dentro da sua igreja. Essa pouca vergonha que vem enodoando o catolicismo, cada dia mais. O padre católico está se transformando em uma figura que perfuma a pedofilia enquanto ela fede para as famílias de bem. E, com certeza, a culpa maior desses desvios, entre os representantes da Igreja Católica, é devido a um celibato que não mais se justifica diante de um mundo em que o sexo vem ocupando lugar de destaque nas relações. E por que a Igreja Católica não acaba com essa tempestade humana chamada celibato? Esta é uma pergunta que muitos formulam e sem resposta. Por quê? Porque envolve dinheiro, patrimônio etc. e tal...

A celebração da missa tornou-se um ritual monótono. A pregação dos padres, longas e enfadonhas, quase não consegue tomar a atenção do fiel.
A maioria dos padres não tem o dom da eloqüência e são anti-sociais.

O ritual de um sepultamento vem se tornando tão fastidioso que, boa parte dos fieis, ficam do lado de fora da Igreja aguardando aquele falatório sem um tema próprio, para cada caso. Os leigos chamados ministros, apesar da boa vontade, são despreparados e não sabem, na maioria das vezes, presidirem um ritual onde seriam necessárias algumas palavras soltas diante de uma circunstância específica. Lêem aquele texto maçante e demorado que não diz nada para ninguém, que não conforta ninguém e, talvez, até o defunto se cansa!...

Como católico, isento de fanatismo, estou sentindo que a Igreja Católica está aceitando a sua própria rendição principalmente com essa pedofilia no âmago da Igreja. Enquanto essas casas comerciais, chamadas “igrejas evangélicas”, vão avançando em busca de dinheiro e, consequentemente, de poder.


São os líderes religiosos usando dos mais diversos estratagemas para vencer uma competição onde o princípio essencial deveria ser o amor alimentando as três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade.

E não há dúvida de que a arma principal para qualquer tipo de guerra é o poder do dinheiro. E aí entra o “pé de coelho” do mercenarismo religioso: o dízimo.

Esse antagonismo já chegou aqui em Candeias. Já se vê igrejas com diversas denominações correndo atrás dos “cobres”.

A Igreja Católica alega que não estabelece contribuição percentual para o dízimo sobre a renda do seu fiel. Mas, são tantas as frações da Igreja a pedir que se o cristão for atender todos os pedidos, dez por cento da sua renda, será pouco. E ninguém vê caridade. E para onde vai esse dinheiro?
Uma fração da Igreja Católica, chamada “Os Carismáticos”, pedem tanto que se alguém for escutá-los acaba dando cinqüenta por cento de dízimo. E ainda se dizem evangelizadores, mas, não fazem nada de graça. Aliás, todos se dizem evangelizadores, mas, claro, a custa de dinheiro. Eu tinha uma vizinha, que sempre dizia: “Religião é dinheiro”. E é mesmo!...

Algumas, muito poucas, instituições “evangélicas” não estabelecem os dez por cento de dízimo, mas, ao pregarem, usam textos do Antigo Testamento, como por exemplo: “Repreenderei o devorador... Roubais ao Senhor nos Dízimos” etc.etc.etc. Termos que nada tem a ver com o Cristianismo.
Já a maioria dos “crentes evangélicos” é obrigada a dar a contribuição de dez por cento da sua renda para a sua igreja. É de se saber que as igrejas não pagam imposto. E quem não paga o dízimo é enquadrado no “Malaquias 3.8. como ladrão”. (?)

Não somente em Candeias, mas em todo o Brasil, qualquer um pode montar uma igreja. Aliás, fundar uma igreja tornou-se um grande negócio. Pessoas, semi-analfabetas, desprovidas de qualquer princípio teológico, tomam-se do cargo de pastor, amedrontando pessoas humildes através de um diabo violento e forte. É tão forte que, em suas pregações, às vezes, esses equivocados pastores se fazem entender que o diabo seja mais forte do que o próprio Deus... Do que o próprio Jesus Cristo! Aliás, existem igrejas que mencionam tanto a figura do diabo que se acaso amanhã ficar provada a sua inexistência, ficarão todas vazias.
Igrejas montadas em garagens de automóveis, galpões, cinemas, lugares desprovidos de quaisquer princípios sacros.
Ali se discute princípios ausentes da Bíblia Sagrada sendo que o principio básico daquela igreja nem sempre é a fé em Deus e sim no dízimo.

Certa vez, conversando com um pastor de uma Igreja Evangélica, ele me disse que de acordo com o livro de Malaquias (O ultimo livro do Velho Testamento) aquele que se negar a dar o dízimo é ladrão do Senhor.

Durma-se com um barulho desses...

Ora, o livro de Malaquias contém apenas quatro capítulos e, no entanto, está sempre na boca dos “cata-dízimos”. O líder religioso que usar deste livro para ameaçar um cristão sobre o dízimo será ele o legítimo ladrão. Isto porque, nenhum cristão tem a obrigação de pagar o dízimo e quem diz isso é a própria Bíblia.

Eu não tenho aqui a intenção de contrapor o dízimo, mas, simplesmente, responder àquele que disse que baseado no livro de Malaquias, quem não der o dízimo é ladrão.
O dízimo foi estabelecido para os sacerdotes judeus, filhos de Levi e não para a Igreja de Jesus Cristo. Hebreus 7:5 - Devemos entender a diferença que existe entre contribuir em Lei e contribuir em Graça.
Na Lei, o dízimo era a causa principal da bênção do povo judeu. Portanto, a bênção referida deste dízimo do Malaquias 3:10; refere-se ao povo judeu que contribuía conforme a Lei dando o dízimo para ser abençoado.
Na Graça, o sacrifício de Jesus Cristo é a causa principal da bênção do povo cristão. Jesus morreu para nos salvar e para que fôssemos abençoados. Por isso, a maneira correta de o povo cristão contribuir em Graça é através de
Coríntios II 9:7: Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.
Em Romanos 8:1 está escrito: Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus
.E por que vêm os senhores pastores usar do livro de Malaquias para dizer que quem não paga o dízimo é ladrão?
Jesus condenou quem dizimava até a hortelã e o cominho e não ofertava o seu amor ao próximo. Por ai nota-se que mesmo o dízimo do Velho Testamento, era um dízimo agrícola e não em dinheiro.

Ao invés de incentivar os cristãos, principalmente os mais humildes, a contribuírem espontaneamente com amor, certos “pastores” procuram causar medo de maldição visando somente o dinheiro do dízimo.
A forma com que a maioria das igrejas trabalha o dízimo é desonesta e não tem a ver com a Bíblia.

Eu acho que as pessoas deveriam confrontar sempre o que dizem por aí, pelo rádio, pela televisão e pelos púlpitos dessas igrejas, com o que, verdadeiramente, se encontra no livro sagrado. A maioria desses pastores de rádio e de televisão vive fazendo proselitismo de igrejas que cujo Deus é o dinheiro. Abusam da fragilidade humana para persuadir pessoas humildes. Montam uma programação como se armam uma arapuca, dizendo que são missionários do Cristo, quando na verdade são os mercenários do Cristo. Auto se intitulam com poder de cura, de salvação e outras baboseiras mais quando, na verdade, são eméritos exploradores e pecadores que não curam coisa nenhuma.
Infelizmente, muitas igrejas tornaram-se bem parecidas com a antiga Igreja Romana que usava das indulgências como fonte de lucro induzindo fieis a contribuírem por medo da maldição, a comprarem a sua salvação do inferno e do purgatório.

O cristão não é obrigado a dar o dízimo. Mas ele deve sim, contribuir feliz por saber que pode fazê-lo por amor a Deus e do jeito que propuser o seu coração. Contribuir pela graça e não pela coação psicológica e doutrinária, utilizadas por líderes de igrejas, através de versículos da lei judaica. Portanto, não existe nenhum versículo, no Novo Testamento, que registra a obrigatoriedade do cristão dizimar.
.

Fazem uma lavagem cerebral religiosa porque o dízimo é a galinha dos ovos de ouro que proporciona aos inescrupulosos, estabilidade financeira e poder como se fossem os donos da fé vendida a altos preços para os fieis. Deus de nada necessita, pois é o dono de todas as coisas. Nem é servido por mãos de humanos.

A cruz, símbolo maior da cristandade, pouco a pouco, vai se afastando de Cristo e já se torna objeto de decoração ou de enfeite. O estar ou não estar exposta, numa repartição, seja pública ou privada, não está mais fazendo o efeito de outrora. Infelizmente, trata-se de uma cruz desprovida do sentimento cristão. Uma cruz que já não atinge quase ninguém.

Concluindo a minha reflexão: eu sinto que a lição que Jesus Cristo nos deixou está deturpada. E eu pergunto: Por que essas pessoas que se dizem portadoras de poder para curar querem fazê-lo diante das câmaras de uma televisão? Ou no púlpito de suas igrejas?
Se essas pessoas que se dizem munidas do poder de cura, curassem realmente ou se fossem, verdadeiramente, seguidores do Evangelho de Cristo, naturalmente, iriam lembrar que Jesus disse em Mateus 10.8: Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; dai de graça o que de graça recebestes.
É lamentável esta exploração que estamos vendo por todos os cantos...

Armando Melo de Castro
Candeiasmg. blogspot.com
Candeias MG
Nota do Autor:
Apesar de raras, muito raras, existem instituições religiosas sérias e merecedoras de respeito. Por si sabem quem são e não se farão incluir
na filosofia deste texto.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O PINTO DO GALO




O sábado sempre foi para mim o dia preferido para satisfazer integralmente o meu apetite. Um churrasquinho; um feijão-tropeiro; um franguinho... Enfim, gosto de sair da rotina da semana. Hoje, sábado, amanheci instigado a comer alguma coisa muito gostosa. E pensei logo numa galinhada bem suculenta, daquelas com galinha caipira --- uma caipirinha ou uma cervejinha acompanhada de uma boa dose da cachaça “João Cassiano”. --- Só de pensar nisso, me sinto arrepiado de desejo. Posso imaginar até um outro tipo de orgasmo: O orgasmo alimentar. E nesse acme me aparece uma lembrança “empata fome” dizendo que eu não posso comer isso.

Não porque esteja doente ou o delicioso manjar brasileiro me faça mal. Não. Acontece que eu tomei a decisão de fazer uma dieta e para quem está fazendo dieta a galinhada não é recomendada.

Não existe um sacrifício maior do que seja fazer dieta. Pelo amor de Deus! Parece que quando estamos de dieta pensamos mais em comida do que nas outras coisas. O paladar fica mais aguçado e os olhos ficam iguais a olhos de menino: vê tudo que é de comer.
Eu não estou fazendo dieta porque estou em busca de uma delgadeza para o meu corpo e nem uma boniteza para o meu rosto. Eu estou apenas procurando um buraco para jogar uns quilos fora porque do jeito que vem vindo comigo, eu vou acabar é me transformando num capado de chiqueiro. Para quem não sabe, o capado de chiqueiro é aquele porco que quando já cevado, pesa uma dúzia de arrobas e até o seu rabo tem gordura.

Na sala de casa, está colocado um espelho. E eu me vejo o dia todo durante o vai-e-vem. A camisa saindo de dentro das calças... Os braços querendo levantar voo. As calças apertando tudo. Um verdadeiro protótipo de sapo-boi. Cortar uma unha do pé e calçar um sapato é um martírio. O resto, quem entende sabe do que estou falando...

Portanto, resolvi passar uma efêmera fome. Jogar fora um pouco desse unto, que deveras muito me incomoda. De quando em vez, eu faço isso. Mas, com certeza, é uma coisa difícil. Meu Deus! Como é difícil. Afinal, comer é uma das maravilhas da vida.

E como eu dizia, o dia hoje estaria apropriado para comer uma galinhada bem chorumenta e depois ficar quietinho dentro de casa; curtindo a “cheiura” e agradecendo a Deus. Mas, como eu não pretendo quebrar o meu jejum, contentar-me-ei com um pouco de salada e três ovos cozidos, daqueles da gema bem amarelinha... Afinal, estão dizendo por ai que ovo não faz mal mais. Prefiro acreditar, pois assim vou ter a sensação de que vou comer três galinhas.


Quando falo em ovo da gema bem amarelinha, penso em galinha. E ao pensar em galinha, faço-me lembrar de uma história que se encontra bem funda nas minhas lembranças.
Eu tinha, mais ou menos, uns oito anos de idade quando o miolo da minha caixa craniana fermentou-se tal qual um líquido numa pipa mostífera.
Eu estaria impressionado com a forma de reprodução das galinhas.
Já teria tomado conhecimento de como a gente chegava ao mundo. Meu pai cuidadosamente teria me contado. E como o seu vocabulário era bem no coloquial e sem rodeios, essa mania de substituir o espermatozóide por sementinha não era do seu feitio - (Acho isso uma incongruência) – Portanto, aos oito anos de idade, eu já teria tomado conhecimento como fui parar na barriga da minha mãe.
Zé Delminda, meu pai, um filho criado sem mãe e que teve apenas três meses de escola, chegou a ser professor da Prefeitura, na zona rural, e ensinou-me coisas que as escolas e os pais não ousavam ensinar. As crianças e adolescentes, na sua maioria, viviam de curiosidade e a rua era a escola da vida.
Mas, voltando à reprodução da galinha, eu perguntei ao meu pai como que o pinto saia da barriga da galinha. Foi quando ele me disse que o pinto não saia da barriga e sim do ovo. E, por mais que ele me explicasse, não conseguia entender.
A minha tia, que morava ao nosso lado, criava galinhas. E essas tinham os seus ninhos, bem nos fundos do quintal. E eu sempre estava por perto estudando as suas vidas. E por mais que eu tentasse entender o modo de procriação desses animais, estava muito difícil para eu associar a diferença entre um mamífero e uma ave.
Encontrava-me totalmente perdido e muito curioso. Mesmo porque, o meu pai me explicou direito como eu teria nascido. Como nasce um bezerro ou um cavalo. O gato e o cachorro. Mas, a galinha eu não sei se por falta de paciência, ou por falta de palavras adequadas, ele não teria me convencido de como era o processo da reprodução através dos ovos.

O galinheiro de tia Eliza virava um frege quando botavam um ovo. Cacarejavam como se houvesse botado um asteróide. Aquilo parecia uma grande festa pelo nascimento de um filho. Mas, eu não tinha visto o processo de incubação. Como que um pinto saia do ovo se eu via sair era uma gema amarelinha dos ovos que minha mãe fritava?
Certo dia, fiquei horas e horas, de tocaia sobre um ninho para ver como o ovo saia de dentro da galinha. E vi! Vi tudo, inclusive o sofrimento da pobre ave. Roubei-lhe o ovo e o quebrei para ver se saia um pinto. Mas, que nada!
Minha tia orientou-me dizendo que posteriormente a galinha iria chocar os ovos ficando dia e noite sobre eles durante vinte e um dias. Aquele negócio da galinha ficar durante dias sobre os ovos fez a minha cabeça rodopiar. Parece que os meninos de antes eram mais curiosos e menos inteligentes.

O meu projeto de descobrir como aqueles ovos poderiam se transformar em pintos deixou-me aguardando com ansiedade o dia em que a minha tia fosse colocar uma galinha para chocar. E essa hora chegou.
Todos os dias, assim que eu vinha da escola, corria para visitar a choca que estava lá inerte sobre os ovos.
Um belo dia, quando cheguei para ver a minha amiga mamãe-galinha, lá estava o ninho vazio, com apenas as cascas dos ovos. Dali por perto estava a carijó ciscando e tendo em volta os seus filhotes recém-nascidos.
Aquele momento, com certeza, terá sido um momento feliz da minha vida.
Passava horas pastoreando a galinha com os seus pintos.
Aos domingos era dia do frango com macarronada. Quem o matava era a minha avó, pois minha mãe tinha dó de fazê-lo. E neste momento, quando o pobre galináceo se estrebuchava para morrer, eu já o apalpava para examiná-lo, pois uma incógnita ainda mexia com os meus neurônios. Fiquei observando com a maior atenção a minha mãe depenar, sapecar, lavar e desventrar o frango, já quase galo.
Ansioso eu aguardo a chegada do meu pai para me dar a resposta que iria satisfazer a mais funda das minhas curiosidades:
Pai, como que o galo faz pinto se ele não tem pinto!?


E meu pai rindo, satisfeito por ver-me interessado num assunto macho, responde:
“Vamos lá fora. Eu vou explicar tudo pra você.”Ouvi quando minha mãe bradou!
“Ê Zé! Cê vai acabar deixando esse menino perdido!”



Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias-Minas Gerais

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O DEFUNTO ABANDONADO




O que há de mais interessante é que dentre todas as referencias feitas às estações ferroviárias da região, a de Candeias teria sido acrescida de um realce bem pessoal, por parte do Sr. Edson Teixeira, residente na cidade de Caraguatatuba-SP - e que, naturalmente, teria feito contato com o autor do site. O Sr. Edson Teixeira, é candeense, filho do Edinho do Dorfinho da Doca (Família Chagas) e da Rosa, do Vico Teixeira e Sra. Laura Barreto. Há cerca de três anos, mais ou menos, esteve estabelecido com um restaurante, em Candeias, na Avenida 17 de dezembro, em frente a sua tia Luzia. Leva o nome do seu pai, Edson Teixeira Chagas, já falecido e muito lembrado pelos candeenses mais antigos. A iniciativa do nosso conterrâneo, de registrar a sua mensagem no mencionado site da Internet, falando das suas saudades do tempo de criança em Candeias, é, realmente, de um gesto meritório e digno de aclamação dos candeenses saudosistas.
Experimento junto do Sr. Edson, essas lembranças que vivem bem guardadas nos cofres da minha memória. E diante dessa saudade, relembro, também, a velha estação ferroviária de Candeias, há muitos anos, quando eu ainda era criança... Tempo em que Candeias representava todo o meu mundo e minha imaginação me conservava ali, pensando que seria como uma fruta que cai-de-madura, sobre as sombras e raízes do seu pé. Todavia, o destino mudou a minha rota, mas eu trouxe comigo as lembranças para hoje sentir uma saudade feliz. ------- Saudade! um sentimento estranho para mim quando ainda criança...
Vejo-me, portanto, entrando pela primeira vez na estação ferroviária de Candeias। O meu coração batendo forte, de tal forma, que se não fosse eu um menino, talvez, esse teria saído pela boca... Aquela aglomeração... Pessoas falando alto... Outros contando histórias... E alguém dizendo: o trem está atrasado... E eu desesperado perguntando ao meu pai: por que o trem está atrasado? --- Meu pai respondendo que aquilo era normal... Começa a fermentar no meu cérebro todas as historias de trens que eu já teria ouvido। Enquanto meu pai conversava com um amigo a minha imaginação estava a todo vapor. Ouvira dizer que dentro dos trens havia restaurante com cozinha e tudo; camas para dormir e até uma privada... Ouvira dizer, também, que o combustível da máquina era água e fogo... E essa se locomovia com vapor. Aquelas idéias me deixavam atordoado... Pelo fato de morar do outro lado da cidade, eu nunca teria visto um trem de perto. Estava acostumado a ouvir o apito muito familiar das marias-fumaça que trafegavam dia e noite levando e buscando gente e mercadorias...
E meu cérebro continuava fermentando: Daí a pouco eu iria conhecer esse trem... Ia ver uma cozinha se locomover... Um restaurante... Um quarto de dormir... Uma privada... E como seria essa privada dentro do trem!? Quanto mais o trem demorava, mais o meu cérebro fermentava.
Finalmente chega aquele monstro negro jogando fumaça e vapor por todos os lados। Os passageiros até então acalmados agora se agitam... Entram, falam, despedem-se. Ouve-se o soar de um sino. Trata-se do sinal para a partida do trem. Eu não ouvira ainda, um sino bater fora da igreja... Acho aquilo interessante... Ouve-se um apito. Aquele apito familiar da maria-fumaça já conhecido à distância, agora ali perto de mim. O trem vai saindo vagarosamente me levando cheio de uma felicidade indescritível... Vejo pessoas estranhas; vou olhando para todos os lados; procuro com os olhos cheios de curiosidade a cozinha... ------- E as camas? Onde estariam as camas? E a privada? Onde seria essa privada!?

Perguntei ao meu pai: Onde estão? E meu pai sorrindo responde: Aqui só tem a privada. As outras coisas só no trem da noite e que se chama noturno. Este trem é do dia e é chamado de misto. Com essa resposta a minha felicidade tomou um empurro... Mas não me abati. A curiosidade, agora, se concentrava no desejo de conhecer a tal privada... Desejei, para isso, a vontade de fazer xixi. Poder fazer xixi!... Cocô dentro do trem?! Como seria isso?!
De repente alguém próximo disse: vou até à latrina. E eu no auge da minha curiosidade pergunto ao pai: o que é latrina? Fico sabendo tratar-se da privada. Sinto inveja daquele rapazinho que se dirige até a uma portinha num canto do vagão e entra. A minha curiosidade foi tanta que meu pai se propôs levar-me a conhecer aquele gabinete.
Nesse dia eu fui conhecer a cidade de Formiga, numa visita que meu pai fez a um compadre seu. E eu torcendo para que a viagem de volta pudesse vir a ser de noite... Mas não foi. Portanto, não foi dessa vez que pude ver algo além da privada. Acredito ter sido um dos dias mais felizes de minha vida... Pois não bastaram as emoções de conhecer o trem, viria, também, a emoção de conhecer uma cidade grande, bem maior do que Candeias.
A partir daí o meu convívio com os trens se tornou rotineiro। A estação de Candeias era bastante movimentada. Quase nada entrava na cidade ou saia a não ser via trem de ferro. O meio de transporte rodoviário era então, muito atrasado. Os ônibus se limitavam em pequenas jardineiras e era um transporte caro. E os caminhões em número muito reduzido. Comumente ouvia-se dizer: viajar de trem é bom... É confortável... Parece que o povo daquele tempo não tinha muita pressa para chegar ao destino... Era um povo mais calmo e não se irritava com os atrasos constantes dos trens. Não criticavam com veemência, as deficiências da ferrovia... E as viagens, mesmo de negócios, eram transformadas em passeios... ---- Estarei certo ou fortuitamente enganado? Ou quem sabe a ingenuidade de criança ainda perdura em mim?
Junto à estação localizava-se a máquina de limpar café e um grande armazém de depósito. Muitos trabalhadores circulavam por lá trabalhando o café। Uma sirena de som estridente levava a todos os cantos da cidade a marca dos horários de trabalho. Um motor a óleo bastante barulhento quebrava o silêncio do largo da estação. Havia, sempre, vagões estacionados no pátio da estação carregando ou descarregando. Agentes, conferentes, guarda-chaves, pra lá e pra cá, trajados com o fardamento da ferrovia, davam vida naquele ambiente hoje morto. De frente, estava a máquina de limpar arroz, bastante movimentada, beneficiando o arroz produzido no município. Manipulando esta máquina estava o amigo João do Sô Nico, músico sempre ativo, da Banda de Música.
A chegada do trem de passageiros dá um clima de festa। A estação era ponto turístico onde até casais de namorados iam ver o trem chegar e sair. Os carroceiros apostos, entre eles, Juca Cordeiro, Arlindo Barrilinho, Serafim e outros, se movimentavam para pegar as mercadorias que chegavam. Os carregadores de malas abordavam os passageiros e principalmente os caixeiros-viajantes, cujas gorjetas eram polpudas. Logo após, a Rua Coronel Marques, ou melhor, a Rua da Estação, aliás, a primeira Rua de Candeias a receber calçamento; parecia uma maratona... Pessoas que desciam e depois subiam para ganhar o centro da cidade. Subindo o morro ia o Joaquim Estafeta com aquele baita saco cheio de cartas sendo levado para a agencia do correio. Os telegramas eram recebidos e transmitidos através da Estação Ferroviária. O correio não tinha telegrafo nessa época.
Posteriormente as marias-fumaça foram substituídas pelas grandes locomotivas movidas a óleo diesel; e os comboios agora maiores ficaram restritos em seus horários. Pois apenas uma locomotiva levava a carga de três marias-fumaça...
Há um tempo passado, eu estive lá remoendo esses quadros de minha infância। Vendo aquele local deserto, sem uma pessoa, ali, naquele momento, senti uma saudade danada daquele dia em que fiz a minha primeira viagem de trem e estive tão feliz naquela plataforma cheia de gente e agora completamente vazia. E ao me retirar daquele local avistei a única fonte remanescente do ruído de outrora. Afrontando o tempo, apenas um pouco arredada do seu antigo lugar, está à máquina de beneficiar arroz. Um pouco mais preguiçosa, mas ainda tendo ao seu derredor a figura do amigo, João do Sô Nico*, que, talvez, como eu, guardando dentro de si os quadros veneráveis daquela estação e os apitos da Maria-fumaça, subindo e descendo... Buscando e levando a vida da cidade. Seria inútil tentar arrancar de mim essas lembranças doloridas. Elas entraram pelo cérebro, desceram ao coração e lá se acomodaram.

Armando Melo de Castro
Candeias MG casos e acasos.

sábado, 20 de novembro de 2010

O JILÓ


   Hoje de manhã, ouvi minha mãe pedir para a empregada ir ao supermercado e comprar jiló, “de preferência, bem verdinho”. Ainda disse: “É bom fazê-lo com a casca para que fique um pouco mais amargo. Esses jilós, de hoje, não amargam como os de antigamente.”.

Minha mãe, aos oitenta e seis anos de idade, é consciente de que o tempo, que marca a nossa vida, vai-nos tirando, aos poucos, os cinco sentidos, mas, ela se esquece sempre do paladar.E é por isso que, dificilmente, vemos um jovem se queixar de que algo está sem gosto.
Aos ouvidos de muita gente, essa observação da minha mãe, sobre o jiló, poderia parecer estranha. Afinal, não é comum, alguém gostar de coisas amargas.

Diante deste comentário sucinto sobre o jiló, remexeu nas células do meu cérebro, um fato que já se encontrava, meio perdido, dentre as gavetas da minha memória:

Encontro-me na Vila Isa, às margens da rodovia Rio/ Bahia, na periferia da cidade de Governador Valadares MG; onde havia um posto avançado de prestação de serviços bancários. Tratava-se de uma extensão da agência central do Banco do Estado de Minas Gerais S.A. O BEMGE, situada no centro da cidade, onde eu exercia as funções de Gerente Geral.

Fazia parte da rotina da minha tarefa diária, visitar aquele posto todas as manhãs.
Logo no início dos meus afazeres, naquele local, observei que, na esquina próxima dali, havia um salão de cabeleireiro, bem montado, e com um anúncio cravado acima da porta de entrada, num formato muito estranho:
“Jilozinho Cabeleireiro”.

Lembro-me de que, quando da primeira vez que bati os meus olhos naquele anúncio, o tribunal da minha consciência deu uma sentença para aquele que seria à razão daquela placa e pensei, cá com os meus botões: Esse jilozinho deve ser leitor de Oscar Wilde; admirador da obra de Leonardo da Vinci; fã de Elton John e telespectador do Leão Lobo e Fã do Felix e do Niko, da Novela das 9.

Diante de uma tabuleta, tão estrambótica, eu não tinha mais o que pensar. Que me perdoe a turma da parada gay, mas...Fiquei por entender alguém denominar um salão de beleza com um nome tão esdrúxulo. Era um salão aparentemente muito bem montado, num dos melhores prédios do bairro; o que fazia o ponto ser bem-conceituado.

Alguns dias depois, defrontei-me com um jovem, de mais ou menos vinte e cinco anos, muito bem vestido, trajando-se com bastante feminilidade e que somando a sua boa aparência física e o seu comportamento pude ataviar a impressão que tive, quando teria visto a placa do cabeleireiro jilozinho.

Daí a pouco, aquele jovem me foi apresentado pelo encarregado do posto:

-Armando, esse é o nosso cliente Jilozinho...

-Olha, senhor Armando, é um prazer conhecê-lo, sou seu cliente aqui e quero tê-lo como meu cliente também. Sou o Jilozinho. Tenho um salão de beleza, só para homens. Sou especialista em depilação masculina. Peito, axilas, limpeza de pele e tudo mais que o cliente desejar. Fiz curso de especialização na Argentina. O meu primeiro trabalho para o senhor será uma oferta da casa.

Olhei, atentamente para os lados, para ver se não havia ninguém ouvindo aquele papo. Se fosse eu um adepto do conceito religioso evangélico, eu iria imaginar que aquele moço precisaria de uma conversão. Mas, como sou católico pensei de outro jeito.

Estar ali, ao redor de uma porção de gente, ouvindo aquela oferta, tão extravagante, fazia-me encalistrado, encafifado e muito desarrumado. Jiló é uma fruta que não consta do meu cardápio. E agora, vem um jiló falando que corta cabelo, raspa peito, sovaco, e sei lá mais o quê?... E só de homens!? E depois, ainda, na maior descontração do mundo, falou alto e em bom som: “Sô Armando, eu sou o único jiló do mundo que não amarga.”. Depois, saiu.
E eu lá queria saber se ele era doce ou amargo? Durma-se com um barulho desses!...

A bem da verdade, eu fiquei parecendo um menino de quinze anos sendo cortejado por uma rameira experiente.


O amargo do jiló, realmente, faz com que esse fruto seja pouco considerado. Vejamos, por exemplo:

É um fruto sem pai. Ninguém sabe ao certo de onde ele é natural. Uns o consideram da África; outros dizem que é das Antilhas; outros ainda afirmam sê-lo da América do Sul, especialmente, do Brasil. Portanto, o jiló é realmente um filho sem pai certo.
Coitado! Apesar de ser da família das solanáceas, ou seja, parente próximo do tomate, não se vê os dois juntos. O tomate é um fruto de boa fama. Quando verde ninguém abusa; ninguém quer comê-lo. Já o jiló, quanto mais verde mais corre o risco de ser picado. Ninguém quer saber de jiló maduro.
O jiló é um fruto de pouca moral. Eu nunca fui a um almoço ou jantar festivo que ele estivesse à mesa. Além disso, vive na boca dos desbocados.
Seu sabor amargo ficou sendo sinônimo de momentos difíceis da vida... Tudo que amarga faz lembrar o pobre do jiló e a criança o detesta.
Lembro-me de um baião do Luiz Gonzaga que dizia: “Saudade amarga que nem jiló”.

Antigamente, era comum ver alguém vindo da roça, rodar a cidade de Candeias para baixo e para cima com um balaio de jiló. E, nem sempre, voltava para casa após ter feito bons negócios.
Candido Alves Vilela, mais conhecido por Candola, pessoa respeitada; membro da família Vilela, tendo como filhos, Mariquita, Balofo, Geralda, João, Pedrinho, Aldinha e Samina.
Candola morava onde hoje está estabelecido o Bar do Bola.
Certa feita passa à porta de sua casa, uma senhora que já havia rodado a cidade toda com o seu balaio de jiló e, já vencida pelo desânimo, pergunta-lhe:
“Sô Jiló, quer comprar Candola?”
E o Sr. Candola, que não era muito sorridente, responde, sorrindo diante do trocadilho da pobre regateira: “Não! Já me bastam os amargos da vida. E depois o meu nome não é jiló não...”.

E a roceira, após observar que teria cometido uma infeliz troca de nomes, já estava a ponto de pegar aqueles malditos frutos amargos e jogá-los no primeiro buraco que lhe aparecesse. Vai se retirando desalentada, quando o Candola lhe chama de volta e lhe compra todo o jiló do jacá.

Aquela criatura deu um sorriso doce e disse, olhando para os céus:
-Graças a Deus! Nossa Senhora vai ajudar o senhor, Sô Jiló. E muito, muito mesmo.

-Menina, por acaso eu tenho cara de Jiló?
-Não! Não sinhô. O sinhô não tem cara de jiló não. O Senhor tem cara é de candola. Oh! Meu Deus me ajuda!
- E o que é candola, você sabe?
-Uai, Sô Candola... Candola, eu acho que é candola, né?...


E o Candola, vendo contar os litros e enchendo um grande balde do solanum amargo, já devia estar pensando: “O que vou fazer com tudo isso meu Deus”?
É! A vida é assim: Uns gostam da fruta; outros preferem o caroço.


Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias-MG

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

RUA CORONEL JOÃO AFONSO

Rua Coronel João Afonso atualmente (2010)

Recebi, com emoção, da minha amiga, Clara Borges, uma fotografia da rua onde nasci retratando, exatamente, a época do meu nascimento e da minha infância há sessenta e cinco anos atrás. Ali nasci e ali cresci até o limiar da minha adolescência.

A Rua Coronel João Afonso, antigamente, era chamada rua da ponte por causa da ponte que traspassa o Ribeirão dos Cassianos junto ao Bairro Rio Branco.
Naquele tempo, não havia trânsito por ali. Os veículos, ainda escassos, trafegavam pela Rua João Caetano de Faria, antiga José Maria Alkimim.

Em tempos de chuva, a rua virava um verdadeiro lamaçal. Os postes de madeira eram equipados com luminárias de luz fraca. Na época da seca, com a diminuição das águas, aquilo mais parecia um tomate maduro.
Cada casa tinha um banco à porta. À tarde, as pessoas reuniam-se porta a porta para conversar assuntos dos mais variados.

Entre os moradores da rua, existiam amizades e inimizades de vizinhos. Nem sempre, era respeitada a máxima de que “o vizinho é o parente mais próximo”. As rixas se davam por motivos diversos, tais como o mau cheiro do chiqueiro do outro; o galinheiro produzindo piolhos de galinha; o pé de manga quebrando telhas; galinhas soltas invadindo hortas e estragando canteiros de verduras; cachorros latindo fora de hora; briga de crianças; marido safado provocando ciúme; empréstimos de alimentos, aos pouquinhos, que nem sempre eram pagos. Aliás, numa vizinhança pobre, sempre tem alguém pedindo, sob empréstimo, uma coada de café, umas folhas de cebola, um dente de alho, uma canequinha de açúcar, um comprimido para dor de cabeça, etc. Essa cultura da sociedade proletária é um comportamento corriqueiro.

Não existiam leis. E se existiam, não eram cumpridas e nem cobradas pelo poder público. Se o fiscal da Prefeitura ousasse multar alguém por causa do seu chiqueiro de porcos ou por causa do seu galinheiro piolhento, a família toda mudava de partido. Era o velho tempo da UDN e do PSD. Para quem tinha o nariz sensível não adiantava torcê-lo. O recurso era brigar apenas para desabafar, terminar em inimizade e continuar recebendo os piolhos das galinhas e a fedentina dos porcos. Caso contrário, teria que respeitar o lema: “Os incomodados que se mudem”.
A rua tinha água encanada somente até as imediações da antiga venda do Chico Freire. Ou seja, apenas um terço dos moradores da rua possuíam água encanada. Dali para baixo, algumas torneiras públicas foram colocadas num esteio fincado, no meio da rua, as quais soltavam um tênue fio de água, pouco tratada.
A primeira dessas torneiras era bem defronte a minha casa e eu ficava por ali apreciando, ouvindo as fofocas e registrando as ocorrências. A aglomeração era maior nesta bica porque, sendo a primeira, ela tinha uma vazão maior e as demais, que ficavam abaixo, pouca água sobrava para elas. Além disso, esses pontos não atendiam somente os moradores da Rua Coronel João Afonso. Pessoas de ruas adjacentes, também, usavam a água dessas fontes.
As mulheres faziam fila para encher as suas latas enquanto algumas lavavam roupa, no meio da rua. Aquilo era a sinonímia da pobreza. Era o retrato da ralé quando as mulheres mais afoitas brigavam e, por vezes, até se agarravam enquanto alguém tentava furar a fila das latas.
Havia uma senhora de nome Melada Barros que estava sempre destoada com as demais por não respeitar a fila. Ali não se chutava o balde. Chutava-se a lata e a dona da lata. E assim o pau comia.
Meu tio, João Delminda, nosso vizinho de parede-meia, tinha, ali, uma sapataria e era inclinado pelas mulheres. Mantinha-se, sempre, de olho vivo procurando uma posição para observar o mau jeito das pernas de alguma lavadeira, agachada e distraída, ao lado da bacia de roupas mostrando as partes pudendas.
As pessoas que já leram o livro de Aluisio Azevedo, “O Cortiço”, poderão fazer uma idéia do que tenha sido a Rua Coronel João Afonso, antigamente.
Certa vez, quando aquele sítio de intrigas se movimentava, habitualmente, houve um relance extraordinário. Foi como se uma bomba caísse no meio do mulherio. Aparece a poucos metros dali um homem nu, completamente nu. Tratava-se de um mendigo, portador de doenças mentais, sem bagagem e trazendo consigo, apenas, um cabo de enxada. Foi um deus-nos-acuda. Mulheres saindo correndo, umas entrando nas casas, até de inimigas; outras preocupadas com as roupas quarando num quarador de gramas da rua.
O homem nu começa a procurar, entre as roupas avistadas, alguma peça que lhe servisse quando as donas dessas começaram a lhe atirar pedras tentando espantar o demente.
Uma das pedras acertou o infeliz que, após ser envolvido num cobertor, foi acudido pelo Sr. Erasto de Barros, morador da rua, que falava mais que as mulheres quando perdiam o sabão.
Após o entrave e durante alguns dias, nada mais interessante para mim foi ouvir os comentários sobre os dotes masculinos do homem nu que, mesmo diante de grande confusão, foram apreciados por algumas daquelas tagarelas. Uma delas chegou até a ironizar: “Que mundo mal repartido, meu Deus”!

Assim, era a Rua Coronel João Afonso no meu tempo de criança.

Rua Coronel João Afonso na década de 40

Certa vez, eu vi, no pára-choque de um caminhão, o rifão: “Recordar o passado é sofrer duas vezes”.
Neste sentido, entendo que se tratava de um alguém muito sofrido cujo pensamento contrasta com o meu. Penso eu que o passado deve ser revivido, pois, é dele que nasce a força que impulsiona o nosso presente gerando o nosso futuro. Deve ser revivido mesmo que tenha sido um passado infeliz, isso porque a alegria e a tristeza andam sempre juntas. E é difícil esquecer um sentimento que entra pelo cérebro e se acomoda no coração.

Quando me recordo da Rua Coronel João Afonso, eu volto a ser uma criança feliz. Vejo-me brincando com os brinquedos feitos pelas mãos do meu pai; brincando juntamente com os meus amigos de infância; brincando sem as amarguras da vida adulta; sem pensar o que me poderia advir no futuro. Sem sequer imaginar sobre os trancos e barrancos inerentes à vida humana. Sem a mínima preocupação com o amanhã. Envolvido, apenas, na lealdade infantil quando não se conhece a mentira e nem a falsidade. Quando a maldade humana é ainda desconhecida.
Eu chorava apenas com os olhos e nunca com o coração. Não conhecia a mágoa e nem os ressentimentos. Meu coração não tinha cicatrizes e batia mais forte. Eu ainda não vira um contemporâneo morrer; eu não sabia o que é perder um ente querido deixando um vazio dentro da gente, impreenchível. E, por isso, eu não entendia a morte. Eu ainda não conhecia o tempo... O tempo que dá e toma; que trás e leva...

Como a felicidade foi camarada comigo naquele tempo em que morei na Rua Coronel João Afonso! Eu não tinha problemas de nenhuma natureza. Eu não sabia reconhecer os problemas dos meus pais e sequer das outras pessoas. A minha vida era um mar de rosas. Era como uma estrada larga, sem buracos no inicio de uma viagem bem prometida e que, aos poucos, iria se estreitando e mostrando os seus precipícios.
O franguinho com macarronada, aos domingos, tinha mais sabor; as laranjas do quintal eram mais doces; os canarinhos cantavam mais alegres e não existiam pardais piolhentos. Não havia televisão e nem rádio para mostrar e nem dar notícias ruins. O som do bandolim do meu pai era a festa da casa e tudo que eu aprendia era através dos meus pais que o fazia com muito amor.

Como eu tenho saudade da minha infância! A Rua Coronel João Afonso era todo o meu mundo. Dela eu tenho as melhores lembranças guardadas no meu coração e sintonizadas com a minha memória. Nela vivi até o despontar da minha adolescência, quando me fiz despedir de um tempo em que o céu era muito mais azul; o sol era muito mais claro; e as nuvens eram brancas, tão somente brancas para mim.
Eu era tão feliz! Pena que eu não sabia disso!

Armando Melo de Castro
blogdoarmando@yahoo.com.br
Candeias- Minas Gerais

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O MEU PRIMO CRENTE.



Eu tenho um primo que recebeu o nome de Vicente na pia batismal da antiga Igreja Matriz de Candeias. Vicente, como eu, nasceu na Rua Coronel João Afonso, praticamente sob o mesmo teto, pois, nossos pais moravam numa casa de parede-meia e os quartos em que nascemos tinham localização contígua.

Tínhamos quase a mesma idade. Eu, apenas um ano mais velho, fazia dele o meu maior amigo. Brincávamos no mesmo terreiro. Chupávamos frutas do mesmo pé, dependurados no mesmo galho. E por vezes, tomávamos varadas de marmelo, nas pernas, no mesmo momento; cada um de seu pai, por estarmos agarrados de unha e dente por causa de algum capricho disputado.

O tempo, esse aspecto sempre em vigília e incumbido de alterar o destino das pessoas, separou-nos na adolescência. E durante anos, poucas foram às vezes que nos vimos. Mas, o destino, que nem sempre obedece ao que o tempo determina, nos fez reencontrarmos na mesma cidade, trinta anos depois, ou seja, na cidade de Lagoa da Prata: Eu, gerente de uma agência bancária, e ele, como operador de máquinas da Usina de Açúcar.

Vicente, agora, não era o mesmo. Tornou-se bem diferente daquele Vicente de outrora. Aquele não aceitava acompanhar-me ao catecismo porque não gostava de igrejas; que só levava vantagem nas nossas brigas; que fumava escondido. Que me contava das reações do seu corpo adolescente e sorria, maldosamente, enquanto eu, com cara de bobo, nada entendia. 

Depois de muitos anos fui encontrar um Vicente diferente. Um Vicente crente falando do céu como se fosse um hotel de luxo para onde os privilegiados de Deus ficarão hospedados, após a morte. 

Vicente, agora, está sempre dizendo que encontrou Jesus, como se Jesus estivesse perdido dele. Vicente um conhecedor dos capítulos e versículos da Bíblia mais do que as linhas de suas próprias mãos. 


O comentário que faço a respeito do primo crente é, todavia, isento de critica maldosa. Muito pelo contrário, eu tenho muito respeito por ele, pela forma de ser e pelo fato de que a nossa amizade vem desde a infância, em Candeias.

O primo é “cabeça de área” da Igreja, Assembleia de Deus. Se lhe fornecer o número do capítulo e ou versículo da Bíblia Sagrada, ele será capaz de dar o texto de cor e salteado. --- Os seus problemas são debitados integralmente a Deus e a Jesus Cristo. Se um filho for acometido de um faniquito qualquer ou coisa mais séria, o primo não se aperta: “O Senhor não me faltará” É crente com todas as letras. Não perde nem para o “Davi Miranda”. Anorexia, para ele, é o milagre do programa Fome-zero. Reza sempre para o Lula fazer um bom governo e com certeza estará pedindo, agora, também, para a Dilma Rousseff.

Vicente estudou pouco e, no entanto, é o tesoureiro da igreja e, em caráter emergente, sobe ao púlpito e faz uma sermoa. É o famoso irmão Vicente! Estimado por toda a confraria. E é  “peixinho” dos pastores.

Às vezes, quando me proponho a visitá-lo, comumente o encontro reunido com algum irmão de fé. Em sua casa, quase sempre está ele, no maior papo, com o seu irmão em Cristo, o irmão Tonho, famoso pela sua teimosia.
Irmão Tonho daqui, irmão Vicente dali e, assim, comem o papo, no mesmo prato. O irmão Tonho, também, tem a Bíblia na pontinha da língua.
Eu acho muito bonito, aquela irmandade, aquele respeito, aquela devoção, aquela fé incontestável que deixa aqueles corações tão candidizados.

Os dois irmãos em Cristo são muito amigos, mas, certa vez, tiveram uma altercação ferrenha:

No ano passado, eu cheguei à sua residência quando lá estavam os dois se preparando para uma pescadinha, próximo à cidade. O Vicente com um chapéu de palha em listrinhas vermelhas e azuis, tipo festa junina; e o irmão Tonho com um casquete, modelo militar, e uma calça amarela, bastante usada, parecendo um capataz de coronel aposentado usando resto de farda faltando-lhe, apenas, as estrelas. As camisetas eram iguais, com os dizeres: “O Senhor é o meu pastor”.



Cumbuca de iscas, matula, varas na mão e pé na estrada. Aliás, bicicletas na estrada, e lá se foram.

Uma hora depois, estavam os dois, à beira do rio, pescando e cavaqueando, animadamente e naturalmente, sobre os livros sagrados. Posso, sem dúvida, imaginar que estivessem discutindo a genealogia de Jesus Cristo e quem sabe? De forma supositiva, estariam tentando descobrir quem teria sido a bisavó de Abraão... Talvez estivessem comentando, também, onde estivera Jesus Cristo dos 12 aos 30 anos de idade... Pode ser, também, que naquele papo santo procurassem decifrar o que Jesus discutiu com os doutores quando ele tinha os 12 anos. Talvez isso não estivesse bem claro para o primo Vicente e seu amigo Tonho. Ah! Uma outra coisa que eu acho, também, deve ter sido discutido enquanto pescavam foi quem teria assinado a carta aos Hebreus. Afinal, nada prova que foi o Apóstolo Paulo...


De repente, um sobressalto! O inesperado acontece: Uma grande cobra, enrolada, bem pertinho do Irmão Tonho.



Ao ver a peçonhenta venenosa fitando-lhes os olhos, Irmão Tonho quase morreu de susto. Foi um deus-nos-acuda. Com um pedaço de pau conseguiram matar o bicho e o jogaram no rio. Daí começou o debate ofídico:

--Cê viu que baita de jararacuçu, irmão Vicente?



--Aquilo nunca foi jararacuçu, irmão Tonho...



--Como não foi, irmão Vicente!?Jararacuçu e dos grandes...



--Ce num viu o chocalho, na ponta do rabo dela? Era Cascavel, irmão Tonho...


--Que mané cascavel, irmão Vicente! Ocê parece que não entende de cobra 


(Rindo) ---Entender de cobra não é o meu fraco não, Irmão Tonho...



--Eu nasci na roça e conheço tudo quanto é cobra...



--Ôa.Ôa! Ôa, irmãoTonho! Oia, eu cumêdo docê. Negócio de cobra, tô fora...



--Ô irmão Vicente, ôcê ta me adisrespeitano! Eu sô home sério e de respeito...



--Que isso, irmão Tonho...!? Eu to é brincano!



--Mas, isso é brincadêra maldosa, irmão Vicente! Um crente num brinca disso!

Ali, acabou a pescaria e a amizade também. Por mais que os amigos tentassem não conseguiram fazer com que os dois reatassem a amizade. Até que um dia chegou para a igreja deles um novo pastor. Rapaz dinâmico, bem falante, convincente e que ficou sabendo da historia. Fez a eles um convite para uma reunião de reconciliação, no que foi atendido prontamente pelos dois. Após o abraço de fim da contenda, e terem recebido uma bênção especial do pastor, o irmão Tonho brada alto e em bom som:

---Agora tá tudo bem entre nós dois, irmão Vicente, mas que aquela cobra era jararacuçu, isso eu tenho certeza!...


Diante disso o irmão Vicente responde:


--Sabe de uma coisa, irmão Tonho, cê tem toda razão. Aquilo lá era jararacuçu, mesmo. Eu tive pensando... Acho que eu estava enganado...

---Não... Não... Irmão Vicente... Assim tamem não! Pode que seja, mesmo, uma cascavel...

Fanatismo religioso temperado com teimosia nem Jesus Cristo aguenta.

Candeias MG Casose Acasos
Armando Melo de Castro


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

TUTUCA, a minha cachorrinha.


Eu fico vendo como os cachorros são animais queridos. Como estão preferidos. Os pais já não se preocupam em comprar bonecos ou caminhõezinhos para dar de presente aos filhos. Preferem um cachorrinho que dorme no canto da cama e é chamado de filhinho, de netinho, de fofura e outros adjetivos mais.

O mercado de compra e venda desses animais se expandiu e as lojas de produtos e prestações de serviço estão em plena evolução.

Segundo dizem, o cachorro tem sido o grande amigo do homem há mais de 300 mil anos. O homem ia caçar e, como o cachorro não fazia parte do cardápio, acabou sendo domesticado e os dois passaram a viver juntos.
É, realmente, um companheiro muito fiel. O cão defende o seu dono como se esse fosse um filhote seu. E quando se ausentam, ambos são envolvidos com o sentimento da saudade.

Lembro-me de um caso singular sobre o relacionamento de um cão com os seus donos: Na Rua Coronel João Afonso, onde se encontra a atual loja do Paulinho Vilela, morava, em tempos idos, um casal sem filhos: Henrique Sotero e sua mulher Maria. Eles possuíam um cão da raça Fila Mestiço. Era um cão grande, de nome Lírio, dócil, castanho amarelado e que ficava o dia todo ao lado do seu dono sempre assentado num banquinho desses porta-de-rua.


Naquele tempo, o serviço de correio era moroso. As cartas eram transportadas em trens de ferro e demoravam dias para chegar ao seu destinatário. Em cidades como Oliveira, Cristais, Itapecerica, ou seja, cidades que não eram ligadas diretamente pela linha férrea, a correspondência, além de demorar mais, frequentemente era extraviada. Os moradores da zona rural eram bastante isolados e ficavam meses sem vir na cidade. Cartas ou recados, nesses pontos, quando com certa urgência, eram enviados por mãos próprias através dos chamados mandaletes.
Henrique era o mandalete mais procurado da cidade. Comumente, ia à cidade de Oliveira levar correspondência ou encomenda ao Bispo, por ordem do Monsenhor Joaquim de Castro quando, então, viajava à noite inteira de bicicleta ou a pé, empurrando um carrinho com a encomenda.
E, nessas viagens, Henrique Sotero se fazia acompanhado pelo seu fiel amigo Lírio.
Muitas vezes, eu pude ver a exigência da Maria do Henrique, quando no açougue do Antonio do Orcilino, encomendando uma fressura suculenta para fazer o sarapatel do Lírio. Quem via a Maria do Henrique falar do sarapatel do Lírio, ficava com a boca cheia de água e com vontade de almoçar com ele. Certa vez, eu a ouvi dizendo que o Lírio havia experimentado galinha cabidela e tinha adorado. Para quem não sabe, galinha cabidela é frango ao molho pardo. Outra coisa, também, que o Lírio saboreava, de vez em quando, era um “Montese”. Montese era um guaranazinho, tipo água de rapadura, antigo, fabricado em Campo Belo e muito popular entre a meninada candeense.

Um dia, o Lírio adoeceu. Foi um deus-nos-acuda. Procuraram o Dr. Renato Vieira. Mas, Dr. Renato se esquivou de receitar remédio para cachorro e indicou um veterinário sem diploma que havia na cidade, o Cazildo. Durante alguns dias Cazildo passou a ir ver o Lírio duas vezes ao dia a fim de tomar conta do seu estado de saúde.
O Lírio recebia visitas. E, como todo mundo tem uma inclinação em ser curador, essas visitas receitavam, mas o Lírio continuava a sua caminhada rumo à morte.
Maria chorava... Henrique chorava... Enfim, o Lírio morreu. E Maria quase morreu, também. Henrique foi providenciar o enterro. Naquele tempo, o Cemitério São Francisco era administrado pela Igreja. Henrique queria sepultá-lo no Cemitério de humanos e não ficou sem uma bronca do padre que o chamou de herege deixando-o sem saber o que era isso. ---- O padre me chamou de um nome que eu nunca escutei --- diria, mais tarde, revoltado, contra a igreja e desistente de ser católico.
Diante da negativa de enterrar o cão no Cemitério São Francisco, restou-lhes a alternativa de enterrá-lo nos fundos do quintal. Assim, foram tomadas as providências urgentes. Vicente Cornélio, o carpinteiro, foi procurado para fazer a urna funerária, inclusive, envolvida em pano roxo, segundo então, o preceito da igreja católica para os funerais humanos. Zé Pulga, o pedreiro, foi incumbido de fazer o túmulo recomendado, insistentemente, pela Maria, para colocar uma cruzinha sobre o mesmo. Portanto, não faltou, também, o símbolo maior da Cristandade. Joaquim Fortunato, acostumado com rezas bravas, foi o único benzedeiro que aceitou fazer a encomendação do corpo.
Velas, flores e visitas concluíram as pompas do velório do Lírio. Lembro-me que eu estive lá junto a outros meninos e fomos expulsos, em virtude do nosso riso, à vista daquela esdruxularia.

Como se vê, o cão é um animal distinto. Ocupa um grande espaço na literatura e tem sido grande inspiração para poetas devido a sua afinidade e fidelidade com o homem.

Eu também tive uma cadelinha. Uma pequena vira-lata que me valeu muitas alegrias e muitas lágrimas. Essa cachorrinha me foi dada de presente por uma senhora chamada Rola que residia numa velha casa existente onde hoje está localizada a loja “Mil Opções”.
Lembro-me, como se hoje fosse, o dia em que fui buscar a minha querida Tutuca, ainda filhotinha.

Vários foram os anos de convívio com a minha cachorrinha. Até hoje, eu a tenho bem guardada nas gavetas da minha memória.
Clovis Cambraia era fiscal da Prefeitura e, naquele tempo, os fiscais traziam consigo bolas de carne envenenadas para matar cachorros soltos pelas ruas. A minha cachorrinha nunca teria andado solta. Não saía de casa. Era graciosa e jamais teria aborrecido alguém. Vivia me fazendo festas, mantinha-se sempre deitadinha na porta de casa e não latia com ninguém. A noite, dormia aos pés da minha cama. Era dócil e educada. Clóvis, como não gostava de animais, talvez, envolvido por algum trauma trazido da guerra, matou a minha cachorrinha quieta, na porta de minha casa. Matou, por matar. Matou, por gostar de matar. Matou apenas para satisfazer o seu ódio inato contra os animais.

Esse é o pior dos guardados que tenho dentre as gavetas das minhas lembranças...

Armando Melo de Castro
candeiasmg.blogspot.com
Candeias – Minas Gerais

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

NICODEMOS SALVIANO


                                                 
Foto de Clara Borges.

Nas minhas caminhadas, pelos arredores da nossa cidade, fiz passagem por uma rua de poucas casas. Uma viela que toma todo o seu lado direito pelo Cemitério São Francisco a quem desce pelo seu lado esquerdo. Do outro lado, estão as poucas casas residenciais.Trata-se da Rua Nicodemos Salviano. 

Eu não conheço o critério usado pela Câmara de Vereadores de Candeias no momento de escolher uma rua a quem vai dar o nome de um cidadão merecedor desse ato de veneração e respeito. Mas, entendo tratar-se de um fato relevante, mesmo porque, isso envolve todo um processo de reconhecimento ao homenageado pelos serviços prestados a sociedade, sem esquecer o atributo de personalidade idônea.

O cidadão comum, na posteridade, esteja certo ou errado, queira ou não queira, verá na representatividade da rua a equivalência da homenagem.

Ainda que os políticos vivam considerando diferenças dentro das desigualdades, como também, das igualdades e buscando desculpas de que o conceito sobre a igualdade, de Rui Barbosa, é jurídico, não interessa. Sabemos que a desigualdade social é patente em todos os pontos e é inerente à vida. Portanto, seria de bom alvitre os senhores políticos atinarem pela lição de igualdade que Rui Barbosa deixou para os cidadãos brasileiros:

“A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais, com igualdade, seria desigualdade flagrante e não igualdade real.” (Rui Barbosa - Oração aos Moços).

Pelo que representa o nome do empresário, Nicodemos Salviano, para a história de Candeias, entendo que a lembrança de tomar o seu nome para colocá-lo numa rua, por parte dos representantes do povo candeense, na Câmara Municipal, foi justa, muito justa. Mas a escolha da rua não teve um critério judicioso. A Câmara não usou de equidade ao escolher a rua onde estaria cravado o nome de um cidadão como poucos na história de Candeias.
Esse ponto de vista não visa ferir a essencialidade da rua. Apenas busca elevar o merecimento do homenageado no sentido de fazê-lo mais evidente.
Portanto, peço desculpas aos senhores moradores da Rua Nicodemos Salviano.

Nicodemos Salviano, o popular candeense tratado pelos amigos de Nico Pacheco, nasceu no dia 04 de abril de 1895, em Candeias. Filho único de Antonio Rodrigues Salviano e Maria Eufrásia de Jesus.
No seu tempo, não havia em Candeias nenhuma escola regular. Portanto, foi educado pelo então pároco, Padre Américo Brasileiro, homem de profunda cultura com quem aprendeu a ler, escrever e adquiriu conhecimentos básicos, além de aprender línguas, entre elas, latim, espanhol e francês. Estudou, também, com o Padre Américo, a arte da música, o que lhe fez ser grande apreciador da música clássica e um louvável pistonista da Corporação Musical de Candeias, da sua época.

Em 1922, após acordo de seu pai com o Sr. Antonino Basílio de Azevedo, da cidade de Itapecerica-MG, casou-se com Zita Bemaventurada dos Santos que contava à época 16 anos, sendo ele onze anos mais velho que ela. Tiveram vários filhos, dos quais, onze sobreviveram. São eles:
Zizica – Aparecida – Terezinha - Antonio - Alba - Santa - Agda
Nicodemos - Zita - Raimundo e Rosália.

Começou a vida como carpinteiro, porém, no decorrer do tempo, realizou vários empreendimentos, muitos ao mesmo tempo. Destacam-se, entre eles:

Olaria, no lugar denominado Cachoeirinha;
Exploração de jazidas de calcário, nas comunidades de Trindades e Bugios;
Fabricação de farinha de mandioca;
Fabricação de farinha de milho;
Beneficiamento de arroz;
Moinho de Fubá;
Torrefação de café da marca “Café Ene Esse”; (NS)
Fabricação de ladrilhos hidráulicos;
Fabricação de móveis;
Fabricação de urnas funerárias;
Fabricação de bancos de cimento; --- existentes, ainda, nas Praças de Candeias ---.
Fabricação vigas e pré-moldados;
Revendedor de material para construção, inclusive cimento.
O Grupo Industrial do senhor Nicodemos Salviano, formado por diversas pequenas empresas, tinha como sede a Rua Salatiel de Carvalho, 84, e funcionava nos galpões, até hoje lá existentes, já em estado precário, numa área ligada com a sua residência.
Nicodemos foi também dedicado à política do Município, desde os tempos em que Candeias era distrito de Campo Belo.


Ocupou cargos públicos como juiz de paz e delegado de polícia. Membro de diretório e candidato à vice-prefeito, na década de 50, numa chapa organizada pelo Partido Social Democrático, PSD – cujo candidato a prefeito foi o Sr. José Alves Ferreira – (Zé Mizael.- Não eleito)

Autodidata que nunca parou de estudar. Gostava de inventar coisas e aprendeu a profissão de construtor tendo adquirido o registro no CREA sob nº. 138. Com essa especialidade, construiu inúmeras casas em Candeias muitas das quais ainda existem na sua forma original.

Foi um grande amigo e braço direito, para muitas obras, do Monsenhor Joaquim de Castro. Junto a ele, construiu o cinema de Candeias e, mais tarde, dirigiu a sua reforma transformando-o no prédio que ainda hoje existe, quase na sua forma original.
Sob orientação do Monsenhor Castro, reuniu um grupo de amigos, entre eles Sebastião Salviano e Antonio Freire, quando fundaram o Círculo Operário São José que tinha por objetivo unir e apoiar a classe operária, tendo sido o seu primeiro tesoureiro.
Foi o construtor das primeiras casas da Vila Vicentina. Foi também o responsável pela construção da Santa Casa de Candeias, instituição que não se concretizou, além de muitas outras construções, algumas já demolidas e outras ainda de pé, como o prédio do Bar Piloto.

Enfrentou o seu maior desafio ao dar início à reforma da antiga Matriz de Candeias. Dirigiu os primeiros trabalhos e ficou à frente da construção da nova Matriz até por volta de 1965. Desgostoso com o rumo que as obras tomavam, adoeceu e veio a falecer, em 19 de fevereiro de 1970, dois anos após a morte de seu grande amigo e confessor Monsenhor Castro.

Alguns casos pitorescos, lembrados por seus filhos e narrados por sua neta materna, Clara Salviano Borges:

Conta-se que ele estava trabalhando na casa de uns franceses que aqui residiam. A mulher, com medo de que ele fosse uma pessoa desonesta, guardou o relógio de ouro do marido. Esse, ao procurar pelo relógio, perguntou a ela, em francês, se ela tinha visto o objeto. Nicodemos respondeu, também em francês, que ela o havia guardado, deixando os dois sem graça.

Diz-se que o Monsenhor possuía uma mula que só deixava o dono montá-la. Aí, meu avô vestiu a batina do padre e montou, enganando o animal.

Uma tia contou que vovô inventou uma tinta para caneta (usava-se apenas canetas tinteiros na época), feita de amora. Ensinou o segredo apenas para o Sr. Cristóvam Alvarenga e não deixou registro da invenção que acabou se perdendo.

Outra tia contou dois casos: ele tinha um amigo que morava em uma rua, mais abaixo da sua casa, e, quando o amigo passava, os dois se comunicavam através de assobio, dizendo frases inteiras por esse meio, se entendendo perfeitamente. E com sua veia de inventor, comprou, certa vez, um automóvel velho da marca Ford que desmanchou para aproveitar peças e, com um pedaço, fez a porta do forno de fogão à lenha que ainda está inteira no mesmo local.

Nicodemos Salviano dedicou toda a sua vida à sua terra natal. Aqui nasceu, viveu e morreu. Nasceu, quando Candeias, estava longe de ser uma cidade. Era uma vila sem recursos e sem expectativas, pois, somente em 1938, aconteceu a emancipação do Município, contando, inclusive, com o seu esforço como um dos aliados do emancipador, Dr. Zoroastro Marques da Silva.

Constituiu a sua família com dignidade. Os percalços da vida sempre foram enfrentados quando amparado por uma religiosidade fiel. Sempre de mãos em punho para a luta e colocando sempre a sua inteligência à prova.

Dado à sua autoridade moral e ao seu comportamento lhano era também conselheiro. Muitos pediam o seu conselho, nos momentos de dúvida.

Infelizmente, as empresas do senhor Nicodemos Salviano não subsistiram após a sua morte depois de terem servido a nossa cidade, durante muitos anos.

Quem passar pela Rua Salatiel de Carvalho poderá ver o cenário do que restou, depois de uma longa história de muitos ideais. Trata-se da obra do tempo. O tempo, esse ácido que mata virtudes e ironiza destinos, que transforma a matéria, brinca com a imensidão e corrói a vida em troca da morte.

Os escombros do velho galpão onde funcionava a máquina de beneficiar arroz e a marcenaria. Ali se fabricava de tudo, inclusive urnas funerárias, aquelas de modelos antigos, envolvidas num tecido roxo. Antonio, o filho do Nicodemos, estava sempre ali produzindo aqueles caixões mortuários, quando falecia alguém.

Do lado de fora, está o engenho de serra carcomido pela ação do tempo, parado e ainda contendo a serra fita, como se estivesse esperando alguma tora para serrar.

Ao lado, está o barracão destinado à fábrica de bancos e ladrilhos dando frente para o pátio de secagem dos produtos e outras atividades.

Num canto contíguo, está o galpão da torrefação do Café Ene Esse. Uma das primeiras marcas de café torrado e empacotado da nossa região. Muitas pessoas viram, pela primeira vez, esse tipo de produto através do “Café Ene 
Esse”, popularmente, tratado de “Café do Sô Nico”.

Um cenário triste para quem se lembra da movimentação existente naquele local, hoje com o silêncio das máquinas e o cessar dos martelos.
Naquela área restrita, havia lugar para tudo e se não tivesse, ou se inventava ou se arranjava.

A família, como base fundamental da sociedade, faz nascer de si valores que dão guia à vida das pessoas. Portanto, é dela que nasce o líder que se coloca disposto, não só pela necessidade de pertencer a ela, mas para servi-la. E é assim que consigo ver você, Nicodemos Salviano. A singularidade do seu modo de vida e a contribuição que você deu à história de Candeias, o faz ilustre. Portanto, hoje, lembramos de você e escrevemos aqui para que as pessoas que não lhe conheceram possam saber que você existiu e escreveu um maravilhoso capítulo da história de Candeias.

Daqui, das linhas do nosso blog, eu quero lhe enviar um grande abraço e, com certeza, os seus amigos candeenses estão fazendo coro a mim.

Obrigado, Nicodemos Salviano! Muito Obrigado!

Armando Melo de Castro
Candeias – Minas Gerais